29 de fevereiro de 2016

#O que chegou por aqui? #3

Mais um post apresentando o que comprei/troquei no mês. Ainda estou tentando lidar com tantas resenhas para fazer, então, aos que ainda estão esperando algumas, por favor, tenham calma haha. Muitas já estão no rascunho ;)

I. Comecei a ler alguns poemas avulsos do Millôr Fernandes e isso me fez querer ler alguma obra poética dele. Estava atrás desta desde antes do Natal e, felizmente, achei-o na banquinha dentro do complexo hospitalar no qual trabalho (já li um pouco e posso adiantar que a ironia e o bom-humor de Millôr é algo muito gostoso). 

II. A Mecânica do Coração, de Mathias Malzieu, foi uma indicação de um amigo no ano passado. Mas apenas agora é que fui realmente procurá-lo. Parece bastante fofo e fantasioso. 
Existe, inclusive, um filme baseado na obra :)

III. Conheci por acaso e recentemente a Hoo Editora, que só publica obras com a temática LGBT. A Lorena, do Marcado com Letras, me incentivou a comprar Volto Quando Puder, das autoras Isa Prospero e Márcia Oliveira, porque trocamos várias dicas literárias, em especial as de LGBT. 
Eu já comecei a leitura e estou a-do-ran-do 

IV. Mosquitolândia, de David Arnold, estava na minha wishlist desde antes pré-venda. Quando vi esta obra na página da Intrínseca pela primeira vez foi amor à primeira vista. A temática abordada e os quotes me deram a sensação de que este livro tinha sido escrito para mim - e não deu outra: ele se tornou um dos meus preferidos da vida 

V. Tenho sentido falta de ler distopias e, vendo todo mundo divulgar resenhas sobre este primeiro volume da série, é claro que fiquei com uma enorme vontade de ler também A Rainha Vermelha, de Victoria Aveyard. Consegui o exemplar numa troca que fiz no sebo.

VI. Retalhos, de Graig Thompson, foi uma indicação de uma amiga, do blog Balu Me Enganou. Como podem ver, ele é gigante e não é para menos: é uma HQ biográfica da vida do autor. 

Foi o Balu Me Enganou que me indicou também o primeiro volume de Bear, da Bianca Pinheiro, que é uma HQ fofíssima. Eu não sabia que tamanho ela tinha, e fiquei bastante surpresa por ser deste formato (como podem ver, ela é maior do que uma folha A4). A ilustração é toda colorida, mesmo por dentro, e adorei as cores marcantes.

No primeiro O que chegou por aqui? eu falei que fiz a minha primeira compra na loja da Mary Cagnin Art. E estas quatro lindezas são a minha segunda compra. A Mary está com uma coleção de ilustrações de personagens femininas fortes. Esta é a primeira leva da coleção, com a Rey (do novo Star Wars), a Ramona (de Scott Pilgrim Contra o Mundo, que é inspirado em HQ's), a Hermione (de Harry Potter) e a Katniss (de Jogos Vorazes). Estou completamente apaixonada, em especial, pela Hermione e pela Ramona (cabelos azuis s-e-m-p-r-e me ganham haha ). A Rey não está mais comigo, pois dei de presente à Marcia Dantas

Até março!

Love, Nina :)

26 de fevereiro de 2016

#Twelve Letters Project: Uma carta para um personagem fictício

26 de fevereiro - noite

Oi, Mim (porque Mary nunca combinou com você mesmo), 

Do mesmo jeito que você escreveu as cartas para a Isabel, eu te escolhi. Sei que, na verdade, você não teve escolha. E tudo aquilo não foi por causa do seu "E se?". Acho que nenhum destino está acima de milhões de "E se's?". Como já disseram por aí, essas duas palavras juntas podem te amedrontar pelo resto da vida - e se tem algo que aprendi com você é que a gente não tem que ter medo da vida. Que, se for pra acontecer, que aconteça. Gostaria que essa carta fosse realmente apenas para você, mas ela é, também, para mim. Para me lembrar daquilo que li e daquilo que ficou de você em mim. 

Nunca achei que tivesse Motivos. Tentei entender os seus, mas, na maior parte do tempo, eu estava mais preocupada com o depois. Porque o passado, apesar de ter sido bom e ruim para você, não pode definir completamente quem você é hoje. E, para ser sincera, eu vi isso no seu hoje. Fico feliz por saber que depois de tanto passado ruim e tanto passado bom, seu presente é algo transcendente a tudo isso. Algo novo, só seu. Que lhe pertence mais do que aos seus Motivos. Fico feliz que hoje haja realmente vida na sua vida - e é algo que descobri na minha também.

