23 de agosto de 2016

#Top 5: Coraline


Coraline e o Mundo Secreto é aquele filme fofo que, do nada, se torna a diversão do capeta. Olhos de botões. Flores malucas. Gato falante. Mão assassina. O filme é uma adaptação da novela fantástica de terror de Neil Gaiman, que foi publicada pela primeira vez em 2002. Desde que li O Oceano no Fim do Caminho, tomei como meta literária ler mais obras do Gaiman e, com certeza, quero ler esta história original até o final do ano. Mas, se o filme não é tão bonitinho assim, por que vê-lo (mesmo que você não seja tão fã de terror como eu)? Aqui estão 5 lições que aprendemos com ele:

1. Cuidado com o que deseja
Pode ser que a infelicidade bata na porta da gente de vez em quando e, por causa disso, queiramos tudo diferente. Mas o que você faria se aquilo que você quer acontece, mas não exatamente como esperou? Pode ser bastante catastrófico. Não podemos ter tudo, então, melhor se contentar com aquilo que sabemos que temos e que, talvez, não damos tanto valor assim. 


2. Saber ouvir mais
Coraline diz que os pais dela não a escutam. E, no fim, ela estava certa. Pode ser devido à rotina, ou simplesmente pela falta de interesse, mas é comum que não escutemos verdadeiramente as pessoas. Às vezes, elas pedem socorro, mas achamos que não passa de exagero. Às vezes, ela nos alertam sobre nós mesmo, mas achamos que estamos fazendo o certo e que elas estão apenas se metendo na nossa vida. A socialização nos obriga a estar perto uns dos outros, que nos impele a manter algum grau de comunicação. E, claro, comunicação é saber falar, mas também saber ouvir. Quem não ouve, pode estar cometendo muito mais erros do que aqueles que falam sem parar (e que, muitas vezes, não dizem nada). 

3. Não acredite em tudo que vê ou que falam
Sentimo-nos ludibriados por muitas coisas. Uma vida profissional perfeita numa empresa perfeita com um salário perfeito - e, no fim, a empresa é falcatrua e o salário não é compatível com o tanto que trabalhamos. Um amor que  todo mundo diz  que é exatamente a sua cara - e, no fim, é só mais uma roubada sentimental. É bom saber cultivar intuição própria para nos alertar sobre prováveis erros que podemos cometer. E é essencial que descubramos as coisas por nós mesmos, sem deixar que os outros façam as nossas decisões e sem deixar de acreditar naquilo que verdadeiramente somos, não naquilo que achamos que estamos vendo. Afinal, olhos de botões enganam bastante.  


4. A realidade pode ser monótona, mas depende de nós para que a mudemos
Os sonhos podem nos cegar, de vez em quando. Podem prometer expectativas inúteis e inexistentes. Então, por mais difícil que seja nos contentar com o que de fato temos, pelo menos há alguma segurança. Nós sabemos que aquilo a nossa volta está ali e existe. E, se estamos descontentes com o que temos - o que é natural acontecer -, então, temos o total direito de mudar isso. Porque, às vezes, tudo o que precisamos é de uma mudança. 

5. Saber lidar com as diferenças
Os personagens da história são muito diversificados. Cada um tem uma "esquisitice" nata e isso, com certeza, deixa o enredo ainda mais inspirador e real. Temos de conviver com tantas pessoas diferentes em todas as áreas da nossa vida e o mais importante é que, com elas, podemos aprender muitas coisas. É a partir da diferença que sabemos que existe aquela real troca de experiências, de lições e de conhecimentos. Saber lidar com tantas diferenças é a chave, inclusive, para lidarmos com quem somos e com quem queremos ser. 


