27 de maio de 2016

#Twelve Letters Project: uma carta para nunca ser enviada

Essa carta não vai ser enviada, porque você não pode recebê-la. Não se entrega cartas a pessoas que já morreram. Entendo o porquê e sempre que leio sobre seu "estado mental frágil" dá um nervoso - porque, claramente, as pessoas que dizem isso não estavam na sua mente para dizer qualquer coisa a seu respeito. Aliás, odeio gente que acha que sabe o que estamos sentindo e como estamos sentindo. Melhor dizer que não sabe e perguntar de verdade. Querer saber. Em especial porque não podemos opinar sobre algo que não entendemos. Eles não entendiam você - às vezes, nem eu me entendo, mas entendi você. Continuo entendendo.

Você escreveu que não somos o escritor do livro. Somos nós mesmos lendo o livro. Às vezes, parece que alguém escreveu algo para mim, sem saber da minha existência. Certamente, você existia para si mesma. Não sou você, mas me sinto como você. Acho importante não sermos outro alguém, mas sabermos sentir como outro alguém. Não significa, exatamente, empatia, mas algo além. Para mim, tem mais a ver com sincronicidade. Alguma coisa a ver com fluxo de energia - mesmo que décadas ou séculos nos separem da outra pessoa. Eu acredito no fluxo; acredito que não somos nem sentimos as mesmas coisas todos os dias, estamos em constante renovação. Algo que Gaiman disse sobre as pessoas: elas mudam tanto quanto os oceanos. Há sempre algo que vai e não volta. E algo que vai e volta. Um fluxo tem a ver com troca, águas que banham encostas e penhascos, mas que sabem acalmar quando necessário a beira de uma praia. 

Você não soube lidar com as suas águas, por isso algumas ondas acabaram te quebrando e te levando para mar-aberto. Mas soube, a todo momento, me tranquilizar. Suas águas bateram em mim como plumas etéreas. Levou embora coisas pesadas e me trouxe respiração e gratidão - por mim e pela vida. Sinto muito que não soube o que fazer com as suas crises - às vezes também não sei -, mas aprendi que podem existir momentos bons na nossa vida (e não posso dizer que eles dependem exclusivamente de nós). A vida é um fluxo de energia, choques de encontro. Meu barquinho não tá muito bom, mas acho que vai aguentar. Espero que aguente. Porque eu ainda preciso sentir outras coisas, por outras pessoas, em outros lugares. 

Obrigada pelo Theodore. Ele é meu amigo agora como você. Nenhum de vocês dois suportou a vida, mas eu prometo que vou suportar. Só pra contar a vocês, lá do Outro Lado, os fluxos que a sincronicidade me deu. 

Do oceano,
Alguém que também se agarra à franja das palavras


O destinatário desta carta é a escritora britânica Virginia Woolf, que se suicidou aos 59 anos. 
Muitas referências ao longo da carta são da obra As Ondas, autoria da mesma.

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Conheça o Twelve Letters Project e os próximos temas AQUI.

Love, Nina :)

22 de maio de 2016

#Essential Book: Maio

Em abril, o tema do #EssentialBook foi a essência da capa preferida e, neste, é a essência do título preferido. Não pude postá-lo no fim de semana passado, pois ainda não tinha tido tempo para produzir as fotografias ;)

Eu quebrei muito a cabeça, estava entre dois (Retalhos e Toda luz que não podemos ver), mas aí mudei radicalmente para Volto quando puder, das autoras Isa Prospero e Márcia Oliveira. Fiz essa escolha, porque o título resume e representa bem o meu momento de vida e, como tenho tido pensamentos de "ir embora", tenho colecionado alguns relacionados à literatura e à música. 

Volto quando puder é um livro da Hoo Editora, especializada em literatura LGBT. Eu tenho acompanhado a editora desde o começo do ano e fico com vontade de comprar todos os títulos do catálogo. O livro em questão é, com certeza, o mais especial que li desse nicho. Não porque seja YA (meu gênero queridinho), mas porque é surpreendente e muito, muito humano.

