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#Resenha de Livro: Reescrevendo Sonhos

by - abril 25, 2015

Bom, eu pretendia ler e resenhar Reescrevendo Sonhos no mesmo fim de semana, mas acontece que eu estou cada vez mais preguiçosa na hora de escrever resenhas ~ô, tristeza!~ Mas aqui está, finalmente. 

Sou dessas que acreditam no destino. O que é pra ser será. E acredito muito que a vida nos apresenta pessoas com o intuito de nos fazer crescer. Digo isso, porque a Marcia Dantas, a autora de Reescrevendo Sonhos, é uma dessas pessoas que a vida me trouxe. Felizmente, ela é uma pessoa e uma escritora que se desafia, sai da sua zona de conforto, e é por isso que somos muito parecidas. A Marcia luta pela causa LGBT e pela Representatividade de uma maneira tão incrível que se tornou uma das minhas inspirações. Eu realmente nunca vi alguém tão engajado com relação a esses temas e só posso dizer que tenho orgulho e admiração pelo trabalho dela. 

Título: Reescrevendo Sonhos
Autora: Marcia Dantas
Editora: Novo Romance 
Páginas: 213
Ano: 2015

Antes de tudo, devo dizer que esse não é o primeiro romance que leio cuja temática envolve um casal homoafetivo. O primeiro foi Todos nós amávamos caubóis, da Carol Bensimon (que, relendo a resenha agora, percebo que eu negligenciei demais a ênfase à homoafetividade :/) - nem vou computar todas as fanfics femmeslash/yaoi que já li na vida, nem as poucas slash/yuri. Mas, enfim. O caso é que, quando fiquei sabendo de Reescrevendo Sonhos, eu não sabia sobre a temática e quis lê-lo pelo fato de a personagem principal ser escritora. Apenas quando eu e a Marcia começamos a conversar é que entendi que as personagens seriam um casal. E isso apenas serviu pra eu querer ainda mais ler o livro. 

A história gira em torno de Luciana, uma escritora que já está no mercado há algum tempo, mas que, nos últimos meses, tem se encontrado em uma crise de bloqueio criativo. Logo nas primeiras páginas, a identificação com ela foi imediata, pois a narração sobre suas noites em claro e os rompantes de inspiração me chamaram a atenção, especialmente por serem muito verídicos. No começo, já dá pra ter uma ideia de quem é a Luciana, alguém que, internamente, está bastante frágil. Isso imprime certa doçura a ela e, a partir disso, inferimos que ela se encontra em conflitos. Um deles é proporcionado por alguns sonhos recorrentes que a personagem tem tido com uma mulher ruiva. Não fica claro o que Luciana está buscando na mulher, apenas que a conhece. Então, ela resolve tirar proveito dessa situação: começa a escrever uma nova história. 
"Não há sensação pior que acordar no meio da noite procurando por algo que deveria estar ali, bem ao alcance dos dedos. No entanto, não está. E então se percebe a verdade, e se depara com a dor que, até então, achava-se esquecida em qualquer canto do subconsciente"  p. 10.
Uma coisa interessante sobre Luciana é que ela vai à terapia. O leitor não sabe muito bem por que ela frequenta o Dr. Jonas - eu achei que era somente pela má fase na vida dela -, mas, aos poucos, vamos sabendo que houve algo bem sério em sua na vida, algo que a deixou com uma cicatriz (literalmente). Todo está normal em sua rotina, até que o porteiro de seu prédio lhe avisa que uma mulher, que trabalha na editora à qual Luciana é vinculada, está ali para conversar com ela. A moça é Bárbara, a profissional enviada pela editora para que dê um Norte na vida literária de Luciana. Mas acontece que, assim que as duas se encaram, Luciana sabe que a conhece de seus sonhos. 

A Bárbara, ao contrário de Luciana, é alguém com energia e foco. Demais. É o tipo de pessoa que encara a vida de forma muito profissional e metódica. Ela seria o outro lado da moeda, digamos assim. Analisando Bárbara e Luciana juntas, dá totalmente para entender o que a autora quis criar com as personalidades distintas da duas: como casal, elas se complementam. Enquanto Luciana é frágil e fechada, Bárbara é decidida e muito direta. Eu sempre gostei de pessoas que "se casam" com suas personalidades, pois acredito é é mais fácil que uma aprenda com a outra - e também acredito que, num relacionamento, é importante a gente querer crescer com a outra pessoa. 