Love, Nina :)

14 de agosto de 2016

#Resenha de livro: Encrenca

Recebi um exemplar em parceria com a Verus Editora, mas demorei bastante como lê-lo, pois a minha lista de livros ainda-não-lidos é grande. Por ser YA, de cara, sabia que gostaria da narrativa e, realmente, não me arrependi :) 


Título original: Trouble
Autora: Non Pratt
Editora: Verus
Páginas: 307
Ano: 2016

Quando se trata de literatura YA, eu sempre fico animada. Aposto aos New Adults, os personagens dos Young Adults sempre me cativam, mesmo que alguns sejam estereotipados ou pouco desenvolvidos. Mas neste livro, apesar de haver algum grau de estereotipação, não se engane: os personagens vão, sim, te surpreender. 

Hannah tem 15 anos e sabe como seduzir os garotos e, especialmente, ceder a eles. A liberdade sexual dela é grande, assim como a do seu círculo social. Ela poderia ser a patricinha fatal, se não fosse elementos sutis na trama: seu interior ainda em desenvolvimento e sua relação com a avó materna. Em contrapartida, existe Aaron, o novato na escola, filho de um dos professores. Há fofoca sobre sua sexualidade e o porquê entrou no meio do ano letivo. Ele é um personagem absurdamente na dele e muito cativante. Aaron se compromete com os pais a sair mais e fazer amigos. Nós, leitores, não sabemos o motivo disso e, aos poucos, descobrimos que seu passado esconde segredos e que existem lembranças que ele gostaria muito de esquecer. Está percebendo o chiclezão, né? (Mas, como eu alertei: não se engane!). Hannah e Aaron poderiam ser opostos, mas um fato os une: a garota descobre que está grávida e ele se oferece para fingir que é o pai da criança (isso não é spoiler, porque está na quarta-capa do livro, juro!). 
“Viver é que me deixa exausto. Às vezes, preciso de todas as minhas forças para sobreviver a mais um dia”.
p. 91
A sensibilidade está presente em muitas passagens da trama, tanto expressadas em Hannah quanto em Aaron. Se tem algo que me agrada nesse tipo de narrativa é o desnude bem aos poucos das essências dos personagens. As essências deles, inclusive, são elementos por demais encantadores - mesmo em cenas não tão felizes. O desenvolvimento de Hannah é muito rico e é feito de forma gradual, para que possamos entender seu crescimento interior. Aaron é revelado mais vagarosamente, mas isso não é irritante, muito pelo contrário: é apaixonante. Notei que o desnude de cada personagem é feito em tempos diferentes, provavelmente para que entendamos que eles precisavam de tempos diferentes. Isso me fez pensar bastante sobre situações nas quais estamos e que achamos que precisamos revolvê-las rápido, sem nos ater ao fato de que temos um tempo só nosso, que é diferente dos outros. 
“É sufocante ser perdoado quando tudo o que você quer é levar a culpa”.
p. 113
Acredito que o ponto central de Encrenca é sobre confiança, bem mais do que sobre ajuda mútua. É sobre o poder de escolha, sobre consequências e sobre segurança. Não é sobre salvação, ou sobre a descoberta do amor romântico. Diferente da maioria dos YA's, aqui não existe o óbvio. Ambos os personagens são muito lúcidos - no sentido se serem muito seguros sobre o que estão fazendo -, maduros e, durante a leitura, aprendem a enfrentar seus medos. O crescimento e o desenvolvimento pessoal estão nas entrelinhas. Claramente, existem elementos que permeiam a história e que a fazem única e emocionante. Traz temas não somente como gravidez, mas como aborto, velhice, culpa, depressão e, sobretudo, amizade. Encrenca é, antes de tudo, sobre descobrir que não se está sozinha no mundo e que, de igual proporção, existem pessoas que também se sentem assim - mas que, se nos permitimos, podemos amenizar esse sentimento em nós e nos outros. 
“É preciso ter coragem para contar para uma pessoa algo que ela não quer ouvir”.
p. 138
A capa é simples, mas captura bastante a atmosfera do livro. A diagramação está muito boa e algo que gostei bastante é que, como a narração é intercalada entre Hannah e Aaron, cada "voz" tem a sua própria tipografia para demarcar. Não recomendo somente para àqueles que gostam de YA's, mas para todos que gostam de leituras profundas, humanas e surpreendentes. 
“Sou a favor do direito de escolha, mas o que acontece quando você não quer escolher?”
p. 68

