30 de janeiro de 2016

#O que chegou por aqui? #2

Voltei com essa postagem, porque nem sabia que ela poderia render alguma expectativa nas pessoas, rs. Eu acompanho algumas caixinhas de correio por aí, mas sempre achei "desnecessário" fazer isso aqui, em especial, porque não comprava tantos livros assim. MAS achei o feedback bastante satisfatório e vou continuar :)

Toda luz que não podemos ver, do autor Anthony Doerr, foi cedido Editora Intrínseca a partir de um sorteio promovido pelo blog Inspirada por palavras. Há tempos ele estava na minha lista de desejos e, quando soube que o ganhei, fiquei muito feliz. Ainda não o li, mas pretendo até o final das férias :)

Fragmentos, do autor Rodrigo Cherobin, é uma coletânea poética bastante diferente: é dividida por cores, conforme o assunto abordado. Já li a primeira parte e estou gostando muito.
Ganhei Capitolina - O poder das garotas de amigo secreto da minha chefe, pois ela é amiga da maioria das colunistas da revista. O livro veio, inclusive, autografado por oito das colaboradoras e fiquei imensamente grata e feliz. A maioria dos textos contida no livro pode ser encontrado também no site, mas gostei muito de tê-los na estante, de forma física. O diferencial é que há páginas destinadas para que o leitor escreva memórias, faça desenhos, cole coisas etc.

Ganhei a antologia Maravilhosas Distopias, organizada pelo autor Maurício Coelho, também por causa de um sorteio. Dessa vez, foi cedido pelo blog Escritora Marcia Dantas, pois a Marcia (que é parceira do Nina) participa da coletânea com um conto. Ainda não li nenhum conto além do da Marcia, mas espero fazê-lo em breve.

Esses três títulos foram a minha compra mensal no Submarino.
Encontrei A estrada das flores de Miral, da autora Rula Jebreal, totalmente ao acaso há um pouco mais de dois meses, mas estava esperando algum dia com desconto. Estou muita curiosidade para lê-lo, pois traz um tema bastante atual e pouco entendido: a conflito árabe-israelense. Gosto demais de literatura que tenha como lugar-protagonista o Oriente Médio, então, espero gostar dessa história.
Isla e o final feliz é o terceiro YA da Stephanie Perkins. Sou muito fã da Perkins desde Anna e o beijo francês e, embora Lola e o garoto da casa ao lado não seja tão bom quanto o primeiro, fiquei muito a fim de conferir Isla. Eu já comecei a lê-lo e estou gostando bastante, pois os personagens são muito cativantes.
Já fazia muito tempo que queria ler algo do Haruki Murakami, que caiu bastante na graça do público brasileiro. Lendo algumas matérias sobre ele, o romance Minha Querida Sputnik era o mais citado. Além disso, a história gira em torno de uma escritora, então, foi muito fácil me identificar. E acabei de perceber que a trama é LGBT, então: ponto extra <3

Recebi Quase uma rockstar, do autor Matthew Quick, por causa da amizade que mantenho com a dona do blog Carpinteiros do Universo. A Bruna tinha feito uma resenha dele, e depois de eu comentar dizendo que gostaria muito de comprá-lo, ela me perguntou se eu queria emprestado. E eu, é claro, disse que sim. Música é um assunto que, independentemente do livro, s-e-m-p-r-e me chama atenção. 

A antologia Ondas Poéticas, da Darda Editora, contém três poemas meus <3
Eu encomendei alguns exemplares para vender e, quem sabe, fazer um sorteio em breve.
Quem estiver interessado na compra, pode me mandar uma mensagem in box na minha página profissional. Está custando R$ 25,00 + frete (R$ 5,00).

Caio F. está se tornando um dos meus grandes amores literários. Fragmentos é o terceiro livro que compro dele, sendo o segundo de contos. Pessoalmente, eu prefiro suas crônicas, mas os contos também são muito bons e reflexivos. 

Conheço a Cybelle Santos há bastante tempo, talvez há uns quatro anos, na época em que ela nem era publicada. Escrevendo nossa história é o segundo livro dela, sendo o primeiro de romance. A história é semelhante a muitos new adults por aí e prende bastante. Resenha em breve.