Bem, acontece que Luciana não tem como fugir, pois já está evitando contatos com a editora há bastante tempo. Então, é inevitável que elas tenham que planejar o convívio, de maneira estritamente profissional (pois, a princípio, a relação delas tem apenas esse intuito). Bárbara tenta retirar Luciana diversas vezes de sua zona de conforto, arrancando-a de casa e fazendo passeios com ela. Luciana, aos poucos, começa a perceber que a rotina incomum a faz trabalhar mais, de modo que sua nova história deslancha. 

Um dos pontos positivos da trama é que o romance que toma forma entre as duas acontece de maneira lenta e gradual, mas sempre evidente nas entrelinhas (entrelinhas, eu amo vocês!). Tudo é muito sutil. Há olhares e nervosismo, coisas assim. É tudo muito subentendido de forma muito bem costurada. 
"No instante em que os olhos de Luciana a encararam, Bárbara soube que tinha cruzado a linha. De novo".  p. 86. 
Eu, que amo essas sutilezas em histórias, achei que, se o romance fosse construído de outra forma, a autora deixaria de "vender" o seu objetivo, que é construir algo puro e sem muitos padrões. Outro ponto que aprovei é que, em momento algum do livro, as personagens se sentem culpadas pelos sentimentos que nutrem. Na minha postagem sobre Literatura LGBT, eu escrevi que abordo essa literatura nas minhas fanfics de forma leve, sem grandes dramas. Parte disso é porque, da mesma forma que a Marcia, quero escrever sobre algo puro, algo que não precisa ser tachado de maculado, e a outra é que acredito que o amor não deve ser sentido a tal ponto que martirize as pessoas e as faça sentir culpadas por ele (não somente falando de relações homoafetivas, como também de relações heteroafetivas). Acredito que, desde que não haja malefício a nenhuma das partes, não há por que existir culpa. E a Marcia conseguiu evidenciar esse ponto de forma sincera e com grande credibilidade. 

Enquanto Luciana e Bárbara vão descobrindo o amor, cada uma tem de lidar com seus próprios problemas. O teor psicológico inserido na trama, especialmente ao que diz respeito à Luciana agrega bastante curiosidade, pois a gente se vê cada vez com mais vontade de saber tudo o que a personagem esconde e por quê. 

Outro ponto cativante é que a autora conseguiu passar o universo adulto de forma muito convincente. E o que mais evidencia isso é que, os personagens secundários ligados às personagens principais são muito desapegados. O ex-noivo de Bárbara não é um cara chato que fica insistindo em reatar. E a mulher com quem Luciana se envolve brevemente durante alguns capítulos é a primeira a dar um empurrãozinho para juntar as protagonistas. 
"– Ainda não entendo por que você está se esforçando tanto, Luciana. Apenas seja você. Deu certo até agora. E, se ela não gostar desse seu jeito, pode ter certeza de que ela não é a garota certa.
Os olhos de Luciana se iluminaram e, em seguida, Bárbara pôde ver uma sombra de tristeza escurecer aqueles orbes.
– A garota certa – foi quase um murmúrio da escritora – Faz a gente pensar, sabe? Será que um raio cai duas vezes no mesmo lugar?
Bárbara, então, resolveu encarar o teto, como se alguma resposta pudesse surgir dali.
– Sinceramente, espero que sim". 
– p. 124. 
Acabei encontrando, claro, alguns pontos problemáticos [atenção: spoilers!]. Primeiro, é que as personagens se beijam pela primeira vez quando estão bêbadas. Além de ser o maior clichê, eu acho bastante injusto esse tipo de situação. Sem contar que abre uma grande lacuna para o depois: as personagens podem se arrepender e a trama ficar ainda mais clichê. Segundo, é que a Bárbara, por ter a postura séria e, por vezes, rude, é muito pouco compreensiva com os dilemas emocionais de Luciana. Notei que diversas vezes que ela quis se impor e acabou me passando a impressão de que estava pedindo demais da outra. E, terceiro, que há uma cena de ciúme bastante boba e desnecessária, que achei, mais uma vez, clichê. (No entanto, isso não interferiu no meu sentimento para com a história, por isso, as cinco estrelinhas). 

Uma reclamação que, acredito, tenho o dever de fazer é quanto à classificação do livro: 16 anos. Claramente, ela é referente à temática LGBT, e eu achei muito desnecessária e ridícula, como se, pelo fato de haver duas mulheres se relacionando, haveria muita sexualidade e/ou depravação - coisa que, em momento algum, acontece. 