Love, Nina :)

7 de agosto de 2016

Não podemos (nos) proteger para sempre

Não aconteceu de repente, foram meses até aquela luzinha piscar e eu me dar conta de uma parte da vida até então posta na escuridão. Lembrei do seu medo de pegar o carro e de deixar a luz apagada. É melhor assim, você não entenderia. Não entendia mesmo, porque tinha uma bicicleta e a luz pouco me incomodou na retina. Acho que não dá pra entender um medo se as nossas escolhas não são a resposta para ele. Sem carro, você aprendeu a pedalar. Fazia anos que não se reencontrava com esse guia e sorria pelas ruas. A fobia da luz você não conseguiu driblar. Mas acredito que vamos até onde dar pé, até onde quem somos lá dentro da gente berrar de dor. 

Suas dores e berros me fizeram perceber que a bicicleta estava errada e que você precisava ficar horas e horas exposta ao breu completo. Não dá pra curar alguma coisa fugindo disso, né? E, com o sorriso e a lâmpada sobre a cabeça, você fugia quase que furtivamente. Mas, então, isso aconteceu. Eu aconteci bem no meio do seu berro de dor. 

A gente não pode obrigar alguém a entrar num carro ou se trancafiar num calabouço, porque a minha escolha não é a mesma que a sua. Pessoas diferentes, escolhas diferentes, dores diferentes. É tudo diferente, mas uma coisa é igual pra todo mundo: a proteção. Quem pula de para-quedas, ou se declara no primeiro encontro, ou não tem medo da noite, apesar de coragem, tem algum senso de proteção. Quer estar protegido. Isso não diminui quem são, ou o que desejam. Quando você escolheu pela bicicleta e pelo quarto aceso, você quis proteção. E sei que não foi uma escolha sua, mas do seu berro de dor. Aquele último passo antes de reivindicarmos: não dá mais

Quando aceitei seu berro de dor, eu estava continuando a te proteger. Pensei comigo: vai ficar tudo bem, seria errado se eu dissesse não. Mas eu disse sim. E como voltar atrás? Aí aconteceu: é doloroso proteger alguém quando se sabe que, por trás daquilo, existe tamanha dor - algo que não entendi até hoje. O meu berro de dor é diferente do seu. 

Se a gente (se) protege finge que a dor não está ali. A gente não se nega a conviver com os carros na calçada e o apagão de energia após uma tempestade desde que não precisemos guiar nem um automóvel e que a luz apareça algumas horas depois. A proteção está lá, nos reflexos dos vidros e nas chamas das velas. A gente (se) protege com medo do amanhã, de um desculpa, acho que você entendeu errado e da roleta russa que o acaso propõe. A gente (se) protege porque tem medo de que o outro tenha medo. 

Mas a gente deveria mesmo é deixar de ser tão cuidadoso e deixar que o erro (não o berro da dor) (nos) ensine algo. Se não existem machucados, como as cicatrizes vão ficar na gente? A cicatriz é o seu joelho ralado quando fez a curva errada e a bicicleta derrapou. A cicatriz é o seu dedo queimado pelo fogo do fósforo. A gente tem que aprender a deixar as dores irem para que, de proteção, passem a serem memórias. 

E, se você  protege uma memória, do que vai lembrar que viveu?

 Fotografia: @herefallsthenight

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O tempo passa e a às vezes achamos que não vamos ter como recomeçar.
Eu achei isso por sete meses (o último texto que postei no blog foi em janeiro).
Felizmente, sempre existem pessoas e momentos que nos fazem relembrar da vida
e do quanto ainda somos e temos pela frente.

Um abraço quentinho pra Carol, a única pessoa que entende o que é ser um spark

Love, Nina :)

3 de agosto de 2016

#Primeiras impressões: Instituição para Jovens Prodígios #1


Lara é a irmã mais velha da família, a certinha e estudiosa. É uma personagem previsível em alguns aspectos (a inocência e a obediência), mas surpreendente em outros (a coragem e a determinação). Foi difícil para mim começar sequer a rascunhar essa resenha baseada em tão poucos capítulos, porque ainda é um desafio opinar sobre uma narrativa tão nacional, que cativa pelos elementos brasileiros, e que ainda tem muito mais a oferecer. 

