23 de outubro de 2013

#Camaleoando na vida

Você não precisa mentir. Não gosta dele, ou dela. 
Sim, afirmo. Porque eu sei que o fato é verídico. Não sei como você conheceu a pessoa cuja sua simpatia não simpatizou com a dela. E nem quero saber. Você não gosta dessa pessoa, ponto final. Você disse. Um dia. Há algum tempo. Ou, talvez, tenha sido na semana passada. Disse para alguém: para sua mãe, para sua amiga, para seu cachorro.
Disse, também, que nunca viria a desgostar da figura. Figura metida, intolerante, severa. Não gostou dela desde o primeiro contato, fosse visual ou verbal. Ou espiritual.
Essas coisas acontecem assim: seu espírito não se afeiçoou de imediato. Repeliu quaisquer tentativas de reconsideração. Ué, quem disse que você tinha que gostar de todo mundo? 
A verdade é que você ainda vai bater de frente com muita gente. Gente que, a princípio, parecia uma coisa: tão amorosa, não era? Sim, era. Agora, você não consegue nem mais olhar! Repulsa, decepção, desgosto. 
Você deve desgostar das pessoas.
Você está, assim, fazendo a sua seleção. 
Ame, ame muito.
Mas odeie também.
Ninguém disse que era errado. E se ouviu isso algum dia, desdigo isso agora mesmo! 
Odeie muito, também.

Você dizia que não suportava a figurinha, lembra? A mesma figura metida, intolerante e severa. Quem quer alguém assim por perto? Ninguém.
Mas, aos poucos, você percebeu algo de cativante. Cativante no próprio modo metido, intolerante e severo dessa exata criatura. As mesmas características que outrora a intrigavam - e por que não dizer que a enojavam? É, forte demais para alguns. Não para você, talvez. E como isso é justamente para você, por que não utilizar as palavras certas? -, agora... Ah, você suporta!
Suporta não porque gosta, entenda bem. Suporta porque você é um camaleão. Ele e você se adaptaram ao ambiente - e àquela peste que jurou nunca compreender. 
"As pessoas se acostumam até mesmo à vômito de porco quando se acostumam a ele", já ouvi essa frase. Um filme.
Você entenderia.
Entenderia, porque entende agora.

Você ainda não gosta da pessoa. Mas você, agora, é um camaleão. Você foi do verde, passou para o vermelho, depois amarelo, rosa, laranja, azul... E estacionou nisso aí. Você se camuflou. Misturou-se bravamente. Dignamente. Sensatamente. 
De que adiantaria o ódio, se você nunca se habituasse à situação? 

Estacionado, seus olhos enxergam muito mais do que antes. Sua mente se transmutou. Você se transfigurou. Não para o camaleão, meu amigo! Você se transformou nisso aí, nisso que o mundo chama de humano. 

Agora, você está sendo humano. 
Ninguém é ser humano. Ou você é humano, ou é ser.
E humano, meu caro, é muito mais a sua cara.
A nossa cara.
A humanidade precisa de você. De mais cem de você
Transmute-se mais, cada vez mais. Enlouquecidamente. 
Quem disse que você não pode mudar de opinião, ou trocar de cor?
E se alguém lhe disse isso, desdigo agora mesmo!

Seja um camaleão iridescente. Não tenha medo. Seja humano, antes de tudo. 

~*~

Camaleone-se, Nina.

[Baseado em fato real]

20 de outubro de 2013

#Tarde cultural

Ok.
É vergonhoso dizer que moro em Porto Alegre há mais de dez anos e nunca tinha visitado a Casa de Cultura Mário Quintana, nem o Museu da Comunicação. Mas ontem, por conta de um trabalho para a faculdade, eu e uma amiga, finalmente, percorremos o centro da cidade. E ainda quase fomos raptadas convidadas para irmos à Colômbia, por um dos artistas de rua, rs!

#1) Os artistas de rua.

Eu me apaixonei por esse cavalo 

Lindo, ou não? Achei geniaaal! *-*

Ok, devo dizer que tudo o que via queria levar pra casa? Perfeição demais!