Bônus: na minha coleção de chaveiros, herdada do meu pai, achei o R2-D2. Pessoalmente, sou mais fã do C3P-O, mas acho o R2-D2 uma graça. 


Love, Nina :)

27 de janeiro de 2016

#Resenha de livro: Mudanças

Como falei AQUI, recebi Mudanças pela própria autora L. L. Alves. Tínhamos tentado fazer um book tour dele, mas acabou não vingando, então, ela decidiu me enviar para resenha. 

Título: Original
Autora: L. L. Alves
Editora: MODO 
Páginas: 186
Ano: 2014

Desde o lançamento deste livro li resenhas sobre ele, o que me deixou com vontade de também lê-lo. Pelo fato de ser uma trama infanto-juvenil já me deixava bem animada, pois sou apaixonada por esses tipos de personagens comumente encontradas nesse gênero. Infelizmente, no entanto, não consegui adorar tanto assim as personagens de Mudanças. Verônica é uma adolescente de 15 anos muito arredia e irritada que, logo no primeiro capítulo, ainda está sofrendo nas mãos do ex-namorado. Jonatas era um garoto bastante popular na escola e que começou a namorá-la de repente - e, assim, fez com que a garota se sentisse, pela primeira vez, amada e querida por alguém. Logo no primeiro capítulo, ele está tentando humilhá-la quando um estranho a "salva" daquilo. 

O estranho é Carlos, alguém que, a todo custo, quer fazê-la entender que está errada em agir daquele modo tão duro consigo mesma e com os outros. Entre encontros e desencontros, Verônica e Carlos começam um relacionamento - a princípio, baseado na "coleguice" e depois, na amizade. É claro que o inevitável acontece: eles engatam num romance no qual Verônica se sente segura e que esconde dos pais. 

Na biografia da autora, li que Mudanças foi escrito quando ela tinha 13 anos. A escrita, de modo algum, é totalmente jovem - pelo contrário, é muito bem balanceada e madura. No entanto, é perceptível que a trama foi bastante influenciada pelo fato de ter sido escrita, inicialmente, numa idade tenra. Verônica tem um gradativo progresso ao longo do livro, no entanto, ainda assim, não consegui admirá-la ou gostar dela. Ela é muito estereotipada, de modo que não me convenceu. Não consegui entender por que tinha aquelas atitudes e não acredito que adolescentes de 15 anos sejam tão infantis e irritantes quanto essa personagem. 

Ainda assim, de forma geral, a história passa lições bastante boas, como o fato de que não devemos querer mudar por alguém, mas por nós mesmos e, também, a importância dos laços familiares. Ainda que Verônica estivesse sempre batendo de frente com a mãe (que não entendia as angústias da filha e, por isso, somente a criticava), a relação que tem com o irmãozinho é muito bonita. Embora não seja muito aprofundada, é evidente que eles têm uma enorme cumplicidade. O núcleo familiar foi construído de forma comum, como na realidade, mas que conseguiu retratar muito bem muitas famílias reais. 

O clímax do enredo é, a princípio, surpreendente, mas, tempos depois, achei-o desnecessário e sem sentido, pois parecia um ciclo sem fim e sem muito fundamento - não me convenceu quase nada. Mas, no meio disso, há pontos que se interligam e foi justamente isso o ponto alto de todo o drama adolescente. Passado e presente estão ligados de forma que nem mesmo Verônica se lembrava e isso me pegou de surpresa. Creio que foi essa tênue linha que fez a história se tornar uma lição: a mudança não é a única coisa que Verônica precisa aprender, mas também perdão, rendição e auto-conhecimento. 

A diagramação e o projeto gráfico são muito tocantes e belos, com borboletas e tipografias que combinaram muito com a identidade da história. A capa ficou perfeita, embora singela e simplista, para a identidade visual. Fiquei contente com o esmero da editora com este livro, pois foi muito bem produzido. A revisão está ótima, acho que se vi três erros foi muito. A única coisa que me incomodou foram os pensamentos da protagonista estar entre aspas, pois estou acostumada a estarem em itálico - sem contar que me confundiu muitas vezes, pois as aspas podem ser usadas também como marcadoras de diálogo (embora não muito no Brasil, mas já li muitos assim).