Depois de tanto passado e futuro, algo que ainda penso é no seu futuro. Eu sei que você também pensa nele, porque já sabe que suas descobertas te levaram a algo e a alguém. Fizeram com que você soubesse, finalmente, onde está. Acho que você descobriu algumas verdades. Mas fico imaginando, não a partir de um "E se?", mas de um "Espero que sim". Espero que sim. Espero que, dali um ano, você se reencontre com Walt e Beck. Porque eles, agora, fazem parte de você. Não porque você achou que pudesse suprir a maternidade roubada de Walt e não porque achou que Beck era sexy-e-rock-and-roll ao mesmo tempo. Mas porque, depois de algumas jornadas, a gente acaba fazendo da vida dos outros a nossa vida também. Porque, é claro, sempre tem alguém que faz história na nossa história. 

Obrigada por fazer história na minha história. Conseguiu re-definir boa parte do que desejo para este ano. Um pouco de jornada e muita vida (boa ou ruim - o importante mesmo é sempre descobrir quem não queremos ser. Sim. Você está certa). 

Câmbio e desligo,
Nina Spim,
O tipo de pessoa que não seria Kate Winslet, nem Zooey Deschanel, nem Ellen Page

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Mim (ou Mary) é a protagonista de Mosquitolândia, de David Arnold


Esta carta faz parte do Twelve Letters Project e você pode conferir os próximos temas AQUI.

Love, Nina :)

21 de fevereiro de 2016

#LeiaMulheres: meta 2016

No ano passado, fiquei sabendo de um projeto muito maravilhoso, que pretende não somente enriquecer as nossas leituras, mas também valorizar trabalhos escritos por mulheres. Pode não parecer, mas o mercado editorial ainda nos despreza muito  - sem contar que, muitas vezes, somos relegadas a "nichos" específicos, tal como a literatura de mulherzinha, como se as mulheres não pudessem sair de suas zonas de conforto, ou simplesmente não pudessem escrever aquilo que querem


Foi a escritora Joanna Walsh a responsável pelo #readwomen2014. Em pouco tempo, o projeto "viralizou" e, aqui no Brasil, aportou como #leiamulheres

A autora parceira do Nina, a Marcia Dantas, postou sobre a sua meta acerca do projeto em seu blog e isso me fez ter muita vontade de iniciá-lo, também. Quero me juntar à causa não porque leio poucas escritoras - para falar a verdade, a minha vida literária é regida quase que 80% por mulheres -, mas porque quero conhecer os trabalhos de autoras que admiro, mas que nunca dei uma chance, ou autoras que tenho curiosidade, mas nunca tive oportunidade de ler. 

1. Virgínia Woolf com Mrs. Dalloway 
Escolhi este título, porque a Ruh Dias, do Perplexidade e Silêncio, fala tanto dele (e da própria Woolf), que foi impossível não querer conferi-lo. Ele já estava na minha lista de desejo do ano passado, no entanto, ainda não consegui comprá-lo. Marcado pela angústia, o livro me chama atenção justamente por eu me identificar com o sentimento. A autora suicidou-se em 1941, devido à depressão crônica e deixou uma carta ao marido.






2. Sylvia Plath com A Redoma de Vidro 
Nunca realmente me interessei pela Plath, até que, ano passado, eu li A Mulher Calada, uma biografia sobre a autora, por causa de uma matéria da faculdade. A tristeza dela me chama a atenção, porque vejo um paralelo entre nossas vidas. Este livro foca bastante na depressão e é semi-biográfico. A autora, assim como Woolf, acabou se suicidando também. 








3. Lygia Fagundes Telles com Antes do Baile Verde
Ano passado, li metade de As Meninas e, devido à técnica usada pela autora, acabei desistindo da leitura. No entanto, organizando meus livros nessas férias, me deparei com esta obra. Lembro que o li na época do Ensino Médio, mas nunca mais me lembrei dele. Então, é uma ótima chance para reavaliar o trabalho da autora. 









4. Marion Zimmer Bradley com a série As Brumas de Avalon
Comecei a ler Avalon em 2014, no entanto, mais por causa do estado dos exemplares que existem na biblioteca da minha faculdade, acabei desanimando de terminar a série. Esta história, sob a perspectiva feminina dentro da Lenda do Rei Arthur, me fascina muito e ainda desejo lê-la na íntegra.