Trabalho realizado pelo colombiano citado acima. Ele utiliza aqueles arames flexíveis e fez tudo na nossa frente. Na direita, vocês podem ver uma flor (o da minha amiga), e na esquerda uma estrela (o meu). E ele também nos fez anéis com uma nota musical. Apesar das cantadas e da insinuação de drogas, foi muito divertido. #partiu Colômbia.

#2) Na Casa de Cultura Mário Quintana. Pra quem não mora aqui (e claro que praticamente ninguém mora, rs), a Casa de Cultura era um hotel chamado Majestic no qual o Mário Quintana morava e, após sua morte, tornou-se o museu oficial dele. Porém, a casa não abriga apenas obras de arte: lá há cinema, teatro, livraria, além de incentivar projetos culturais para crianças e jovens.

Achei uma gracinha essa miniatura do escritor!

Essa obra parece totalmente nonsense, mas é uma das que achei mais geniais, 
pois além de ela ser visual é, também, auditiva. Essas caixinhas de sons pregadas nas 
paredes emitem a estática do ambiente e, ao fundo, uma trilha sonora de chuva 
complementa o objetivo dessa "coisa esquisita", rs.

Essa pintura me recordou aquelas fotos que revelávamos há muuuito tempo (na época das máquinas analógicas) as quais ficavam com esse aspecto.
Título da obra: Da série objetos mediados - Melancolia III

Achei muito interessante essa por conta do colorido. Além do mais, ali no meio há pequenos objetos de brinquedo que se misturam com o quadro. 
Título da obra: Destroyer Blade.

Lembra um pouco uma fotocolagem. Mas adorei, justamente por ser tão desconexa. 
Título da Obra: Metarmofose.

Tornou-se a capa do meu Facebook de tão amorzinha que essa foto ficou! *-*

Minha preferida da ala. Adorei o objetivo de pegar um pedacinho 
de cada lugar e construir uma só foto. 

Foto tirada do jardim, acho que terceiro andar. Fiquei encantada com essa igreja. 

#3) No Museu da Comunicação. 

Telefones antigos, os quais apenas vemos em filmes ou séries. 
Minha mãe disse que minha bisa já teve todos esses.

Mesa telefônica manual, datada de 1890, fabricada nos EUA. 
Descrição: esta mesa possuiu cem linhas telefônicas e era monitorada por uma telefonista, responsável por completar as chamadas. 

Câmaras filmadoras antigas.

Terminal computador, acho que da década de 80 (não dá pra ler muito bem ali na descrição).

Vídeo cassete da década de 80. Meu pai tinha um desses, me lembro muito bem. 

Uma graça de tevê, awn. Muito fofa. Muito engraçada atrás.

Toca discos com amplificador. Muito lindo, omg. 

Máquina que realizava a impressão dos jornais (não havia data). 
Vocês podem ver os tipos móveis. 

De acordo com uma aula de Introdução ao Jornalismo, essa máquina prensava as folhas dos jornais e era mais rápida que a anterior. Choquem: ela tem o tamanho de um carro. 
Não estou brincando.

~*~

Muitas tardes culturais pra vocês também, Nina. 

14 de outubro de 2013

#Sem ponto no contraponto

Amélia era três. 
Uma dicotomia entre tudo que era negro e tudo que era colorido. 
Era profunda, também. Mas tão superficial quanto uma crônica mal feita. Amélia tinha uma alma cinza, manchada, porém inescrutável. Ninguém a enxergava - nem sua alma nem sua própria pessoa. Sempre quieta e irrequieta. Não acompanhava a maior parte dos assuntos na escola, porque nenhum deles era simbiótico o suficiente para estarem de acordo com seus amores já falecidos. Todos eles passaram, e Amélia, coitadinha, tão presa no presente, sempre querendo retornar ao ontem. 

