Editado por Alice Gonçalves . Tecnologia do Blogger.

{Trecho de Livro}

by - dezembro 29, 2011

*Os trechos a seguir foram extraídos do livro Cor de Violeta, de minha autoria

- Narrado por Adam - 


(...)

A maioria não estava se importando com as famílias que por ali zanzavam e que tentavam conversar rapidamente com alguns, mas não podia afirmar que todas aquelas crianças eram infelizes. Não aparentavam desistência ou desanimosidade; muito pelo contrário. A Terra dos Felizes abrigava risos e amor. Era um lar quase perfeito. Com certeza o buraco de uma família completa não os impedia de seguirem em frente.
Meu pai deveria ter tentado a mesma coisa naquele dia. Ou melhor, ao longo dos anos.
Nisto – ao tentar analisar o restante -, encontrei-a. Não a interpretei logo de cara. Não sabia se era necessário. Aliás, como julgar alguém a metros de distância?
Ela não era criança; não parecia ter a idade daqueles pirralhos. Não tinha traços de seis ou oito anos. Talvez doze, talvez treze. Não sabia ao certo. O que tinha certeza era que ela não deveria estar ali. Na Grande Sala, nenhum dos órfãos lia; o silêncio não era possível ali. A menina lia e parecia não se importar com o que acontecia à sua volta. Parecia extremamente alheia à circunstância que a cercava.
Seus cabelos não estavam penteados em tranças ou rabo-de-cavalo. Seus cachos fervorosos e avermelhados estavam soltos e algumas mechas tendiam a cair em seus olhos verdes-vivo, quando ela parava de segurá-las. Suas roupas pareciam ser novas e limpas, muito diferentes das outras crianças. Seu vestido cor de berinjela com mangas destacava sua palidez anormal e, apesar do calor do dia, estava claro o quanto ela não se incomodava com aquilo. Suas sardas pareciam querer pular de suas bochechas sem vida e quando levantou os olhos do livro para uma das assistentes do local, sem querer, notou que eu a observava.
Fingiu não me ver e voltou a se focar na família que passava perto dela cujos interesses não estavam nela.
“Mãe?”, perguntei vagamente e para o nada. A barulheira impossibilitava qualquer conversa calma, no entanto, sentindo-me desorientado por alguns instantes, saí à sua procura. A princípio só visualizei papai ainda brincando com o garoto do avião e Nick sentado no chão olhando avidamente para a janela, possivelmente desejando estar aproveitando a manhã andando de skate. “Mãe?”, chamei outra vez. “O que você quer? Também não agüenta mais ficar aqui?”, Nicholas me perguntou com voz e cara de tédio. Pisquei. “Não, não é isso”, assegurei, tentando saber onde mamãe estava, “Cadê ela?”, quis saber. Nicholas olhou ao redor e deu de ombros: “Como vou saber?”.
“Cadê a mamãe?”, tive de indagar para papai. Dava para ver que ele pouco ligava para a situação; para ele, tudo estava certo, tudo estava bem, desde que ele não estivesse envolvido em nada. Cansativo. Papai riu e disse: “Foi para a cantina com a garotinha e com a madre”, ele balançou a cabeça, como se estivesse frustrado, “Dá para acreditar?”.
Permaneci parado, como se ele não tivesse dito nada. “Qual é o problema?”, questionei. “Não quero meninas”, ele argumentou tolamente. Olhei para a ruiva de canto de olho. “Mas e se...”
“Não, Adam. Eu disse não”, ele agora pareceu muito irritado, como se eu o tivesse perturbado no meio de seu programa favorito. Não insisti. Eu não era esse tipo de pessoa. Mas também isso não significava que eu estava conformado, porque normalmente nunca aceitava as palavras de meu pai. Preocupado, saí da Grande Sala e percorri mais corredores Sem Fim. Quando escutei a voz da minha mãe, parei. O refeitório estava vazio, à exceção da madre, de Isabelle e de mamãe. 

____

- Narrado por Violet - 

(...)

