22 de dezembro de 2013

#Coisas, definitivamente, de Amélia.


Amélia não sabia quantos anos tinha, ela nunca se prendia à isso: que diferença fazia um ou dois anos a mais, quando ela apenas continuava a viver? 

Mas, após completar 10 anos, ela dizia que toda a sua vida começara a acontecer depois dos sete. Era o que se lembrava. Antes, havia tanta lama e tecidos puídos que nada daquilo era suficiente para sua memória. Então a criança descartou tudo. Antes e depois. Aquele episódio é que proporcionou o seu próprio divisor de águas.

- Criança, estão te chamando. 
Era a morcega-velha. Ninguém gostava muito dela, embora Amélia nutrisse certa curiosidade por ela. Porque estava ali, se tinha tanto? E por quê, por Deus, não tinha filhos ou um marido visível? Por que aquela mulher não tinha uma vida? 
- Dona Mari, quem está me chamando? 
A morcega-velha, essa sim, era uma Mari. Comum, com grandes olhos azuis-acinzentados, mãos calejadas e sempre exibindo as mesmas roupas, as mesmas que Amélia contestava serem pijamas. "Mas Dona Mari, por que está de pijama?", Amélia desatava a perguntar. A velha sorria, apesar de fazer tal gesto com raridade. "Criança, não estou de pijamas!", a mulher sempre tinha de rebater. No dia seguinte, a cena se repetia. Incansavelmente. Dona Mari parecia não se importar. E continuou não se importando pelo resto de sua pacata e resignada vida. 
- Ora, criança, é um homi de amarelo! Aquele homi de amarelo que nunca vem aqui! 
- Certamente, não é o Papai Noel - Amélia refutou, caminhando pelas poças que tinham se formado depois da chuva no quintal dos fundos. 
- Eu que não sei. Quem é esse tal?
- Dona Mari! - Amélia começou a rir. Não respondeu e deixou a velha sozinha no terreno dos fundos. Foi feliz e saltitante. Sua mãe já tinha lhe respondido quem poderia ser o homem de amarelo. Quem não o reconheceria? 

- Cadê a Dona Amélia, mocinha? - o homem quis saber. Isso provocou um riso contido na garganta da criança.
- Não sou Dona ainda não, seu moço! Sou pequena demais ainda, você vê?
- Você é Amélia?
- Eu sou Amélia, sim. 
- Ótimo, isso é para você - ele estendeu seu braço com um pacote pardo na mãos. Parecia relativamente grande, grande o bastante para fazer os olhos da pequena Amélia brilhar com intensidade. Será que aquele homem era, afinal, o Papai Noel? 
- Por quê?
- Se você não sabe, como vou saber?
- Ai, seu moço! Deixa disso, sem surpresa! - Amélia colocou uma mão na cintura, irritada. Por que ele não poderia dizer? O carteiro, sem saber o que lhe retrucar, tomou seu rumo e foi-se. Amélia logo remexeu o pacote em suas mãos, inspecionando cada centímetro. Depois de perder alguns segundos analisando o objeto com os olhos semi-cerrados, desconfiados e curiosos, voltou para o interior da casa. Ninguém estava lá, lembrou-se, então partiu para o terreno do fundo. 

- Dona Mari! - a menina se assustou ao notar a velha contemplando-a do outro lado da cerca. Sua saia desbotada esvoaçava. 
- Então? - ela respondeu. 
- Não sei. Será que abro?
- Pra quem era?
- Pra mim. A senhora sabe de quem é? 
A velha deu de ombros.
- Criança, não sei de tudo, não. Abra, quero ver!
A garota não perdeu mais tempo: rasgou o papel pardo com excitação. Algo caiu no chão de terra. 
- Puxa vida, estraguei tudo! - ela exclamou, se inclinando para recuperar o que tinha lhe escapulido. 
- O que é? Venha mais para cá! Não vejo daí! - Dona Mari reclamou, impaciente. A velha era tão curiosa quanto a própria Amélia. A criança brandiu o objeto, ainda dentro do invólucro de plástico bolha. 
- Olha isso! Aperte, Dona Mari! - Amélia estourou algumas bolhas, sorrindo maravilhada. O que era aquilo, afinal? Tão divertido! Será que era aquilo? Bolhinhas de apertar? Dona Mari apertou e, ainda impaciente, puxou o objeto das mãos de Amélia. Com as garras trazidas pela velhice, ela conseguiu libertar o que tinha ali escondido. - O que é, o que é?
Dona Mari avaliou o item; os olhos chispando de cima a baixo, da esquerda pra direita. Dou de ombros e disse:
- Acho que é um livreto.
- Livreto, é isso que é?
- Esse eu não conheço, mas com certeza é um livreto. 