A narrativa acontece em terceira pessoa - e, surpreendentemente, eu consegui me envolver bastante -, mas não acompanha apenas a Luciana. E a escrita é absurdamente bem colocada, madura, muito condizente com a proposta do livro. Definitivamente, a escrita da Marcia ganhou mil pontos comigo, simplesmente maravilhosa. 

A diagramação é bastante simples, as letras são grandes e a tipografia é muito fácil de se acostumar. Há alguns elementos visuais, tais como a tipografia diferenciada indicando o número do capítulo (acredito que seja renascentista, daquelas que imitam um pouco o visual manuscrito), "corners" em cada início de capítulo (que, a meu ver, não acrescenta informação alguma) e dois cisnes "se beijando" em cada quebra de narração. 

A capa é um grande indicador da temática sobre escrita incutida no livro, com a imagem da moça com a xícara nas mãos e o livro ao lado (claramente, isso é muito Luciana, haha). As tipografias utilizadas estão ok, embora eu não ache que a que foi usada no nome da autora tenha combinado com a que foi utilizada no título (acredito que, se fosse algo mais pincelado, casaria melhor). 

Ah, preciso dar os parabéns à autora pelo título do livro. Não sei por quê, mas ele me tocou e o achei bastante criativo e muito condizente com a proposta do livro, casou perfeitamente com todo o embate emocional da Luciana. 

Nota: a editora Novo Romance acabou falindo e a Marcia Dantas irá lançar a segunda edição de Reescrevendo Sonhos pela Tribo das Letras.

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*BÔNUS: entrevista com a autora. 


1) Quando e por que decidiu abordar um casal homoafetivo?
De certa forma a história nasceu assim. Quando eu tive o sonho que deu origem ao plot de Reescrevendo Sonhos, a história veio dessa forma. Eu precisava que a escritora visse a imagem de uma outra mulher e que a "materialização" dela acabasse por despertar sentimentos românticos. Na época, no entanto, nunca soube o motivo. Então, no decorrer do processo, descobri o que estava dentro de mim o tempo todo: eu sempre quis escrever sobre mulheres. Eu precisava falar delas, suas inseguranças, medos, jornadas, batalhas e como isso pode acontecer em uma história sem depender de um homem. Desde minha entrada nas fanfics, minha escrita se voltou para isso, mas só com esse primeiro livro e com a entrada do feminismo na minha vida é que percebi que isso sempre foi o que eu quis fazer.

2) O que veio primeiro, durante o processo de escrita do livro: as personagens ou a história e por quê?
Na verdade meu processo é muito engraçado: vem meia dúzia de cenas na cabeça e minha luta é começar a juntá-las como um quebra-cabeça. Reescrevendo Sonhos não foi diferente. Essas cenas vieram e, a partir delas, criei Luciana e Bárbara. Depois fui só preenchendo o restante. É uma fórmula que sempre funcionou muito bem comigo na verdade.


3) Grande parte do conflito de Luciana é sobre como ela precisa aprender a lidar com o subconsciente, então você acredita que ele tem o poder de modificar quem somos e muitas situações de nossa vida? 
Eu acredito, sim, que o inconsciente tem esse poder. Não só por ter estudado isso na faculdade e depois por ter visto uma pessoa na minha família ter tido que lidar com questões psicológicas por coisas que estavam guardadas no mais fundo de seu inconsciente. Isso fez com que eu começasse a refletir sobre mim mesma. E efetivamente vi que muitas das minhas ações, reações, pensamentos e etc. vem de maneiras automáticas, sem eu sequer pensar muito sobre aquilo. Então, quando eu racionalizava e tentava procurar explicações (às vezes, tempos depois) acabava entendendo que determinados acontecimentos em minha vida (reprimidos ou apenas esquecidos) tinham refletido com força sobre aquele fato. A mente é realmente mais poderosa do que nos damos conta.

*Lembrando que o BÔNUS acontece após resenha de livros de autores parceiros. 

______________

Love
Nina 

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12 comentários

  1. Oi Nina, inicialmente eu não daria nada pelo livro, mas a partir do aprofundamento da resenha o meu interesse aumentou e a temática abordada na história me prendeu completamente e me encheu de vontade de poder ler o livro. Espero um dia ter a oportunidade.
    Beijos
    Conversas de Alcova ❤

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  2. Como a Kris, eu também não daria nada por esse livro, se eu o visse em uma livraria e nunca tivesse lido esse seu texto. Pelo título não tem como a gente inferir o conteúdo. E que conteúdo: mulher e homoafetividade tão essencial de discussões numa sociedade ainda tão cheio de preconceitos.
    Espero ter a oportunidade de ler, pois o tema me chama muito a atenção. Se eu fosse escritora, com certeza seria temas que eu abordaria.