5. Judith Butler com Problemas de Gênero
Butler foi uma feminista que abriu caminhos para a teoria queer. Tive contato com este trabalho dela através de artigos que se baseavam em suas concepções no final do ano passado, devido a um trabalho acadêmico. Ela se atem muito à não binarização do gênero e à não heteronormatividade. Como é um assunto que gosto muito de ler e de entender, com certeza, quero conhecer seus ideais mais à fundo com esta obra. 






6. Chimamanda Ngozi Adichie com Sejamos Todos Feministas
Uma das feministas nigerianas que está mais em pauta nos últimos tempos. Ela já apareceu muitas vezes no TED e foi assistindo a sua palestra sobre o perigo das histórias únicas que conheci seu trabalho. Em 2012, palestrou sobre por que todos nós deveríamos ser feministas, que se tornou este livro em questão. 









7. Jane Austen com Emma
Fui extremamente influenciada pela Marcia a querer ler Emma. Já li Orgulho e Preconceito, embora, na época, não tenha me agradado tanto. Desde então, coloquei Emma como desejo literário. A época retratada me chama muita atenção. Depois de ler dois artigos que a Marcia escreveu sobre a personagem (aqui e aqui) e este, do site Escritoras Inglesas, fiquei ainda mais interessada em querer conferir, de uma vez, esta história. Austen é conhecida como um tanto insolente - e é algo que me cativa. 




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O projeto pode ser aderido por qualquer pessoa, então, que tal começar a ler mais mulheres? 
E, se já lê, quais são as suas referências? E quais ainda tem vontade de ler? 


Love, Nina :)

19 de fevereiro de 2016

#Resenha de livro: Fragmentos

Como mostrei AQUI, o livro poético Fragmentos chegou para mim a partir do próprio autor, o Rodrigo Cherobin. Fazia algum tempo que não lia poemas e estava na expectativa de ler estes. 

Título: Fragmentos
Autor: Rodrigo Cherobin
Editora: Indigestus
Páginas: 133
Ano: 2015

O livro é relativamente pequeno e, assim como o título sugere, é fragmentado em cinco partes. E o mais interessante é que cada parte é marcada por uma cor. Epitáfio (parte I, na cor rosa) fala bastante do tempo, de saudades e de lembranças. Inverno (parte II, na cor verde) agrega sentimentos distantes, por vezes frios, e que remetem à estação. Outono (parte III, na cor roxa escura) é um pouco mais misturado, com assuntos mais entrelaçados, como ausência, saudade e transformações. Tempestade (parte IV, na cor laranja) trata um pouco mais a fundo da natureza humana. Prelúdio (parte V, na cor roxa clara) explora outros temas também misturados, como liberdade, esquecimento e amarguras. 

A apresentação dele é linda, muito cativante mesmo, mas achei que o conteúdo deixou um pouco a desejar. Talvez seja apenas um problema meu, mas eu não consegui me envolver tanto quanto achei que aconteceria. Não encontrei muita cadência e harmonia nos poemas, tanto em relação à métrica quanto em relação à abordagem de alguns temas. Achei os poemas um pouco desencontrados, sem uma linha de consistência. Não consegui sentir muita sensibilidade como senti com outros autores, ainda que muitos assuntos sejam mais sensíveis. Fiquei com a impressão de que tudo foi tratado com muita secura. 

Claro que acabei gostando de alguns poemas, mas, de forma geral, o livro não atingiu o objetivo poético. Os poemas não têm rimas (o que, para mim, foi um problema, pois acho que as rimas dão cadência à leitura) e algo que me irritou demais foi a quantidade desnecessária de reticências (mesmo onde não precisavam estar) e as vírgulas nos lugares errados (fazendo com que a frase ficasse quebrada, o que atrapalhou demais o seu sentido e o aproveitamento da leitura). Acho que faltou certo esmero com o texto. 

Em seu interior, o livro oferece ilustrações belas e sensíveis e uma diagramação bastante diferente, agradável e cativante. Como supracitado, a apresentação é linda. Mas achei que ela "mascarou" um pouco o conteúdo, pois ele ficou bastante apagado - a arte prometeu algo que o texto não conseguiu cumprir. 

Ainda assim, de forma geral, o livro é agradável. Dá para ler em poucos minutos, pois os poemas são bastante diminutos e competem um pouco com o espaço da arte. Gostei muito do material utilizado na capa e do miolo (ambos com gramatura alta, então, o livro é bastante resistente). Gostei muito da escolha do título, pois conseguiu simbolizar o que o conteúdo traz, que é, de forma rápida, a vida em fragmentos, partes, rememorações.

