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#Resenha de livro: Pequenas Epifanias

by - janeiro 11, 2016

Trago a vocês crônicas de um dos maiores (e mais lembrados e queridinhos) escritores nacionais: Caio Fernando Abreu. Por mais absurdo que pareça, eu nunca tinha lido nenhuma obra completa dele até agora, mas a Nanda Campos, que é absurdamente fã dele, me indicou Pequenas Epifanias e, como eu estou numa onda cheia de motivação para ler crônicas, consegui um exemplar   

Título: Pequenas Epifanias
Autor: Caio Fernando Abreu
Editora: Sulina
Ano: 1996
Páginas: 188
+ 


Essa capa é a mais atual, lançada pela Edi-
tora Agir. O exemplar que eu consegui é 
mais velho e não tem capa, pois é da biblio-
teca da minha faculdade. 
Comecei Pequenas Epifanias sem nenhuma expectativa, pois não sabia exatamente o que esperar. Apesar de viver lendo trechos de textos do Caio pela internet afora, é bastante diferente de ler algo realmente pronto e contextualizado. O que me chamou atenção, logo de cara, é que, antes de cada crônica começar, há um espaço destinado a algum trecho de cada uma e isso permite ao leitor saber de antemão o assunto de cada texto. Nas primeiras quarenta páginas, nenhuma crônica realmente chamou a minha atenção, mas então vieram os textos mais sentimentalistas e emocionais, mergulhados em poesia e metáforas angustiadas e melancólicas. Dizer que me identifiquei foi pouco, muito pouco - eu realmente me vi dentro das situações descritas pelo Caio diversas vezes, cheguei a pensar que, muito facilmente, eu poderia ter escrito tudo aquilo. Aliás, o que mais me chamou atenção no livro inteiro foi justamente isso: os recursos usados por ele que me fizeram acreditar que, de um modo muito louco, eu estava lendo coisas que eu mesma poderia ter escrito. 

Nos textos mais bonitos, Caio fala da solidão e de amores não correspondidos, tristes, incompreendidos e insuficientes. Quando peguei o ritmo não parei mais, passei a tarde lendo. Por mais que os assuntos sejam bastante diferenciados, são cadenciados e até meio interligados, levando em consideração que são muito pessoais. O tom que Caio dá é epistolar, então, facilmente conseguiu prender a minha atenção. Quem ainda não sabe, o autor era homossexual e ele não esconde isso em seus escritos, pelo contrário: fala de homossexualidade e de AIDS (que contraiu em 94) de boa vontade, sem mimimi, ou pudor. Em A mais justa das saias, discorre sobre o assunto com uma lucidez incrível, é praticamente um "tapa na cara da sociedade". A crônica foi escrita em 87 para o Estado de S. Paulo, mas continua completamente atemporal - e isso é completamente triste, na minha opinião. 
"Só que a homossexualidade não existe, nunca existiu. Existe sexualidade – voltada para um objeto qualquer de desejo. Que pode ou não ter genitália igual, e isso é detalhe. Mas não determina maior ou menor grau de moral ou integridade. (É curioso e revelador observar que quando Gore Vidal vem ao Brasil, toda a imprensa se refere a ele como “o escritor homossexual”, mas estou certo de que se viesse, por exemplo, Normam Mailer, ninguém falaria do “escritor heterossexual”). Sim, a moral & os bons costumes emboscados por trás do falso liberalismo – e muito bem amparados pelo mais reacionário papa de toda a (triste) história do Vaticano – arreganha agora os dentes para declarar: “Viram como este vício hediondo não só corrompe, mas mata?”. 
Corrompe nada, mata nada”.  A mais justa das saias, 1987, p. 49.
Outras crônicas também sobre AIDS são as que compõem "cartas para além do muro". São quatro ao total, ao longo do livro, e falam sobre como foi sentir os primeiros sintomas da doença, buscar tratamento e estar em tratamento. Ele diz bastantes detalhes pessoais, algo surpreendente dentro da literatura, em que os escritores tentam se desvincular o máximo possível de seus textos, sem dar qualquer caráter "auto-biográfico" - mas Caio desconstrói isso com louvor, abrindo sua alma, sua casa e seus problemas por meio de suas palavras. 

Os textos que falam de amor e solidão foram os que mais me tocaram. Os meus preferidos são Anotações insensatas, 61: verdade interior, Pálpebras de neblina, Por trás da vidraça, Na terra do coração, Cartas anônimas e Existe sempre alguma coisa ausente. Caio não é de escrever de um jeito meloso, mas há muita poética contida em suas frases, que nos dá emoções fortes e leves ao mesmo tempo. Ler esses textos, para mim, foi como encontrar comigo mesma. Todos eles são um reflexo de mim, em cada ponto final, em cada vírgula. 
“Ainda penso: gosto tanto de você, baby. Só que escritores são seres cruéis, estão sempre matando a vida em busca de histórias. Você me ama pelo que me mata. E se apunhalo é porque é para você, para você que escrevo – e não entende nada”.  Anotações insensatas, 1987, p. 56. 
Outro ponto muito bom a ser destacado é o fato de ele estar, recorrentemente, citando outros autores, em especial Clarice e Cecília. Mas quase ninguém lhe escapa, nem mesmo Pessoa, Nelson Rodrigues, Lygia, ou o americano Sidney Sheldon. Ele fala em muitos filmes também, e a partir disso dá para entender que o Caio foi uma pessoa completamente culta, da grande elite. 

Caio nasceu no Rio Grande do Sul () e, portanto, há alguns textos em que ele menciona cidades daqui, seja do interior, ou Porto Alegre. Inclusive, A cidade dos entretons fala especificamente de Porto Alegre, de suas estações - batendo na tecla que as meias-estações são as mais agradáveis, são os "entretons", e concordo muito com ele, afinal, moro aqui e também detesto o verão amazônico e o inverno russo. 