Artur é um garoto de 14 anos que mora com a mãe e vê o pai aos finais de semana, pois os pais são separados. Tudo isso muda quando a mãe morre, e ele passa a morar com o pai, Guilherme. Charmoso, extrovertido, tatuador na Galeria do Rock, ele está longe de ser o pai que Artur sempre quis. 
Pra completar, o garoto é obrigado a mudar de escola e, a partir daí, começa uma nova fase em sua vida. Além de não ser o cara mais popular da escola, ele faz alguns inimigos em pouco tempo. Mas há duas pessoas que o Artur curte muito: o Alexandre, considerado o melhor professor do mundo pelo garoto, e a Priscila, menina tão interessante, que Artur nem acredita quando ela se aproxima.
Conflito de gerações, dificuldade de comunicação entre pais e filhos, sexualidade e primeiro amor: são todos os desafios que o Artur tem que viver durante a adolescência.



Esse é o meu segundo quote preferido do John Green. É do livro Cidades de Papel. Acho engraçado como as ressignificações acontecem pra gente de formas e em tempos diferentes. Quando li este livro pela primeira vez, não entendi a lição do autor. Só quando ele veio para o Brasil, por causa do lançamento do filme, e eu li as entrevistas dele, é que percebi que a Margo (apesar de Manic Pixie Dream Girl) é apenas uma garota. E que ir embora não é sobre deixar tudo para trás, mas sobre descobrir pistas internas em relação a quem somos e a quem queremos ser.

Mosquitolândia, do David Arnold, é um dos meus livros preferidos da vida inteira. Não por ser YA, mas porque, mais uma vez, ele fez uma total ressignificação em mim. Conseguiu devolver algumas coisas que achei que tivesse perdido e me deu lições para continuar a ir embora (ou simplesmente continuar). A capa é de uma total liberdade, porque a trama é sobre ir em busca de si mesmo e isso me cativa muito.

Os poemas do Quintana são de uma simplicidade incrível e abrigam significados transformadores. Em busca de alguns, encontrei este. A natureza, à exemplo dos pássaros, é um elemento recorrente em seus versos e a metáfora dessa frase é emocionante. Porque, afinal, dizer adeus é deixar morrer coisas em nós (negativo ou positivo, o significado cabe a cada um de nós escolher).

Paramore é a minha banda preferida do universo inteiro, ok. Cês já sabem disso. O que não não sabem é que não fico ouvindo só Last Hope. Ultimamente, tenho ouvido m u i t o canções deles que não são "animadas", à exemplo de In the Mourning e Misguided Ghosts. Esta última é quase que uma declamação, pois a melodia é tranquila e, a letra, por vezes sussurrada e quase sem entonações. É uma daquelas canções simples, mas tão profundas, que ficam ecoando na nossa mentes por horas.

Tradução: Estou indo embora por um tempo, mas eu voltarei, não tente me seguir / Porque eu retornarei assim que possível / Estou tentando encontrar o meu lugar, mas aqui pode não ser onde eu me sinta segura.

Este é o final de um poema da autora Michelle C. Buss, que está em seu segundo livro poético chamado Sal, topázio e mercúrio. Sou amiga da autora, pois moramos na mesma cidade e fazemos programas culturais/literários de vez em quando. Fui ao lançamento do livro no ano passado e, embora eu já o tenha relido algumas vezes, ainda não fiz a resenha #vergonha
Eu sou do tipo de marcar quotes e versos preferidos e decorá-los. Esse, eu decorei. É um dos meus preferidos do lindíssimo trabalho da Michelle :) É um daqueles versos que, com certeza, faz pensar. Tenho pensado muito nele, nas últimas semanas, e justamente por isso o escolhi. 

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Não deixe de conferir as fotografias das outras participantes do projeto :)


Love, Nina :)

18 de maio de 2016

#Resenha de livro: As Ondas

Minha vida não está muito boa ultimamente, então, apesar de estar lendo consideravelmente, não estou tendo a mínima vontade de fazer resenhas - na verdade, de cuidar do blog. Espero que tudo se ajeite um dia, porque sinto falta daqui. 

Título Original: The Waves
Autora: Virginia Woolf
Editora: Nova Fronteira
Ano: 1931
Páginas: 222
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As Ondas, de Virginia Woolf, foi indicação da leitura de Por Lugares Incríveis. Encontrei um exemplar na biblioteca da minha faculdade e, apesar de ter demorado para entrar no ritmo da leitura, esse livro se tornou muito especial para mim. 
“Tenho consciência do fluxo, da desordem; da aniquilação e desespero. Se isso for tudo, não vale nada”.
p. 71
Tida como a mais célebre obra de Virginia, As Ondas entrelaça o experimentalismo com fluxos de consciência. Não existe uma total linearidade na trama, a história e a passagem do tempo são o plano de fundo do livro. O foco é, simplesmente, os fluxos incessantes. De início, ocorre uma espécie de estranhamento e a imersão no conteúdo se faz muito vagarosa. 

