Editado por Alice Gonçalves . Tecnologia do Blogger.

#Culturalegrando: "Pois é, Vizinha"

by - fevereiro 01, 2016

Neste ano, decidi trazer a vocês conteúdos que não falem somente de literatura. Apesar de a literatura ser grande parte de mim, obviamente, transito por outras formas de cultura. Desde Setembro estou trabalhando em um Centro Histórico-Cultural e, por causa disso, tenho estado bastante conectada a programações de museus e teatros. Então, o #Culturalegrando será sobre o que tem acontecido pela minha cidade em termos de exposições, eventos, arte de forma geral - e tudo aquilo que me inspira. 


Lá onde trabalho, entre Janeiro e Fevereiro, estamos recebendo peças teatrais de um festival de verão (o Porto Verão Alegre) e a segunda a ser apresentada foi a já bem conhecida (pelo menos aqui no Sul) Pois é, Vizinha..., dirigida e adaptada pela atriz Deborah Finocchiaro

A peça é quase um monólogo: a personagem Maria conhece Ana, uma vizinha, e abre sua vida para esta moça. Enquanto limpa a casa, cuida do cunhado semi-paralítico e do filho e atende o telefone, Maria nos apresenta uma história de peso e recorrente na vida de muitas mulheres reais. A personagem casou relativamente cedo com um homem mais velho e bastante rude que, tempos depois, revelou-se violento. Para piorar, além de Maria receber vários tapas, é mantida cárcere dentro do apartamento.
"Ele diz que faz isso porque me ama. Me ama, mas me caga a pau. Me ama, mas me caga a pau*”.
*a expressão, aqui no Sul, significa “bater”. 
Eu nunca tinha assistido a montagem, embora ela exista há 23 anos. Tudo o que eu sabia era que a violência doméstica e as relações humanas são elementos essenciais da trama. O que vi na hora foi que, embora o tema seja pesado e difícil de ser tratado com tanta naturalidade, a comicidade está muito presente em várias cenas - mesmo naquelas que não deveriam ser engraçadas. Então, é fácil perceber a proposta de Deborah com a peça: a conscientização não precisa vir de forma cáustica, tensa e fechada.

Sempre houve uma tentativa de dar voz às mulheres, independentemente sobre o quê. E por que é importante essa representatividade?

1. Toda história tem dois lados 
2. Mulheres também falam, sentem e desejam coisas
"Eu acredito que trabalhar com o teatro é isso, que a vida é isso, que a gente tem que construir mundos melhores no meio desse caos, dessa loucura, desse drama existencial que se vive". – Deborah Finocchiaro, para o site do Centro Histórico-Cultural Santa Casa.
Não há mais como calar a realidade e não estou falando apenas de feminismo(s), mas daquilo que a gente sabe que acontece e finge que não vê. Estou falando, também, das nossas relações humanas. Pense bem, trocando a mulher por um negro, por exemplo, ainda sobram os mesmos questionamentos. O que mais falta acontecer? Por que isso não muda? Por quê, por quê, por quê? 

Por que a gente vê um sem-teto na rua e passa reto? Por que ouvimos alguém sendo tratado mal e não interferimos? Por que respondemos grosseria com mais grosseria? Afinal: por que a gente não tenta melhorar aquilo que somos e aquilo que podemos ser? 

Desde que me adentrei no mundo das artes - lendo e escrevendo -, percebi algo que tomei como um objetivo de vida: tocar os outros. Quando leio algo e esse algo me toca, eu me sinto grata pelo autor e me sinto conectada de uma forma indissociável. E, quando estou escrevendo, quero que minhas palavras não sejam apenas um conjunto de parágrafos, quero que elas façam a sua parte nas vidas alheias. 

Digo isso, porque ainda que a realidade seja hipócrita, injusta e muitas vezes terrível, a arte está aí para tentar lhe dizer algo muito mais do que apenas bonito - é algo que tange aquilo que nos faz humanos: você não está sozinho(a). Sei, a gente tem esse pensamento de que somos incompreendidos. E sou assim o tempo inteiro, mas me encontro na literatura por causa disso: algumas palavras podem me devolver aquilo que sou, aquilo que deixei para trás e aquilo pelo que quero lutar. A questão da arte não é simplesmente ser um escape, mas a potencialização daquilo que deveríamos enxergar no nosso mundo real. 

Então, quando você coloca uma mulher abusada, diminuída e molestada numa peça acontece uma coisa: catarse. Está dando chances às pessoas de se livrarem se seus grilhões, de seus pensamentos retrógrados e de seus medos. Porque o abuso, da espécie que for, reduz a alma da gente. A Maria poucas vezes enfrentou o trânsito, entrou em outras casas e conheceu gente nova, porque estava reduzida àquilo que lhe foi imposto. E, muitas vezes, se livrar dessas migalhas que nos oferecem tem uma consequência - e não dá para julgar. 

