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#Resenha de Livro: Garota Oculta

by - fevereiro 12, 2016

Achei Garota Oculta, de Shiyma Hall e Lisa Wysocky, num sebo. Eu já o havia visto em uma livraria, mas o sebo me deixou com vontade de levá-lo, em especial, porque não tive que pagar por ele (neste sebo, existe um sistema de trocas de livros, então, basicamente, você chega lá com os que não quer mais e escolhe o que tiver à disposição ali, dependendo do valor estipulado). 

Título Original: Hidden Girl - The True History of a Modern-day Child Slave
Autoras: Shyima Hall e Lisa Wysocky
Editora: V & R
Páginas: 245
Ano: 2014
“Eu não tinha muita experiência de vida, mas sabia que famílias deveriam permanecer unidas. Pais deveriam cuidar e dar apoio a seus filhos, não vendê-los a estranhos”.
p. 26
Garota Oculta me chamou atenção por dois motivos: 1) é uma história real e 2) a "personagem" é do Egito. A memórias completas ou reconstruídas permeiam todo o livro, o que nos dá quase que total acesso à vida de Shyima. A narração começa em sua tenra infância e conta sobre como seu pai era machista e violento com sua mãe, sobre a pobreza em que viviam, sobre o fato de viver em um lugar muito pequeno enquanto a família passava das dez pessoas (ela era a sétima de onze filhos). Ainda assim, ela se contentava com o que tinha, embora não fosse muito. Aos oito anos, entretanto, é vendida como escrava para a família que sua irmã mais velha servia (deixa-se subentendido que esta irmã também era uma espécie de escrava, embora ganhasse alguns trocados). Shyima não teve escolha. O motivo de sua venda foi uma dívida que sua irmã mais velha - ela havia quebrado um objeto da família e, como não havia como repor o dinheiro, seus pais encontraram essa "saída". 
“Meus sentimentos não tinham importância. Nunca tiveram. Eu era apenas Shyima, a escrava estúpida. Eu não existia”.
p. 62
A transição de sua antiga vida para a nova e cruel realidade é sofrida. Se antes ela já não tinha muita liberdade, agora, isso se faz nulo. Sua função é servir de empregada à família, tendo como patrões a Mãe e o Pai. A casa é imensa e ali moram também os filhos dos patrões junto com alguns agregados. A rotina é intensa e desumana - tem que acordar antes de todo mundo, só faz uma refeição por dia e dorme depois de todo mundo. Além disso, se faz algo errado, precisa lidar com a violência. Existem outras pessoas na mesma situação que ela ali, mas ninguém diz nada quanto a Shyima ser apenas uma criança. Aliás, diversas vezes, ela afirma o quanto a escravidão ainda é aceitável e recorrente no Egito. 

Depois de um tempo, ela e a família que serve se mudam para os Estados Unidos. Lá, a rotina ainda é a mesma, mas com mais cuidados, para que ninguém desconfie que Shyima é uma escrava. Seus pais poucas vezes mantém contato e, quando o fazem, apenas reafirmam o quanto aquilo é necessário. Em momento algum, se culpam por isso - seu pai, inclusive, continua um ogro. A garota cresce amedrontada e não sabe em quem confiar. Na polícia, de jeito nenhum. Então, apesar de não se conformar com a situação, não consegue fazer nada para revertê-la. Mas tudo muda quando, em 2002, policiais recebem uma denúncia e levam Shyima daquele lugar. Ela ainda não sabe em quem confiar, em especial, porque só sabe três palavras em inglês e nunca conversou com ninguém de fora da família que a escravizou. A partir daí, ela começa a se libertar aos pouco de quem era e começa a construir um futuro. 
“– Passei por algo terrível, mas agora estou em um lugar fantástico. Não consigo imaginar algo mais incrível do que ter a minha própria vida”.
p. 226
Li muitas poucas biografias na vida, mas esta é, com certeza, marcante. É uma história que, embora siga um ritmo constante - porque a linguagem é muito boa e acessível -, revela a natureza humana. A crueldade. O desamor. Saber que, mesmo hoje em dia, coisas assim acontecem bem debaixo de nossos olhos é um tapa na cara. Durante o livro, Shyima dá muitas informações e dados sobre a escravidão no mundo e são números e motivos chocantes. Como uma garotinha pôde ter se tornado tão debilitada devido à crueldade humana? O que mais assusta é que a família que a escravizou tentou diversas vezes tentar recorrer no processo, alegando que, sim, ela fazia parte da família. Obviamente, eles perderam - mas não ficaram muito tempo presos, não (e isso é ainda mais repugnante). A leveza, em contrapartida, se a partir da riqueza de sentimentos proporcionados. É muito bonito ver como aquela garotinha assustada e sub-julgada se transforma numa mulher forte e de princípios. Ela, inclusive, se empenha para ajudar pessoas que vivenciam situações pareciam com a que vivenciou. Sua história inspirou palestras e programas de proteção a crianças nos Estados Unidos.

A biografia é inquietante, mas cativadora. É um tipo de história que poderia muito bem ser ficcional - mas é a realidade de muita gente, ainda. No decorrer da leitura, Shyima me encantou diversas vezes, assim como me conquistou por suas crenças e sua persistência. Enquanto ela era tratada como um objeto, um nada, aquilo tudo me provocava bastante - em especial, porque sou muito sensível com coisas desse tipo. Não suporto ver/ler o sofrimento alheio. Acompanhar o crescimento de Shyima também me permitiu repensar em várias coisas, até mesmo as ligadas à cultura inicial dela, no Egito. O final é um pouco surpreendente, pois hoje ela é mãe e continua nos Estados Unidos. Diversas vezes, eu desejei que sua família biológica tentasse resgatar algum vínculo, mas diante da crueldade que fizeram, o meu senso de merecimento e perdão também foi colocado à prova. Até que ponto podemos permitir perdoar alguém? Além do mais: o perdão pode mudar o quê? 

Com certeza, uma leitura transformadora e reflexiva. 

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(...) Em 2011, Shyima realizou o sonho de se tornar uma cidadã americana e, hoje, usa sua experiência de vida como exemplo para que outras pessoas em situação de escravidão sejam encontradas e libertadas. 

#Para denunciar a escravidão, você pode:
- Discar 100 (Secretaria de Direitos Humanos) - a ouvidora funciona 24 horas. 
- Ir a qualquer Delegacia de Polícia, Ministério Público do Trabalho (MPT), no Ministério do Trabalho, na Defensoria Pública e nos sindicatos - saiba mais aqui, no site do MPT.


#Para saber mais sobre o assunto, sugiro esse link


Love, Nina :)

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4 comentários

  1. Nossa, fiquei bem curiosa com o livro. Principalmente por ser baseado em uma historia real. Achei meio denso, cheio de tristeza e pesar, mas como vc mesma disse, é a vida tbm de muitas pessoas reais pelo mundo... vou procurar saber mais do livro.
    http://b-uscandosonhos.blogspot.com.br/

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  2. O livro já estava na nossa lista, depois dessa resenha acho que ele subiu algumas posições, haha. Tudo lindo por aqui, adoramos!

    Equipe Digaí, leitores!
    http://digaileitoresblog.blogspot.com/

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  3. Oii,

    Não conhecia esse livro e nem a autora.
    Mas fiquei interessada com a história.

    beijos

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  4. O livro parece ótimo, lerei de certeza!
    Parabéns pela Resenha! Bjs

    Roberta - www.livrosdabeta.blogspot.com.br

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