30 de junho de 2016

#Twelve Letters Project: uma carta para a infância


Sei que você se sente segura, animada e incrivelmente abençoada por enquanto. Não quero estragar os seus planos, mas isso vai mudar. Não porque você vai crescer, mas porque as pessoas vão fazer você crescer e isso significa que vão te moldar ao que elas querem e ao que precisam que você seja. Poucas vezes, você será quem realmente é. Quando entender isso, o momento vai ter passado e você já não vai se lembrar de quem costumava ser. Vai tentar voltar para o que era, sem entender por que não dá mais. É que as pessoas aconteceram. 

Sabe, a gente tem essa ideia de que os outros fazem coisas conosco e que não somos capazes de consertar os danos. A verdade é que não podemos parar de sentir, mas podemos escolher o que fazer com que sentimos. É por isso que não somos quem éramos há uma semana, nem há um ano. Porque escolhemos fazer com o que sentíamos. E não podemos nos culpar, ou culpar os outros por isso. É o modo como as pessoas funcionam. Você não é capaz de entender agora, mas vão te ensinar sobre estar quebrada e, mesmo assim, tentar consertar os danos. 

As pessoas, às vezes, não querem te magoar. Elas só não sabem o que fazer com o que sentem. Não sabem consertar os próprios danos e os danos proporcionados pelos outros. E entenda que não é sua missão ir atrás dessas pessoas e consertá-las. Sim, elas precisarão, eventualmente, da sua ajuda - mas não precisarão de você o tempo inteiro. Daqui a alguns anos, vai sentir isso: vai precisar estar sozinha para entender os danos e o inverso daquilo que queriam que você fosse. Você não vai querer estar sufocada por aqueles que só querem respostas. Vai querer estar perto daqueles que já sabem suas respostas e, ainda assim, entendem e respeitam o seu silêncio. 

As pessoas vão te magoar, te desrespeitar, te fazer sentir significar nada. Mas isso é completamente um dano delas, não seu. Elas vão embora. Nunca mais voltarão. E, ainda assim, não é algo por causa de você. É por causa de quem elas são. É por causa dos danos delas. Mas não se preocupe, pois está próxima de descobrir que todos temos luz e trevas dentro de nós e, o que quer que sejamos aos outros, é uma escolha que diz muito sobre quem somos.

Não tenha medo de ser, por vezes, luz e, por vezes, trevas. 
Só assim saberá consertar os seus danos.

Com amor,
As palavras do futuro.

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Conheça o Twelve Letters Project e os próximos temas AQUI.

Love, Nina :)

26 de junho de 2016

#Mês dos namorados: narrativas que [não] são tão legais

O casamento perfeito (na minha opinião) é quando a narrativa e os personagens se completam, ou seja, você acredita nas duas coisas. Mas, é claro, existem casos de apenas os personagens serem críveis e, outros, em que eles deixam a desejar, mas a narrativa é convincente mesmo assim. Nesse post vou falar de três que, de tão batidas, não me convencem mais

Dicotomia, ou "Os opostos se atraem"
Na vida real, eu até acredito nisso, mas não no fato de, pelo casal ser tão diferente, realmente se atrair. Acredito que, por serem diferentes, podem aprender um com o outro. O que não me convence nas narrativas literárias (e fílmicas, também) é que essas diferenças são sempre muito romantizadas e o final é sempre feliz. Nessas narrativas, elas são negativas, nunca positivas. Geralmente, os personagens entendem que as diferenças são elementos que atravancam o relacionamento e, por isso, precisam "superá-las". 
Torço o meu nariz para isso, porque gosto de diferenças. E, por sempre ter me adaptado bem a elas, não concordo sobre "superá-las" - acho que cabe a cada um respeitá-las e saber que estarão ali sempre. Se você "diminui" uma diferença de alguém está diminuindo, também, essa pessoa. E por que você diminuiria alguém que ama (a menos que você goste de ser abusivo/a), não é mesmo?