É uma leitura boa, embora um pouco maçante devido ao comportamento da protagonista. Existem pontos bons e que, se melhores construídos ou desenvolvidos, trariam mais profundidamente à história. Não é arrebatador, mas gostei dele moderadamente. Creio que as pessoas mais jovens, da faixa-etária da personagem, possam se identificar.

#Página da autora: AQUI.

#Participe do SORTEIO de um exemplar autografado de Mudanças + dois marcadores também autografados de As Grandes Aventuras de Daniela: AQUI.

Love, Nina :)

23 de janeiro de 2016

#Dicas para escritores #7

Depois de alguns meses, voltei com #DicasParaEscritores, eba! A postagem de hoje vai ser pautada por dicas dadas pelo escritor Fabrício Carpinejar. O mais legal é que essas dicas foram feitas com exclusividade para mim e para um pessoal que pôde ir ao Workshop promovido pela Amazon-Brasil, aqui na minha cidade. Ocorreu em Novembro, juntamente com a Feira do Livro de Porto Alegre. No evento, a responsável pelo KDP Amazon no Brasil nos orientou sobre os benefícios da utilização do sistema KDP Select, o que significa que a publicação é exclusiva para o dispositivo Kindle. Após isso, houve uma conversa com alguns autores da Amazon. Estava planejado que o encontro com o Carpinejar fosse a primeira coisa do evento, mas ele se atrasou e isso ocorreu apenas no final e durante meia hora. 



1) O importante não é o real, é o possível
Aquilo que você escreve, independentemente do que seja, pode acontecer, poderia acontecer. O real também é algo inverossímil - quantas coisas acontecem que parecem impossível de acontecer? Então, por mais que queiramos recapitular alguma memória, escrever aquilo que achamos que de fato ocorreu nunca será, realmente, o real. 

2) A raiva é uma péssima conselheira
Se você é do tipo de escreve para passar a raiva, não está sozinho. No entanto, não torne seu texto o âmago do que quer passar aos outros. Imagine, quantas pessoas nos odeiam e nem sabemos? Quantas pessoas nós odiamos e que nunca saberão? Se, mesmo no mundo real, a raiva não é o sujeito que orienta aquilo que somos, ou nosso destino para que repassar isso na ficção, né? Ótima dica: escreva, escreva, escreva o quanto quiser, diga tudo o que quiser, releia e depois... Rasgue, ou deixe o documento salvo perdido em algum canto no seu computador (ou meramente não o salve, ou o exclua depois). Ninguém tem obrigação de receber ódio. 

3) Não escreva tudo aquilo que sente
Ao fazer isso, você estará deixando o trabalho de seleção para o leitor. É claro que o autor tem que oferecer material suficiente para os leitores, mas quantas vezes informação demais tornou uma leitura maçante? Isso é, na maioria das vezes, culpa da falta de controle das palavras e das ideias por parte daquele que escreve. É muito bem-vindo deixar "pontas soltas" na narrativa, mas que possam ser entendidas pelo leitor ao longo do livro, ou após sua conclusão. Isso porque a imaginação do leitor é algo que precisamos conquistar, mas não de maneira invasiva e direta. Quando ele conquista informações por conta própria estamos oferendo a ele a sua participação dentro do livro. 

4) Não faça propaganda de si mesmo
Bancar o "politicamente correto" não é uma boa forma de fazer literatura, assim como o seu oposto. Ninguém tem apenas um lado, uma face, uma opinião absoluta. Ou seja, mesclando os múltiplos lados de um personagem propiciará ao leitor várias emoções. Você não precisa dar vida a alguém que necessita de amor - precisa dar vida a alguém que, com suas peculiaridades, faça com que o leitor reflita, se emocione.  

-x-

Bom lembrar que eu, Nina, não compartilho totalmente das mesmas ideias que o Carpinejar. Esse post expressa as opiniões dele, não minhas. Ainda assim, quis trazer esse conteúdo para vocês, pois achei bastante válido outros tipos de opiniões. 

