Editado por Alice Gonçalves . Tecnologia do Blogger.

#Um olhar brasileiro

by - março 13, 2014

Hoje mesmo, indo para a faculdade de ônibus, me deparei com uma situação que me fez ficar completamente indignada. O ônibus parou para um garoto que fez sinal e, logo depois, ele entrou e disse: 
– Espera só um pouquinho, que uma menina está ajudando um senhor a subir no ônibus (no caso, outro ônibus). 
O motorista, nem um pouco apressado, revidou:
– Ligeirinho! Não, não dá pra esperar! 
– Mas ela já está vindo, só está ajudando o senhor. 
No fim, a menina embarcou no ônibus. 
Linda história?
Não, não acredito nisso. 

Na primeira aula de Realidade Brasileira, a professora nos apresentou um filme e um documentário sobre como os estrangeiros veem os brasileiros. A Carmem Miranda é um ícone em nosso país (seria engraçado, se não fosse confuso, já que ela era argentina). Macacos se enturmam conosco na praia, vejam só! Todas as garotas fazem topless enquanto estão pegando uma corzinha! Se você acha que o Brasil é mais do que samba, Carnaval e caipirinha, parabéns, você não se deixa influenciar pela Regina Casé. Mas você acha que existe a tal da "cordialidade brasileira"? Essa foi a professora quem nos disse. Acho que ela quis dizer "jeitinho brasileiro", pois na palavra cordialidade não há essa denotação. 

Cordialidade
s. f. Particularidade do que ou de quem é cordial; ação de expressar carinho, afeto e amizade. 

Para mim, cordialidade é um pouco de abnegação. Você se coloca no lugar do outro, ou até mesmo coloca o outro em primeiro lugar. 
O brasileiro faz isso? Quantas vezes você ficou surpreso ao ler uma notícia de alguém que devolveu uma maleta cheia de dinheiro para o dono? Você diria, "Nossa, que pessoa de caráter!", quando isso deveria ocorrer sempre. Veja bem, a noção da cordialidade está interligada ao nosso caráter, de maneira geral. Sim, você pode simular ser gentil  mas isso não exclui o fato de que você não é alguém gentil. E aquele motorista, muito claramente, não conhece a palavra cordialidade no seu íntimo. Ela não é "dar um jeitinho" nas coisas de acordo com a nossa necessidade – fazer um gato na rede elétrica, compartilhar a rede wifi com os vizinhos, ou o que seja. "Jeitinho brasileiro", de jeito algum, é você deixar uma senhora passar na sua frente numa fila, ou, como a garota do meu relato, ajudar um senhor a embarcar num ônibus. O jeitinho brasileiro está longe de estar de acordo com a cidadania, ou com o caráter "amigável" de nosso povo.

Ao meu ver, a cordialidade existe apenas para fazer bonito aos estrangeiros. Se somos hospitaleiros? Provavelmente. Você já deve ter ouvido falar isso. Mas ser hospitaleiro não é ser cordial, veja bem; isso é outra vertente. 
Eu, pessoalmente, sou abnegação. Sou do tipo que me levanto para apanhar objetos perdidos pelas pessoas ao meu redor, do tipo que presta atenção se alguém precisa uma caneta, do tipo que ajuda um senhor na hora das compras. Por isso, a tal da cordialidade barata me deixa com um gosto ruim na boca. E ainda mais se eu tenho uma demonstração explícita de alguém que não sabe ser cordial. Será mesmo que o motorista do ônibus perdeu dinheiro ao ficar vinte segundos esperando a garota colocar o senhor que estava ajudando dentro do outro veículo? Não estávamos atrapalhando o trânsito, pois todos os carros estavam mudando de faixa, observando que a nossa estava parada. Ninguém buzinou, ninguém gritou palavrões. Mas esse cara – o motorista – preferiu pensar em si próprio, em seus segundinhos perdidos. A menina também os perdeu para auxiliar o senhor, no entanto ela foi cordial. O que custava o motorista ter usado de seu bom senso e aguardar só um pouquinho?
Afinal, é de pouquinho a pouquinho que uma pessoa se torna alguém melhor. E, se esse cara não estava a fim de se edificar mais, não era sua obrigação inibir quaisquer outras pessoas. Se ele quer ser "o jeitinho brasileiro", talvez a Carmem Miranda e os macacos ainda o entretenham bastante.  

Love, 
Nina 

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4 comentários

  1. Perfeito!!
    Acabou de virar minha crônica preferida. *-*
    Dei muita risada com o final, hahaha.

    Beijos,
    http://patriciapinheirotextos.blogspot.com.br/

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  2. Mandou muiiiiiiito bem Nina!
    O final então, fechou absurdamente bem! rs
    A menina não perdeu tempo, ela ganhou muito mais que isso. E o motorista, bem, um dia ele vai precisar de ajudar né? Pode dar a sorte de encontrar uma menina igual a essa ou alguém igual a ele.

    Beijos,
    www.miragemreal.com

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  3. É complicado ver que os outros não conseguem nem ao menos se colocar no lugar do próximo, quanto mais sentir uma vontade de ajudar espontânea... Isso dá um desgosto!

    Bom texto :)
    Beijos
    Rafa
    http://luizacsantos.blogspot.com.br/

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  4. Caramba! Mandou muito bem, de verdade! <3

    Um beijo,
    Luara - Estante Vertical

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