Qual? Jogos Vorazes, de Suzanne Collins
Sim, sou super fã dos livros e da narrativa distópica. Mas, a meu ver, o romance ainda é bastante batido. O ponto positivo é que Katniss e Peeta têm funções de gênero inversas ao que se espera. Katniss é a garota destemida, forte e com habilidades manuais tipicamente masculinas. Peeta, ao contrário, tem características emocionais mais suaves, é pacífico e suas habilidades são tipicamente femininas. Apesar de Jogos Vorazes terem conseguido revolucionar em muitos e muitos pontos maravilhosos, a temática quanto ao triângulo é bastante previsível, ainda mais se levarmos em conta que Peeta é o oposto de Katniss, enquanto Gale é bastante similar a ela. 



A "salvação" um do outro
Em geral, o casal tem muito do tópico anterior: são pessoas opostas, mas são capazes de aprender uma com a outra. Porque, afinal, esse é o propósito da narrativa. Ela dá a sensação de ser uma espécie de lição de vida. Eu mesma gosto muito de livros que se tornam lições para mim, mas a problemática desse tipo de história acontece porque, quase sempre, a personagens feminina é a protagonista e a sua salvação é um garoto bad-boy, ou um garoto com o espírito aventureiro, que proporciona ótimas experiências e, por isso, ela não pode fazer mais nada além de achar que ele a salvou. Mais uma vez, zero libertação feminina, uma vez que a libertação acontece por causa de um homem, não por causa da garota.

Qual? As batidas perdidas do coração, de Bianca Briones
Sou eternamente fã da série #BatidasPerdidas, mas a narrativa proposta ainda é "mais da mesma". A garota e o garoto estão em processos de cura por perdas familiares e, apesar da raiva, encontram conforto um no outro. Claro, o relacionamento é bastante conturbado e a Bianca conseguiu com muita habilidade inserir muita realidade - mas o fato de serem opostos e a salvação um do outro me incomodou um pouco, também porque ambos os personagens são bastante estereotipados. Ele é o bad-boy; ela, a moça riquinha, mas de bom coração. 




Ódio x Amor, ou "Te odeio, mas te amo"
Com certeza, a narrativa que mais me irrita. Não vejo sentido algum em algo assim, especialmente porque não parece nem um pouco convincente. Acredito, sim, que nossas opiniões podem (e devem!) mudar sobre alguém, mas esse constante ir-e-vir é bastante irritante, uma vez que são páginas e mais páginas que poderiam ter sido suprimidas, e é bastante confuso também, porque parece que a personagem (é quase sempre uma mulher) nunca sabe o que quer - e isso só reforça o estereótipo de que as mulheres são confusas e nunca sabem responder com objetividade. Outro ponto sobre esse tipo de narrativa é que, geralmente, o "amor" acontece em meio ao "ódio" por meio das cenas sexuais dos personagens, o que, pra mim, é uma das piores coisas do mundo. 

Qual? No mundo da Luna, de Carina Rissi
Eu tinha dito no post sobre personagens femininas que [não] são tão legais que a personagem me irritava por outro motivo também e é esse aqui. A moça, além de ser desastrada e infantilizada, vive uma relação de ódio e amor pelo seu par. O livro é g i g a n t e e tenho certeza de que, sem essas partes de ir-e-vir, ele seria bem mais objetivo e menos enrolado. Coisas óbvias nunca me convenceram e continuam não me convencendo.  





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Para reler o combo sobre o mês dos namorados:
#Mês dos namorados: personagens femininas que [não] são tão legais
#Mês dos namorados: quotes da literatura LGBT

Com esse post, o combo especial sobre o mês dos namorados fica por aqui. Espero que tenham gostado dessas postagens diferentes, porque eu amei pensá-las e escrevê-las <3

Love, Nina :)

23 de junho de 2016

#Mês dos namorados: quotes da literatura LGBT

Já que eu falei t a n t o sobre representatividade na última postagem, percebi que seria justo abarcar outros nichos. Como me dedico a ler e escrever literatura LGBT, claro que encaixei a temática no combo. De início, eu iria somente indicar os melhores livros da temática que já li, mas aí percebi que seria "mais do mesmo" e a proposta, agora, é falar de amor e sexualidade a partir dos livros que escolhi.