Um pouco do material gráfico do livro: 




Alguns poemas ou versos que me marcaram: 





Love, Nina :)

15 de fevereiro de 2016

#Essential Book: Fevereiro

Mais um projeto super legal para este ano, o Essential Book. Idealizado pela Larissa Escuer, ele casa fotografia com livros. A proposta é, mensalmente, fotografar sobre algo específico de uma leitura atual. 


O projeto é bastante livre, levando em conta que os blogueiros não têm a obrigação de ler o mesmo livro, ou seja, a escolha é feita pelo próprio blogueiro. A cada mês, é proposto um tema (esse, sim, único a todos). Mas, então, por que Essential Book? É porque o objetivo é capturar a partir da criatividade a essência de cada tema proposto. O primeiro tema, de Fevereiro, é a essência de uma personagem feminina (podendo ser a protagonista - se for o caso -, ou qualquer outra garota/mulher presente na trama).  

Para este tema, eu escolhi Isla e o Final Feliz, de Stephanie Perkins, porque foi a leitura que mais me marcou, até agora, neste mês. É impossível não amar os enredos da Perkins e a Isla é bastante bem-humorada e cativante. 

Tímida e romântica, Isla tem uma queda pelo introspectivo Josh desde o primeiro ano na SOAP, uma escola americana em Paris. Mas sua timidez nunca permitiu que ela trocasse mais do que uma ou duas palavras com ele, quando muito.
Depois de um encontro inesperado em Nova York durante as férias envolvendo sisos retirados e uma quantidade considerável de analgésicos, os dois se aproximam, e o sonho de Isla finalmente se torna realidade. Prestes a se formarem no ensino médio, agora eles terão que enfrentar muitos desafios se quiserem continuar juntos, incluindo dramas familiares, dúvidas quanto ao futuro e a possibilidade cada vez maior de seguirem caminhos diferentes.
Com participações de Anna, Étienne, Lola e Cricket, personagens mais do que queridos pelo público apresentados em livros anteriores da autora, Isla e o final feliz é uma história de amor delicada, apaixonante e sedutora, um desfecho que vai fazer os fãs de Stephanie Perkins suspirarem ainda mais.


Isla é sonhadora. Acredita bastante no destino. Kismet.

Ela é apaixonada por Josh há três anos, então, sofrer em silêncio é algo que ela conhece bastante (até o destino lhe dar uma mãozinha hehe).

Josh é o centro da maior parte da vida dela. Como estudam na mesma escola, se encontram de vez em quando nas aulas e nos corredores. 

Outra paixão são as HQ's. Ela gasta bastante tempo lendo livros comuns, mas as HQ's são o verdadeiro amor literário dela. 

Isla é a irmã do meio, dentre três. Ela, assim como as irmãs, são ruivas. 

Ela não sabe colocar os pés no chão, então, é bastante indecisa e perdida. Não faz ideia de que faculdade fazer, nem sabe se tem algo a oferecer ao mundo. Talento? Talvez não seja com ela.

A personagem mora nos Estados Unidos, mas estuda em Paris, devido à família. O livro oscila bastante entre Paris e Manhattan (EUA). 

Espero que tenham gostado da Isla - e que comprem o livro, pois vale muito à pena!

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Conheça os outros blogs participantes: 

Love, Nina :)

12 de fevereiro de 2016

#Resenha de Livro: Garota Oculta

Achei Garota Oculta, de Shiyma Hall e Lisa Wysocky, num sebo. Eu já o havia visto em uma livraria, mas o sebo me deixou com vontade de levá-lo, em especial, porque não tive que pagar por ele (neste sebo, existe um sistema de trocas de livros, então, basicamente, você chega lá com os que não quer mais e escolhe o que tiver à disposição ali, dependendo do valor estipulado). 