#Para ler as outras Dicas: AQUI.

Love, Nina :)

17 de janeiro de 2016

#Rimas em saudades perenes

Fiquei afastada por um tempo e, às vezes, até acho que desaprendi a ser eu mesma. Guardei tanta coisa aqui dentro que, de tanto que sentia, acostumei a achar que não sentiria mais nada. Nada novo, entende? Nada que me fizesse entender que a vida tá aí, bem diante dos meus olhos, aguardando que eu a coloque em palavras. Acontece que eu me desalinhei e, junto, levei a vida. Foi aí que comecei a acreditar que tudo tem um porquê, um ponto final, um desfecho feliz. E quando os porquês se apresentaram invisíveis, o ponto final se estendeu em reticências e o desfecho não passou nem perto de ser bom, quanto mais feliz... Bem, o desespero bateu. Entendi que nem sempre as rimas podem consertar toda a minha alma.

A poesia fez um sentido em tudo aqui dentro, organizou a minha desordem e me deu uns sentimentos sorridentes pra colecionar. Mas esqueci que, depois de um tempo, as palavras precisam ser exercitadas. Quando desaparecem, levam embora o que trouxeram. Quando você foi embora, todas as rimas deram a partida também. Ficou tudo vazio, nublado, sobraram apenas todos os pedaços de você, isso mesmo, aqueles que eu inventei. Silêncio, melodias tristes e memórias suspirantes. Foi tudo falência depois disso. E, ainda assim, eu via você em todos os lugares. Não, não era você. Era só aquele seu casaco azul que, durante muito tempo, ficou jogado na minha cama. Era só a cor do seu cabelo. Era só alguém que tinha o mesmo nome que você. Foi sufocante, entrei em pânico diversas vezes e, quando achava que já tinha atingido o limite, você ainda me fazia ficar. E eu ficava, ficava, ficava. Relembrava uns versos preferidos para reanimar um pouco a felicidade adormecida e, assim, amenizava a saudade dos meus segundos preferidos. Dizem que o que é bom dura pouco, né? Mas acredito que, dentro daquela única respiração que abrigou olhares e sorrisos, a eternidade vingou. Eu não a conhecia, daí você fez questão, sem querer, de me dar isso - não, não dá pra esquecer, ou desvanecer. É um pedaço de paraíso num piscar de olhos: é o momento indo embora, mas fazendo ninho na gente. De vez em quando, volta pra casa só pra trazer um tiquinho de saudade. 

Tô pra te dizer que sempre dá pra resgatar memórias. Todas elas. Às vezes, revisito meus escombros só pra tirar aquela caixinha de música da poeira, ou para sentir mais uma vez o efeito da minha primeira eternidade em mim. Vou te dizer: é bom. Dizem que saudade machuca, que devemos seguir em frente, mas a minha porção de pretérito perfeito sempre vai rir disso tudo. Sempre vou arranjar um tempo para abraçar todas as lembranças, mesmo as em decorrência de algo que me feriu. Falando em ferida, não dá pra deixar de lado os dias de raiva e de lamento. Saudade não é apenas rima e faísca. Saudade é, também, lágrima, aperto no peito, vontade de morrer. A saudade é um intrincado de fiapos desconexos, todos de natureza e razões diferentes. Na maioria das vezes, não dá pra separar as emoções felizes das tristes - você arranca um pedacinho e tem que lidar com o surpreendente destino da vida: saber o que fazer com aquilo tudo. Uma coisa é certa: não dá pra jogar fora. 

É por isso que a deslembrança não acontece: não existe uma lata do lixo que indique para onde vão as recordações que nos machucam. Afinal, somos feitos de fiapos. Fiapos de minutos, criações, estrelas, gentes, beijos, poemas, flores e abraços. Somos uma miscelânea de causos, respirações e eternidades. 

Ainda te vejo por aí com o seu casaco azul, o seu cabelo de trigo e o seu nome ainda aparece pichado na porta da minha casa, vez ou outra. Vejo assonância e vejo poética. Vejo a sua natureza florescer diante do palco e me trazer flores. Guardo todas. Traga mais, mas não deixe de colecionar as suas perenidades. Eu tenho as minhas e são todas sobre você, apenas espero que, das bilhões que tem, umas três sejam sobre mim, que é pra eu não achar que decorei rimas em vão.