No dia dos namorados, um garoto publicou uma reflexão no grupo Culturalizando, que eu achei bem triste e profunda. Ele fazia referência ao atentado de Orlando e perguntava: diante do que aconteceu o amor é um direito ou um privilégio?

Os livros (e a HQ) que escolhi vão tentar responder a essa questão.

Todos nós adorávamos caubóis, de Carol Bensimon
Essa foi a primeira leitura LGBT que fiz na vida, em 2013. Digo, em livros (fanfics é outra coisa haha). Na época, eu não entendi quase nada sobre a questão realmente sexual das personagens. Não entendi, por exemplo, a questão da bissexualidade, porque eu sabia quase nada sobre isso. Muito tempo depois foi que, aos poucos, percebi que muitos trechos estavam me dando pistas e eu simplesmente passei batido. A narradora (Cora) usa livremente a palavra bissexual, o que eu achei totalmente inovador - já que, por mais que os autores queiram ser representativos, a maioria se abstêm de nomear, acho que pra não ofender, ou sei lá. Só que, depois que comecei a entender sobre representatividade, percebi que nomear é uma das coisas mais essenciais quando se trata de temáticas queer. Nomear faz com que o leitor se identifique mais facilmente e possa se reconhecer dentro da trama.

Quote
"Tu e a Julia são namoradas, não?".
Eu ri.
"Por que tu ficou esperando que o casal passasse pra perguntar isso?".
"Sei lá. Acho que pra não te deixar constrangida". Então ele fez uma cara de quem não tinha certeza de que essa era uma boa resposta.
"Tu acha mesmo que isso seria uma razão pra eu me constranger? ".
"Olha, pra ser sincero, muito pelo contrário. Acho que seria sensacional vocês serem namoradas".
"No sentido de 'uau, duas meninas juntas, que coisa mais deliciosa' ou no sentido de 'o amor é plural e infinito, não escolhe gênero, raça, credo'?".
Beto parou.
"Do que tu tá falando?".
"Esquece".
É o meu quote preferido do livro, porque ele deixa evidente a nossa própria realidade. 1) O fato de o personagem achar que vai constranger, porque, teoricamente, esse assunto é tabu. (Claro, você não sai perguntando a sexualidade das pessoas, né? Porque isso não lhe diz respeito, em primeiro lugar, nem vai mudar a sua vida). 2) A fetichização de relacionamentos entre duas garotas. Obviamente, isso permeia bastante a questão do machismo.

Reescrevendo Sonhos, de Marcia Dantas
Se tem uma pessoa a quem preciso agradecer por ter me ensinado sobre representatividade é a Marcia. Nos conhecemos por causa da parceria para o blog, mas, hoje, somos amigas e trocamos muitos textos feministas e sobre representatividade feminina e LGBT. Este é o livro de estreia dela e, mais uma vez, traz a bissexualidade, mas com muito menos ênfase, já que a autora não menciona a palavra.





Quote
"– Admiro a ideia e talvez eu devesse realmente ter um encontro para me distrair. Só que definitivamente eu não iria querer isso com um homem.
(...)
– Ah, ok, entendi – Bárbara deu uma pequena risada – Você não curte garotos.
– Exato, sou uma garota que gosta de outras garotas."
Gosto muito desse quote, porque ele é direto e bem explicativo, embora não seja totalmente representativo. Outro ponto ótimo é que a conversa entre as personagens (Luciana e Bárbara) é bastante natural, informal e nenhuma das duas se sente incomodada pelo assunto.

#Resenha: AQUI.

Você é só pra mim, de Lorena Miyuki
Conheci, no ano passado, o blog da Lorena (Marcado com Letras), que é inteiramente voltado para a literatura/cultura queer e fizemos uma parceria. Este é o único livro que li da autora, mas um dos mais realistas da temática. Os personagens são completamente críveis e condizentes. A atmosfera da trama não tem receio de expor diversas situações construtivas, nem de editar cenas. O que mais amo nesse livro é que a Lorena não faz nem um tipo de distinção entre o amor de Rone e Hígor e o de qualquer outro casal heterossexual.




