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#E o sentido da insônia, sente muito ou sente pouco?

by - abril 18, 2014

Seria um daqueles dias. 
Amália estava aprisionada, encarando a mesma parede há o que lhe pareciam horas. Mergulhada numa espécie de silêncio abafado  mas ao mesmo tempo muito vívido: podia sentir seus músculos responderem à cada pensamento. Pensamentos estes que de calados e cansados nada tinham. Soavam como tiros em noites de inverno, estampidos secos e incrivelmente aterradores. Estava meio que relutante, mas sem deixar de lutar. Queria poder correr, fugir, se esconder deles e se alojar em algum lugar além de sua casa. 
Olhou o relógio. Tic. Tac. 
Tic-tac. 

Seus pensamentos estavam sufocando, e a sufocando também. Estava indescritível, incontrolável, incompreensível. Suas noites perdidas pareciam cada vez mais frequentes. Amélia achara a palavra para descrever suas noites mal-dormidas, anotara no topo de uma página do bloco de notas do pai. Ela achara estar doente, mas era apenas insônia. 
Mas se fosse uma doença, então a criança estava doente. 

In-sô-ni-a
s. f. Falta de sono; vigília. 

Amélia estava obcecada pela tal insônia. Lia até cansar, e fazia seu pai ler até quase adormecer sentado em sua cama. Ele lia as histórias da Narizinho repetidas vezes, esperando que mais cedo ou mais tarde, acalmasse a menina. Precisava entrar num estado de estupor de tão cansada, não precisava? Quem soubesse, se a cansasse do mesmo modo como ela o cansava... 
Mas não adiantava. 
Amélia continuava desperta. Sua cabeça parecia infestada de pensamentos incontroláveis. 
Gostava de pensar nas próprias reinações. Acima de tudo, gostava de pensar num mundo do qual não pertencia. 
Via o mundo, aquele mundinho, do seu jeito. Tentava consertá-lo e melhorá-lo antes de enfim ser vencida pelo sono. Sentia tanto sono. Queria dormir, mas e a insônia? Pegava as mãos de Amélia e a tornava a mantê-la acesa, em constante desordem. A desordem a fazia se desdobrar em três. Cada Amélia remendava uma parte. Ela trabalhava tanto que, depois, não tinha forças para se levantar. O trabalho era penoso. 

Mas ela tinha suas horinhas de descanso. Quando se esquecia do mundinho em suas mãos, era porque estava se aventurando em propriedades imaginárias alheias. 
Raramente pedia licença, já era de casa, uma velha conhecida. 
Desbravar nunca lhe parecera tão empolgante. E cansativo. Sua insônia apenas se repetia. 

Desistira, uma vez ou outra. 
Ouvira seus pais, parara de acumular pensamentos. 
Seu mundinho interno era em demasiado feliz em relação ao externo. Ela não se importava se ele lhe cansava, se não podia fazer uns consertos naquele que via. E a verdade era que, se alguém lhe perguntasse, o mundo que sentia era seu lar. 
Sentir parecia mais importante do que ver.
Seu pai via imensidão azul, mas Amélia sentia a imensidão azul.
Sua mãe via o deserto, mas Amélia sentia o deserto.

Amélia era toda sentidos. 
Sentia aqui, e não deixava de sentir lá. 
Sentia em todos os lugares, de várias formas. 
E se lhe perguntasse o sentido da vida, ela diria: "Ih, seu moço, a vida é é quentinha, como uma cama feita, mas tão fria, também, como o extremo do mundo. Sinto que a vida, seu moço, é uma imensidão azul desértica". 

O sentido da vida era, também, tumultuado. Escorria pelas mãos. A vida, vez ou outra, fugia de todo mundo. 
Mas Amélia sentia guardava um pouquinho de sentido. Porque se não sentia, não sabia enxergar. 
Apesar de tudo, sentia seu coração nublado. 
Inalcançável.
Cheio demais de coisas vazias demais. 
E temia que ele continuasse daquele modo por tempo indeterminado. 
Ah, aquela insônia...


Love
Nina  

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3 comentários

  1. Eu estou tão ocupada que não tenho lido blog nenhum :( Desculpa mesmo flor!
    Mas você PRE-CI-SA me avisar sobre os seus textos quando comentar, porque eu posso acabar não lendo e perdendo isso.
    Achei lindo você escrever sobre a Insônia, o que foi uma grande coincidência pois eu estava pensando em escrever algum texto "noturno" agora mesmo, pois tenho passado várias noites em claro. Enfim, você realmente me inspirou, já que tenho estado extremamente inquieta.
    Para terminar, lindo texto, flor <3
    Beijos com chá!
    www.chadeloucura.blogspot.com.br

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  2. Como dizia meu amadíssimo Guimarães Rosa, felicidade se encontra é em Horinhas de Descuido! <3
    Saudades Nina,
    beijosss!

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  3. A insônia... Ela me persegue também. É uma coisa estranha essa danada. Parece que nosso corpo não quer descansar, ao contrário, parece querer VIVER mais. Como se o dia já não fosse suficiente.

    http://eueminhacultura.blogspot.com.br/

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