As Ondas é sobre a infância, amadurecimento e velhice de seis amigos: Neville, Loius, Bernard, Susan, Rhoda e Jinny. Existem marcações de fala, mas não são exatamente diálogos entre eles, mas solilóquios (monólogos) e, por isso, os fluxos de consciência estão tão presentes. É sabido que, tal como Clarice, os fluxos são marcas registradas de Virginia. Muitos leitores não se dão bem com este tipo de escrita, pois é algo "arrastado", mas diálogos internos me cativam muito por se aproximarem com o meu próprio tipo de escrita e por me tocarem internamente. 
“As pessoas poderiam andar através de mim. E qual é este momento, este dia particular em que me surpreendi aprisionado?”.
p.  85
As interações entre as personagens não são imediatistas ou objetivas e pouco ocorrem. As personagens masculinas, em especial Neville e Bernard, ganham destaque. Algo que me incomodou um pouco foi o fato de as garotas serem muito apagadas e, quase sempre, associadas a lembranças sensíveis, relativas ao amor e paixão. Ainda assim, todas são muito cativantes. Por Neville e Bernard serem mais recorrentes, desvelamos muitas coisas a respeito deles. Neville gosta de palavras escritas, e Bernard, de leitura. Associados, são uma dupla que, embora tenha muitas diferenças, encontram equilíbrio. Destaco uma interação muito marcante entre eles, referente a um poema e as obras de Byron. A partir dela, podemos refletir que, embora alguns livros parecem ter sido escritos para nós, não somos seus escritores - somos nós mesmos lendo esses escritores.

A passagem do tempo e as "cenas de ação" não são, realmente, o foco da narrativa. Nós, leitores, nos damos conta desses dois elementos de forma muito sutil, pois são peças em segundo plano. Para mim, isso funcionou muito bem. As personagens, ao invés de ativas na trama, são passivas - e muito intrincadas no emocional, claro. É como se a vida estivesse passando pela janela para todas, como se estivessem apenas de corpo nas situações em que se inserem - nunca, de fato, vivenciando-as. Quando sim, a ênfase está no pensamento e nas sensações que cada um deles têm. A percepção é o elemento de maior valoração que o livro carrega e isso me cativou intensamente.

Diversos quotes se tornaram parte de mim no decorrer da leitura, em especial, este (que, praticamente, resume quem sou): 
“Serei pelo resto da minha vida alguém que se agarra à franja das palavras”.
p. 37. 
A obra não é sobre entender a história, creio eu, mas sobre sentir aquilo que está escrito. Colocando assim, parece algo difícil, mas não é. Para falar a verdade, depende de quem você é, uma vez que depende da forma como você sente e organiza o que sente dentro de si. Os sentidos que se afloram durante a leitura não precisam estar ligados, diretamente, à trama. Muitas vezes, as emoções se sobrepõem à razão e acho que a proposta do livro é justamente essa: a de mergulhar naquilo que não faz sentido, naquilo que mora somente no nosso interior. Por isso, digo que As Ondas não é um livro para todo mundo, embora trate de algo universal: a imersão em nós mesmos. 

A tradutora para o francês de As Ondas, Marguirete Yourcenar, na quarta-capa, descreveu a obra de forma incrível: 
Com efeito, As Ondas, tanto quanto uma meditação sobre a vida, apresenta-se como um ensaio sobre o isolamento humano.  
Embora a literatura de Woolf seja melancólica, esta não me provocou nem um sentimento de tristeza, pelo contrário. Durante a leitura, em especial o começo e o desenvolvimento, me trouxeram grande paz e relaxamento. Ler esta obra foi semelhante a uma terapia e me ajudou bastante em dias em que eu me sentia ansiosa demais e precisava desacelerar. Sem contar que mexeu comigo de diversas maneiras e me fez me reencontrar de diversas formas - encontrei peças em mim que me faltavam e pude repensar em muitas emoções que me habitam. O que mais amo na literatura é a forma como ela pode nos construir e re-construir e As Ondas, com certeza, fez isso comigo. Essa leitura é, assim como muitas, de formação e, por isso, tão importante.
“Meu barquinho oscila inseguro sobre as ondas encapeladas e agitadas. Não há remédio (deixe-me anotar isso) contra o choque do encontro”.
p. 156

Love, Nina :)