Fotografia: Brooke Shaden (veja mais aqui).

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Esse texto foi inspirado na canção Mid Air, de Paul Buchanan, e você pode ouvi-la AQUI
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Love, Nina :)

11 de janeiro de 2016

#Resenha de livro: Pequenas Epifanias

Trago a vocês crônicas de um dos maiores (e mais lembrados e queridinhos) escritores nacionais: Caio Fernando Abreu. Por mais absurdo que pareça, eu nunca tinha lido nenhuma obra completa dele até agora, mas a Nanda Campos, que é absurdamente fã dele, me indicou Pequenas Epifanias e, como eu estou numa onda cheia de motivação para ler crônicas, consegui um exemplar   

Título: Pequenas Epifanias
Autor: Caio Fernando Abreu
Editora: Sulina
Ano: 1996
Páginas: 188
+ 


Essa capa é a mais atual, lançada pela Edi-
tora Agir. O exemplar que eu consegui é 
mais velho e não tem capa, pois é da biblio-
teca da minha faculdade. 
Comecei Pequenas Epifanias sem nenhuma expectativa, pois não sabia exatamente o que esperar. Apesar de viver lendo trechos de textos do Caio pela internet afora, é bastante diferente de ler algo realmente pronto e contextualizado. O que me chamou atenção, logo de cara, é que, antes de cada crônica começar, há um espaço destinado a algum trecho de cada uma e isso permite ao leitor saber de antemão o assunto de cada texto. Nas primeiras quarenta páginas, nenhuma crônica realmente chamou a minha atenção, mas então vieram os textos mais sentimentalistas e emocionais, mergulhados em poesia e metáforas angustiadas e melancólicas. Dizer que me identifiquei foi pouco, muito pouco - eu realmente me vi dentro das situações descritas pelo Caio diversas vezes, cheguei a pensar que, muito facilmente, eu poderia ter escrito tudo aquilo. Aliás, o que mais me chamou atenção no livro inteiro foi justamente isso: os recursos usados por ele que me fizeram acreditar que, de um modo muito louco, eu estava lendo coisas que eu mesma poderia ter escrito. 

Nos textos mais bonitos, Caio fala da solidão e de amores não correspondidos, tristes, incompreendidos e insuficientes. Quando peguei o ritmo não parei mais, passei a tarde lendo. Por mais que os assuntos sejam bastante diferenciados, são cadenciados e até meio interligados, levando em consideração que são muito pessoais. O tom que Caio dá é epistolar, então, facilmente conseguiu prender a minha atenção. Quem ainda não sabe, o autor era homossexual e ele não esconde isso em seus escritos, pelo contrário: fala de homossexualidade e de AIDS (que contraiu em 94) de boa vontade, sem mimimi, ou pudor. Em A mais justa das saias, discorre sobre o assunto com uma lucidez incrível, é praticamente um "tapa na cara da sociedade". A crônica foi escrita em 87 para o Estado de S. Paulo, mas continua completamente atemporal - e isso é completamente triste, na minha opinião. 
"Só que a homossexualidade não existe, nunca existiu. Existe sexualidade – voltada para um objeto qualquer de desejo. Que pode ou não ter genitália igual, e isso é detalhe. Mas não determina maior ou menor grau de moral ou integridade. (É curioso e revelador observar que quando Gore Vidal vem ao Brasil, toda a imprensa se refere a ele como “o escritor homossexual”, mas estou certo de que se viesse, por exemplo, Normam Mailer, ninguém falaria do “escritor heterossexual”). Sim, a moral & os bons costumes emboscados por trás do falso liberalismo – e muito bem amparados pelo mais reacionário papa de toda a (triste) história do Vaticano – arreganha agora os dentes para declarar: “Viram como este vício hediondo não só corrompe, mas mata?”. 
Corrompe nada, mata nada”.  A mais justa das saias, 1987, p. 49.
Outras crônicas também sobre AIDS são as que compõem "cartas para além do muro". São quatro ao total, ao longo do livro, e falam sobre como foi sentir os primeiros sintomas da doença, buscar tratamento e estar em tratamento. Ele diz bastantes detalhes pessoais, algo surpreendente dentro da literatura, em que os escritores tentam se desvincular o máximo possível de seus textos, sem dar qualquer caráter "auto-biográfico" - mas Caio desconstrói isso com louvor, abrindo sua alma, sua casa e seus problemas por meio de suas palavras. 

