Editado por Alice Gonçalves . Tecnologia do Blogger.

#Sobre amores contra o vento

by - novembro 07, 2013


Tínhamos cinco anos.
Você segurou minha mão na sua e disse: "Para sempre".
E eu acreditei. "É muito tempo", eu rebati.
Aos cinco anos, era tempo demais.
Você era pequeno e loiro, muito loiro. Gostava de olhar seu cabelo contra o Sol. Gostava de olhar sua pele contra o Sol. Gostava de fingir que éramos casados. Gostava de dizer que teríamos mais cachorros do que já conhecíamos ali na fazenda.


Entrei pela porta. Estava cansada. Meus pés estavam doendo e minhas costas já não suportavam o peso da mochila. Mas sorri quando o vi de avental. Você veio e retirou o peso de cima dos meus ombros e perguntou: "Como foi seu dia?".
Você não queria, realmente, ter ciência de todos os meus percalços, nem de todas as lágrimas que derramara escondida no box do banheiro após meu coordenador rejeitar meu último trabalho e me sugerir refazê-lo. Não queria refazê-lo, porque não suportava mais. 
Porém, quando lhe narrei todos os meus piores momentos, não foi como se eu os revivesse novamente. Eu suspirei e apoiei minha cabeça no seu ombro. "Quero largar tudo", acabei dizendo. Queria muito chorar, mas não o fiz. Não gostava de chorar na sua frente. 
"Vai ficar tudo bem".
Nunca ficou 'tudo bem'. Mas você me fez acreditar nisso por um bom tempo.


"E aí?".
Você era menino, dizia coisas assim. Mesmo que eu dissesse que não apreciava aquilo. Mas não era minha função mudá-lo. Nunca quis mudá-lo. Sabe o quê? Gostava de você do modo que era, com todas as suas frases irritantes, com aquele seu jeito de não se importar com praticamente nada, com aquele seu gesto de dar de ombros quando não sabia o que dizer e com todos os seus lados errados. 
Eu era errada também. 
Éramos errados juntos.
E de errados e errantes, mais alguns anos se passaram.


Agora você diz: "Estou aqui. Para sempre".
Não sei o que dizer, quero chorar. Acabo dizendo, com a voz embargada: "É muito pouco".
Eu e você temos ciência disso. O tempo é efêmero; infindável, apenas a dor.
Você afaga meu rosto com carinho. Seus dedos são nodosos, agora, mas ainda detêm aquela maciez de sempre. Sei que quer me consolar com a mesma urgência que eu tento fazer contigo. Seus cabelos estão ralos, recobertos pelo seu chapéu. Você me aperta forte - mas não o suficiente para me machucar. Gosto deste tipo de abraço. Apertado, inundado de medo, de tristeza e de amor. Você me aperta com tanto amor que parece que machuca meu coração. Dói, mas não reclamo.
"Eu sei. Eu sinto muito", você acaba dizendo, enquanto suas lágrimas rolam pelo seu rosto e são aparadas pela minha pele.
Choramos juntos. E, quando me vou, ainda estou nos seus braços.


We were young and strong
We were running against the wind

It seems like yesterday
but it was long ago

I’m still runnin’ against the wind, Nina. 

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