29 de março de 2014

#Isabel

É claro que não era a primeira vez.
Mas tampouco se repetira tantas outras vezes. Coisas assim, oh Deus, não eram fatos isolados, também. 
Eles já tinham se encontrado em outras ocasiões; no casamento da prima dela, quem estava lá? Justamente ele, em sorrisos, felicitações e terno caro. Não poderia se esquecer daquela ida à Canela, também. Estavam no mesmo chalé, ele com a nova namorada; ela com a mãe recém-chegada do litoral. E, por Deus, também não era hora de colocar de lado aquele email lhe convidando para rever a turma do colegial. Ela tinha comparecido, ele não. Ela, entretanto, não teve coragem de lhe questionar sobre sua ausência. De certo, rever caras babacas do ensino médio era tão medíocre quanto não ter companhia para o teatro.

Essas lembranças foram apagadas de imediato quando o viu acenar com aquele sorriso de sempre  por que sorrisos como aquele nunca se modificam?, ela se perguntava  do outro lado do restaurante. 
Tinha sido uma péssima ideia. 
Sua irmã lhe convencera a usar um vestido rodado ridículo e sapatilhas como nos velhos tempos. Seu reflexo, enquanto se vigiava no espelho da entrada, expunha o seu horror. Estava prestes a dar meia volta, quando ele se levantou e a cumprimentou. Dois beijinhos, um em cada face. Ela não sabia se aquilo era mania de carioca, ou somente uma mania idiota nacional. Sentia seu rosto pegar fogo. 
Tinha sido tão imatura ao aceitar aquilo, não tinha? Apenas esperava que fosse madura o bastante para sair dali intacta e inabalada. 

Por Deus, não tinha tanto tempo assim para desperdiçar e tinha certeza de que lhe sobrara um resquício de dignidade; estava convencida daquilo. 
– Fiquei me perguntando se teria desaparecido – ele comentou, brincando com um sorriso mínimo nos lábios.
– Estou aqui, não estou? Vamos acabar logo com isso. 
Isabel, você quer calar a boca enquanto é tempo? Maldita Isabel, não fale coisas das quais pode vir a se arrepender! 

– Poderia ter declinado o convite, talvez eu nem fosse me importar – Lucas lhe disse.
Se ela poderia? Não. Ela queria te ver, entendeu? Não pense que não. Ela sente sua falta, verdade seja dita. 

– Pois que não se importasse! 
– Você continua exatam...
– Estou prestes a reconsiderar tudo isso, e se você concluir essa frase, pode apostar que saio daqui para nunca mais revê-lo!
Lucas soltou um chiado parecido com um riso sufocado. 
– Senti falta do seu mal-humor – ele sorriu – Ainda gosta de beringela?
Isabel bufou do outro lado da mesa e estreitou os olhos. 
– Eu odeio beringela! 

Lucas riu baixo. 

– Opa, ex-namorada errada!
Isabel juntou os lábios, amaldiçoando-se. Com certeza já estava se arrependendo mais cedo do que imaginava. Quem tinha mandado responder aquele email com "Adoraria", ao invés de "Vá para o inferno!"? Não podia reclamar agora. Azar o seu, Isabel. Aceite a derrota e as consequências, querida!
– Certo. Quer saber? Peça o que quiser, pois estou de saída – Isabel juntou todas as suas forças e sua bolsa e fez menção de se levantar bem no momento em que Lucas pousou uma das mãos sobre uma das dela. 
Assim, muito rápido. Ele estava sendo gentil?! Aquilo era meio que uma novidade...

Isabel baixou o olhar para suas mãos juntas. 
– Espere – ele pediu – Queria lhe convidar para...
Era agora. Nada de consentir com mais alguma artimanha. É sua chance de se apoderar de seu poder, Isabel. Faça bom uso dele. Sua resposta foi categórica e carregada de rudez:
– Não. Não quero me encontrar com você num restaurante natureba. Não quero mais ser importunada na minha caixa de emails. E seria muito conveniente se você esquecesse o meu telefone. 
Lucas a olhou. E então assentiu como quem estava decepcionado. Decepcionado? Aquele maldito?
– É uma pena – ele retrucou – Pessoalmente, sempre achei que você fica ótima de branco. 
Isabel piscou, sem ação. 
– O quê?
– Achei que alguém como você reconheceria um pedido de casamento. 

E foi bem ali que Isabel morreu. 
Morreu, mas logo retornou. Foi uma morte de um piscar de olhos, entende? Pois sua vida não poderia terminar daquele modo, justamente naquela situação. Teria tanta vida pela frente que pela primeira vez – e aquela era inédita  não sabia dizer ao certo se coisas assim aconteciam duas vezes. 


Love
Nina 

3 comentários:

  1. Que graça! Isabel mal-humorada pega de surpresa! Adorei.

    http://diaryofdream-s.blogspot.com

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  2. O texto me pegou logo pelo nome: Isabel. Nome da minha avó, talvez da minha futura filha, com certeza de alguns personagens.
    Então, logo de cara, estava torcendo para que tudo desse certo.
    E quem nunca se viu neste lugar: em que você torce para que o seu ex volte, mesmo sem saber exatamente o que vai acontecer e como você irá reagir?

    Belíssimo texto!
    Um beijo,

    http://www.algumasobservacoes.com/

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  3. Nossa, excelente Nina!! Sabe quando você começa a ler e não consegue mais parar porque algum colapso intenso está lhe consumindo por dentro trazendo uma máxima curiosidade? Aí você imagina um fim bom e ganha de brinde um fim inédito e perfeito! Adorei!!
    Você escreve muito bem! <3
    http://escrituras-da-alma.blogspot.com.br/

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