30 de maio de 2015

#A Máquina de Escrever: reticências e pontos finais

N. L.,

É a terceira vez que me sento aqui e a quarta que penso que necessito de mais café. Abri mais uma vez este capítulo só para espiar e me render ao término. Só para me conformar com o ponto final. Com o seu ponto final. Notei que a história se desgasta com o tempo. Talvez seja sempre assim, certo? Todas as histórias culminam quando o fio que se entrelaçava, de repente, se arrebenta. É claro, há sempre um motivo. E esperei que o meu não fosse como o seu: um remendo, só para dizer que aconteceu. Diga na cara que ele vai acontecer com a força de um furacão, por favor. Não tenha receio do meu acesso de raiva, nem das palavras que, posteriormente, se lançam em pedaços de papéis na tentativa de amenizar o estrago. 

É que ele sempre vem. O estrago, quero dizer. Pode vir fantasiado de culpa, pena ou indiferença, mas dele não há escapatória. Gostaria que todos que estejam perto do fim, perto do precipício, pudessem ter uma rota de fuga, ou um lugar tranquilo, depois, para descansar e botar a vida em ordem. Essa é a parte mais difícil, sabe? Seguir em frente e ordenar o sofrimento. Às vezes, eu o espalho pelo meu dia a dia. Ao acordar, no trabalho, no bar com os amigos. Em parte, é porque tento me livrar dele pouco a pouco e, em outra, é porque lidar com isso leva tempo - não sei superar as coisas em poucas horas; eu rumino o sofrimento por dias, arrasto-o por onde vou. 

Você deve estar numa festa, porque é sexta-feira. Mesmo depois de anos de convivência, você ainda não entendeu que sou do avesso, que não sirvo para enfeitar os lugares e que não esqueço do tempo com uma bebida forte. É essa sua mania de tentar preencher o vazio com mais vazio que me fez enxergar que, apesar da atração, das risadas e dos olhares, não dá pra arriscar quem somos por alguém que ainda está buscando completar-se em vão, em qualquer canto, com qualquer um que passe. Eu sei, você diria que a vida é sua e que, agora mais do que nunca, é melhor eu calar a minha boca com conselhos forasteiros - afinal, eu não tô dentro da sua mente, nem do seu coração. A verdade é que nunca estive, e você sempre soube disso. Se faz diferença? Talvez, fará um dia desses. Talvez, estar do lado de fora seja realmente melhor. Pular dentro de uma pessoa, especialmente de uma que está sempre indo e vindo e que nunca entende que o mundo se guarda num olhar, é suicídio. A gente nunca tá preparado para se ferrar sozinho, no meio da noite, enquanto a outra pessoa se diverte com nossa desgraça. 

Sei lá se, qualquer dia desses, entenderá a importância disso tudo: da vida que você se recusa a enxergar, de mim e da última linha que fecha essa história. Espero que, depois de muitas ressacas, corações abandonados e olhares vítreos, você entenda. E, depois, consiga superar. Estou superando - aos poucos, a cada hora vencida sem me lembrar do seu rosto e dos seus casacos esquisitos no meu armário. 

Eu, que sempre fui reticências, encerro a última linha de nossa história:  

Adeus. Ninguém precisa mais abrir este capítulo e se deparar com o desgaste de amar o vazio. Acabou. Vai embora. Eu já fui. E ponto final. 


Com amor, mas sem esperança alguma,
A Máquina de Escrever.

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O projeto A Máquina de Escrever não tem pretensão alguma de encantar os corações alheios, nem de desmitificar o processo de vivência neste mundo. Sou, simplesmente, A Máquina de Escrever porque não quero levar crédito total pelos efeitos de minhas palavras nas vidas potencialmente desastrosas de quem as lê. Não acredito em finais felizes e espero que você também não. Só quem precisa ter pleno controle de tudo fica atrás disso. Ah, bebo café em demasia e encontrei meu primeiro ponto final, de muitos que ainda virão. Não acredite em tudo que eu escrevo, sou somente um sonhador que quebrou a cara inúmeras vezes e que não sabe guardar a solidão e a incerteza dentro de si. Aventure-se, mas não muito. As coisas nem sempre acabam bem. 