Quote
"Queria que tivéssemos pelo menos uma testemunha para comprovar o quanto a gente se gostava, para mostrar que nos respeitávamos e nos completávamos. Uma voz amiga para me lembrar depois, para corroborar tudo o que eu simplesmente imaginava na minha cabeça: que éramos suficientes um para o outro."
Provavelmente, é o quote mais sensível do livro. Acompanhando todo o contexto em que os personagens estão inseridos, é impossível não se emocionar, pois ele apenas comprova o fato de que o que ambos sentem não é nada diferente do que as outras pessoas também sentem. É bastante fácil entender que o que sentem é totalmente natural e bonito.

#Resenha: AQUI.

Fake, de Felipe Barenco
Outro livro muito realista e que trata de um tema quase desaparecido na literatura: o HIV. O preconceito está presente de forma convincente e até bem menos contundente do que a maioria dos livros LGBT's traz. A grande questão da trama vai além da sexualidade, pois fica claro que assumir quem é não é o drama do Téo. É sobre algo bem mais próximo do que se aceitar, ou não: sobre com quem partilhar o sentimento.





Quote
"E se eles soubessem... Eles me amam de verdade? Meus pais me amam independente de qualquer preconceito? Será que eles organizariam uma festa de aniversário para o filho viadinho diante de todos os familiares?".
Por mais que esse não seja o foco da história, gosto muito desse quote, porque expressa muito bem o drama de pessoas LGBT's que não são aceitas dentro de suas próprias casas e são rejeitadas por seus familiares.

#Resenha: AQUI.

Volto quando puder, de Isa Prospero e Márcia Oliveira
Foi o último livro LGBT que li e um dos mais surpreendentes e inovadores. Ainda que a questão da sexualidade esteja ali, não está em primeiro plano, já que não diz respeito diretamente ao personagem principal. A temática se desvela aos poucos e com muita inteligência e muitas nuances.







Quote
"– Mas você precisa mesmo saber esse detalhe sobre alguém? Por que é importante lembrar que a sexualidade de alguém é só uma parte, e uma parte pequena, da vida de uma pessoa, sabe?
(...)
Sua mãe e eu sempre quisemos ter tudo às claras com você. Que você pudesse conversar com a gente sobre meninas – ele espera um momento – Ou meninos.
– Pai.
– Ou ambos."
Amo, amo, amo esse quote, porque ele é direto e muito educativo. Fiquei muito feliz que as autoras tenham pensado em debater questões sutis dentro da temática. O fato de terem aludido à bissexualidade foi bem surpreendente, já que o B é, na maioria das vezes, bastante esquecido e ignorado.

Azul é a cor mais quente, de Julie Maroh
Hoje, percebo que foi um super erro ter assistido ao filme antes de ler a HQ. Isso porque a proposta de HQ é muito mais humana e existencial. O roteiro do filme, inclusive, distorce diversos pontos essenciais da história original. A HQ preza muito pela própria questão de sexualidade, que não é nenhuma vez debatida no filme. Sem contar que é muito evidente que a trama original preferiu falar de amor, enquanto o filme dá a sensação de que o amor, realmente, não era a essência da trama (nem entro na questão das cenas de sexo, mas no fato de que, de forma geral, eu não consegui sentir o amor por parte de nenhuma das personagens).


Quote
“Você nunca teve vergonha de ser assim?”.
“Só o amor pode salvar o mundo, por que eu teria vergonha de amar?”.
(...)
E, pouco a pouco, eu entendi que os caminhos para amar são múltiplos. Não se escolhe quem a gente vai amar, e a nossa concepção de felicidade acaba aparecendo por si mesma, de acordo com a nossa experiência de vida."
Muitas passagens da HQ são lindas, mas as que mais me tocaram foram essas (na verdade, uni duas haha). Acho que elas falam por si mesmas e trazem bastante liberdade e existencialismo à trama e ao leitor. Independentemente da orientação sexual do leitor, são passagens que soam como óbvias para quem entende de teoria queer e acredita que amor é amor.

#Resenha da HQ: AQUI.
#Resenha do filme: AQUI.