Uma coisa era certa: tudo estava errado.
Todo mundo queria sair de lá. Todo mundo tinha certeza de que sairia de lá. Todo mundo só ficava pensando em coisas do tipo: “Quando eu sair daqui vou poder tomar sorvete junto com a minha nova família”. No entanto, eu era a única que achava que talvez, só talvez, as coisas não se apresentariam desta forma.
Eu já tinha visto dezenas de famílias passarem por ali, por aquela sala ora tão cálida ora tão festiva, conversarem com mais de cinco crianças e nunca mais recorrerem àquele lugar. As famílias nem mesmo davam outro telefonema. Elas apenas seguiam em frente, deixando mais de trinta cabecinhas apavoradas, ou então desajeitadas. Muitas daquelas crianças tinham sido rejeitadas mais de uma vez, mas sempre havia uma nova esperança em seus corações machucados.
Já eu, a menina Violet que detestava aquelas manhãs de visitas, não me importava com esperanças. As minhas concretas, que um dia em mim estiveram vivas, estavam despedaças ali. Eu não enxergava motivos para sequer sair do quarto. Eu achava que nada mudaria, que nada seria bom, que de nada valeria a pena. Sabe? Talvez eu fosse somente muito pessimista, claro. Minha mente sempre fora muito fatigada, muito insatisfeita.
Eu sempre mastigava os sentimentos errados. Tristeza, amargura, desinteresse. E por fim: inveja. Eu tinha inveja daquelas crianças tão altruístas e desapegadas às suas marcas, que apenas vivam todos os dias como se fosse o último. Sempre com sorrisos e gargalhadas.
A menina Violet era a única que desaprendera a rir, e até mesmo a sorrir; eu detestava sorrir. Era como se tivesse de fazer um enorme sacrifício. E eu já tinha feito muitos sacrifícios e apanhava constantemente da vida. Então, por que deveria sorrir se era apenas mais uma? A menina que ninguém via, a menina que ninguém se importava. Era fácil ser a Violet daquele jeito.
Consequentemente, aquele dia era apenas mais um. Eu sabia que ele passaria exatamente como os anteriores, sem maiores diferenças. Eu sendo ignorada e todos os outros alegres, o que era, no mínimo, bizarro, pois eu ainda não tinha descoberto como todas aquelas crianças – inclusive Gigi, a menina de treze anos que só se vestia de preto – tinham tanto ânimo para sorrir e permanecer esperançosos.
Muitas vezes acordar e se lembrar que você estava em uma casa que não era sua era estressante e desanimador, mas eu tentava passar a imagem de que tudo estava bem, apenas para poder chorar no quarto vazio entre as aulas ocupacionais, sempre que podia. Eu nem podia dizer que era uma das meninas mais fortes dali; talvez fosse a mais covarde, sempre tentando encontrar caminhos alternativos para continuar a fingir estar feliz.
Juntar-se no Grande Salão era fácil, era o que muitos amavam fazer. Aquela hora era a que tínhamos para nós e podíamos fazer qualquer coisa que não significasse machucar o próximo ou dizer palavrões – coisas que os menores praticavam com uma freqüência absurda e eram sempre repreendidos. Enquanto a maioria se divertia desenhando e puxando caminhõezinhos velhos doados pela comunidade, eu escolhia um canto relativamente isolado do salão e me dedicava a ler. Naquela manhã eu tinha escolhido ler Beowulf, um livro que marcara a literatura medieval, porque sempre gostara dessas histórias de heróis.
Claro que a princípio, não imaginara que alguém pudesse fazer o favor de arrasar minha manhã.

n/n (Nota da Nina): Cor de Violeta é sobre uma menina de 15 anos, Violet, que é adotada e que tem que se adaptar à nova vida. Adam, seu irmão-postiço mais velho, meio que acaba se apaixonando por ela. Embora ela receba muito amor dos irmãos (o mais novo chama-se Nicholas e tem 12 anos) e da mãe, seu pai, John, a detesta. Desde o início foi contra a adoção de Violet e age como se ela não existisse dentro de casa. 
Tenho que dizer que esse é meu livro-bebê. É o meu xodó. A história, embora seja simples, é meio que uma lição de vida. Eu adoro a Violet, ela é muito fofa. Espero que todo mundo se apaixone por ela, assim como eu. Tomara que eu consiga escrever esse livro até ano que vem *-* já tenho quase metade dele pronto - ainda que eu precise terminar uns capítulos. Cor de Violeta é ora narrado por Adam, ora narrado por Violet. Gostei desse tipo de narração; inspirei-me no livro Pequena Abelha.

Bem, pessoal, se gostou do começo de Cor de Violeta, comente! Juro que vou tentar postar mais trechos de livros meus, se vocês se interessarem! Já postei um dia, há muito tempo atrás, o começo do livro As Leis de Ramona Demônia, que se vocês quiserem, posso repostar qualquer dia desses! 

xoxo

Nina

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