    Beijos!

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  3. Olá!
    Já conhecia o livro, mas ainda não tive o prazer de ler. quanto a preguiça de fazer as resenhas, bem-vinda ao clube!
    Estou louca para ler a obra, a autora é um fofa!
    Fico feliz que ela vá lançar pela Tribo das Letras e vou comprar meu original.
    http://www.poesianaalma.com.br/

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  4. Oláá
    Nossa, que interessante, adorei a premissa do livro, nunca tinha ouvido falar sobre mas curti bastante a temática e sua resenha ficou ótima ;)

    http://realityofbooks.blogspot.com.br
    Beijos

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  5. Oieee!

    Olha só nao conhecia o livro, mas adorei a premissa do livro!!
    Adorei a resenha, parabens

    Super beijo
    Gio - Clube das 6
    www.clubedas6.com.br

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  6. Oi Nina

    Faz tempo também rs Nunca li nenhum livro com o tema LGBT por enquanto então não sei muito como me posicionar diante de um enredo como esse, porém achei interessante sua resenha e vejo que esse enredo está começando a se expandir. Espero poder ler algo similar ou mesmo o livro em breve. Um beijo

    Cybelle

    http://www.voandosozinha.tk/

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  7. Olá, tudo bem w
    De princípio, não me interessei muito pela história, mas conforme ia lendo a resenha, não sei... Estou revendo minha ideia. Gostei da entrevista. Acredito que entrevistas com o autor contam muito, e levo em consideração o que o autor diz sobre o próprio livro antes de comprar. E fiquei chocada com "A editora novo romance faliu". É sério? Poxa, que pena... Gostava dela.

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  8. Olá flor. Meus parabéns pela resenha!
    Já li esta obra e simplesmente amei. A autora criou uma história bonita, bela e um romance muito bonito que me agradou bastante. A autora tem uma escrita maravilhosa, mesmo não me emocionado ou me cativado tanto assim. Mas valeu muita a pena.
    Beijos, sucesso.

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  9. Olá querida,
    Gostei bastante da resenha e estou muito curioso para adentrar nesse universo. Algo que me chamou muito atenção foi o título, até pelo momento em que vivo em minha vida na busca do sonho da escrita e de ser pesquisador. Quanto à temática eu nunca li nenhum livro sobre as relações homoafetivas e fico feliz em perceber a literatura sobre o assunto se expandindo!

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  10. Olá!
    Até então eu não conhecia o livro e provavelmente eu não me interessaria por ele, pelo menos não antes de ler a tua opinião sobre ele.
    A capa em si não despertou minha curiosidade e possivelmente isto me afastaria da obra nas livrarias, mas agora que conheço a premissa da obra e as potencialidades, com certeza aguardarei a nova edição e irei adquirir!

    bjs

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  11. Oi, tudo bem?
    Não conhecia o livro, mas fiquei bem curiosa. Eu também já li vários livros e fics com temática homoafetiva, mas sempre com casais masculinos. Seria interessante conhecer o romance dessas duas mulheres.
    beijos
    http://meumundinhoficticio.blogspot.com.br/

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  12. Também admiro muito a Marcia, como pessoa e creio que, assim que ler a obra, como autora também. Já a admiro por colocar personagens que poucos são explorados na Literatura, isso com certeza é um desafio, sabendo como nossa sociedade é com algumas questões. Conheci RS através de uma resenha que li e, bem, o que chamou minha atenção de início foi o fato do livro contar a história de uma escritora que passa por um terrível bloqueio criativo. Sei o quanto isso é terrível e queria ver as angústias desses momentos expressos em um livro, pois, por vezes, por não conhecer muitos escritores (pessoalmente), sinto que sou a única terráquea que passa por esses momentos.

    Bem, depois que soube que era uma história de amor de duas mulheres, fiquei assim: #PRECISO DESSE LIVRO. Nunca li um livro com essa temática, já li contos, mas romances não e como amo sair da minha zona de conforto...

    Acho que nem preciso dizer o que acho sobre a classificação indicativa #CoisaRidícula

    Meu processo de escrita é um pouco parecido com o da Marcia kkkkkkkkkk! Imagino um trilão de cenas e depois começo a coaduná-las.

    Parabéns pela resenha e espero ter tempo para começar a ler esse livro logo. RS está lá na minha estante, me chamando todo vez que o olho kkkkkkk!

    Abraços,
    Karina do blog Eu e Minha Cultura.

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