Título Original: Hidden Girl - The True History of a Modern-day Child Slave
Autoras: Shyima Hall e Lisa Wysocky
Editora: V & R
Páginas: 245
Ano: 2014
“Eu não tinha muita experiência de vida, mas sabia que famílias deveriam permanecer unidas. Pais deveriam cuidar e dar apoio a seus filhos, não vendê-los a estranhos”.
p. 26
Garota Oculta me chamou atenção por dois motivos: 1) é uma história real e 2) a "personagem" é do Egito. A memórias completas ou reconstruídas permeiam todo o livro, o que nos dá quase que total acesso à vida de Shyima. A narração começa em sua tenra infância e conta sobre como seu pai era machista e violento com sua mãe, sobre a pobreza em que viviam, sobre o fato de viver em um lugar muito pequeno enquanto a família passava das dez pessoas (ela era a sétima de onze filhos). Ainda assim, ela se contentava com o que tinha, embora não fosse muito. Aos oito anos, entretanto, é vendida como escrava para a família que sua irmã mais velha servia (deixa-se subentendido que esta irmã também era uma espécie de escrava, embora ganhasse alguns trocados). Shyima não teve escolha. O motivo de sua venda foi uma dívida que sua irmã mais velha - ela havia quebrado um objeto da família e, como não havia como repor o dinheiro, seus pais encontraram essa "saída". 
“Meus sentimentos não tinham importância. Nunca tiveram. Eu era apenas Shyima, a escrava estúpida. Eu não existia”.
p. 62
A transição de sua antiga vida para a nova e cruel realidade é sofrida. Se antes ela já não tinha muita liberdade, agora, isso se faz nulo. Sua função é servir de empregada à família, tendo como patrões a Mãe e o Pai. A casa é imensa e ali moram também os filhos dos patrões junto com alguns agregados. A rotina é intensa e desumana - tem que acordar antes de todo mundo, só faz uma refeição por dia e dorme depois de todo mundo. Além disso, se faz algo errado, precisa lidar com a violência. Existem outras pessoas na mesma situação que ela ali, mas ninguém diz nada quanto a Shyima ser apenas uma criança. Aliás, diversas vezes, ela afirma o quanto a escravidão ainda é aceitável e recorrente no Egito. 

Depois de um tempo, ela e a família que serve se mudam para os Estados Unidos. Lá, a rotina ainda é a mesma, mas com mais cuidados, para que ninguém desconfie que Shyima é uma escrava. Seus pais poucas vezes mantém contato e, quando o fazem, apenas reafirmam o quanto aquilo é necessário. Em momento algum, se culpam por isso - seu pai, inclusive, continua um ogro. A garota cresce amedrontada e não sabe em quem confiar. Na polícia, de jeito nenhum. Então, apesar de não se conformar com a situação, não consegue fazer nada para revertê-la. Mas tudo muda quando, em 2002, policiais recebem uma denúncia e levam Shyima daquele lugar. Ela ainda não sabe em quem confiar, em especial, porque só sabe três palavras em inglês e nunca conversou com ninguém de fora da família que a escravizou. A partir daí, ela começa a se libertar aos pouco de quem era e começa a construir um futuro. 
“– Passei por algo terrível, mas agora estou em um lugar fantástico. Não consigo imaginar algo mais incrível do que ter a minha própria vida”.
p. 226
Li muitas poucas biografias na vida, mas esta é, com certeza, marcante. É uma história que, embora siga um ritmo constante - porque a linguagem é muito boa e acessível -, revela a natureza humana. A crueldade. O desamor. Saber que, mesmo hoje em dia, coisas assim acontecem bem debaixo de nossos olhos é um tapa na cara. Durante o livro, Shyima dá muitas informações e dados sobre a escravidão no mundo e são números e motivos chocantes. Como uma garotinha pôde ter se tornado tão debilitada devido à crueldade humana? O que mais assusta é que a família que a escravizou tentou diversas vezes tentar recorrer no processo, alegando que, sim, ela fazia parte da família. Obviamente, eles perderam - mas não ficaram muito tempo presos, não (e isso é ainda mais repugnante). A leveza, em contrapartida, se a partir da riqueza de sentimentos proporcionados. É muito bonito ver como aquela garotinha assustada e sub-julgada se transforma numa mulher forte e de princípios. Ela, inclusive, se empenha para ajudar pessoas que vivenciam situações pareciam com a que vivenciou. Sua história inspirou palestras e programas de proteção a crianças nos Estados Unidos.

A biografia é inquietante, mas cativadora. É um tipo de história que poderia muito bem ser ficcional - mas é a realidade de muita gente, ainda. No decorrer da leitura, Shyima me encantou diversas vezes, assim como me conquistou por suas crenças e sua persistência. Enquanto ela era tratada como um objeto, um nada, aquilo tudo me provocava bastante - em especial, porque sou muito sensível com coisas desse tipo. Não suporto ver/ler o sofrimento alheio. Acompanhar o crescimento de Shyima também me permitiu repensar em várias coisas, até mesmo as ligadas à cultura inicial dela, no Egito. O final é um pouco surpreendente, pois hoje ela é mãe e continua nos Estados Unidos. Diversas vezes, eu desejei que sua família biológica tentasse resgatar algum vínculo, mas diante da crueldade que fizeram, o meu senso de merecimento e perdão também foi colocado à prova. Até que ponto podemos permitir perdoar alguém? Além do mais: o perdão pode mudar o quê? 

