18 de maio de 2016

#Resenha de livro: As Ondas

Minha vida não está muito boa ultimamente, então, apesar de estar lendo consideravelmente, não estou tendo a mínima vontade de fazer resenhas - na verdade, de cuidar do blog. Espero que tudo se ajeite um dia, porque sinto falta daqui. 

Título Original: The Waves
Autora: Virginia Woolf
Editora: Nova Fronteira
Ano: 1931
Páginas: 222
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As Ondas, de Virginia Woolf, foi indicação da leitura de Por Lugares Incríveis. Encontrei um exemplar na biblioteca da minha faculdade e, apesar de ter demorado para entrar no ritmo da leitura, esse livro se tornou muito especial para mim. 
“Tenho consciência do fluxo, da desordem; da aniquilação e desespero. Se isso for tudo, não vale nada”.
p. 71
Tida como a mais célebre obra de Virginia, As Ondas entrelaça o experimentalismo com fluxos de consciência. Não existe uma total linearidade na trama, a história e a passagem do tempo são o plano de fundo do livro. O foco é, simplesmente, os fluxos incessantes. De início, ocorre uma espécie de estranhamento e a imersão no conteúdo se faz muito vagarosa. 

As Ondas é sobre a infância, amadurecimento e velhice de seis amigos: Neville, Loius, Bernard, Susan, Rhoda e Jinny. Existem marcações de fala, mas não são exatamente diálogos entre eles, mas solilóquios (monólogos) e, por isso, os fluxos de consciência estão tão presentes. É sabido que, tal como Clarice, os fluxos são marcas registradas de Virginia. Muitos leitores não se dão bem com este tipo de escrita, pois é algo "arrastado", mas diálogos internos me cativam muito por se aproximarem com o meu próprio tipo de escrita e por me tocarem internamente. 
“As pessoas poderiam andar através de mim. E qual é este momento, este dia particular em que me surpreendi aprisionado?”.
p.  85
As interações entre as personagens não são imediatistas ou objetivas e pouco ocorrem. As personagens masculinas, em especial Neville e Bernard, ganham destaque. Algo que me incomodou um pouco foi o fato de as garotas serem muito apagadas e, quase sempre, associadas a lembranças sensíveis, relativas ao amor e paixão. Ainda assim, todas são muito cativantes. Por Neville e Bernard serem mais recorrentes, desvelamos muitas coisas a respeito deles. Neville gosta de palavras escritas, e Bernard, de leitura. Associados, são uma dupla que, embora tenha muitas diferenças, encontram equilíbrio. Destaco uma interação muito marcante entre eles, referente a um poema e as obras de Byron. A partir dela, podemos refletir que, embora alguns livros parecem ter sido escritos para nós, não somos seus escritores - somos nós mesmos lendo esses escritores.

A passagem do tempo e as "cenas de ação" não são, realmente, o foco da narrativa. Nós, leitores, nos damos conta desses dois elementos de forma muito sutil, pois são peças em segundo plano. Para mim, isso funcionou muito bem. As personagens, ao invés de ativas na trama, são passivas - e muito intrincadas no emocional, claro. É como se a vida estivesse passando pela janela para todas, como se estivessem apenas de corpo nas situações em que se inserem - nunca, de fato, vivenciando-as. Quando sim, a ênfase está no pensamento e nas sensações que cada um deles têm. A percepção é o elemento de maior valoração que o livro carrega e isso me cativou intensamente.

Diversos quotes se tornaram parte de mim no decorrer da leitura, em especial, este (que, praticamente, resume quem sou): 
“Serei pelo resto da minha vida alguém que se agarra à franja das palavras”.
p. 37. 
A obra não é sobre entender a história, creio eu, mas sobre sentir aquilo que está escrito. Colocando assim, parece algo difícil, mas não é. Para falar a verdade, depende de quem você é, uma vez que depende da forma como você sente e organiza o que sente dentro de si. Os sentidos que se afloram durante a leitura não precisam estar ligados, diretamente, à trama. Muitas vezes, as emoções se sobrepõem à razão e acho que a proposta do livro é justamente essa: a de mergulhar naquilo que não faz sentido, naquilo que mora somente no nosso interior. Por isso, digo que As Ondas não é um livro para todo mundo, embora trate de algo universal: a imersão em nós mesmos. 

A tradutora para o francês de As Ondas, Marguirete Yourcenar, na quarta-capa, descreveu a obra de forma incrível: 
Com efeito, As Ondas, tanto quanto uma meditação sobre a vida, apresenta-se como um ensaio sobre o isolamento humano.  
Embora a literatura de Woolf seja melancólica, esta não me provocou nem um sentimento de tristeza, pelo contrário. Durante a leitura, em especial o começo e o desenvolvimento, me trouxeram grande paz e relaxamento. Ler esta obra foi semelhante a uma terapia e me ajudou bastante em dias em que eu me sentia ansiosa demais e precisava desacelerar. Sem contar que mexeu comigo de diversas maneiras e me fez me reencontrar de diversas formas - encontrei peças em mim que me faltavam e pude repensar em muitas emoções que me habitam. O que mais amo na literatura é a forma como ela pode nos construir e re-construir e As Ondas, com certeza, fez isso comigo. Essa leitura é, assim como muitas, de formação e, por isso, tão importante.
“Meu barquinho oscila inseguro sobre as ondas encapeladas e agitadas. Não há remédio (deixe-me anotar isso) contra o choque do encontro”.
p. 156

Love, Nina :) 

6 comentários:

  1. Fico tão feliz de encontrar pessoas que entendem a profundidade meio velada das coisas da Woolf, e fico mais feliz ainda por você ter lido "As Ondas" porque você é a ÚNICA pessoa com quem posso debater este livro, sabia?! Você captou a essência da estória e eu comentaria exatamente as mesmas coisas que você <3 Como não te amar guria?!
    PS.: Conte comigo sempre, na alegria e na tristeza.

    Beijos
    Ruh Dias
    perplexidadesilencio.blogspot.com

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  2. OOi
    Infelizmente o livro não chamou minha atenção. Nunca li nada da autora, más parece ser um clássico, é?
    Confesso que não é um livro que leria, a história não chamou minha atenção. Más fico feliz que tenha gostado e tenha captado coisas boas nele para torna-lo especial pra você.

    Beijoos
    http://estantemineira.blogspot.com.br/

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  3. Oiii Nina, tudo bem?
    Realmente não conhecia a autora e nem a obra citada acima, dessa maneira ela despertou um certo interesse para que eu leia futuramente. Como você mesmo disso, é para ser sentida a escrita dela, e isso me deixou louca aqui, faz muito tempo que não leio assim. Dica anotada!
    Beijinhos

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  4. pelas quotes eu já leria, apesar de não ser mto familiarizada com fluxo de consciência, eu acho que a premissa da obra vale a leitura...
    li Dalloway dela mas não fluiu muito bem, espero que As ondas me passe uma emoção diferente...
    bjs...

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  5. oi, tudo bem?
    eu também ando meio parada e desanimada com o blog. Então reduzi o ritmo, para ver se passa, rs.
    Nunca li nada da Virginia, justamente por dizerem que as obras dela são melancólicas, e tenho evitado esse tipo. Bom saber que esse livro não é assim
    beijos
    http://meumundinhoficticio.blogspot.com.br/

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  6. Olá, que bacana isso de pegar indicação de uma obra, a partir da indicação de outra leitura...acho isso o máximo <3
    Gostei da resenha, ainda mais porque não conhecia a obra. Fiquei curiosa e vou deixar anotada a dica aqui.

    Abraços

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