Editado por Alice Gonçalves . Tecnologia do Blogger.

#I've been workin' like a dog

by - outubro 01, 2013

Hey Jude. 
Ela me animou por um tempo. Fui ouvindo-a no ônibus, e depois A Hard Day's Night. Me animaram bastante. Então, cadê a internet do J? Nada. E eu fui pro bistrô. Fiquei por lá por mais de três horas. Muito lindo, cara. Fazia tempo que coisas assim não aconteciam. O esplendor da leitura contínua com boa música. E depois, claro, a tristeza. 
Por quê?

Bem, tudo começou antes de eu sair de casa. Tive de ligar pra Câmara do Livro para falar com uma tal de Jussara que me haviam recomendado na sexta-feira. Sinceramente, essa pauta já está me estressando. Estou tendo uma overdose de entrevistas e de assuntos literários. Nem sei como não estou me repelindo dos livros a este ponto. Anyway. E daí que a tal da Jussara foi uma estúpida comigo. Grossa. Vadia. 
"Vamos lá, jornalista, faça um esforço para se lembrar das suas fontes".

Querida, me desculpe, mas quem é você? Você não me conhece, tá legal? Então, cale a boca e trate o público bem. E, se eu tiver de enfrentar pessoas tão mal-educadas quanto você, dá até vontade de desistir dessa profissão. É estressante, sabia? Você tem prazo, você corre feito louca, você entrevista umas dez pessoas pra sua matéria não ter nem 2.000 caracteres, você recebe ordens que não gosta, mudam a sua pauta já planejada sem aviso prévio, você quer sair da sala o mais rápido possível e respirar ar puro, você quer que todo mundo cale a boca pras suas ideias de organizarem. Como conseguem trabalhar naquela cacofonia?, eu me pergunto. Minha cacofonia é uma boa música. Não gente gritando e falando e ouvindo Britney Spears sem os fones. É uma pressão inimaginável. É descontente trabalhar num ambiente desses. Eu só fico querendo que minhas horas naquilo se terminem pra eu tomar um chocolate quente e ler o livro da vez que está na minha mochila.
"Moça, me transferiram umas cinco vezes, e teve gente que nem se identificou! Eu realmente não me lembro. Mas você pode me ajudar mesmo assim?".

Decida-se, mulher. Ou você pode me ajudar, ou adios pra ti. Até parece que preciso de uma vaca como você para dar mais autenticidade à minha reportagem. Você é totalmente descartável. 
E, agora, está descartada. Não sabe ser feliz, não merece ter importância, tá vendo? Meu email, você nunca vai receber. Com um humor desses, querida, tu não agrada nem o Zangado. 

Mas, daí... Vocês sabem. Coisas da vida. O que, a princípio, me enfureceu por demais acabou me entristecendo. Porque parecia que ela estava me desqualificando para o cargo que exerço - sendo que é um cargo não remunerado e que, apesar de algumas delícias, apenas está acabando comigo. Às vezes, fico louca para me entocar lá. Para ouvir todo mundo conversando, pra jogar sinuca com a Bárbara, pra tomar chocolate quente enquanto leio notícias online, pra rir nas reuniões. Mas, às vezes, não quero sair de casa e enfrentar essa gente; os coordenadores, meus colegas - colegas que são queridos no Facebook, mas que pessoalmente nem te olham na cara - e os malditos computadores jurássicos. Não tenho concentração; não gosto de escrever com vinte pessoas na mesma sala me bisbilhotando; não gosto de fingir que sou sociável. Por vezes, penso que não sirvo pra essa demanda tão grande. Pra essa profissão. Você aí, lendo isso, pode achar que ser jornalista é fácil. Jornalista viaja, tem mordomia, é mentiroso. Sim, um pouco de tudo isso, algumas vezes. Mas quem viaja enfrenta peripécias nada legais, a mordomia não é tanta e as mentiras não deveriam fazer parte disso, mas o jornalismo sensacionalista está aí para provar que coisas assim existem. 
As pessoas têm ideias completamente diferentes da realidade. 

Ser escritor, por exemplo. 
Você pode dar risada, você achar que eles morrem pobres, que não têm trabalho algum. Mas, você aí, nosso trabalho é muito mais complexo do que sentar na frente de uma tela, ou de um papel e escrever. Há um planejamento. Há uma constante batalha interna e mental. Os escritores nunca param de trabalhar. Você pode sair da sua sala e, quando fechar a porta, nada vai com você pra casa. Daí você chega em casa e não tem mais trabalho, só TV e cerveja. Que sossego, meu caro. Você assiste a um filme, lê um livro, tem uma conversa agradável com seus amigos. E tudo isso acaba. Morre. Nada vinga. Mas para os escritores, um filme, um livro, uma conversa é o motor que compele o trabalho. Pode parecer pouca coisa, mas é muita, muita mesmo. Tanta, que você aí só fica rindo. Não sabe o quanto o autor se esforçou, quantos lugares ele visitou para deixar o enredo o mais verossímel possível, quantas vezes ele escreveu o mesmo parágrafo, quantas vocês ele teve que apagar cenas inteiras, quantas vezes ele releu sua obra para dá-la como finalizada. É um trabalho do cão. 
E os jornalistas são assim também. Não tem nada de glamuroso em ser jornalista. Você se estressa, tem que enfrentar gente insuportável, sua cabeça dói todas as tardes depois que sai da sala, você tem vontade de desistir de todas as suas pautas, tem vontade de parar de aparecer nas reuniões, tem vontade de mandar tudo pro inferno. Devo dizer que, mais do que nunca, não há depressão. É um trabalho constante e maquinário. Não há espaço para nada, nem para uma folga realmente regozijante. 

Acontece que você ainda fará muitas coisas das quais não tem o mínimo prazer de se envolver. Talvez, ser jornalista seja uma delas. Porque ser jornalista, por vezes, é uma opção tão estúpida, tão errada, tão louca. E daí você se mata durante um mês pra colher relatos suficientes e, então, não há nada em troca, além do seu nome um monte de papel. É nada. Nada, nada, nada. É insuficiente pro tipo de coisa que acontece na sua vida. Pelo menos, os artistas da Broadway têm seus nomes em letreiros gigantes e piscantes. Ah, essas coisas da Broadway... Louvável, diria eu. 
O péssimo dia se esgotou, cada dia é um novo dia.  

Hey Jude. 
Don't make it bad,
take a sad song and make it better.
Remember to let her into your heart,
then you can start to make it better. 


~*~
Na na na na na na na pra vocês, Nina. 

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1 comentários

  1. Obg pelo comentário no meu blog, e obg mais ainda por ler meus textos na página, é maravilhoso ouvir isso. Sério. Você também, escreve muito bem, um futuro esplêndido! *-*

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