8 de dezembro de 2013

#Resenha: Você tem ideia do que foi viver no Holocausto?

Êêê, mais uma resenha! Com as férias estou tendo até mesmo disposição para resenhar (o que é um milagre!) todos os livros que tenho lido durante as minhas lindas tardes calorentas. 

Título Original: Sorstalanság
Autor: Imre Kertész
Ano: 2003
Páginas: 175
Editora: Planeta 
Gênero: Literatura judaica húngara

Nós pensamos que o Nazismo não alcançou nada além dos povos judeus, certo? Pois neste livro, fica claro o quanto qualquer outro povo, qualquer mesmo, que não fosse o alemão, sofreu nos campos de concentração. Esse é o exemplo da Hungria.

Em tempos de ascensão alemã, um garoto de quinze anos é dispensado da aula, para poder se despedir de seu pai, que está sendo enviado a um campo de concentração. A princípio, o garoto é impassível - afinal, como saber pelo que o pai passará longe dele, se ele não sabia muito sobre nada? Mas então, após a partida do pai, ele mesmo é enviado a um campo. O transporte ocorre de modo um pouco confuso, ele passa por muitos trens e por vários destinos num ambiente precário, sem comida, sem higiene, sem certeza alguma. Ele apenas tem a esperança de que chegará a algum ponto. Quando chega, está em Auschwitz-Birkenau, numa rede de campos de concentração localizada ao Sul da Polônia. O personagem ainda é curioso, não teme por muito, está sempre especulando o que vê como se não fosse sofrer ali, como se estivesse numa colônia de férias decadente.

O trabalho é pesado, o frio o assola, as vestimentas são puídas, os calçados quase se fundem aos seus pés. Conforme o tempo passa, ele conhece várias pessoas de outras nacionalidades que enfrentam as mesmas condições - alguns estão ali há quatro, seis, doze anos. Segundo o próprio menino, essas pessoas apenas não sucumbiram à morte, pois sabiam que se libertariam dali um dia. E, dia após dia, suas vidas se tornam cada vez mais escassas, mais debilitadas. Um ponto que, enfim, o faz acordar para o horror que vive é o momento no qual vê, por detrás das cercas que os separam, as mulheres trabalhando: pareciam homens, mas eram mulheres - seus cabelos foram raspados e estavam tão enfraquecidas quanto os homens. 
"Você teve que passar por muitos horrores?", e eu respondi que dependia do que ele considerasse horror. Certamente - disse, com o rosto visivelmente tenso -, você deve ter aberto mãos de muita coisa, passado fome, e talvez tenha apanhado, e eu disse: naturalmente. "Meu filho, porque a tudo você diz" - gritou, a meu ver, perdendo a paciência - "naturalmente, e sempre para o que não é natural?!" Disse-lhe: "Num campo de concentração isso é natural". "Sim, sim, lá sim, mas..." - e se deteve, hesitou um pouco - "mas... mas o campo de concentração em si não é natural". 
"Meu filho, você não gostaria de fazer um relato das suas experiências?". Surpreso, respondi que não tinha nada de muito interessante para contar. Ele deu um breve sorriso e disse: "Não para mim: para o mundo". Diante disso, ainda mais surprese, eu quis saber: "Mas sobre o quê?". "Sobre o inferno dos campos", respondeu, e eu afirmei que acerca disso nada poderia dizer, pois não conhecia o inferno, nem seria capaz de imaginá-lo. Porém, ele observou que se tratava apenas de uma espécie de comparação: "Não é preciso imaginar o campo de concentração como inferno". 
Após meses de trabalho intenso e recebendo pequenas porções de sopas intragáveis, seu corpo não suporta mais tantos maus-tratos - está pura pele, não há mais músculos, não há mais nada. Há feridas cobrindo suas juntas, escamas que parecem se confundir com a carne e seus pés parecem ter sido reduzidos a um montinho de coisa inútil. Mal consegue se locomover, tamanho o mal-estar e tamanha a dor que se alastra. Enfim, ele é mandado para a enfermaria. Lá, passa algum tempo se recuperando e vendo muita gente ir e vir, ser deixada ao relento para morrer. Apesar de tudo, ele se recupera aos poucos. Com a comida reforçada e os cuidados médicos, parece que finalmente há um pouco de esperança. 

Quando dizem que os prisioneiros estão livre, o personagem retorna para casa, que agora é ocupada por um casal de velhos. Não entendi muito bem onde está sua madrasta, mas ele segue para a casa da mãe. Seu pai, à essa altura, já faleceu. Com a vida por inteira, o garoto tenta se reconstituir também depois dos traumas que vivenciou. 

Eu apanhei este volume por puro impulso e não me arrependi, muito embora eu tenha ficado muito trancada na leitura. A narração é corrida, é muito assimilável, porém as palavras alemãs, quase sempre sem tradução, e os discursos indiretos que permeiam a narrativa me irritaram um pouco. A história, no entanto é bela. Há muita tristeza, mas há nuances de celebração e de humanidade. O autor conseguiu conduzir a trama de forma leve e conseguiu transmitir todo o horror desse período. Não se tornou um dos meus livros favoritos, porém valeu pela lição literária. 
"E quais são os seus planos para o futuro?" Meio surpreso disse: "não pensei muito nisso" (...) "Antes de mais nada, você tem que esquecer os horrores". Perguntei, admirado: "Por quê?". "Para poder viver. Viver livre" - ao que outro velho assentiu e acrescentou: "Com um peso assim não se pode começar uma nova vida"
Todos perguntam apenas das condições, dos "horrores", ao passo que, para mim, a experiência mais memorável é esta. Sim, da próxima vez, se me perguntarem, eu deveria falar isso, falar da felicidade nos campos de concentração. Se me perguntarem. E se eu não me esquecer.  
Curiosidades:
Um filme de nome homônimo ao livro foi feito na Hungria, em 2005. 
O livro recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 2002. 

Love, Nina. 

Um comentário:

  1. Oi, Nina! Apesar dos pontos negativo que você citou, me interessei bastante pela leitura. Apesar de triste e sofrida, amo essa temática!

    Beijos, Entre Aspas

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