As crônicas contidas nesse livro são de 1986 a 1995, todas publicadas ou no Estado de S. Paulo ou na Zero Hora (jornal gaúcho). A grande emoção de seus textos é perceber, justamente, a atemporalidade do gênero. Apesar de estarem em um livro, algo que poderia ser facilmente temporal, estas crônicas não têm "data de validade", tratam de assunto globais - abstratos - e de assuntos mais concretos - política, por exemplo. Creio que a importância do legado deixado pelo autor foi esse: instigar o leitor a refletir sobre todos esses assuntos, por mais banais que pareçam. 

Mal posso explicar a minha satisfação por ter encontrado essas crônicas. Estou simplesmente apaixonada pela escrita do autor, por causa das nuances e da sinceridade, além da poética e da metáfora, e espero muito em breve dar continuidade à leitura de suas obras. Recomendo infinitamente Pequenas Epifanias para quem ainda não leu nenhum trabalho completo do Caio. 

Ah, pede-se não enviar flores. Pois como eu ia dizendo, depois que comecei a cuidar do jardim aprendi tanta coisa, uma delas é que não se deve decretar a morte de um girassol antes do tempo, compreendeu? Algumas pessoas acho que nunca. Mas não é para essas que escrevo.  A morte dos girassóis, 1995, p. 136
Desde então, tenho uns agostos por dentro, umas febres. Uma tristeza que nada nem ninguém conserta. É assim que se começa a partir?  Agostos por dentro, 1995, p. 162
Você toca na minha mão, eu toco na sua. Demora tanto que só depois de três mil dias consigo olhar dentro dos seus olhos e é então feito mergulhar numas águas verdes tão cristalinas que têm algas na superfície ressaltadas contra a areia branca do fundo. Aquarelouco, encontro pérolas. (...) Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão frequente.  Carta anônima, 1988, p. 80
Love, Nina :) 

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12 comentários

  1. Oiii, tudo bem?
    Eu tenho um grande amor por Caio Fernando Abreu por causa do jeito que ele escreve, adorei a sua resenha <3
    Beijinhos
    segredosliterarios-oficial.blogspot.com

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  2. Este livro parece ser interessante. É bom quando temos algo conhecido na internet em nossas mãos, algo concreto.
    Abraços Mika
    Pensamentos Viajantes

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  3. Olá! Eu nunca li algo do Caio Fernando Abreu, apesar de amar muito os trechos que já andei esbarrando pela internet (também). Gostei muito da resenha e acho que deve ser uma ótima leitura. Definitivamente vou anotar a indicação para ler em breve!

    Hels, The Blue Blog

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  4. Eu li o Caio na faculdade e me apaixonei, foi amor a primeira lida. Depois disso, nunca mais li nada por falta de tempo, mas acho que este ano, vou tentar colocá-lo em minhas releituras. Sidney Sheldon, acho fraco, mas lia muito na adolescência.

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  5. Olá, tudo bem?

    Ai, não lembro se já li alguma coisa do Caio. Mas acho que não. Mas gostei muito da sugestão, pelos temas abordados e por ser crônicas, gosto e sempre reflito muito sobre o assunto. Já anotei a dica.

    bejos.

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  6. Ah, Caio! A profundidade e a sensibilidade dele é difícil de ser alcançada... acho que ninguém consegue entendê-lo completamente, mas podemos chegar muito perto disso, não?! Ele é incrível!

    "Pequenas Epifanias" não é minha obra preferida dele, mas, sem dúvida, tem contos muitos bons mesmo. Não lembro quais eram meus preferidos, pois faz um bom tempo que li, mas posso apostar que muitos dos que você escolheu, eu escolheria também.

    Ótima escolha de leitura! <3
    Beijos,
    Ruh Dias
    perplexidadesilencio.blogspot.com

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  7. Nunca li nada do Caio, mas sou uma tremenda apaixonada por crônicas. O jeito como ele escreve é muito suave e belo ♥ Vou procurar ler esse livro!

    http://escritorizando.blogspot.com.br/

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  8. Nunca li nada do Caio e sou péssima com contos e crônicas, então provavelmente não seria um livro bom pra mim, mas adoreeei a capa <3

    Beeijo
    Resenhando Sonhos

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  9. Eu ainda não li nada do Caio, além do que é compartilhado nas redes e que nem sempre é dele rsrsrs. Mas tenho muito vontade de conhecer a escrito do autor. Eu morei no RS e sei o quanto ele é amado em terras gauchas. Adorei conhece um pouco do autor por meio do seu texto. O que mais me chamou atenção é que ele se colocar explicitamente em seus textos.

    Beijos!

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  10. Socorro, preciso urgentemente desse livro! Amo crônicas, o Caio, e bem, a palavra Epifania em si já me conquista muito (tá no meu ranking de palavras favoritas..haha)

    Beijo flor!!
    http://www.miopesanonimos.com/

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  11. Oiiie
    Muito legal a resenha, nunca li nada do autor mas sou mega curiosa e fiquei interessada nesse depois de ler sua resenha

    Beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

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  12. Oi, tudo bem?
    Nunca li nenhum livro do Caio, e não me lembro se já li algum texto ou trecho solto. Mas gostei do que você falou, e dos temas abordados nas crônicas. Eu gosto muito de ler crônicas, embora não o faça com frequência, e mais atuais e profundas elas forem, melhor.
    Fiquei bem curiosa, e vou procurar conhecer o autor melhor
    beijos
    http://meumundinhoficticio.blogspot.com.br/

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