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Gente, só pra esclarecer: esse é um novo projeto de #cartas que comecei. Como sinto muita falta de ter um único personagem que escreve para todo e qualquer tipo de destinatário, criei A Máquina de Escrever. E não se esqueçam que nem toda carta é de amor. 


Love
Nina 

24 de maio de 2015

#Resenha de livro: Para sempre ela

Para sempre ela foi cedido pela autora Flavia Duduch há, digamos, bastaaaante tempo. Na época, eu estava lidando com o fato de não ter quase que nenhum ânimo de ler, por isso, só o fui ler há umas duas semanas. Como eu tinha resenhas na frente, a desse livro acabou ficando por agora. Como podem perceber, não estou mais conseguindo postar de dia de semana (antigamente, eu postava de quarta-feira) e é tudo culpa da faculdade e do estágio. 

Título: Para Sempre Ela
Autora: Flávia Duduch 
Páginas: 256 (versão PDF)

Bem, analisando simploriamente, a sinopse de Para sempre ela tem uma storyline meio comum e até mesmo previsível. Era isso que eu achava, antes de conseguir seguir um ritmo de leitura bom. 

Frank é um médico - pelo que pude entender - bastante renomado no hospital onde trabalha, em Londres. Tem uma rotina maluca e só vive para sua profissão. Hannah é uma comentarista de rádio que, por ordem do destino, acabou de ser ferida ao sair do trabalho e vai parar exatamente nas mãos de Frank. Ela seria apenas mais uma paciente se não fosse uma velha conhecida...

Por meio de lembranças, ficamos sabendo que Frank não era um santo na época da escola e seu alvo preferido para oportunações, juntamente com os amigos, era Hannah. De imediato, ele tem um acesso de fragilidade, no entanto faz a cirurgia da qual a garota necessita. Dias depois, quando ela acorda e recebe alta, convida Frank para um café. E é aí onde tudo começa - ou recomeça. 

A reaproximação não é forçada ou hesitante, é no tempo e na medida certa. Não senti que a Hannah estava com medo da reaproximação, o que foi ótimo. No entanto, Frank se martirizava o tempo inteiro por tudo o que já tinha proporcionado à garota, então, os surtos dele eram constantes. 
"Ela continua sussurrando palavras de conforto em meu ouvido e, quando me beija, para tentar me acalmar, é o momento em que mais me odeio por ter feito tanta merda durante anos com essa pessoa maravilhosa que está fazendo de tudo para me reconfortar".
A Hannah é uma personagem centrada e bem mais firme do que a maioria das "mocinhas" dos livros de romance, algo que me fez adorá-la. Apesar de ela, algumas vezes, aparentar estar confusa quanto ao que sente por Frank (afinal, como se abrir a alguém que já lhe maltratou tanto, outrora?), Hannah não é nada frágil, ou bobinha. O melhor ponto do livro foi justamente esse: uma personagem forte, real e que não é alguém covarde. Em momento algum, ela foge desse amor por Frank. 

