Editado por Alice Gonçalves . Tecnologia do Blogger.

#Olá, melancolia, seu nome é Blue Mary

by - junho 07, 2014

– Você não está tentando – ela me diz, arrastando os All Stars pelo cômodo. 
Não sei como vim parar aqui, acho que a culpa é dela. Será que sabe que esse barulhinho da sola raspando no tablado está me irritando? Bem, eu a conheço. Tenho certeza de que está fazendo de propósito. 
Faz tanto tempo, não é mesmo, querida?
Aqui, você ainda mantém seu cabelo azul-anil. Aquele mesmo que a imaginei pela primeira vez. 
Mas faz, realmente, TANTO tempo. Você vê? É tanto, que não sei mais por que estou usando maiúsculas. Acho que deixei de entendê-la. 
De ser você.
De pensar em você. 
Mentira, Mary. Juro que penso em você. Mas não é toda hora, dá pra entender? 
Eu mudei de ares. 
Você mudou a cor do seu cabelo. E o cortou. 
Essa sua mudança foi demais para mim. Não parece mais a minha menininha. A minha Blue Mary. 
Você tinha razão ao dizer que se parecia com uma personagem de Lucky Star. 
Ah, Mary, me desculpa. 

– Juro que estou! Quer parar com isso? – eu rebato. Estou irritada tanto quanto ela. Por um momento, me sinto você, Mary. Não é estranho? 
Eu acho estranho que eu me sinta tão irritada como você, mas não saiba como continuar a tentar a ser você. 
Será que deixei você no meio do meu caminho?
Juro que não foi a minha intenção. 
Não queria que pensasse que a abandonei. Eu NUNCA seria capaz de abandoná-la. 
Você é minha. 
Minha menina. 
Minha Blue Mary. 

– Então pare de reclamar que NÃO SABE mais me ser. Você SABE como sou, você ME CRIOU, Nina. Volte pra lá e respire fundo – Mary, ao contrário de que previ, não está gritando. Ela está calma. É tão raro vê-la assim. Ela está sempre ou a) aterrorizada, ou b) irritada, ou c) com raiva, ou d) sarcástica. 
Você não ficou calma quando aqueles paparazzis apareceram, nem quando o Dave não retribuiu o seu 'eu te amo'. Você não é uma pessoa calma. Porque você é filha de quem é. 
Você é minha filha, Mary. 
E eu não quero ser calma o tempo inteiro. 
Eu quero ter raiva como você.

– Você acabou de ler essa frase. Você a PUBLICOU na sua timeline. Leia em voz alta. 
– Não consigo. Eu sei que a Lottie tem razão, e foi justamente por isso que acho essa frase o máximo. Mas acho que deixei de ser quem eu era. 
– CARAMBA, SOMENTE GRITE ESSE MALDITO TRECHO!
É bom tê-la de volta, Mary. 
– Quer se acalmar? – eu peço, aflita. Não quero ter de fazer isso, mas talvez seja a solução. Preciso recitar esse trecho pelo resto da noite. 
– Então? – ela cruza os braços e ignora completamente a cadela que está tentando subir na cama. 
Uau, esse quarto parece menor do que eu o imaginei! Sinto-me sufocada aqui. 
Oi, Lady G. Ela parece MESMO um Táz-Mania. Meu Deus, como pude ser tão precisa? 
Eu sou um gênio!
Eu preciso que as pessoas conheçam a Lady G. Que queiram tê-la por perto. E que, também, gostem da dona dela. 
Porque, de forma geral, a Mary é cativante. 
Quem é que não gosta de uma pessoa com o cabelo azul? 
Olho para o chão e recito:
– "Querida, essa é a sua vida. Você apenas se esqueceu dela por um tempo". Satisfeita?
– Você tem que ouvir o que isso te diz, Nina. O que te diz? 
– Quero um plano também. Cadê a Lottie para me ajudar, também? 
Na verdade, sinto que essa conversa seria bem menos assustadora se a Lottie estivesse por aqui. 
– Isso é ENTRE NÓS DUAS. 
Ai.
Essa mania de colocar as palavras em maiúsculo. 
Senti falta disso, confesso. 

– Não queria tê-la esquecido, Mary. Você faz parte de mim. Somos eu e você contra o mundo, lembra?
– Aparentemente, você SE ESQUECEU disso por mais de um ano. Eu quase MORRI por sua causa. O que me faz te perguntar: POR QUE está aqui? Não quer que eu morra?
– Eu nunca quis isso. Quero que as pessoas conheçam você. Você não é uma pessoa muito normal, mas vai ter alguém que vai gostar de você. Assim como o Dave. 
– Você acabou de ler isso, Nina. Ele acha DIFÍCIL lidar comigo. 
– Bem, porque você é você. Entendeu? E você não usa boinas. 
– Tinha que lembrar DISSO?
– Você vive se lembrando disso. Eu apenas me lembrei também. 

É um silêncio incômodo que aparece depois disso. 
Nós nos olhamos, ela ainda com os braços cruzados, exibindo uma expressão nada contente. 
Meu Deus. 
A minha menina está morrendo.
E eu percebo que, se isso acabar, eu vou morrer também. 
– E O QUE acontece agora?  ela quer saber. 
– Eu vou terminar o livro, Mary. Nas férias a gente se vê, tudo bem?
– Suas férias começam em JULHO. Não tenho tanto tempo ASSIM. NÃO VOU ESPERAR PARA SEMPRE.
– Ah, qual é  eu rebato – Você sobreviveu por mais de um ANO. Você está aqui. E as férias estão CHEGANDO. Vê só o que acabei de fazer? Acabei de ser você. EU SOU VOCÊ. Agora eu posso ir embora?
– Você vai TERMINAR o que começou?
– Palavra de escritora  eu assinto. 

Eu não sei por quê, mas sinto que falei a coisa errada.
Eu sou mestre em não terminar as coisas. Em não conseguir colocar um ponto final, definitivo, nas coisas. 
Será que vou conseguir ir até o fim com isso?
Eu a olho e percebo: esse cabelo azul me fez voltar às minhas origens. 
Estou em casa.
E nós vamos terminar essa história, JUNTAS. 



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2 comentários

  1. Hey, Nina!

    Eu amei esse texto, tanto que já reli duas vezes agora! E é engraçado é que eu tenho esses momentos também com minha Annabelle, vira e mexe ela puxa meu cabelo, faz bagunça na minha cama e gente tem altas conversas. Ela até mesmo ficou mal humorada, me xingou pelo fato que to travada em um capitulo que não tenho minima ideia como escrever nele (estou cogitando em pular e continuar meu plano que tenho em outros capitulo)!

    Acho que é rotina de um escritor não? Sempre conversar com seus personagens vendo se eles ajudam a escrever ou lhe dar uma ideia do que pode acontecer! Amei ver que não só eu que passo por isso! <3

    com carinho, Diih!
    http://livroeneblina.blogspot.com.br/

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  2. Me identifico hahaha
    Tenho mil livros inacabados, personagens esquecidos que não devem estar contentes comigo nesse momento.

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