Com certeza, uma leitura transformadora e reflexiva. 

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(...) Em 2011, Shyima realizou o sonho de se tornar uma cidadã americana e, hoje, usa sua experiência de vida como exemplo para que outras pessoas em situação de escravidão sejam encontradas e libertadas. 

#Para denunciar a escravidão, você pode:
- Discar 100 (Secretaria de Direitos Humanos) - a ouvidora funciona 24 horas. 
- Ir a qualquer Delegacia de Polícia, Ministério Público do Trabalho (MPT), no Ministério do Trabalho, na Defensoria Pública e nos sindicatos - saiba mais aqui, no site do MPT.


#Para saber mais sobre o assunto, sugiro esse link


Love, Nina :)

9 de fevereiro de 2016

#Twelve Letters Project


Descobri esse projeto lindíssimo no Sete Coisas e, o quanto antes, tratei de fazer parte dele, por motivo de: tenho saudade de escrever cartas. Embora meus textos tenham características epistolares, não acho que sejam cartas legítimas e foi isso que me motivou a participar deste projeto. A cada mês de 2016, uma carta é escrita de acordo com um tema. Como Janeiro já passou, não vai ter carta referente a ele, mas os outros temas são esses:

Janeiro: Uma carta para você no passado, há 10 anos
Agosto: Uma carta ao seu reflexo no espelho.
Setembro: Uma carta aos seus sonhos.
Outubro: Uma carta à sua melhor amiga /seu melhor amigo.
Novembro: Uma carta de perdão.
Dezembro: Uma carta de despedida.

Love, Nina :)

6 de fevereiro de 2016

#Resenha de livro: Os Três Encontros

Já falei m-u-i-t-a-s vezes da Ruh Dias (do blog Perplexidade e Silêncio) por aqui, mas especialmente neste post mostrei que tinha recebido Os Três Encontros, livro escrito por ela e lançado no final do ano passado. E aqui está a resenha dele, eba!

Título: Os Três Encontros
Autora: Rúbia Dias
Editora: Clube de Autores
Páginas: 99
Ano: 2015
+ 

Apesar de Os Três Encontros ter apenas 99 páginas, cumpre completamente o seu papel na literatura. A narração em terceira pessoa, embora me incomode na maior parte das leituras, conseguiu me prender desde o início, contando sobre o encontro de Virgínia com três importantes figuras: o Universo, o Tempo e o Destino. A história, desde o começo, remete aos sonhos e ao subconsciente. Logo no primeiro capítulo, Virgínia está numa praia desconhecida com um homem de sobretudo e chapéu da cor do céu. Ela não se lembra de nada e faz as mesmas perguntas. É aí que ela re-começa a sua jornada (levando em consideração que muitas e muitas vezes já esteve na mesma situação, mas sem recordação). 

Quando retorna desta praia, Virgínia está numa casa que não se recorda com uma garotinha chamada Sofia, que não sabe quem é. Durante algum tempo, Virgínia e Sofia têm uma rotina comum, até que o Moço do Chapéu reaparece e as leva a um lugar recoberto por livros e ampulhetas. Lá, conhecem o Tempo. É nesta segunda parte do livro que a trama começa a ser realmente desenvolvida: o leitor começa a juntar algumas peças implícitas no texto e que se colam a outras que passaram despercebidas anteriormente. 
“Acho que a alegria dela está dormindo e não quer acordar”.
p. 11
Virgínia aprende que o Tempo e o Universo (o Moço do Chapéu) não são exatamente amigos e que, embora trabalhem juntos muitas vezes, algumas situações dizem respeito a apenas o Universo e, outras, a apenas o Tempo. Mas que, ainda assim, cada detalhe de sua vida é responsável pelo todo e influenciado por ambos os elementos. Nesta parte, a personagem também aprende que resgatar lembranças e se desfazer de sentimentos é doloroso e sempre traz consequências. Na última parte, conhecemos o Destino, uma senhora benevolente, gentil e alegre, que concede à Virgínia uma segunda chance. 

O livro tem um ritmo bom, nem rápido, nem muito devagar. Ainda que, às vezes, fiquemos confusos de início com algo, há sempre uma explicação por vir e que sempre rende epifanias. Eu diria, na verdade, que Os Três Encontros é, do começo ao fim, uma grande epifania sobre nós mesmos e a vida. A leitura é muito agradável, não irrita em momento algum, ou cansa. O que mais me deixou confortável foi a poética inserida, especialmente no modo como a escritora descrevia as sensações de vazio, de ruptura e de raiva de Virgínia. A melancolia é algo bastante recorrente na trama e com a qual eu me identifiquei totalmente. O reforço de vazio, de silêncio e de perda foi algo que me deixou muito feliz, pois a autora expôr isso de forma gentil e sem dramas - a naturalidade com que os temas foram tratados e retratados me fez sentir em casa. 