Diferente das primeiras impressões de As GRANDES Aventuras de Daniella, eu não consegui elaborar meus pensamentos em tantos conjuntos sobre Instituição para Jovens Prodígios #1 - A Seleção, acho que porque, para mim, ainda falta muita coisa para ler. O que vemos neste primeiros capítulo é uma jovem protagonista que se equilibra entre seus pontos fracos e fortes, muito semelhante a quase todas as outras protagonistas do gênero de fantasia/ficção científica. Por ela ser adolescente, ainda há sub-tramas pessoais relacionadas ao amor. Essa parte, do amor, não me convenceu, porque em cinco capítulos, todas as cenas aconteceram muito rápidas, como uma ânsia de a personagem experimentar o sentimento, mas aí, ela o esquece, porque está envolvida com algo "maior". Este algo é uma bolsa de estudos para a Instituição para Jovens Prodígios. uma escola mundialmente importante e famosa, mas que, até então, só recebia alunos da França, Alemanha e Reino Unido. Lara se inscreve no processo seletivo, que reúne provas objetivas e práticas, mas crê que não tem uma real chance de vencer. 

flashbacks necessários sobre sua família, mas, às vezes, extensos demais e elementos ricos como a comicidade e a facilidade de se identificar com a história, por ser ambientada - neste início - no Brasil. A cadência é algo bastante presente na narrativa, o que faz com que a leitura seja ora rápida e ora mais lenta. Para o gênero, Instituição para jovens prodígios abarca alguns aspectos com os quais já estamos acostumados: ambientização, desenvolvimento gradual das personagens e aquela pitada de Fulaninha era alguém comum, até que... Coisas assim me cativaram durante a leitura e, claro, me fizeram lembrar de outros livros, como Harry Potter (que é uma referência esporádica na narrativa, inclusive). 

Em suma, é um livro válido se você gosta de YA's com aventura, romance e fantasia. Não fiquei louca para continuá-lo, mas ainda é um desejo finalizar essa história e conhecer mais sobre o mistério que a Instituição parece emanar. 

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I. A pré-venda do livro vai até 15/08 no SITE da Editora Essência Literária

II. Quer conferir mais sobre outras obras da autora L. L. Alves? Aqui:

30 de julho de 2016

#Twelve Letters Project: uma carta de revolução


Revolução são as minhas palavras. Cartas são palavras em prosa. Hoje, eu quero carta em versos. 

o tamanho de quem fui não cabe mais 
em quem ainda quero ser
quem desejei ser encontrou 
um novo jeito de florescer e renascer
se, hoje, sou
amanhã não mais serei
quem prometi sempre ser.

hoje, sou
amanhã, não sei.

Cartas são.
Eu sou.

Para você que precisa de um começo, ou um meio ou um final.
Estarei sempre aqui.
Nina
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Conheça o Twelve Letters Project e os próximos temas AQUI. 

27 de julho de 2016

#LeiaMulheres: A redoma de vidro

Este ano eu me desafiei a ler mais livros escritos por mulheres. Quem olha pra(s) minha(s) estante(s) vê claramente que 85% de tudo aquilo foi produzido por mulheres, então, não é como se eu estivesse me desafiado porque estão faltando textos femininos. O que me motivou a ter entrado para o Clube de leitores do #LeiaMulheres (Brasil) foi o meu desconhecimento literário das autoras que compõem a minha lista e a vontade de terminar ou reler obras de duas delas (Lygia Fagundes Telles e Marion Zimmer Bradley). 

A obra da Sylvia Plath, embora não tenha sido a primeira que comprei e tentei ler do desafio, é a primeira que venho resenhar. 