Como quase toda história de amor há aquela personagem que dá o empurrãozinho para o casal protagonista de acertar, ou ficar junto de vez. Em Para Sempre Ela, o posto fica com a tia Holly. Ela é tia da Hannah e uma das únicas que sabe sobre todo o sofrimento pela garota na época do colégio, então, age como uma "super-protetora", até que vem com aquele conselho "divisor de águas" para a trama. 
"E o que estou tentando te passar agora é que Frank olha para você do mesmo jeito que Fabian me olhava e... Deus, isso é o tipo de coisa que só acontece uma vez na vida. Ou, pelo menos, duas, se você for uma pessoa muito sortuda (...) Talvez Frank apenas percebeu a mesma coisa que eu percebi quando estava no hospital esperando notícias de Fabian. Que vocês dois existem, é real e é para acontecer". 
 A partir daí, ambos se permitem deixar que o amor entre em suas vidas, mas é de forma bastante sutil. Não é nada explícito, ou exagerado. É claro que, além de existir o passado entre eles, há outro empecilho para que o "felizes para sempre" aconteça (e vocês vão ter que ler, porque é spoiler xD). Não mencionarei esse empecilho, mas aponto que não o achei natural na trama. A mim, pareceu um pouco nonsense e um "remendo", para que a história rendesse um pouco mais. Ainda assim, isso não me fez desagradar o livro. A história, apesar de ser retratada por um casal de adultos, me pareceu ser um YA, por causa das situações que pareciam ser de livros adolescentes. Não que fossem mal escritas, mas pareciam cenas tipicamente clichês juvenis. 

Gostei bastante da forma como a autora escreve, apesar dos erros de revisão (muita confusão nos tempos verbais, em especial) e de fatos. Acho que faltou um pouco de pesquisa na hora de formular algumas coisas, mas, claro, nada que vá impedir a leitura. A única coisa que me incomodou foi o fato de muitas frases serem longas demais e acabavam se tornando parágrafos; isso, infelizmente, me confundiu muito no entendimento da trama. 

Há presente e passado sendo narrados constantemente, o que me agradou bastante. Gosto muito da utilização de flashbacks, e isso não me incomodou nem um pouco, pelo contrário, acho que enriqueceu a trama. Frank e Hannah narram intercaladamente, e foi uma coisa que adorei (já que eu mesma faço isso em muitas histórias). Ah, como li o livro por PDF, a diagramação não estava muito boa (o texto não estava justificado, o que me dá muito nervosismo de ler nesses parâmetros). A capa é uma fofice, como podem ver, me agradou bastante - é, basicamente, um resumo do que vão encontrar na história. Adorei a oportunidade de ler Para Sempre Ela, no entanto, ele não me marcou muito. Ainda assim, é um livro muito leve e muito rápido de ser lido, acho que todas as meninas românticas vão gostar bastante dele! ;) 

Nota 1: a autora ainda não publicou sua obra, mas, estará disponível a partir do mês que vem na Amazon! 

Nota 2: a autora está participando da Antologia De Repente Nós, da editora Andross, com o conto "Primeira vez". O lançamento será dia 30 de Maio. Um trecho dele é este: 



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*BÔNUS: entrevista com a autora.


1) Alguns escritores se inspiram em pessoas e histórias reais para escrever as suas próprias. No caso do seu livro, que inspiração lhe ajudou a escrever a história de Frank e Hannah?
Não cheguei a me inspirar em pessoas e nem em histórias reais porque o que me inspirou foi a minha viagem que fiz a Londres em novembro de 2013.

2) Qual foi a parte mais difícil e mais fácil durante o processo de escrita?
A parte mais fácil foi ter a ideia, fazer o rascunho para, apenas Julho de 2014, começar a escrever. E quanto aos capítulos finais, sempre os considero a parte mais difícil. O começo e o meio fluem muito bem, mas sempre encontro dificuldade na conclusão. No entanto, consegui terminar de escrever Para Sempre Ela em um mês, nas férias.

3) Por que decidiu ambientar a história em Londres? Os nomes estrangeiros dos personagens vieram antes ou depois de você decidir sobre a localidade da trama?
Decidi ambientar a história em Londres porque foi lá onde eu estava quando tive a ideia para o livro, em novembro de 2013, e os nomes surgiram ao mesmo tempo que eu tive a ideia da história.

*Lembrando que o BÔNUS acontece após resenhas de livros de autores parceiros. 

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Love
Nina  

18 de maio de 2015

#Resenha de livro: Por entre caminhos de pedra

Trago mais um livro de poemas <3 
Esse eu recebi por uma amiga, pois o escritor do livro é o pai dela. E, como eu não costumo recusar leituras, aceitei. Infelizmente, demorei a pegá-lo para ler, mas quando sentei para desfrutá-lo, li-o em duas noites. Apesar de ele estar em PDF, não me incomodei muito com isso. 