Amélia puxou o livreto de volta para suas mãos. Era bonito. Tinha um desenho engraçado: um rato lendo um livreto, na capa. Amélia nunca tinha visto nada parecido. Seu coração batia tão alto e tão depressa! 
- Dona Mari, os ratos sabem ler?
- Você é uma ratinha e não sabe ler também?
- Mas eu sou gente! Ele - Amélia apontou o rato da capa do livro - é um rato
- Deixe de bobagem! Abra-o de uma vez! 
Outra coisa foi ao chão. Algo de pouca espessura e alvo. Mas o que era aquilo? Amélia logo agarrou, sentindo seu coração dar outro pulo em seu peito. 
- Puxa! Um papel! Esqueceram aqui dentro! - ela revirou-o em seus dedos e o desdobrou. Algo se revelou e provocou outra onda de excitação na criança. Letras, escritas à caneta preta, apareceram. Eram inclinadas e do tipo cursiva, aquele tipo que Amélia sabia reconhecer. - Dona Mari, escreveram pra mim! É uma carta
- Mas quem gastaria tinta com você, miudeza?
- Vou ler pra senhora, tá?

Querida Amélia,
Eu adoro cartas e espero que você também goste delas. Você me pediu um livro, escreveu dizendo que não tinha nenhum e que precisava treinar a leitura. Fui à procura de muitos, daqueles com desenhos coloridos e vivos, daqueles sobre bruxas e fadas. Mas acabei não gostando de nada e percebi que, se eu não estava gostando, você também não gostaria. Arrumando meu armário, encontrei este título, Um Rato na Biblioteca. Sabe que comecei a me interessar por leitura por conta dele? Acho que eu tinha uns 8 anos e lembro que copiei todas as cenas dele em muitas folhas de papéis na casa da minha avó. Espero que ele lhe traga a mesma paz e gosto pela leitura quanto trouxe à mim àquela época. Te desejo um Feliz Natal à você e à sua família. Sinta-se abraçada por essas palavras, pequena. Que você cresça rodeada de felicidade e riqueza interior. 
Com muito amor, 
Eu. 

Os olhos de Amélia, apesar de ela não ter reparado de início, estavam úmidos. Era uma carta muito linda. Tinha gostado do ratinho e da carta. Iria gostar daquele livro e de cartas para sempre, a partir daquele momento. 
- Puxa, Amélia. Você é tão amada por alguém que nem te conhece!
- Gosto de ser amada assim, também, Dona Mari. 


Você pode conferir o primeiro texto sobre a Amélia, contido na categoria "Coisas de Amélia" bem aqui. 

I wish you a marry christmas, Nina. 

8 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Já te disse o quanto adoro essa categoria???
    ACHO SENSACIONAL. Você escreve lindamente, de verdade.
    São textos verdadeiros, sinceros, amo!
    Essa passagem é tão simples e sabia que me identifiquei? Livros, sempre importantes em momentos de nossas vidas!

    Desejo a você tudo que postei no meu blog e muito mais. Você é uma leitora especial para mim, Nina! Não some tá? Você e a Amélia ♥

    Beijos,
    www.miragemreal.com

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  3. Ah que legal o texto! Você escreve muito bem, flor! Eu adorei, como não se identificar, sendo uma leitora?

    Beijos
    http://escolhasliterarias.blogspot.com.br/

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  4. Oi, parabéns pelo texto. Sempre acho incrível quem consegue escrever tão bem assim. Meus parabéns mesmo.

    Beijos.

    http://livrosleituraseafins.blogspot.com.br/

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  5. "Iria gostar daquele livro e de cartas para sempre, a partir daquele momento."
    Sim! Livros e cartas são amor ♥
    Vou procurar esse livro do ratinho depois, gosto de livros para crianças... E você já me falou dele em um comentário. hihi

    http://sonharnostemposdoagora.blogspot.com.br/

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  6. Eu não tinha percebido que estava falando de um carteiro... #lenta. Texto ótimo!

    http://eueminhacultura.blogspot.com.br/

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  7. Olá, Nina.
    Fui fisgada por um de seus textos e cá estou. E pretendo ficar.
    Vou bisbilhotar todos os seus escritos nessa madrugada.
    São lindos e me passam uma sensação tão boa, reconfortante.
    Muito obrigada por compartilhar conosco as histórias da pequena Amélia.
    Um grande abraço.

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