Título original: The bell jar
Autora: Sylvia Plath
Editora: Editora Globo
Páginas: 274
Ano: 1963 (original) | 2014 (tradução para o português)

Existem muitos artigos que falam sobre os problemas psicológicos de Sylvia Plath, muitos deles a apontando como alguém frágil. Na orelha dessa edição, está escrito que a obra "é mais do que um relato sobre o desequilíbrio emocional de uma grande personagem (...)" e, desde a primeira vez em que li isso, só consegui rolar os olhos e sentir desprezo pela pessoa que escreveu esse trecho. Não acho que palavras estereotipadas sejam saudáveis para descreverem doenças mentais, em especial porque muitas delas propagam a ideia errada da realidade psicológica da qual a pessoa vive/convive/está. 

A redoma de vidro faz muito mais do que falar sobre a depressão: desnuda diversas ideias pré-concebidas erroneamente sobre a doença. Esther é uma garota de sorte para alguém da classe social dela, pois recebeu uma grande chance de trabalhar durante o verão em uma prestigiada revista de moda e deveria estar cheia de energia e alegria. O início da narrativa mostra liberdade, indiferença à alegria das suas companheiras de estágio e ansiedade. Existe muito desejo por parte de Esther de conquistar a tudo e a todos. A única pessoa em que a personagem não pensa é nela mesma, porque coloca os outros em primeiro plano. Esther esconde a inquietação trabalhando, indo a festas, desfiles e rememorando pessoas de seu passado, à exemplo de Buddy, um garoto que conhece há muito tempo e por quem achou que era apaixonada. 

O estágio termina e Esther volta para casa, onde a onda de êxtase diminuiu e ela se envolve em períodos de grande melancolia e incapacidade. O sonho da personagem é escrever um livro, mas nem isso consegue, porque não consegue mais encontrar motivação naquilo que gostava. Reconheci diversos momentos desses períodos de Esther imersa em si mesma e, por mais que a personagem seja muito diferente de mim, senti muita empatia por ela. 
"Para uma pessoa dentro da redoma de vidro, vazia e imóvel como um bebê morto, o mundo inteiro é um sonho ruim. 
Um sonho ruim. 
Eu lembrava de tudo. 
(...)
Talvez o esquecimento, como uma nevasca suave, pudesse entorpecer e esconder aquilo tudo. 
Mas aquilo tudo era uma parte de mim. Era a minha paisagem".
p. 266
Foi impressionante constatar que a linguagem e a personagem são muito atuais, apesar de mais de 60 anos da publicação. A liberdade sexual está muito presente em diversos trechos e grande parte das convicções de Esther posso dizer que compartilho, o que somente me fez entender a personagem cada vez mais. Não espere ler sobre a depressão a partir de um olhar imediatista, porque a intenção do livro não é amenizar ou colocar um ponto final na doença, pelo contrário: tenta, a cada capítulo, fazer com que o leitor entenda que a depressão não existe a partir de um único sintoma e de um único tratamento (embora, na época em que o livro tenha sido escrito, os métodos fossem precários e praticamente medievais - à exemplo da eletroterapia). 

Os relatos da doença são muito reais, uma vez que a autora conviveu com a depressão e fez tentativas de suicídio muitas vezes ao longo da vida, antes da definitiva, aos 30 anos. Houve uma mudança drástica na minha percepção em relação à personagem depois que ela tenta seu primeiro suicídio, pois a partir daí, não consegui mais visualizar a Esther - quem eu via era a própria Sylvia Plath. O desfecho aconteceu de forma inesperada para mim e, por isso, acredito que tenha ficado em aberto (e quem o continua é o próprio leitor). Isso me cativou ainda mais na narrativa, porque me fez aproximar mais ainda de toda a situação-chave do livro. 
“Aproximei minha imagem da foto da garota morta. Eram idênticas: mesma boca, mesmo nariz. A única diferença estava nos olhos. Na foto instantânea eles estavam abertos, no jornal estavam fechados. Mas eu sabia que, se os olhos da garota morta estivessem abertos, eles me encarariam com a mesma expressão vazia, morta e soturna da foto instantânea”.
p. 164
A proposta do livro permanece dentro da gente mesmo após a leitura e nos faz repensar não somente na depressão, mas em nossos ambientes de socialização, em nossas obrigações sociais e naquilo tudo que achamos que precisamos fazer, mas que acaba nos fazendo muito mal. Repensar sobre nossa saúde mental e nossos limites psicológicos deveria ser uma ação diária, mas acabamos nos sufocando com tantos compromissos (escola/faculdade/estágio/academia/festas/cotidiano) e A redoma de vidro nos proporciona esse período de reflexão. 
“Quanto pior você ficava, mais longe eles te escondiam” - p. 179
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I. Confira a minha lista de autoras para o desafio #LeiaMulheres de 2016 AQUI.