Título: Por entre caminhos de pedra
Autor: Marco Antônio Sabará
Editora: Clube de Autores
Páginas: 156
Ano: 2015

Por entre caminhos de pedra é uma compilação de poemas escritos entre os anos 2002 e 2011 (como dá para entender na própria capa, rs). O livro é dividido em quatro partes: Sonetos e Companhia (contendo  primeiro ato, segundo ato e terceiro ato), Cantos da indústria, Pequeno dicionário das efêmeras coisas e Versos avulsos e outras miudezas. Há um prefácio/biografia que ainda não decidi se foi, ou não, uma boa ideia. Se essa parte fosse mais pontual, falando estritamente de forma biográfica com a qual estamos acostumados, teria sido ótimo. Mas o autor inseriu toda a vida dele nessa biografia e muitos fatos são desnecessários e insignificantes para a compreensão dos poemas. 


Pude entender que o autor, com esse livro, quis exaltar sua família e todo o amor que sente por ela, pois há fotos inseridas da mulher e dos filhos. Há, também, a exaltação por sua terra, sua infância, sua saudade do passado representadas, também, em imagens. As fotografias serviram para "quebrar" um pouco o ritmo da leitura, mas de forma enriquecedora. A pessoalidade do autor, a todo instante, estava naquelas páginas, o que funcionou de forma positiva e negativa comigo. Positiva, pois foi como ler a essência dele, cada parte especial de sua vida e tudo mais. Negativa, pois creio que isso se tornou maçante depois de um tempo. Foi como se ele não quisesse que o leitor saísse daquele cerco que é e foi a vida dele, e a minha maior motivação ao ler poemas é sair um pouco da mesmice do cotidiano, de transcender o lugar-comum, e o autor pouco ofereceu isso a mim. O melhor da poesia é que ela, a meu ver, se torna um pouco de fantasia. Há sempre aquela elevação espiritual e Por entre caminhos de pedra me fez fincar os pés bem firmes no chão, impossibilitando que eu me sentisse enlevada pelos versos lidos. 

Os poemas, em si, são muito ricos e, como dito, falam muito da vida e, também, das crenças do autor. Não consegui me apegar a nenhum poema por inteiro de forma realmente visceral. Algumas estrofes conseguiram despertar minha compaixão, mas são muito específicas. Dois pontos me incomodaram muito durante a leitura: as reticências assíduas e as palavras pouco usuais. Óbvio que não há a maneira correta de se escrever poemas, mas as reticências me irritaram demais, porque parecia que quase nenhuma ideia exposta carregava certeza ou completude. Eu sempre prezei a escrita "rebuscada", pois já tive muitos problemas com livros escritos de forma simples (à exemplo dos livros do Nicholas Sparks; foi majoritariamente devido a isso que acabei desistindo de acompanhar seus novos livros), no entanto, o autor de Por entre caminhos de pedra exagerou um pouco nos vocábulos pouco usuais e isso me provocou certa irritação. A meu ver, a poesia não necessita de grandes e difíceis palavras. Ela é simples como uma nuvem. Quanto mais simplicidade se emprega nos versos, mais bonitos eu os acho. E as palavras desconhecidas contidas nesse livro, muitas vezes, me fizeram desanimar na leitura. 

De modo geral, não consegui nutrir nenhum sentimento em relação a esse livro, pois os temas abordados - família, passado, Deus - não condizem com a minha realidade. Ainda assim, não poderia deixar de ressaltar a riqueza das rimas e da inversão da ordem direta das frases (coisa que amo quando um autor sabe fazer bem!). Os poemas retratam com um pouco de rudez lembranças e com suavidade quando falam sobre amor. Creio que, se o autor tivesse "saído" de sua realidade, eu teria apreciado mais - no entanto, perderia a essência do objetivo dele. Enfim, há uma dualidade quando penso criticamente neste livro, uma vez que ele me cativou em alguns pontos, mas deixou a desejar em outros. Só posso dizer que as pessoas têm de conferi-lo por si mesmas para encontrar um equilíbrio acerca dele - eu, claramente, não encontrei o meu.