Os textos que falam de amor e solidão foram os que mais me tocaram. Os meus preferidos são Anotações insensatas, 61: verdade interior, Pálpebras de neblina, Por trás da vidraça, Na terra do coração, Cartas anônimas e Existe sempre alguma coisa ausente. Caio não é de escrever de um jeito meloso, mas há muita poética contida em suas frases, que nos dá emoções fortes e leves ao mesmo tempo. Ler esses textos, para mim, foi como encontrar comigo mesma. Todos eles são um reflexo de mim, em cada ponto final, em cada vírgula. 
“Ainda penso: gosto tanto de você, baby. Só que escritores são seres cruéis, estão sempre matando a vida em busca de histórias. Você me ama pelo que me mata. E se apunhalo é porque é para você, para você que escrevo – e não entende nada”.  Anotações insensatas, 1987, p. 56. 
Outro ponto muito bom a ser destacado é o fato de ele estar, recorrentemente, citando outros autores, em especial Clarice e Cecília. Mas quase ninguém lhe escapa, nem mesmo Pessoa, Nelson Rodrigues, Lygia, ou o americano Sidney Sheldon. Ele fala em muitos filmes também, e a partir disso dá para entender que o Caio foi uma pessoa completamente culta, da grande elite. 

Caio nasceu no Rio Grande do Sul () e, portanto, há alguns textos em que ele menciona cidades daqui, seja do interior, ou Porto Alegre. Inclusive, A cidade dos entretons fala especificamente de Porto Alegre, de suas estações - batendo na tecla que as meias-estações são as mais agradáveis, são os "entretons", e concordo muito com ele, afinal, moro aqui e também detesto o verão amazônico e o inverno russo. 

As crônicas contidas nesse livro são de 1986 a 1995, todas publicadas ou no Estado de S. Paulo ou na Zero Hora (jornal gaúcho). A grande emoção de seus textos é perceber, justamente, a atemporalidade do gênero. Apesar de estarem em um livro, algo que poderia ser facilmente temporal, estas crônicas não têm "data de validade", tratam de assunto globais - abstratos - e de assuntos mais concretos - política, por exemplo. Creio que a importância do legado deixado pelo autor foi esse: instigar o leitor a refletir sobre todos esses assuntos, por mais banais que pareçam. 

Mal posso explicar a minha satisfação por ter encontrado essas crônicas. Estou simplesmente apaixonada pela escrita do autor, por causa das nuances e da sinceridade, além da poética e da metáfora, e espero muito em breve dar continuidade à leitura de suas obras. Recomendo infinitamente Pequenas Epifanias para quem ainda não leu nenhum trabalho completo do Caio. 

Ah, pede-se não enviar flores. Pois como eu ia dizendo, depois que comecei a cuidar do jardim aprendi tanta coisa, uma delas é que não se deve decretar a morte de um girassol antes do tempo, compreendeu? Algumas pessoas acho que nunca. Mas não é para essas que escrevo.  A morte dos girassóis, 1995, p. 136
Desde então, tenho uns agostos por dentro, umas febres. Uma tristeza que nada nem ninguém conserta. É assim que se começa a partir?  Agostos por dentro, 1995, p. 162
Você toca na minha mão, eu toco na sua. Demora tanto que só depois de três mil dias consigo olhar dentro dos seus olhos e é então feito mergulhar numas águas verdes tão cristalinas que têm algas na superfície ressaltadas contra a areia branca do fundo. Aquarelouco, encontro pérolas. (...) Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão frequente.  Carta anônima, 1988, p. 80
Love, Nina :) 

