10 de abril de 2014

#Resenha: Lolita

Autor: Vladimir Nabokov
Ano: 1955
Páginas: 392
Editora: Alfaguara
Gênero: Romance russo

Já digo que é um dos livros mais geniais que já tive a oportunidade de ler. Fiquei o semestre passado inteiro tentando pegá-lo na biblioteca e, finalmente, no começo deste mês, o consegui. Não consegui lê-lo com a rapidez que imaginava ser capaz - porque eu tenho vida, oi -, especialmente o final, mas essa obra é incrível e muito bem trabalhada. 

Já no prefácio, um tal de John Ray, que é doutor em Filosofia, especula um pouco sobre a história que nos vai ser apresentada e narra como se fosse um fato real. A verdade é que não existe nenhum doutor John Ray: é o próprio autor que escreveu o prefácio e deu a entender que o relato é baseado numa história verdadeira - após o desfecho Valdimir volta a falar e diz que a obra foi inspirada numa peça teatral. Se o prefácio nos confunde? Eu o achei, particularmente, genial, pois nos induz a uma atmosfera completamente opaca, ou seja, você não sabe muito bem o que pode encontrar. 

O romance é narrado em primeira pessoa pelo professor Humbert Humbert que, logo no início, tenta nos persuadir a entender seu lado pedófilo nos apresentando teses e fazendo referências a estudos. Pois bem, para quem não sabe sobre o que Lolita se trata - caso você more numa caverna e tal -, o livro aborda a paixão de um homem já na casa dos 40 anos que está "apaixonado" por uma garotinha de 12. Para Humbert, as meninas crianças, em especial as que têm entre 9 e 12 anos, são todas ninfetas: ainda não desabrocharam completamente. Logo de cara, os leitores entendem que Humbert não pode ser muito coerente, uma vez que ele já passou por alguns tratamentos em clínicas psiquiátricas devido às suas depressões e maluquices. Além disso, um fato que eu adorei é que ele se remete ao leitor como se estivesse conversando com membros de um júri, como se tivesse sido pego em seu crime sexual e estivesse depondo seu relato. 

Após uma das internações em uma clínica, ele volta à rotina e para a casa de um conhecido, onde conhece Charlotte e Dolores Haze, a quem logo apelida de Lolita. Dolores, de 12 anos, e Charlotte (filha e mãe, respectivamente) mantém uma relação de cão e gato, ou seja, nada saudável, sempre com grosserias, berros e bateção de portas. Na minha opinião, Humbert, mesmo que inconscientemente, tentou tirar proveito dessa relação frágil delas para chamar a atenção de Lolita. A princípio, seus "flertes" são quase inocentes - brincadeiras e conversas despretensiosas. Até que ele percebe que, se se casasse com Charlotte, poderia ter Lolita como sua enteada e, assim, vê-la e tê-la para sempre ao seu lado. Dito e feito. Eles se casam - ela, ao meu ver, aceitou a união simplesmente porque é uma daquelas mulheres que não pode ver um homem que sai se atirando pra cima dele - sem muita alegria ou festas. 

Os três fazem passeios ao ar livre, enquanto Lolita está de férias. Num desses passeios, Humbert chega a cogitar assassinar Charlotte, o que me horrorizou completamente, apesar de saber que ele poderia tentar de tudo para ficar só com Lolita. A menina, então, é mandada para uma colônia de férias. Humbert não aprecia, é claro, a decisão, mas dá para perceber que ela apenas é mandada para o acampamento por escolha de sua mãe, que é uma daquelas mães que não tem paciência nem alegria com os filhos, então acha que despachá-la para bem longe é a melhor solução. 

É claro que acaba acontecendo uma tragédia: Charlotte descobre um diário de Humbert, no qual se referia a ela com palavras baixas e escrevia sobre Lolita, e promete que, se depender dela, Lolita nunca será dele. No entanto, Charlotte acaba sendo atropelada e vem a falecer. Tudo isso enquanto Lolita ainda está na colônia de férias. É a partir daí que a história entre a menina e Humbert finalmente engrena, pois ele vai buscá-la e então os dois enfrentam uma viagem de dois anos de carro, completamente sós. 

E o que dizer da Lolita? Muitos veem somente o lado perverso de Humbert, mas a menina, na minha visão, é tão culpada quanto ele, pois, primeiro, não tinha pudor algum de provocá-lo e, segundo, foi conivente com as relações que mantinha com ele. Ao invés de abrir a boca para alguém, ela simplesmente ficou quieta, aceitando tudo. Por um lado, dá para entender: ela tinha acabado de ficar órfã e tinha somente aquele "pai" na vida; entretanto, por mais que ele a ameaçasse, ela deveria ter dito ele abusava dela. É claro que o livro se passa numa época mais distante, talvez essas coisas fossem mais aceitas - não é como hoje em dia que há como você denunciar abertamente coisas desse tipo e tal. Mas, ainda assim, ela foi cúmplice dele o tempo todo. 

A obra é muito séria e muito bem escrita, uma das melhores que já li em termos de escrita. A narração é bem amarrada, embora alguns fatos fiquem meio confusos, talvez porque algumas cenas aconteçam rápidas demais e o autor somente nos dá a entender que tal coisa ocorreu. Mas, quanto a isso não há por que reclamar, pois para mim, foi visto como a própria mente perturbada de Humbert, que tenta registrar tudo, mas é claro que, aos poucos, ele foi embaralhando muitas lembranças. Outro ponto positivo é o humor do autor; não é nada muito explícito nem corriqueiro, no entanto dá para rir em algumas passagens. Dá para entender o porquê Lolita é um dos livros de maior escândalo no mundo da literatura, especialmente porque muitos leitores acharam que haveria muitas partes pornográficas que, na verdade, são bem poucas e, quando narradas, são muito mais "eufemistizadas" e conotativas (palavras usadas no sentido figurado) do que descritivas ao pé da letra. 
"Lolita deveria fazer com que todos nós - pais, educadores, assistentes sociais - nos empenhássemos com diligência e visão ainda maiores na tarefa de criar uma geração melhor num mundo mais seguro".
Love,
Nina 

3 comentários:

  1. Eu não conhecia, acredita?
    Mas quero muito ler, fiquei curiosa.

    www.iasmincruz.com

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  2. Eu fico com pena daqueles que não leem o livro achando que, só por tratar de assuntos muito sérios e talvez proibido, não tem conhecimento. Já ouvi muito falarem esse tipo de besteira. O livro virou o maior clássico dos clássicos e não passa conhecimento algum? Quem disse? Amei sua resenha também! Tenho um amor por Lolita inexplicável, adorei de verdade sua resenha! E o blog, amei como escreves também haha. Tradução, amei tudo!

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  3. Eu já procurei este livro várias vezes, mas nunca o acho nas livrarias. Não sou muito fã de romances incestos, tenho um na minha prateleira que comecei a ler, mas não consegui prosseguir. Entretanto, este pelo fato de ter causado bastante polêmica e ser muito comentado, é o motivo de eu tentar comprá-lo.
    Ótima resenha e bastante convidativa.
    Sucesso!


    sessentaenovecontossecretos.blogspot.com

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