Love, Nina :)

22 de julho de 2016

#Resenha de livro: O oceano no fim do caminho

Sim, estou com m-u-i-t-a-s resenhas atrasadas. Um indício disso é que O oceano no fim do caminho, do Neil Gaiman, foi a primeira leitura de 2016 e só agora a resenha está saindo. Muito se deve por duas coisas: 1. o livro é tão maravilhoso, que eu não consegui sentar e escrever e 2. emendei tantas leituras umas nas outras nesse ano que não tive tempo de escrever todas as resenhas.


Título original: The Ocean at the End of the Lane
Autor: Neil Gaiman
Editora: Intrínseca
Páginas: 205
Ano: 2013
 + 

O oceano no fim do caminho é o primeiro livro que leio do Neil Gaiman e fico muito contente por ter conhecido sua escrita e sua mente genial a partir dele. Isso porque, realmente, a trama é in-crí-vel, me fez pensar durante dias em muitas questões e quase agoniar entre sonho e razão. O mundo do autor é mergulhado, literalmente, em uma espécie de subconsciente alerta que, por muitas vezes, sabe enganar o leitor de forma deleitosa e encantadora. 

Tudo começa quando um homem re-visita sua região de infância à procura de uma antiga vizinha. Com isso, ele começa a ter regressos de memória, narrando seus tempos de criança na fazenda onde morava, a relação com a imaginação e com Lettie Hempstock, uma garotinha que o embarcou em várias aventuras e o apresentou ao oceano. Embora o leitor saiba que as memórias do protagonista podem muito bem estar equivocadas, é inevitável que sejam muito convincentes.
"E não era mar. Era oceano.
O oceano de Lettie Hempstock.
Lembrei-me disso e, ao lembrar, lembrei-me de tudo".
p. 16
O grande valor do livro é, realmente, o poder que as lembranças têm. A trama envolve o leitor de tal forma que, ainda que saibamos que existe muita fantasia nas situações, nos deixamos levar por tudo aquilo. Lettie e o protagonista, quando crianças, têm idades diferentes e, ainda assim, formam uma dupla ótima. A garota é articulada, ardilosa e muito inteligente, portanto, contrasta levemente com o tipo que o garoto era. O protagonista vivia na imaginação, por isso, talvez, tenha sido fácil que ele entrasse nas "brincadeiras" da menina. Lettie parece ter respostas para as perguntas dele, em especial sobre a morte de um hóspede de sua casa. É a partir dessa morte que o mundo da fantasia começa a despertar de forma descontrolada. 