7 de janeiro de 2016

#Resenha de livro: A Princesa e a Costureira

Desde a primeira vez que soube do fato de que A Princesa e a Costureira, de Janaína Leslão, é o primeiro conto de fadas LGBT brasileiro, eu soube que p-r-e-c-i-s-a-v-a tê-lo em casa. Tô bem apaixonada por tudo 

Título: A Princesa e a Costureira
Autora: Janaína Leslão
Editora: Metanoia
Páginas: 51
Ano: 2015
+ 

Acho que todo mundo já leu ou assistiu algum conto de fadas: aquela simples história de era uma vez... que termina no felizes para sempre. Sempre tem uma princesa em perigo e um príncipe generoso para salvá-la. Então, você não vai encontrar nada disso neste livro. Nada mesmo. Começando pelo fato maravilhoso de a princesa Cintia ser negra. Apesar de já existirem (poucas) princesas negras, a Cintia é uma princesa que foi criada por alguém brasileiro - e só por isso já é algo muito bom. A princesa não está em perigo - pelo menos até a profecia de sua madrinha se concretizar. O felizes para sempre não existe e o parzinho dela não é um príncipe bondoso e bem vestido. 

Cintia vive no reino EntreRios e está prometida ao príncipe Febo, de EntreLagos. Os dois cresceram juntos e sempre foram bons amigos. Quando chega a hora de decidir sobre o casamento, ambos aceitam esse destino de bom grado. O que ninguém sabe é que a fada madrinha da princesa, preocupada que a afilhada fosse obrigada a casar sem amor, lançou um encantamento para que esta soubesse quem fosse seu verdadeiro amor quando a pessoa lhe tocasse as costas. Cintia, mesmo sabendo que o casamento demoraria a acontecer, já se antecipa e vai atrás de um vestido de casamento. É aí que tudo muda para ela e para o destino de muitos ao seu redor: ela conhece Isthar, uma moça viúva com um filhinho bebê, que costura todos os tecidos do mundo. Assim que Isthar lhe toca as costas, para experimentar o vestido, a mágica acontece. 

Teoricamente, o livro é voltado para crianças. O formato é exatamente para este público - é quadrado, não tem lombada, a tipografia é mais leve e as ilustrações são um complemento fofíssimo ao enredo. A storyline é guiada de forma comum aos contos de fada, ainda que seja totalmente autêntica e singular. O conflito é evidente, devido à temática abordada, mas os desenvolvimentos são bastante originais e há reviravoltas que ora acalentam, ora desesperam o leitor. Ou seja, a história é uma mistura perfeita de realidade. A partir desse livro, nos é apresentada a sutileza de se trabalhar com um assunto tão presente no cotidiano e como, se bem feita, pode educar a todos - não somente crianças. Aliás, um ponto importante é esse: embora pareça um livro para criança qualquer um pode lê-lo e entender sua mensagem de aceitação e amor. 

Não resisti e mostrei o livro a minha mãe que, na hora, verbalizou algo que eu mesma vinha pensando: vai ser ótimo se for lido nas escolas. Lidar com a diversidade sexual é algo ainda bem pouco explorado (vide todas as discussões acerca de a Câmara vetar projetos escolares que permitissem o debate sobre a sexualidade e o gênero - que, sim, são coisas totalmente diferentes, portanto uma não está ligada à outra) e, justamente por isso, até mesmo temido. Não há diálogos férteis sobre isso, simplesmente porque muitos acreditam que falar sobre influenciará a criança/adolescente. E eu já tive muitas conversas com pessoas que lidam diretamente com a temática da sexualidade para afirmar que essa "proteção" dos pais é simplesmente o medo deles falando mais alto (e que, na maior parte do tempo, não é a reação de seus filhos ao serem apresentados ao assunto). Então, espero muito que A Princesa e a Costureira possa viajar pelos mais diversos lares e que seja reconhecido pela coragem de mostrar uma história que, embora esteja entre páginas ficcionais, reflete muitas páginas da vida real. 

Espero que mais histórias - infantis ou não - preguem o amor e somente o amor - que não haja desrespeito de qualquer forma, que não exclua ninguém e que continue a inspirar a todos aqueles que, de algum modo, não se sentem representados. 