Ela era trancada no céu nebuloso e sombrio por seus pais. Eles lhe diziam que era um bom castigo. 
"Você vai aprender dessa vez", eles lhe asseguravam. 
Mas Amélia, sempre tão avoada e tão desprovida desse tipo de curiosidade, nunca aprendia. Ninguém aprende nada com as asas cortadas, a criança pensava. Sempre no alto, tão alto que tinha medo de olhar para a infinitude que se estendia abaixo dela, tudo lhe era arrancado. Estrangulavam seus sonhos, mandavam-na descer. O céu nunca mudava de cor para ela - ao olhar do alto, odiava o cobalto que se confundia com o petróleo e com as construções inacabadas e indistintas. 
Amélia chorava, chorava, chorava. Queria ir mais longe, queria que parassem de sussurrar a Canção dos Mortos - o que mais uma criança pode querer senão a liberdade? Ela queria estar viva, ultrapassar o negrume impalatável de seu cotidiano. Nada tinha gosto para ela, nada estava nos conformes. 
Seu mundo era o lado errado, um código perdido, um amontoado de coisas incolores. Tudo se desvanecia com tamanha facilidade diante de seus olhos pequenos, por trás daquelas lentes de tartaruga - era difícil enxergar. Lavava os olhos constantemente. Queria poder atirar a poeira, o desgosto e a impaciência para aquém de seu mundinho apertado. 

Amélia era três. 
Procurava nas palavras um propósito de vida. Era difícil de se agarrar à realidade, necessitava daquela dimensão que os adultos não viam e pouco entendiam. 
"Isso não existe. Por que não vai brincar na rua?", sua mãe, sempre tão intolerante, respondeu.
Mas a rua não existia. O que existia era o submundo - a idealização do surreal, daquilo tudo que Amélia queria provar e comprovar. Ela acredita nos mais diversos jeitos de sobrevivência. Estar camuflada nos sonhos era um deles. Sua característica sonhadora, entretanto, intrigava os pais. Era tão pequena para desejar coisas que nem mesmo seria capaz de alcançar com muita ajuda! Por que não cessava com as birras desmedidas e com os afrontamentos? Era um horror conviver com a menina Amélia. Nada prático. 

Amélia era três.
Sua insistência irritava quem por ela passasse. Um pouquinho de princesa nela havia. Mas uma pitada tão ínfima que as mulheres que a viam, aquela miudeza de gente, dizia para se arrumar. 
"Cadê seu vestido, criança?".
Mas quem disse que Amélia tinha vestidos? Não tinha nem um trapo, que diria vestidos. 
"Tenho não, sinhora. E não quero coisa feita pra brilhar. Não gosto desses brilhoseiras de vocês". 
Amélia não era uma princesa. E dificilmente seria algum dia. Não nascera para reinar feito gente grande, não. Queria ser dona da própria terra, sim, mas uma terra na qual todo mundo poderia pisar, fosse judeu, branco ou manhoso. As estradas de seu reino seriam decoradas com suas palavras. 
"Pode passar, moço, aqui eu gosto de você também". 
Amélia gostava de quase todo mundo. 

Amélia era três.
Acreditava que gostava de gente como ela. Boazinha, mas não tão boazinha assim. Menininha, mas não tão menininha assim. Capitã, mas não tão capitã assim. Desgostava daquela gente gorda por dentro, do tipo que carregava uma alma tão monocromática quanto a própria. Sua alma nascera assim e a mudaria, se fosse preciso. Mas as almas de toda aquela gente gorda crescera cada vez mais mundana, mais cinza. Tão gordas que pareciam querer se romper. Almas frescas, severas, intolerantes, pés no chão. 

Amélia era muitas, bastantes, infinitas. 
Colorida, negra, incolor. 
Vertentes de um só nome, sem muito rosto. 


~*~

Muitas Amélias pra vocês, Nina. 

12 de outubro de 2013

#Turn up the music!

Estava conversando com um colega esses dias e passamos pelo menos três horas falando sobre música. Foi surreal. Foi ótimo, aliás. Lindo. E, por isso, quero dividir com vocês as canções que têm me acompanhado nos últimos dias.


#1) Desde a primeira vez que a ouvi foi amor à primeira nota. Como não amar a Birdy?, eu me pergunto. 


#2) Escutei-a num episódio de Grey's Anatomy numa noite e ela me relembrou alguns sentimentos. Como não amar o Ed?, também me pergunto.

#3) Acompanho a banda desde 2008, desde Check Yes Juliet, e esse clipe animado, juntamente com a letra, me deixou apaixonada pela canção. 