Alguns poemas: 



Ressalto que o título "Não é o fim, apenas parte do percurso" foi a frase mais especial que encontrei durante a leitura e é algo que não me sai da cabeça. Ela é simples e guarda um mundo de significações, me deu muito a pensar!

Algumas imagens (que acompanham alguns versos): 
Escolhi essas duas, pois creio que falam bastante sobre quem é o Marco Antônio e sobre sua saudade ainda guardada dos lugares fotografados. 

A diagramação está bastante boa, uma vez que no Clube de Autores é o próprio autor que cuida disso. Gostei muito da cor usada no interior do livro e a identidade visual que ela criou. A capa é bastante simples, mas creio que, se ela tivesse seguido a identidade visual utilizada no inteiro (a cor azul), teria feito mais sentido. Mas, de forma geral, a capa é bastante condizente com um livro de poemas. E a imagem escolhida nesses tons de sépia valorizou muito a capa e conseguiu expressar exatamente o sentimento abordado na maior parte do livro.

Agradecimento especial à Camila Sabará, do blog Things of Mila, que me concedeu o PDF para a leitura. Obrigada pela oportunidade, flor! :) 

Love
Nina 

15 de maio de 2015

#Vasto mundo que deságua no infinito

Amélia se calara há algum tempo. A morada se tornou silenciosa por dentro e por fora. Nenhum ruído, nenhuma reclamação, nenhum grito. Nada. Silêncio predominante. O mundo rodava, sua mãe estendia a roupa lá fora, Zé desaparecido, Dona Mari na cerca velha. 

Suspirante, a criança deixou a casa. Ouviu a mãe cantarolar qualquer canção perdida no tempo. O sol batia no descampado, fazendo-o brilhar. A terra estava quente, ninguém se aproximava do quintal. O mundo lá fora estava em sua comum ordem  todos continuando algo. E Amélia tentando desfazer suas continuações, parada na soleira da porta, observando o que o meio havia lhe dado. De fato, havia pouco. Ali fora, o mundo era nada  pequeno, carente e mensurável numa colher de chá. Do avesso, o mundo de Amélia desaguava em rios e, neles, corria para a imensidão eterna. Às vezes, era represado em comportas pequenas e ali ficava até conseguir avançar para outro lugar, um que fosse mais acessível à imensidão libertadora. 

Amélia sabia que a imensidão libertadora era pouco conhecida. Se existia, ela nunca a vira, nem sentira. Havia a imensidão eterna  imponente, que prenunciava todos os seus males e afeições. Ela se entregava ao imediatismo, sentindo-se aliviada por meros segundos, enquanto avaliava suas chances. Chances, essas, que mal eram verdadeiras. A criança as agarrava, mas, teimosas, escapavam dos pequenos dedos. As possibilidades se esvaíam pelos temores, pelas desilusões, pelas incompreensões de felicidade. Chegou a achar, certo dia, que o mundo pouco lhe servia  onde estavam as suas chances de libertar o que lhe mantinha presa? Todos aqueles sentimentos revoltos, consumindo seus pensamentos, terminando com suas esperanças. 

Não havia quem culpar senão a si própria. Se a confusão a atormentava, era porque deixava que isso ocorresse. Dava-lhe carta branca para bagunçar o que for. E, bagunçada, ela vivia, mesmo que doesse, mesmo que a angustiasse  já tinha perdido o controle do mundo que lhe fora concedido. E como remontar a ordem? Ela não sabia. Já tentara deixar que as palavras a guiassem, que o sono a acalmasse e que seu silêncio lhe proporcionasse alguma resposta. Nada. O tormento continuava agarrado a ela, sem espaços, sem qualquer escapatória. 