#Para comprar: aqui

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Até hoje, eu não sabia como tinha surgido o livro. Fui pesquisar e descobri algo fantástico: ele foi financiado coletivamente pelo Catarse-me e é o primeiro projeto da Janaína. Agora, ela está com uma nova - e ainda mais linda - história em andamento: Joana Princesa, que fala sobre o principezinho João que, na verdade, se sente princesa e que quer se chamar Joana. 




Love, Nina :)

5 de janeiro de 2016

#Resenha de livro: À procura de Audrey

Sou fã da Sophie Kinsella desde que li Fiquei com o seu número, em 2013. Além desse chick-lit, li também Os Segredos de Emma Corrigan. Gosto infinitamente dos chick-lit da Sophie, pois ela não segue, exatamente, o padrão da escritora que tem personagens bobas e desengonçadas. As personagens dela são engraçadas, mas sempre têm algo ~importante~ a dizer. Ou seja, a literatura dela não é vazia. Digo isso, porque acredito que nem todos os autores têm maestria para conseguir transitar de um gênero a outro sem perder algo pelo caminho. E, infelizmente, À procura de Audrey, o primeiro young adult de Sophie, perdeu muita coisa pelo caminho. Perdeu tanto que, a partir de uma perspectiva minuciosa, ele é um livro quase vazio

Título original: Finding Audrey
Autora: Sophie Kinsella
Editora: Record
Páginas: 334
Ano: 2015

Quem me conhece e acompanha o Nina há algum tempo já percebeu que meu gênero literário preferido é o young adult. E, quando eu vi essa capa lindinha e o nome da Sophie, logo soube que precisava dele na minha estante. Mas não foi realmente isso que me convenceu a lê-lo, foi o tema abordado. 

A personagem principal, Audrey, é uma adolescente que está afastada dos estudos devido a episódios de bullying que sofreu na antiga escola. A situação ficou tão insuportável que ela começou a desenvolver crises de pânico que culminaram em um diagnóstico preocupante: fobia social. Parece esquisito que uma adolescente tenha medo de sair na rua, de falar com as pessoas (mesmo ao telefone) e que esteja de óculos escuros em qualquer lugar, certo? Pois é a realidade que Audrey tenta melhorar com idas periódicas a um centro de "reabilitação" para pessoas com problemas patológicos mentais. 

Apesar de o assunto ter feito com que eu me identificasse muito, percebi que ele se desvirtuou ao longo da narrativa. Primeiro, porque sempre parece que o livro é mais, na verdade, sobre a família louca da garota. A mãe dela está obcecada pelo fato de seu filho mais velho gostar tanto de jogar online. Apesar de essas partes serem sempre muito hilárias, comecei a me desanimar depois de um tempo. Segundo, porque, ainda que a visão seja de Audrey, ela não aprofunda realmente seus sentimentos, por isso mesmo o tema da fobia social ficou, a meu ver, muito superficial. E terceiro, por causa de Linus, o amigo do irmão mais velho da personagem. Claramente, Linus está ali para ser o "parzinho" de Audrey, mas tudo aconteceu de modo tão forçado e sem graça, que se ele não estivesse na narrativa, nada mudaria no andamento do livro. Me deu a impressão de que ele seria aquela peça que a ajudaria a melhorar em sua doença, mas a relação deles não me convenceu tanto quanto presumi. 

A leitura é muito agradável, rápida e hilária, no entanto, não conseguiu me convencer. Não há, exatamente, um clímax e, se há, não pode ser descrito como emocionante ou "importante". A conclusão é bastante fraca, exatamente porque creio que a história se perdeu muito pelo caminho. Poderia ser muito mais intimista e inspiradora, mas a autora não conseguiu desenvolver as situações nem os personagens de forma realista. O motivo do bullying na escola, por exemplo, fica completamente esquecido. Ou seja, o livro deixa muitas pontas soltas, o que não me agradou nem um pouco. O que mais amo nos young adults é que eles têm uma lição e, embora os personagens pareçam bobos, carregam uma alma verdadeira. À procura de Audrey não conseguiu isso, infelizmente. A ideia é muito boa, mas não atingiu o objetivo. 

Love, Nina :)