Links recomendados

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Não deixe de ler as outras postagens do combo sobre mês dos namorados

Love, Nina :)

20 de junho de 2016

#Mês dos namorados: Personagens femininas que [não] são tão legais

Como eu propus o post Personagens masculinos que [não] são tão legais, percebi que seria ótimo oferecer o oposto: personagens femininas que [não] não tão legais, porque como falei na referida postagem, acho importante falar de representatividade feminina na literatura.


A representatividade, de forma geral, não está presente nas narrativas (literárias, fílmicas, publicitárias etc) apenas porque existe uma personagem do nicho que se quer representar. É bom lembrar que de nada adianta colocar uma mulher em uma história se a função dela é passiva e se ela não está, de fato, inserida na trama. 

Por exemplo: há protagonistas femininas que estão muito mais focadas em seus pares românticos e não são desenvolvidas como elementos narrativos. Essas narrativas são extremamente problemáticas justamente porque o protagonismo, que deveria ser delas, acaba sendo dos personagens masculinos, mesmo que indiretamente. É um tipo clássico de história na qual o amor é a única peça-chave para todo o desenvolvimento da personagem. Ou seja: a personagem não tem uma real história de protagonismo para contar e, por conseguinte, deixa de ser o foco da trama. E esse é um tipo de personagem feminina [não] tão legal: a protagonista sem protagonismo. 

A Manic Pixie Dream Girl, ou "a garota duende meio doidinha dos sonhos"
Já venho falando nessa sigla em alguns posts e, quanto mais leio sobre esse tipo, mais eu sinto vontade de falar. O caso mais clássico, que todo mundo deve conhecer, é a Summer de 500 days of Summer (500 dias com ela). Você deve se lembrar que a Summer é aquela garota, aparentemente, perfeita, de acordo com o Tom. Ela gosta das mesmas coisas que ele, é ótima em conversar, é divertida e ele nunca se enjoa dela. Até que, claro, ele percebe que tudo aquilo que a Summer é não passa de pura ilusão (que ele mesmo criou, vale lembrar). A real Summer não é perfeita, não é divertida o tempo inteiro e, muito menos, quer ficar com um só cara para o resto da vida. 
O problema com este tipo de personagem é que, geralmente, ela aparece para ser o parzinho perfeito para o protagonista. Essa é a única função dela, além de oferecer respostas milagrosas e sentidos de vida a ele. Por que alguém assim não pode ser real? Bem, porque as pessoas são falhas e a literatura precisa, sim, ser um reflexo da realidade. Ela não precisa ser a realidade, mas precisa lidar com a realidade. (Eu e o meu pé na realidade, sim. A d o r o narrativas verossímeis!).

Quem? Margo Roth Spiegelman, de Cidades de Papel (John Green)
Eu passei m u i t o tempo sem entender a Margo. Quem ela era e qual era a função dela na trama. Aí, o John Green veio ao Brasil para divulgar o filme e, lendo as entrevistas dele, entendi tudo: Margo é uma garota (p. 228). Ponto final. Mas, colocando assim, ela não se encaixa no conceito de MPDG, né? É porque o autor conseguiu, de uma forma muito sutil, não explicitar a Margo como somente um peão no jogo de encontros e desencontros do livro. Mesmo depois que entendi quem é a personagem, não consegui gostar dela, pois ela é, nas entrelinhas, alguém que dá sentido à vida de Miles, o protagonista. Ou seja: Margo não tem uma real história, sua história é toda projetada a partir da ideia que Miles tem dela. A todo instante, Margo é uma incógnita a ele - e ao leitor -, mas o autor insiste em plantar uma sombra de Margo na mente de Miles. Margo, na verdade, pode ser quem Miles quiser. Porque, na verdade, Margo não é a peça fundamental da trama. Ela é o efeito, não a causa. 