#4) Tenho vontade de aprender piano somente para tocar as canções do Yann, sério. Sou apaixonada pela trilha sonora de Amélie Poulain. E essa é uma das minhas preferidas. 

#5) Ok. Minha preferida ever

#6) Adoro a parte do piano, acho tão relaxante. Sempre que a ouço fico bem mais calma. 

#7) Neste post eu apresentei a vocês o filme Le Skylab, cuja trilha sonora tem essa faixa simplesmente esplêndida. Sempre que algo de ruim acontece eu e a ouço, pois sei que vou me animar. 

#8) Também faz parte da trilha sonora de Le Skylab. Muito bonitinha essa, também. 

#9) Nem sou tão fã assim dos Beatles, mas as versões de Glee sempre me fazem adorar quaisquer canções. E essa apresentação foi, sem dúvida, a melhor do episódio. 

#10) Não consigo mais parar de ouvi-la. Viciante demais. 

#11) Uma das performances e versões mais fofinhas do seriado, muito amorzinho *-*

#12) A única canção que realmente gostei desse episódio, o qual nem sei se serei capaz de assistir. Adoro o Bruce, então ficou perfeita!


~*~

Muita música pra vocês, Nina. 

9 de outubro de 2013

#Livro: O Triunfo de Katie Byrne

Sim, encontrei um tempo para fazer essa resenha. Apesar de já ter devolvido o exemplar, espero conseguir ter minhas lembranças sobre ele ainda frescas, rs. 

Título Original: The Triumph of Kate Byrne.
Editora: Record
Ano: 2001

~*~

Sobre a autora: BARBARA TAYLOR BRADFORD nasceu em Leeds, na Inglaterra, e começou a trabalhar como jornalista aos 20 anos. Uma mulher de fibra tornou-se eterno best seller e abriu caminho para outros 19 romances de sucesso. Seus livros venderam mais de 75 milhões de exemplares por todo o mundo, em mais de noventa países e quarenta idiomas. 

~*~

Foi na biblioteca da PUC que descobri os três volumes doados desta autora e logo já peguei este livro para analisar, por conta, também, das críticas positivas que tinha lido. Pois bem. Achei incrível me transportar para dentro do mundo de Katie. Adoro enredos policiais e isso me chamou a atenção de imediato. E a trama que permeia a vida de Katie é daquelas... mornas. Não há, efetivamente, todo um clímax surpreendente. No começo, todo o caso que ocorre com suas amigas, Denise e Claire, prende muito. Você fica ansiando para saber se todo o aparato policial irá dar conta do crime que dá indícios de ser insolúvel, já que Claire não resistiu aos ferimentos proporcionados pelo estuprador e Denise está em coma. 

Quando a primeira parte termina - o livro é divido em três -, de repente você é jogado anos à frente e despenca no cenário da Broadway, em NY; Katie e suas amigas aspiravam serem atrizes de grandes peças teatrais e, mesmo sem elas, a menina segue em busca de seu sonho. E consegue. Na segunda parte, Katie está cercada de pessoas bem colocadas no mercado e envolvida pelo workshop do papel que lhe ofereceram como estreante: ela será Emily Brontë, na peça Charlote e Suas Irmãs. Porém, para tanto, ela teria de regressar à sua cidade, e Katie não está preparada para estar novamente em contato com Denise em coma e com todas as dolorosas lembranças de anos atrás. Mesmo apreensiva, Katie aceita a oferta de trabalho. 