Avançou, sabendo que Dona Mari a esperava. A velha a esperava não porque tivesse soluções, mas porque era a única que sabia ler os olhos das pessoas, sabia revelar a tristeza e sabia evocar a alegria delas. Dona Mari assistiu ao longo dos dias aquelas orbes ameliadas, pesadas, encobertas pela derrota. Amélia era um fantasma do que já fora um dia. E a criança sabia que o mundo a fizera assim e que ele, com toda a sua graça, estava vazio, finito, clichê  uma representação do que costumava ser. 

Dona Mari lhe sorriu, a boca contorcida numa espécie de rasgo na face, a pele repuxada e seca. As mãos, uma cópia exata do sorriso, ansiavam o rosto da menina. Ainda em silêncio, Amélia concordou com o contato áspero, mas preciso. A velha ajeitou os cabelos da criança e segurou seu queixo. Olhou, olhou, olhou de forma demorada, até que a voz rouca sentenciou:
 Seu vasto mundo deságua no infinito, sabia? Corre por entre todas as coisas. 
 É que tá tudo errado, Dona Mari  a voz de sino perdeu a força no meio das palavras e o silêncio se tornou mais presente. Tentou se afastar, dizer que se enganara, mas não pôde. Mentia para si: vai passar, vai passar. Mas Dona Mari entenderia a mentira e saberia que nada ficaria bem. 
 Tudo o quê, criança? 
 Aqui dentro, entende? O mundo que existe em mim é desencontrado. Perdido que só ele. Não sabe o que fazer, não saber para onde ir. 
 E para onde você quer ir, Amélia?
A velha esperou a resposta. 
 É que eu ainda não achei a minha rota. Tô perdida também. 
Elas se encararam. O sofrimento abatido daqueles pequenos olhos não escondia quem a criança era: alguém que pouco sabia sobre a vida e que expectava muito. Esforçava-se para ter algo, sem saber o que procurava. 

Amélia recuperou seu silêncio e, ainda desencontrada, voltou para sua morada sem saber qual seria sua próxima chance de encarar a vida. 
Reencontrando seu vasto mundo infinito, entendeu que a finitude da vida desaguava na bagunça na qual se encontrava. 


É que eu desisti de me encontrar, 
minha rota ficou perdida em algum infinito por aí.
Nina 

9 de maio de 2015

#Book Tour: Os Sonhos de Rita

Então, gente. Sei que eu fechei diversas parcerias para esse semestre e que a leitura está fluindo bastante devagar. Estou terminando Para Sempre Ela, da autora parceira Flávia Duduch, e já acabei um livro de poemas, chamado Por Entre Caminhos de Pedra, que me foi concedido por uma blogueira. Além do mais, uma amiga da faculdade me emprestou No Mundo da Luna, da Carina Rissi, e estou tentando terminar As Meninas, da Lygia Fagundes Telles. Peço paciência. As resenhas estarão publicadas em breve! 

Entretanto, mesmo que eu esteja em meio ao caos literário, a Gislaine Oliveira não deixou de me incluir no Book Tour de seu segundo livro: Os Sonhos de Rita. Eu já havia lido Justa Causa (resenha AQUI), mas estou esperando para ler seu segundo romance há muito tempo, pois foi por causa dele, na verdade, que me interessei pelo trabalho da autora. 

Sinopse: Prever o futuro em sonhos era um dom divertido para Rita. Até ela sonhar com o próprio casamento, cujo noivo não é Felipe, seu amado namorado. Ao saberem disso, os dois partem junto com os amigos numa jornada para mudar esse cruel destino. Mas tudo se complica quando Rita conhece Thiago, o noivo.












Alguns quotes: 
 – Porque eu não posso te perder, Rita. Se eu te perder, perco a mim mesmo.  
– O futuro é incerto, Rita. Tudo o que eu vejo pode mudar. Seu futuro, entretanto, é o futuro mais escuro que eu já vi. 
– Rita, eu nunca vou embora, entende? Nunca! Você será sempre minha, e eu, sempre seu. 
Minha vida tinha se transformado numa tentativa desesperada de não perder Rita. Nem mesmo por um segundo. 