A "desastrada"
Aquela personagem, teoricamente, adulta e que ainda parece uma criança de 12 anos nas atitudes e comportamento. Ela está na rua e consegue tropeçar na calçada. Cai da cadeira. Cai da cama. Cai em e de qualquer lugar. Simplesmente nada para na mão da moça. Ela quebra copos, derruba canetas e assassina vasos. O problema dessa personagem está no fato de que é tudo muito calculado e tremendamente exagerado. E pior: o parzinho romântico da garota a-d-o-r-a e acha meigo/sexy/bonitinho (ou qualquer palavra deprimente que não se encaixe no contexto) que ela seja desse jeito. Não que eu não seja desastrada (quem me conhece sabe que sou), mas existe aquilo que mencionei acima: verossimilhança. Bato muito na tecla de que não é porque é ficção que não precisa ser crível (mesmo na literatura fantástica, algumas coisas precisam parecer reais!). 

Quem? Luna, de No mundo da Luna (Carina Rissi)
Ok, eu tenho um g r a n d e problema com esta personagem. De forma geral, na verdade, com as personagens de chick-lit. Comecei a perceber que todas seguem um padrão: moram sozinhas, são engraçadas, são independentes, mas infantilizadas e carentes. Não consigo entender como as autoras desse gênero acham que estão representando as mulheres em seus livros, se as personagens mais parecem caricaturas mal-formuladas. O que mais me irritou na Luna não foi este aspecto, na verdade (falarei dele em outro post), mas todo o desastre ambulante que ela é, com certeza, é um ponto bastante negativo para um livro que tenta conversar com o público feminino. O exagero é tanto que desacredito que alguma mulher consiga, realmente, se identificar com a personagem. 

A "patinho feio" (mas que fica com o cara mais popular da escola/faculdade/qualquer lugar)
Houve uma época que eu não via problemas com essas garotas. Continuo adorando Glee e sua representatividade risível. E continuo adorando a Rachel apaixonada pelo Finn. Mas acontece que esse tipo de narrativa não representa nada. Só representa a força da mídia em relação ao ideal romântico das garotas. As garotas veem/leem personagens comuns sendo transformadas fisicamente para ganhar a atenção dos garotos e acham que isso é normal. Se você tem que mudar quem é para agradar alguém, alguma coisa está errada. Você não tem que mudar quem é por causa de ninguém. Você não precisa estar no padrão. Além do mais, você tem que gostar/se apaixonar por quem gosta de quem você é. Você pode se apaixonar pelo cara popular, mas não tem que mudar quem é para que ele retribua o sentimento. 

Quem? Mia Thermopolis, de O Diário da Princesa (Meg Cabot)
Começo dizendo que EU AMO A MIA, mas existe essa situação no começo da série que nunca me agradou. A Mia é uma personagem bastante comum; invisível, na verdade. Mas, no primeiro livro, se vê apaixonada pelo garoto mais popular da escola. Por causa do fato de ser princesa e de sua avó do mal, Mia começa a mudar seu jeito de vestir e alisa o cabelo. Claro que ela percebe que, com a mudança, se sente mais bonita e capaz de conquistar o garoto (que é tão importante pra trama que até esqueci o nome dele haha). Critico esse comportamento dela, simplesmente por isso. Ela nunca esteve num padrão social e, por causa de muitos fatores, tenta se encaixar desesperadamente nele. Isso é muito ruim, especialmente se lembrarmos que a série dos livros é bem antiga e atingia, principalmente, garotas na pré-adolescência. A lição legal disso tudo é que, alguns meses depois, a personagem se apaixona pelo Michael, irmão mais velho da melhor amiga, e percebe que pode ser exatamente como e quem é para ser retribuída. 

Links recomendados

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Gosta de representatividade na literatura? 
Não deixe de conhecer o Manifesto irradioativo
que busca por diversidade na literatura especulativa nacional.

Não deixe de ler as outras postagens do combo sobre mês dos namorados
#AmeVocêPrimeiro: chega de relacionamento abusivo
#Mês dos namorados: personagens masculinos que [não] são tão legais


Love, Nina :)

18 de junho de 2016

#Sorteio: Primeiro aniversário do Crônica Sem Eira

Depois de um gap de seis meses, eis um novo SORTEIO! :)
Dessa vez, ele é mais especial, porque fui convidada a participar em conjunto com outros blogueiros para comemorar 1 ano do blog Crônica Sem Eira.


