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#Twelve Letters Project: uma carta para um desconhecido

by - abril 24, 2016

Querido Desconhecido,
[você pode ler essa carta ouvindo a trilha sonora de As Crônicas de Nárnia - não, não é um acaso, porque nada acontece duas vezes da mesma maneira]

Venho começando essa carta mentalmente há alguns dias e, até agora, não encontrei um consenso definitivo. Diante de muitas provações, decepções e angústia, poucas coisas/pessoas me têm feito encontrar alegria. Embora meus dias estejam em um looping esquisito de tristeza, não estou aqui para lhe dizer que a gente nunca encontra paz ou felicidade. Estamos em instâncias de paz e felicidade. A minha instância oposta, tenho certeza, vai acabar. 

E, por entre ciclos, quero te dizer que a gente só entra em instâncias se as permitimos. Aprendi que, durante a vida, passamos por diversas condições e precisamos de todas elas, porque constroem quem somos. Não adianta nos privar de alguma etapa, só porque temos medo das consequências. Aliás, aprendi que o medo é inerente à humanidade. Meg Cabot, em sua instância de escritora, diria que a coragem não é a ausência do medo, mas a decisão de que algo é mais importante que o medo. Então, se você deixou de fazer, falar ou sentir algo por medo, eu sei como é. Às vezes, colocamos as prioridades nos lugares errados numa tentativa vã de nos acolher, de nos resguardar - de, pra falar a verdade, não viver em plenitude. Eu já deixei de viver muitas vezes por causa do medo. Medo das pessoas. Medo de julgamentos. Medo de me perder no meio da caminhada. Medo de não chegar a lugar algum. Medo de perder tempo. Medo de sentir medo. E, no fim, não restou muita coisa nem mesmo dentro de mim. O medo, eu entendi, só acua a gente num canto escuro, onde não conseguimos sentir mais nada além de tristeza, de incapacidade, de indiferença. 

Não posso dizer para não sentir medo. Sinta-o o quanto precisar, sinta-o até entender que não cabe a ele escolher quem você quer ser, quem você é - não deixe que ele o defina. Se for preciso, mude suas prioridades. Vá embora por um tempo, pare de falar com as pessoas, leia livros tristes para entender o que é a tristeza. Depois de conseguir controlar e manusear o medo, dê voz ao seu coração. Ouça o que ele te diz. Entenda que a coragem que ele tem precisa acontecer também dentro de você. Sim, o coração vai sentir medo assim como você, mas, se cuidar dele, vai conseguir dizer quais são as suas prioridades. Ele, assim você, vai conseguir separar o que vale o medo e o que vale a coragem. Não tenha medo de dizer que está difícil e que precisa de um tempo de descanso - por muito tempo, eu achei que desistir fosse fracassar e errar, mas desistir nada mais é do que ouvir a nós mesmos, ouvir quem somos, ouvir a coragem e o medo que habita em nós. Se for preciso desistir, vá em frente. Desista e recomece em outro tempo, outro lugar, com outras pessoas. 

Tenha um lugar para descansar, um lugar para onde ir quando não suportar mais o medo. Tenha um tempo para si, dentro de uma música, dentro de um abraço. Tenha coragem de sentir medo e tenha medo de sentir coragem. 

Acima de tudo, não fuja de quem é. Tenha coragem e medo de ser quem é, do jeito que for. Diga ao seu coração que está tudo bem não saber para onde ir, não saber o que quer, não saber o que esperar. Mas nunca, nunca mesmo, tente convencê-lo de que não sabe quem você é. Por mais confuso que estejamos, por mais cansativa que a vida seja, sempre sabemos quem somos, então, não fuja disso - não se faça correr de si mesmo. Diga ao seu coração que quem você é sempre será a prioridade da sua coragem e do seu medo. 

Entenda que quem você é sempre será o seu caminho. Independentemente de quem seja, de como seja, o caminho é nunca abrir mão de cada pedacinho que forma você. 

Espero que você tenha coragem e medo para seguir em frente, para amar quem é, para amar aos outros. Que cada pedacinho seu saiba escolher o medo e a coragem nas horas certas. 


Com coragem e medo, 
Alguém que soube escolher o coração.


____

Conheça o Twelve Letters Project e os próximos temas AQUI.  
Love, Nina :)

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7 comentários

  1. U A U. Sua instância meio triste/esquisita tem despertado coisas muito lindas em você, tipo este texto. Essa frase "a coragem não é a ausência do medo, mas a decisão de que algo é mais importante que o medo." é M A R A V I L H O S A, daquelas que dá vontade até de tatuar. Infelizmente não pude ler ouvindo a trilha, pois estou no trabalho, mas pressinto que eu teria chorado! haha
    Cara, você é incrível. Uma musa! kk

    Beijão
    Ruh Dias
    perplexidadesilencio.blogspot.com

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  2. Nossa, eu acho que ainda não conhecia esse projeto. Se já conhecia, acabei esquecendo. Gostei muito, e queria estar participando. Será que é roubar se eu escrever cartas para os meses passados?
    Gostei muito do seu texto também. Me passou um sentimento que não sei bem te explicar.

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  3. Que texto maravilhoso!!! Amo a forma como usa as palavras... é de uma delicadeza e, ao mesmo tempo, tudo muito intenso e profundo! Sim... sou tiete...rsrs
    Parabéns!!

    Bjs
    www.livrosdabeta.blogspot.com.br

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  4. Não conhecia o projeto, mas já adorei.
    Amei a carta.
    Muito lindo, cheio de verdades e que nos faz refletir muito.

    Lisossomos

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  5. oi, tudo bem?
    adorei a carta e senti que foi feita para mim. Eu já deixei de fazer muitas coisas, dizer muitas coisas, por medo. Medo a reação dos outros, medo das consequências. É mais fácil se acomodar, não arriscar. Hoje vejo isso, e tento mudar
    adorei o texto
    beijos
    http://meumundinhoficticio.blogspot.com.br/

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  6. Sempre que venho ao ser blog ler algum texto me sinto surpreendida, sempre. Que texto e projeto maravilhosos!
    "Tenha coragem de sentir medo e tenha medo de sentir coragem." Vou levar essa frase pra toda a vida ♥

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  7. oi Nina, li sua carta, mas não ao som de Nárnia, não sei se seria possível, mas sem a trilha sonora ao fundo já fiquei tocada pela belas e profundas palavras. Parabéns!
    Bjs, Rose

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