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#Resenha de HQ: Azul é a cor mais quente

by - julho 03, 2015

Para essas férias, eu fiz uma programação de postagens para o blog, para organizar tudo o que ficou para trás. Mas eu não poderia imaginar que uma alma caridosa, no Clube do Livro, disponibilizaria o PDF da HQ de Azul é a cor mais quente para quem quisesse ler. E, com isso, a minha programação teve que ser burlada, ops! Decidi fazer a resenha da HQ, porque 1) nunca fiz resenha de HQ na vida e 2) é uma oportunidade para comparar com o filme (resenhado AQUI). 

Título Original: Le bleu est une couleur chaude
Autora: Julie Maroh
Editora: Martins Fontes
Páginas: 160
Ano: 2013
+ 

A HQ e o filme são parecidos (têm a mesma storyline central), mas há muitas diferenças. O começo é uma delas. Na HQ, o leitor pode se encontrar um pouco perdido nas primeiras páginas, pois elas são a continuação do final. O início apresenta Emma na casa de Clementine (que, no filme, chama-se Adèle, já que o título original é La Vie D'Adèle - "A vida de Adèle"). Não fui procurar informações para saber por que o nome da personagem foi trocado, mas não altera em nada a compreensão das histórias. Emma começa a ler o diário que Clem tinha deixado a ela e, enquanto trocam de cenas, podemos ver a interação dela com os pais de Clem. A mãe dela é bastante afável com Emma, enquanto o pai não é nada gentil. Entendemos, então, que o diário foi passado à Emma, pois Clem faleceu. 

O diário oferece à Emma e ao leitor a chance de entender quem foi Clem. Assim como no filme, a personagem sente-se muito deslocada e angustiada em diversos momentos. Mas, ao contrário do que ocorreu com o filme, eu pude entender e me identificar muito com a Clementine da HQ, porque essa versão da história é muito mais sensível e humana. 

Para conseguir comparar a HQ com o filme, vou levantar algumas questões que aparecem em ambas as versões, acho que assim vocês vão poder entender mais por que digo que a HQ despertou um amor eterno em mim. 

1) As personagens
Em ambas as versões, Emma é a personagem com mais personalidade. Não apenas porque ela aceita sua sexualidade de forma completa, mas porque sabe lidar com questões adultas de forma madura, à exemplo de sua profissão. Já a Adèle/Clementine é alguém perdida mergulhada na solidão e não sabe o que fazer com ela. No entanto, na HQ dá para entender muito mais o porquê ela se sente assim. No filme, apenas parece que ela não sabe o que fazer com a solidão que carrega e, por causa disso, se joga em qualquer nova sensação, apenas para se sentir menos solitária. 

2) A reação dos pais de ambas as personagem em relação à homossexualidade.
Em uma conversa entre Emma e Clementine, na HQ, Emma cita sua mãe e diz que aprendeu a se aceitar especialmente porque sua mãe a aceitou primeiro. Já a mãe de Clementine é completamente homofóbica, o que deixa Clem com o pé atrás, especialmente devido ao que começa a nutrir por Emma. No filme, essa questão não é abordada nenhuma vez. 

3) O preconceito
Em ambas as versões a cena da briga entre Adèle/Clementine com suas colegas acontece, mas no filme é mais intensa e chocante. Porém, é a única cena que apresenta ao espectador o preconceito. Na HQ, isso é melhor explorado, e é representado até mesmo vindo de Clementine. Como ela está batalhando consigo mesma por causa do sentimento que sente por Emma, há momentos em que ela se mostra tentando aceitar isso e, em outros, que apenas deixa claro que, por ora, não é capaz de lidar com a confusão na qual se encontra. 