Não foi à toa que, na retrospectiva 2015, Os Três Encontros ficou com o lugar de Melhor livro de fantasia. É porque ele me desconstruiu e re-organizou a cada capítulo, sempre de um modo singelo e muito marcante. Muito próximo do modo como eu faria na literatura, também. Ele me marcou de um modo que sei que o levarei para sempre como uma lição de vida. Sei que, quando eu quiser que algo apenas dê certo, lembrarei do Tempo e do Destino. Sei que, quando eu quiser esquecer de algo que estou sentindo, lembrarei do Universo. Os três elementos, aliás, são muito bem delineados e, embora sejam coisas abstratas, nessa história ganharam nuances humanas e concretas. Com certeza, quem ler nunca mais pensará no Universo, no Tempo e no Destino da mesma forma. 
“(...) Virgínia quase pôde escutar um teco seu quebrando, bem lá dentro, camadas e mais camadas abaixo da superfície, num território de si mesma que ela nem sequer sabia que ainda estava intacto. Foi um som seco e estalado, de coisa dura que se parte em dois. E ela soube que, daquele momento em diante, jamais seria a mesma”.
p. 67
A Ruh o lançou de forma independente, então, pôde cuidar de absolutamente tudo: da sinopse, da capa (produzida por ela mesma e pelo namorado), da tipografia escolhida e da diagramação (que pode ser melhorada; achei a tipografia do texto muito grande e há alguns errinhos de parágrafo, mas que não diminuem a qualidade do livro). Uma curiosidade é  que somente depois de certo ponto da leitura é que fui entender a capa e a contra-capa e isso foi mais uma epifania que o livro me proporcionou. 

Tenho certeza de que é uma leitura que relerei muitas vezes ao longo da vida e que recomendo de olhos fechados 
“Você tem um vazio aí dentro de si, não tem? Uma tristeza sem começo nem fim, bem aqui no meio do peito, entre os pulmões. Este vazio é o pedaço dele que foi embora depois de todo aquele sofrimento que você viveu, e o Universo quer ele de volta”.
p. 74
#Para comprar: está disponível na Amazon, em formato ePub e de forma física (ambos pelo Clube dos Autores). 
#Deixe o seu review aqui: Goodreads
#Você pode conferir esta incrível galeira de fotos sobre o livro, que foi publicada pela Ruh no blog dela.


Love, Nina :)

1 de fevereiro de 2016

#Culturalegrando: "Pois é, Vizinha"

Neste ano, decidi trazer a vocês conteúdos que não falem somente de literatura. Apesar de a literatura ser grande parte de mim, obviamente, transito por outras formas de cultura. Desde Setembro estou trabalhando em um Centro Histórico-Cultural e, por causa disso, tenho estado bastante conectada a programações de museus e teatros. Então, o #Culturalegrando será sobre o que tem acontecido pela minha cidade em termos de exposições, eventos, arte de forma geral - e tudo aquilo que me inspira. 


Lá onde trabalho, entre Janeiro e Fevereiro, estamos recebendo peças teatrais de um festival de verão (o Porto Verão Alegre) e a segunda a ser apresentada foi a já bem conhecida (pelo menos aqui no Sul) Pois é, Vizinha..., dirigida e adaptada pela atriz Deborah Finocchiaro

A peça é quase um monólogo: a personagem Maria conhece Ana, uma vizinha, e abre sua vida para esta moça. Enquanto limpa a casa, cuida do cunhado semi-paralítico e do filho e atende o telefone, Maria nos apresenta uma história de peso e recorrente na vida de muitas mulheres reais. A personagem casou relativamente cedo com um homem mais velho e bastante rude que, tempos depois, revelou-se violento. Para piorar, além de Maria receber vários tapas, é mantida cárcere dentro do apartamento.
"Ele diz que faz isso porque me ama. Me ama, mas me caga a pau. Me ama, mas me caga a pau*”.
*a expressão, aqui no Sul, significa “bater”. 
Eu nunca tinha assistido a montagem, embora ela exista há 23 anos. Tudo o que eu sabia era que a violência doméstica e as relações humanas são elementos essenciais da trama. O que vi na hora foi que, embora o tema seja pesado e difícil de ser tratado com tanta naturalidade, a comicidade está muito presente em várias cenas - mesmo naquelas que não deveriam ser engraçadas. Então, é fácil perceber a proposta de Deborah com a peça: a conscientização não precisa vir de forma cáustica, tensa e fechada.