Toda a narração sobre a vida das Brontë, os dilemas que Katie enfrenta com sua atual melhor amiga, e os cenários aos quais somos apresentados - com casas exuberantes, banquetes fartos, pessoas influentes e ricas - é o ponto alto de todo o livro. Com certeza, esta é a parte que mais me prendeu, que mais me instigou a ler compulsivamente. Então, a parte três deixa muito a desejar, especialmente porque tive a impressão de que a autora quis correr demais com a narração. Quis ajeitar tudo da maneira mais rápida possível. É aí que Katie encontra um rapaz que, sem mais nem menos, arrebata seu coração. Não gostei nem um pouco dessa colocação amorosa na vida dela, pois foi forçada por demasiado, superficial e completamente desnecessária. É aí, também, que, milagrosamente, Denise acorda de seu estado semi-vegetativo (o diagnóstico de coma fora um erro médico) e todos esperam que ela diga quem foi o homem que a atacou e matou Claire. Sem muitas surpresas, Denise sabe quem foi o assassino. A revelação, no entanto, não foi nada satisfatória. Foi, tal qual o relacionamento de Katie com o rapaz recém-conhecido, desnecessário. E, digamos, nada baqueador. Nada chocante. Nada de nada. Portanto, O Triunfo de Katie Byrne é um romance morno. Não existe outra palavra. O mais interessante do livro inteiro foi descobrir um pouco mais sobre as irmãs Brontë, como supracitado. De resto, tudo mimimi. 

É importante ressaltar, entretanto, a escrita de Barbara, pois foi uma questão que me chamou a atenção. É envolvente, muito parecida com a de Meg Cabot, e de outros tantos escritores do início do século. Uma coisa que notei foi a polidez com a qual os personagens se tratavam. Achei um verdadeiro amor Katie e seu irmão ficarem dizendo: "Com licença, mamãe", ou "Com licença, papai". É intrigante perceber que, hoje me dia, este tipo de tratamento não ocorre mais - nem mesmo nos livros. É interessante notar o quanto, de dez anos pra cá, muita coisa mudou. Gosto de ler livros "mais velhinhos" justamente para descobrir essa vida que antigamente as pessoas tinham. 

MAS, acredite ou não, resolvi retirar os dois outros volumes dela que estão disponíveis na biblioteca: Um Caso Secreto de Amor (1997) e Com Seu Destino nas Mãos (1998). Em breve, resenharei sobre eles também (:

~*~

Barbara Taylor pra vocês, Nina (sim, eu a recomendo, apesar dos apesares). 

1 de outubro de 2013

#I've been workin' like a dog

Hey Jude. 
Ela me animou por um tempo. Fui ouvindo-a no ônibus, e depois A Hard Day's Night. Me animaram bastante. Então, cadê a internet do J? Nada. E eu fui pro bistrô. Fiquei por lá por mais de três horas. Muito lindo, cara. Fazia tempo que coisas assim não aconteciam. O esplendor da leitura contínua com boa música. E depois, claro, a tristeza. 
Por quê?

Bem, tudo começou antes de eu sair de casa. Tive de ligar pra Câmara do Livro para falar com uma tal de Jussara que me haviam recomendado na sexta-feira. Sinceramente, essa pauta já está me estressando. Estou tendo uma overdose de entrevistas e de assuntos literários. Nem sei como não estou me repelindo dos livros a este ponto. Anyway. E daí que a tal da Jussara foi uma estúpida comigo. Grossa. Vadia. 
"Vamos lá, jornalista, faça um esforço para se lembrar das suas fontes".

Querida, me desculpe, mas quem é você? Você não me conhece, tá legal? Então, cale a boca e trate o público bem. E, se eu tiver de enfrentar pessoas tão mal-educadas quanto você, dá até vontade de desistir dessa profissão. É estressante, sabia? Você tem prazo, você corre feito louca, você entrevista umas dez pessoas pra sua matéria não ter nem 2.000 caracteres, você recebe ordens que não gosta, mudam a sua pauta já planejada sem aviso prévio, você quer sair da sala o mais rápido possível e respirar ar puro, você quer que todo mundo cale a boca pras suas ideias de organizarem. Como conseguem trabalhar naquela cacofonia?, eu me pergunto. Minha cacofonia é uma boa música. Não gente gritando e falando e ouvindo Britney Spears sem os fones. É uma pressão inimaginável. É descontente trabalhar num ambiente desses. Eu só fico querendo que minhas horas naquilo se terminem pra eu tomar um chocolate quente e ler o livro da vez que está na minha mochila.
"Moça, me transferiram umas cinco vezes, e teve gente que nem se identificou! Eu realmente não me lembro. Mas você pode me ajudar mesmo assim?".