 SOBRE A AUTORA: 
GISLAINE OLIVEIRA tem 21 anos. É autora dos romances Justa Causa (publicado independente pelo Clube de Autores) e Os Sonhos de Rita (publicado pela editora Novo Romance). Blogueira do blog Profissão Escritor e redatora freelancer. Sempre gostou de escrever, mas foi apenas nesse ano que resolveu dar seu grito de independência e então abandonar o sonho dos pais para viver o seu.
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Resenha em breve! Aguardem! ;) 

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Love
Nina 

1 de maio de 2015

#Resenha: Vaga Música

Eu nunca fui grande fã de poemas. Sempre pensei que não os entendia e que nunca seria capaz de escrever os meus próprios versos. Lego engano. A reviravolta aconteceu quando li Mosaicos, um livro de poemas da minha querida amiga Michelle C. Buss. A partir daí, comecei absorver a beleza e a unicidade que é a poesia, até mesmo deixei que alguns versos me encontrassem - e os transformei em poemas próprios <3 

Bem, eu encontrei Vaga Música, da Cecília Meireles, completamente por acaso. Há alguns dias, eu fiz um teste para saber qual livro nacional eu seria (sim, eu sou viciada em testes haha!) e o resultado deu Antologia Poética, do Carlos Drummond de Andrade. Fiquei super feliz, pois não conhecia o livro e também porque nunca achei que eu fosse ser associada a um livro de poemas. Fui eu, bem animada, procurá-lo na biblioteca da PUCRS. Tenho o costume de folhear os livros antes de levá-los, por isso repeti meu ritual com este. E lá veio a minha decepção: acabei não me identificando com os formatos dos poemas do Drummond, no entanto, na mesma seção, vi uma lombada lilás escrita "Cecília Meireles". Pronto, eu tinha achado Vaga Música. Folheei-o, também, e gostei do que vi. Levei-o no mesmo instante e o li na mesma noite. E, assim, o meu amor por poemas se intensificou ainda mais! 

Acho que todo mundo que já teve algumas aulas básicas de literatura contemporânea conhece a Cecília, pelo menos de nome. Confesso que eu nunca tinha parado para ler um livro dela e adorei que este primeiro tenha sido tão leve e cativante! 

Título: Vaga Música
Autora: Cecília Meireles
Editora: Global Editora
Páginas: 176
Ano: 2013 - 2a edição
                                                           ★

Vaga Música foi publicado em 1942 e traz um lirismo profundo, que muito diz sobre a autora e suas experiências pessoais. Há muita metáfora em suas palavras, coisa que me fez adorar muitos de seus versos. Ela coloca sentido em coisas abstratas - como o amor, a saudade e a despedida - através de substantivos concretos, como o mar, as flores, as nuvens, as pedras, o céu, a lua. Isso foi o que mais apreciei em sua poesia. A musicalidade é inerente aos poemas de Cecília, tanto é que muitos dos títulos trazem a palavra "canção" - e são cheios de ritmo e sonoridade cadenciada. 

Alguns poemas são bastante reduzidos (como Ritmo, Epigrama, Canção Mínima etc), porém, há outros que ultrapassam quatro/cinco estrofes (como Naufrágio Antigo, Da bela adormecida, Alucinação etc). Gostei de poucos poemas inteiros, no entanto. Os que gostei foram esses: 



Durante a leitura, percebi que gostei mais de estrofes avulsas, não de poemas específicos. Percebi, também, muito de mim nas palavras da Cecília. Diversas vezes, lia uma estrofe e pensava que aquilo era "muito eu" e que eu mesma poderia ter escrito aquilo. Aliás, fiquei muito feliz por detectar muito do estilo dela nos poemas que tenho escrito. Algumas estrofes: 



Gostei muito de a autora ter inserido parênteses e travessões em alguns versos, acho que, por mais que eles "quebrem" o ritmo da leitura, funcionaram muito bem em alguns aspectos, como dar ênfase em certas ideias transmitidas. A rima varia bastante. No princípio, achei que o livro inteiro seria composto por ABAB, mas a miscelânea de tipos de rima é bastante rica. Percebi que depende muito da proposta de cada poema, na verdade. Nunca fui muito boa em rimas e, por isso mesmo, admirei o intenso trabalho de Cecília em Vaga Música. No entanto, os versos rimados se complementam de maneira natural e sem esforços. 