Não dá para julgar, porque:
1. A situação podemos conhecer, mas não somos a mesma pessoa - ou seja, não reagimos, não sentimos e não vemos da mesma forma que aquela pessoa em questão
2. Podemos não conhecer nem a situação, nem toda a bagagem emocional daquela pessoa em questão

Maria, com seu cenário colorido, seu telefone-Mickey e sua enceradeira, reagiu. Não reagiu da mesma forma que eu reagiria, nem da forma que você poderia reagir. A reação diante de qualquer abuso, da espécie que for, é única. Oras, por quê? Porque não dá pra generalizar nada: nem a Maria, nem o marido, nem eu, nem você. 

Para acabar - sei que nem todo mundo ama textão -, a arte serve para que a você? E, se você é artista, ela serve para que aos outros? 
"Se a gente olhar num padrão, a televisão, por exemplo: na novela, o que é a mulher? Daí tu vai no shopping, vê as pessoas reproduzindo o que veem na televisão, imitando os personagens da novela e cada vez mais se afastando de si mesmas. E aí gera frustração, doenças, loucura. Então, acho que [o tema da peça] é totalmente atual e a gente tem a obrigação de falar sobre essas coisas, de mudar as nossas relações, principalmente – porque não adianta ficar com “discursinho” e no teu dia a dia ser hipócrita, ser cínico, tratar os outros mal. Acho que o grande desafio da vida é o relacionamento com o outro, ser mais transparente". – Deborah Finocchiaro, para o site do Centro Histórico-Cultural Santa Casa. (Para ler a entrevista completa, CLIQUE AQUI). 

Love, Nina :)

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8 comentários

  1. Olá Nina.
    Acho legal você trazer outras formas de cultura/arte para o blog.
    E eu gosto quando algo toca a gente, mexe com os nossos sentimentos mais profundos, nos causa euforia, alegria, e até mesmo quando nos cutuca e mostra situações que não deveriam existir, mostram um lado da humanidade feio, cruel e desumano. Aí sim serviu ao seu propósito.

    Beijos
    http://aventurandosenoslivros.blogspot.com.br

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  2. Sempre é bom conhecer novos cenários culturais. Fiquei com muita vontade de assistir essa peça. Espero que algum dia ela venha para minha cidade.
    Bjs
    www.livrosdabeta.blogspot.com.br

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  3. Oi Nina, tudo bem?

    Não sei se eu iria me envolver com uma peça monologo. Não entendo muito esta arte, então é difícil julgar. Mas concordo quando você fala que cada um tem uma reação diante do abuso. A história deve ser bem profunda...

    beijos
    Kel
    www.porumaboaleitura.com.br

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  4. Ola lindona nossa menina lendo essa postagem me peguei a pensar que há anos não assisto uma peça, preciso remediar essa situação, com relação ao monólogo gostei do tema e prenderia minha atenção. beijos

    Joyce
    www.livrosencantos.com

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  5. Oi flor, muito bacana essa mesclagem no blog, faço no meu com outros assuntos e amo, só resenhas cansa o povo, e toda forma de cultura é bem válida. Adoro teatro e gostei da história dessa peça.

    bjs

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  6. Gente, que postagem maravilhosa, não sabia de seu trabalho, deve ser encantador. Eu amo visitar museus, e fiquei bem empolgada com a série que descreveu, me fez lembrar de um que vi no Sesc de Pernambuco. Que bom que seu intuito no mundo das artes é tocar os outros, seu espaço literário é bem sensível as questões sociais, isso me alegra muito.

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  7. oi, tudo bem?
    legal essa nova coluna, gosto de informações sobre centros culturais e sua riquiza.
    Essa peça parecer ser belíssima, e super reflexiva. É impressionante como tornamos coisas absurdas em normais, e passamos a ignorar tudo o que deveria nos incomodar a nossa volta.
    fiquei bem curiosa
    beijos
    http://meumundinhoficticio.blogspot.com.br/

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  8. Oi, Nina *-*
    Fiquei com muita vontade de assistir a peça, mas acho que iria me irritar com a inserção do humor em algumas cenas. Acho que isso é algum trauma, pois odeio ver coisas sérias sendo levadas na base da piada, como uma forma de tirar a importância de algo sério.
    Também vejo a arte dessa forma. A literatura, por exemplo, precisa ser mais do que um amontoado de palavras. Uso a minha escrita como uma válvula de escape. É lá que coloco tudo o que me aflige, que mostra o meu ponto de vista sobre o mundo e as coisas, gosto de verossimilhança tanto no que leio quanto no que escrevo.

    Abraços,
    Karina do blog Eu e Minha Cultura.

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