Sempre houve uma tentativa de dar voz às mulheres, independentemente sobre o quê. E por que é importante essa representatividade?

1. Toda história tem dois lados 
2. Mulheres também falam, sentem e desejam coisas
"Eu acredito que trabalhar com o teatro é isso, que a vida é isso, que a gente tem que construir mundos melhores no meio desse caos, dessa loucura, desse drama existencial que se vive". – Deborah Finocchiaro, para o site do Centro Histórico-Cultural Santa Casa.
Não há mais como calar a realidade e não estou falando apenas de feminismo(s), mas daquilo que a gente sabe que acontece e finge que não vê. Estou falando, também, das nossas relações humanas. Pense bem, trocando a mulher por um negro, por exemplo, ainda sobram os mesmos questionamentos. O que mais falta acontecer? Por que isso não muda? Por quê, por quê, por quê? 

Por que a gente vê um sem-teto na rua e passa reto? Por que ouvimos alguém sendo tratado mal e não interferimos? Por que respondemos grosseria com mais grosseria? Afinal: por que a gente não tenta melhorar aquilo que somos e aquilo que podemos ser? 

Desde que me adentrei no mundo das artes - lendo e escrevendo -, percebi algo que tomei como um objetivo de vida: tocar os outros. Quando leio algo e esse algo me toca, eu me sinto grata pelo autor e me sinto conectada de uma forma indissociável. E, quando estou escrevendo, quero que minhas palavras não sejam apenas um conjunto de parágrafos, quero que elas façam a sua parte nas vidas alheias. 

Digo isso, porque ainda que a realidade seja hipócrita, injusta e muitas vezes terrível, a arte está aí para tentar lhe dizer algo muito mais do que apenas bonito - é algo que tange aquilo que nos faz humanos: você não está sozinho(a). Sei, a gente tem esse pensamento de que somos incompreendidos. E sou assim o tempo inteiro, mas me encontro na literatura por causa disso: algumas palavras podem me devolver aquilo que sou, aquilo que deixei para trás e aquilo pelo que quero lutar. A questão da arte não é simplesmente ser um escape, mas a potencialização daquilo que deveríamos enxergar no nosso mundo real. 

Então, quando você coloca uma mulher abusada, diminuída e molestada numa peça acontece uma coisa: catarse. Está dando chances às pessoas de se livrarem se seus grilhões, de seus pensamentos retrógrados e de seus medos. Porque o abuso, da espécie que for, reduz a alma da gente. A Maria poucas vezes enfrentou o trânsito, entrou em outras casas e conheceu gente nova, porque estava reduzida àquilo que lhe foi imposto. E, muitas vezes, se livrar dessas migalhas que nos oferecem tem uma consequência - e não dá para julgar. 

Não dá para julgar, porque:
1. A situação podemos conhecer, mas não somos a mesma pessoa - ou seja, não reagimos, não sentimos e não vemos da mesma forma que aquela pessoa em questão
2. Podemos não conhecer nem a situação, nem toda a bagagem emocional daquela pessoa em questão

Maria, com seu cenário colorido, seu telefone-Mickey e sua enceradeira, reagiu. Não reagiu da mesma forma que eu reagiria, nem da forma que você poderia reagir. A reação diante de qualquer abuso, da espécie que for, é única. Oras, por quê? Porque não dá pra generalizar nada: nem a Maria, nem o marido, nem eu, nem você. 

Para acabar - sei que nem todo mundo ama textão -, a arte serve para que a você? E, se você é artista, ela serve para que aos outros? 
"Se a gente olhar num padrão, a televisão, por exemplo: na novela, o que é a mulher? Daí tu vai no shopping, vê as pessoas reproduzindo o que veem na televisão, imitando os personagens da novela e cada vez mais se afastando de si mesmas. E aí gera frustração, doenças, loucura. Então, acho que [o tema da peça] é totalmente atual e a gente tem a obrigação de falar sobre essas coisas, de mudar as nossas relações, principalmente – porque não adianta ficar com “discursinho” e no teu dia a dia ser hipócrita, ser cínico, tratar os outros mal. Acho que o grande desafio da vida é o relacionamento com o outro, ser mais transparente". – Deborah Finocchiaro, para o site do Centro Histórico-Cultural Santa Casa. (Para ler a entrevista completa, CLIQUE AQUI). 

Love, Nina :)