Algo que me chamou atenção é a força que Neil dá à família de Lettie, composta somente por mulheres. Lembro vagamente, inclusive, de um trecho que uma delas (acho que a avó de Lettie) diz que elas não precisavam de um homem por perto, porque ele não ajudaria em nada. Alusivamente, fiz uma co-relação com o fato de as mulheres serem associadas à bruxaria - pois toda a fantasia da trama é justamente calcada em certa magia, algo que vai além da compreensão racional. E é justamente a partir da falta total ou parcial de razão que a história mexeu tanto comigo. Neil se provou um autor maravilhoso, fantástico - e, ainda assim, não deixa de promover uma linha real. Ele brinca com o subconsciente de forma tão livre e cativante que este estado conversa com o leitor de forma muito lúcida. Esse jogo de realidade versus imaginação é quase como que uma balança o tempo inteiro permeando a leitura. 
“Existem monstros de todos os formatos e tamanhos. Alguns deles são coisas de que as pessoas têm medo. Alguns são coisas que se parecem com outras das quais as pessoas costumavam ter medo muito tempo atrás. Algumas vezes os monstros são coisas das quais as pessoas deveriam ter medo, mas não têm”.
p. 129
Algo muito perceptível é o fato de Neil deixar exposto o quanto o ser humano se deixa enganar em razão da verdade e da mentira. O protagonista, mesmo sabendo que o entranhado de rememorações pode enganá-lo (pois, diversas vezes, ele se vê em dúvida quanto a certas informações), vai até o fim em valor da sua verdade, ou seja, em valor de sua mente. O final deste livro é algo tão bem elaborado que o leitor se vê igualmente perdido, enganado e confuso. Porque a valoração da verdade versus a mentira, finalmente, é colocada à prova e o mais incrível de tudo é que o autor não apresenta essas questões de forma objetiva - o que faz é deixar que o leitor continue seu próprio caminho a favor da mentira ou da verdade. Ou seja, o livro termina nas páginas de papel, mas continua na mente daquele que o leu. Eu achei isso absurdamente fantástico, pois a questão não é que Neil tenha deixado um final em aberto, é muito mais do que isso. É um final tão certeiro, que as dúvidas ainda estão ali, à espreita do leitor. O sentimento de trapaça e de enganação explode de forma epifânica no desfecho, devo dizer - e é isso que, justamente, faz o livro e o autor serem maravilhosos
“Nada nunca é igual. Seja um segundo mais tarde ou cem anos depois. Tudo está se agitando e se revolvendo. E as pessoas mudam tanto quanto oceanos”.
p. 185
Eu comecei a ter notícias sobre a existência literária do autor justamente com o lançamento de O oceano no fim do caminho, entretanto, dá pra perceber que levei algum tempo para realmente ler esta obra dele. O que mais me motivou foi todo o ambiente e a proposta - já inerente - do Neil. Me afastei um bocado de fantasia, e com alguns empurrõezinhos de ótimas amigas (Ruh e Karla), escolhi o Neil para me guiar, novamente, rumo a este gênero - que foi a razão de eu embarcar no mundo dos livros aos 11 anos, aliás. 

A capa foi uma das grandes chaves para eu querer ler o livro, pois ela é tão objetiva e implícita (em igual simetria com a proposta da obra), que foi impossível não amá-la de prontidão. A contracapa é ainda mais marcante (que é uma cortesia do autor, aliás, e você pode conferi-la aqui). Então, esse conjunto muito bem pensado e elaborado de fotografias conseguiu exprimir de forma agoniante, estranha e encantadora o que é o livro. A escrita do autor é outra coisa que se casa perfeitamente com a atmosfera da trama - não é exacerbada, nem pobre. Tem ritmo e é muito cativante. Gostei muito do fato de Neil conseguir equilibrar diálogos e muitas memórias no decorrer do livro, pois não ficou nada maçante, ou corrido. Tudo tem o seu tempo na escrita dele e é algo que vai desabrochando aos poucos, como que numa forma de mostrar ao leitor que seu livro não é apenas uma coisa hermética e desconexa. A conexão e a costura - de forma a desencadear viagens temporais e de lucidez - que o autor conseguiu fazer e transmitir em sua obra, creio que poucos escritores já conseguiram.

E uma resenha que, imaginei, ficaria bastante curta... está desse tamanho. Prova de que não podemos mesmo confiar na nossa mente - lição número um de O oceano no fim do caminho ;) 
“Pessoas diferentes se lembram das coisas de jeitos diferentes e você nunca vai ver duas pessoas se lembrando de uma coisa da mesma forma, estivesse elas juntas ou não. Se elas estiverem uma ao lado da outra ou do outro lado do mundo, isso não faz a menor diferença” - p.196
Love, Nina :)