4) A retratação da homossexualidade
Como supracitado, no filme, a meu ver, Adèle/Clementine é alguém perdida mergulhada na solidão e, justamente por isso, a relação que ela teve com a Emma nada mais foi uma reação a essa solidão constante que sente. Foi fácil chegar a essa conclusão depois da traição: como Emma, depois daqueles anos, se tornou alguém tão familiar a Adèle, ela quis experimentar novas sensações. A solidão da personagem é algo muito presente e me fez entender que ela se apaixonou, sim, mas não porque é lésbica, ou bi; mas apenas porque precisava sair daquela cova emocional. Em momento algum do filme, ela entra "em crise" por estar amando outra garota. Já na HQ, essa questão é melhor trabalhada. Clem se vê frente a várias perguntas relacionadas a sua sexualidade. Ela está ciente do que sente por Emma, mas, talvez por causa do preconceito, relute a aceitar isso. Há uma cena que me chamou atenção, que é desenrolada devido à Clem querer firmar a relação com Emma, mas Emma estar em dúvida, porque acha que Clementine vai largá-la por qualquer outra pessoa (mais especificamente, por um garoto). Isso me fez pensar um pouco sobre todo o preconceito que acontece com as pessoas bissexuais, pois um dos estigmas sociais formulados é que todo bissexual não é fiel e que, se a pessoa está com uma garota, vai trai-la por causa do um garoto. Essa cena retratou muito bem isso e me provocou certa tristeza, porque creio que é muito difícil desconstruir as questões relacionadas à sexualidade, mesmo que, hoje em dia, as pessoas debatam muito mais sobre o tema. 

A HQ passa uma veracidade mais simbólica em relação ao tema abordado. O aprofundamento de certas questões é muito valorativo e, por causa disso, mesmo após a leitura, é fácil se pegar pensando nelas. Os diálogos são muito convincentes e naturais, o que cria uma atmosfera de acolhimento. A memórias escritas por Clem no diário apresentam sua solidão e melancolia e nos aproxima demais da personagem. Ela é muito bem explorada e trabalhada, o que me deixou com a sensação de que estava lendo um romance. O mais legal de ter tido a oportunidade de ler a HQ foi poder acompanhar visualmente as reações das personagens. Enquanto que, em um romance, os leitores imaginam os gestos e as expressões faciais, na HQ é tudo muito imediato, e é uma experiência muito divertida e incrível. 

A arte está linda. As personagens são muito diferentes das imagens que já estão fixadas das atrizes do filme, mas não me deixou desanimada, pois entendo que as mídias são diferentes. Recomendo a HQ mesmo a quem não assistiu ao filme. Acho que, na verdade, é melhor ler a HQ primeiro, pois ela é mais "completa" e encantadora. Super me apaixonei por essa versão, pois foi super rapidinho de ler, mas mesmo assim não me fez sentir "vazia", como algumas vezes aconteceu enquanto eu assistia ao filme. A HQ é mais intensa no que toca às questões que realmente importam em relação à descoberta da sexualidade e nos faz pensar sobre toda essa construção social que é imposta às pessoas. O amor é tratado realmente como amor, não somente como atração, na HQ, e me deu certo alívio perceber a importância desse tipo de tema e a representatividade que ele gera na sociedade. 









Love
Nina 

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12 comentários

  1. Oláá
    Já ouvi falar tanto no quadrinho e no livro e falam que sou igualzinho a Adele no filme haha o sorriso e tudo mais, espero poder ler em breve e tirar minhas próprias conclusões, adoei a ilustração e as frases.

    Beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

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  2. Só vi o filme, que me encantou imensamente. Lendo uma da frase das imagens que você colocou no post: "... os caminhos para o amar são múltiplos." Acho que essa frase exprime bem minha compreensão do filme. Acho que a gente só se liberta das amarras sociais quanto toma para si esse conceito sobre o que é amar: as múltiplas formas de amor.