Decida-se, mulher. Ou você pode me ajudar, ou adios pra ti. Até parece que preciso de uma vaca como você para dar mais autenticidade à minha reportagem. Você é totalmente descartável. 
E, agora, está descartada. Não sabe ser feliz, não merece ter importância, tá vendo? Meu email, você nunca vai receber. Com um humor desses, querida, tu não agrada nem o Zangado. 

Mas, daí... Vocês sabem. Coisas da vida. O que, a princípio, me enfureceu por demais acabou me entristecendo. Porque parecia que ela estava me desqualificando para o cargo que exerço - sendo que é um cargo não remunerado e que, apesar de algumas delícias, apenas está acabando comigo. Às vezes, fico louca para me entocar lá. Para ouvir todo mundo conversando, pra jogar sinuca com a Bárbara, pra tomar chocolate quente enquanto leio notícias online, pra rir nas reuniões. Mas, às vezes, não quero sair de casa e enfrentar essa gente; os coordenadores, meus colegas - colegas que são queridos no Facebook, mas que pessoalmente nem te olham na cara - e os malditos computadores jurássicos. Não tenho concentração; não gosto de escrever com vinte pessoas na mesma sala me bisbilhotando; não gosto de fingir que sou sociável. Por vezes, penso que não sirvo pra essa demanda tão grande. Pra essa profissão. Você aí, lendo isso, pode achar que ser jornalista é fácil. Jornalista viaja, tem mordomia, é mentiroso. Sim, um pouco de tudo isso, algumas vezes. Mas quem viaja enfrenta peripécias nada legais, a mordomia não é tanta e as mentiras não deveriam fazer parte disso, mas o jornalismo sensacionalista está aí para provar que coisas assim existem. 
As pessoas têm ideias completamente diferentes da realidade. 

Ser escritor, por exemplo. 
Você pode dar risada, você achar que eles morrem pobres, que não têm trabalho algum. Mas, você aí, nosso trabalho é muito mais complexo do que sentar na frente de uma tela, ou de um papel e escrever. Há um planejamento. Há uma constante batalha interna e mental. Os escritores nunca param de trabalhar. Você pode sair da sua sala e, quando fechar a porta, nada vai com você pra casa. Daí você chega em casa e não tem mais trabalho, só TV e cerveja. Que sossego, meu caro. Você assiste a um filme, lê um livro, tem uma conversa agradável com seus amigos. E tudo isso acaba. Morre. Nada vinga. Mas para os escritores, um filme, um livro, uma conversa é o motor que compele o trabalho. Pode parecer pouca coisa, mas é muita, muita mesmo. Tanta, que você aí só fica rindo. Não sabe o quanto o autor se esforçou, quantos lugares ele visitou para deixar o enredo o mais verossímel possível, quantas vezes ele escreveu o mesmo parágrafo, quantas vocês ele teve que apagar cenas inteiras, quantas vezes ele releu sua obra para dá-la como finalizada. É um trabalho do cão. 
E os jornalistas são assim também. Não tem nada de glamuroso em ser jornalista. Você se estressa, tem que enfrentar gente insuportável, sua cabeça dói todas as tardes depois que sai da sala, você tem vontade de desistir de todas as suas pautas, tem vontade de parar de aparecer nas reuniões, tem vontade de mandar tudo pro inferno. Devo dizer que, mais do que nunca, não há depressão. É um trabalho constante e maquinário. Não há espaço para nada, nem para uma folga realmente regozijante. 

Acontece que você ainda fará muitas coisas das quais não tem o mínimo prazer de se envolver. Talvez, ser jornalista seja uma delas. Porque ser jornalista, por vezes, é uma opção tão estúpida, tão errada, tão louca. E daí você se mata durante um mês pra colher relatos suficientes e, então, não há nada em troca, além do seu nome um monte de papel. É nada. Nada, nada, nada. É insuficiente pro tipo de coisa que acontece na sua vida. Pelo menos, os artistas da Broadway têm seus nomes em letreiros gigantes e piscantes. Ah, essas coisas da Broadway... Louvável, diria eu. 
O péssimo dia se esgotou, cada dia é um novo dia.  

Hey Jude. 
Don't make it bad,
take a sad song and make it better.
Remember to let her into your heart,
then you can start to make it better. 


~*~
Na na na na na na na pra vocês, Nina.