O lirismo contido neste livro, ao mesmo tempo em que é encantador e leve, é muito intimista e melancólico. Há muitas interrogações que costuram seus versos, que, ao invés de fazer com que o leitor mergulhe em perguntas sem respostas, apenas dá a sensação de que, por detrás de cada inquietação da autora, existe muita certeza humana em sua alma, que é desnudada aos poucos ao longo deste livro. Temas como a fugacidade do tempo, a precariedade da existência e a efemeridade das cenas cotidianas são muito bem explorados. O tema que mais gostei de ler foi sobre a solidão, que, por vezes, é ressaltada. A relação entre a solidão e a vida é algo que há muito em mim - creio que sem a solidão, eu nada seria - e percebi que essa questão é também retratada e sentida nas palavras da autora (infinitos pontos extras para ela, por isso <3). Devido a isso, senti-me muito próxima dos sentimentos expostos em cada poema. Aconteceu, também, uma identificação quase que imediata quanto aos versos lidos. 

Só posso dizer que Vaga Música se tornou meu segundo livro preferido de poemas. Nunca achei que fosse me apegar a poemas desse jeito, mas aconteceu de forma muito natural. Com certeza, vou procurar outros livros da autora e dar continuidade à leitura de seu trabalho, pois a técnica e a habilidade dela me surpreenderam bastante. 

A capa me cativou de imediato, por causa da cor. Como dizem meus profs de Planejamento, uma cor te remete a algo e esse lilás/roxo me remeteu a algo muito intimista e acolhedor, logo de cara. A imagem das mulheres (presumo que sejam mulheres) tocando esse instrumento (que não sei qual é; apenas sei que não é um violão) traduz com muita perfeição e lirismo a musicalidade contida no livro. E o que falar do título? Não poderia ser outro, ponto. 

O livro, na verdade, é "dividido" em algumas partes. Há um espécie de prefácio escrito por João Cezar de Castro Rocha (que é professor no Instituto de Letras da UERJ) antes dos poemas. Nesta parte, João explica um pouco sobre a relevância de Cecília na literatura lírica brasileira e, também, sobre a poesia da autora se baseando em alguns versos que podem ser lidos no decorrer do livro. Aí, os poemas entram e somente acabam com uma parte chamada "cronologia", que expõe uma linha do tempo da vida da autora. Por último, há um sumário com outros poemas que não entendi se são, ou não, da autora. 

Acho importante falar um pouco da trajetória da escritora (muitas informações foram retiradas da linha do tempo disposta no próprio livro): 

Cecília Meireles nasceu em 1901 e foi a única filha sobrevivente do casal, que teve quatro bebês. Aos quatro anos, perdeu a mãe e passou a ser criada pela avó materna. E 1917, ela começou a exercer o magistério primário e, em seguida, ingressou no Conservatório de Música. Em 1919, publicou o primeiro livro, Espectros. A partir daí, Cecília começou sua carreira como escritora com livros não somente de poemas, mas também infantis e infantojuvenis, e com teses e ensaios para revistas e jornais. Em 1938, conquistou o prêmio Olavo Bilac de poesia da Academia Brasileira de Letras com Viagem. Seus livros foram publicados também em Portugal. Até 1964, ano de sua morte, livros inéditos da escritora eram publicados a cada ano, praticamente. No ano seguinte, conquista, postumamente, o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra. 


Em breve, vou trazer meus poemas pra vocês, o que acham? :)

Love
Nina