    Beijos

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  3. Olá,
    Eu sempre leio algo a respeito do filme e dos quadrinhos, mas não cheguei a ler nenhum dos dois e confesso que não tenho muita vontade, simplesmente não é meu estilo de história favorito, mas todos elogiam muito a sensibilidade e etc...
    Beijos.
    Memórias de Leitura - memorias-de-leitura.blogspot.com

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  4. Que resenha perfeita, querida!
    Ainda não li a HQ, mas como não consigo ler muito pelo PC, vou comprar, e quero comprar como você fez, como na HQ a questão da homossexualidade é melhor trabalhada, vou iniciar a leitura o mais rápido, pois adoro fazer leitura comprativa.

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  5. Confesso que não sou fã de HQ, eu mesma curto muito a Serie TWD, mas há quem diga que os HQs são melhores, porém, eu já comecei assisti-lo como serie..rsrsrs
    O filme já tinha ouvido falar, mas ainda não assistir, mas através dessa resenha, me deu vontade de assistir e quem sabe leria também, tentar ler né o HQ....
    Parabéns Minha Flor!!

    www.devoreumlivroeoufilme.blogspot.com.br

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  6. Olá! Tenho muita vontade de conhecer essa história, tanto o filme quanto HQ. Gostei muito do seu texto e das comparações que fez com a adaptação, me deixou ainda mais curiosa. Parece ser uma história muito bonita, sensível. Assim que puder, darei uma chance. Beijos!

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  7. Oi Nina,
    Confesso que não vi o filme... mas adorei a ideia da HQ.
    Essa onde da mesma história em filme, HQ, livro... é muito legal e abrange mais leitores.
    Me interessei mais em ler os quadrinhos do que o livro ou ver o filme rs, acho que foi sua resenha que fez isso.

    Coração Leitor

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  8. Oi oi!
    Que legal que tem HQ, eu não sabia. Apesar de nunca ter visto o filme, já ouvi falar, e amei saber dessa HQ.
    Gostei de saber que a história é mais completa e é melhor ler primeiro, acho que é isso que vou fazer. De cara esses pequenos "trechos" que você trouxe mostram que realmente a arte toda está linda.
    Espero poder ler em breve! Beijos!

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  9. Ola Nina adorei as ilustrações, o tema abordado de forma simples e real, deve ser lido por todos, para afastar esse fantasma do preconceito. Já está indo para minha lista de leitura. beijos

    Joyce
    www.livrosencantos.com

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  10. Nina!!!! Eu assisti este filme no ano passado, fui pelo nome e me surpreendi com a história. Um filme intenso e muito bem elaborado. Não sabia que tinha a HQ. Adorei suas opiniões. Me fizeram relembrar o livro e fiquei com vontade de ler a HQ, vou procurar para saber mais!

    Um grande abraço!! =D
    http://www.pensamentosvalemouro.com.br/

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  11. Oie, tudo bom?
    Tenho muita vontade de conhecer essa HQ por causa dos diversos aspectos que a história aborda e os comentários positivos que ela tem. Vou seguir sua dica e vou ler antes de assistir ao filme.
    Beijos,
    http://livrosyviagens.blogspot.com.br/

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  12. Essa história de resenhar HQ as vezes é dificil para, sei lá é uma linguagem diferente! Mas eu adoro esse gênero, vivo falando dele! Amei "Azul é a cor mais quente", foi um dos melhores presentes que já recebi. Não vi o filme ainda, mas o livro é lindo.

    Não tem um caminho através do qual falar sobre essa história ou ler sobre ela não me emocione. A solidão da Clem, seu desamparo, suas escolhas... os casos de preconceito... e a forma delicada, limpa e honesta como foi mostrada é tocante... Eu li a HQ em uma tarde, mas passei muitas outras pensando... É uma história de amor e drama, encontro e solidão... é linda!

    Adorei sua resenha e as comparações HQ/Filme, já vou para essa mídia preparada para encontrar a mesma história com outra roupagem, acho que vai ser menos traumático kkk

    Cheros, Pandora
    O que tem na nossa estante

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Olá, obrigada pelo comentário, mas, para evitar passar vergonha na internet, por favor, não seja machista, LGBTQAfóbico(a), ou racista. O mundo agradece :)

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