Editado por Alice Gonçalves . Tecnologia do Blogger.

#Resenha: Neve

by - dezembro 22, 2013

Título Original: Kar
Autor: Orhan Pamuk
Páginas: 487 
Editora: Cia das Letras
Ano: 2002
Gênero: Literatura turca














Ka é um escritor que foi exilado durante algum tempo na Alemanha e retorna à uma cidadezinha turca com o pretexto de escrever sobre uma onda de suicídios de garotas muçulmanas que tem se tornado cada vez mais corriqueira. Uma nevasca, no entanto, obstrui as estradas e acaba por insular a cidade e o escritor. 
O silêncio da neve, pensou o homem que estava sentado logo atrás do motorista. Se aquilo fosse o começo de uma poema, poderia chamar o que sentia em seu íntimo de o silêncio da neve. - p. 11
"Se você não é capaz de confiar nas pessoas, nunca vai conseguir chegar a lugar algum da vida". - p. 84
Um homem vive a sua vida e então desaparece e não sobra nada. Ka sentiu como se metade de sua alma tivesse acabado de abandoná-lo, mas a outra ainda permanecia; ainda havia amor em si. Como um floco de neve, ele haveria de cair quando chegasse a hora. Ele iria se devotar de corpo e alma ao melancólico curso pelo qual sua vida enveredara. - p. 105
Ka se envolve em muitos relatos de familiares cujas filhas ou netas acabaram com as próprias vidas com medicamentos ou armas; a maioria parece acreditar que as jovens eram infelizes em seus casamentos, ou por conta das pressões da sociedade. Em meio a tudo isso, ele acaba revelando o porquê está ali: quer conquistar a mulher por quem se apaixonou na escola, que é um filha do dono do hotel onde ele está hospedado. Em meios às investidas que faz em Ipek, estoura um golpe militar patrocinado por dois atores, os quais encenaram uma peça no teatro que acabou por escandalizar a plateia. Ka, então, é jogado para dentro desse vórtice como protagonista involuntário. 
"Lembre-se: assim como no teatro, a história escolhe aqueles que vão desempenhar os papéis principais. E assim como os atores testam a sua coragem no palco, os poucos que a história escolhe fazem o mesmo no palco da história. - p. 231.
"A principal tarefa de um agente é fazer as pessoas mudarem de ideia" - p. 369. 
 "Felicidade é encontrar um outro mundo onde se possa viver, um mundo onde seja possível esquecer toda essa pobreza e tirania. Felicidade é tomar alguém nos braços e saber que está enlaçando o mundo inteiro. - p. 373.
A revolução que a cidade sedia é desencadeada por conflitos um tanto quanto religioso: cobrir-se, lá, é uma indicação de respeito e amor à Deus, por conta disso as meninas utilizam seus mantos para irem ao liceu; esse dogma se quebra quando o diretor do liceu proíbe o uso dos véus. A peça encenada pelo casal de atores retrata uma cena de uma mulher retirando o véu e o queimando - isso, para eles, é um ultraje: então os militares sobem ao poder, aterrorizando a todos, investindo na violência. Ka se vê coagido a ser um intermediário entre um terrorista procurado e a polícia. 
"Uma mulher não se mata porque perdeu o amor-próprio, ela se mata para mostrar seu amor-próprio" (...) "O momento do suicídio é aquele em que se sente melhor como é solitário ser mulher e o que significa realmente ser mulher". - p. 450
Há uma temática muito bem trabalhada e complexa neste livro - até mesmo um tanto quanto confusa para nós, ocidentais -, e alguma pitada de peculiaridade. Embora a trama aborde, em sua maioria, a política e a religião, há nuances de romance e 'mundanidade' - Ka quer se entregar ao amor, pois é solitário; muitos acreditam que ele é solitário porque é ateu, até que ele conhece um sheik, a quem confessa que deseja muito acreditar em Deus. Por conta de partes que carregam muito nos tópicos religioso e psicológico, a leitura se torna um pouco cansativa. Eu realmente não sei como consegui lê-lo em quatro dias, pois tinha muita vontade de pular alguns capítulos, mas fiz uma força para não fazer isso, pois tinha ciência de que, por conta da complexidade da trama, acabaria por me perder na ocorrência episódios. 
"Ele era um homem que se preocupava com as pessoas e gostava de cachorros também - um homem bom. Mas sua mente ainda estava na Alemanha, e era muito introvertido. Hoje em dia ninguém mais aqui gosta de Ka". - p. 479
Eu me interessei pelo livro, pois já o conhecia e já sabia que ele tinha ganhado o Prêmio Nobel da Literatura de 2008 e, como já estava me distanciando completamente à minha zona de conforto com relação às minhas leituras, decidi conferir esse desafio. Apesar de ser, realmente, um pouco maçante, quem gosta de diversificar, tenho certeza de que vai encontrar alguma beleza contida neste livro, assim como eu. A beleza, creio eu, está justamente na neve: a partir dela, tudo se construiu e se desfez. 


Love, Nina.

You May Also Like

1 comentários

  1. Eu me interessei bastante pelo livro! Vou procurar mais sobre ele :)

    Bejinhos,
    Mila <3

    www.delamila.com

    ResponderExcluir

Olá, obrigada pelo comentário, mas, para evitar passar vergonha na internet, por favor, não seja machista, LGBTQAfóbico(a), ou racista. O mundo agradece :)

Qualquer preconceito exposto está sujeito à remoção.



INSTAGRAM