Os participantes + prêmios:
Crônica Sem Eira com os livros Um Passado Sombrio, O Bom Sujeito, A Queda dos Anjos e Maçãs Envenenadas + marcadores;
Estilhaçando Livros com o livro Louca por Você;
- Nina é uma com o livro Anna Vestida de Sangue + marcadores;
Balaio de Babados com marcadores;
Literasutra com o livro O Estranho Mundo de Zofia: e outras histórias + marcadores;
Grupo Editorial Record com Os Invernos da Ilha;
Géssica Marques com marcadores
Thaylane R. Ramos com o box digital de Série Entre Mundos;
Josy Stoque com bottons + marcadores;
Mari Scotti com o e-book Insônia.

O regulamento
- O sorteio terá início no dia 18 de Junho e se encerrará no dia 18 de Julho (às 12:00am);
- Este sorteio possuirá 2 ganhadores finais, cada um deles referente a um Kit, cada participante pode se inscrever em um ou em ambos os formulários, conforme sua preferência;
- Os ganhadores serão anunciados na página do Facebook (em um prazo de até 5 dias) e ficarão expostos aqui nos formulários. Estes só serão divulgados após conferirmos se cumpriram com o Regulamento;
- Os ganhadores terão 48h para responder o contato feito através do e-mail cronicasemeira@gmail.com. No caso de não houver retorno, o sorteio dos Kits serão realizados novamente;
- O sorteio só é válido para território nacional, ou seja, você precisa ter um endereço dentro do Brasil para participar;
- Cada formulário conta com apenas 1 (uma) entrada obrigatória e 15 (quinze) entradas extras (cada entrada extra preenchida aumenta suas chances de ganhar); 
- As entradas preenchidas como realizadas serão conferidas ao término da promoção; 
- Caso os vencedores não tenham cumprido as orientações das entradas preenchidas serão desclassificados;
- A editora, as autoras e os blogs participantes terão 30 dias para fazer o envio do livro/brinde ao ganhador, após recebimento do endereço de envio;
- A editora, as autoras e os blogs participantes não serão responsabilizados por eventuais extravios, roubos, perdas cuja responsabilidade cabe aos Correios ou por reenvio em caso de endereço incorreto;
- Cada blog/autora/editora é responsável pelo envio do seu respectivo prêmio, ou seja, os prêmios chegarão individualmente e em prazos diferentes.





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Que a sorte esteja sempre a seu favor! :)

Love, Nina :)

15 de junho de 2016

#Essential Book: Junho

Esse foi o mês mais difícil e mais divertido de se pensar e fotografar o #EssentialBook, isso porque o tema é a essência do personagem secundário preferido. Pensei em fazer sobre a Rae, melhor amiga do Cal, de E se for você?, porque foi o último livro que li, mas então percebi que não teria muito material (especialmente, porque eu tinha acabado de conhecê-la). Então, lembrei de alguém muito especial que conheço há anos e que cada vez mais acho uma personagem incrível: a Luna Lovegood, de Harry Potter.


A Luna, claramente, é uma personagem quase unânime na saga: uns a adoram pela excentricidade, outros por sua capacidade de não se importar com as opiniões alheias, outros por suas crenças supersticiosas, outros pela sua criatividade. A verdade é que todo mundo gostaria de sê-la um pouquinho haha. 

Ao contrário do mês de março, que escolhi expecto patronum para falar de tristeza e esperança, este mês é sobre alegria e alma leve. Isso porque a Luna, apesar de poder ser alguém triste - por ser órfã de mãe e sofrer bullying -, escolheu o oposto disso e soube conviver com sua aura diferente. Duas palavras que servem muito para descrevê-la são diferente e única

Luna é da casa Ravenclaw (apesar de a Evanna ter feito o teste no Pottermore e ter sido escolhida para a Gryffindor; engraçado que me aconteceu a mesma coisa haha), então, é bastante fácil identificar as características essenciais dela: perspicácia, inteligência, criatividade e sabedoria. 

Ao longo de duas semanas, eu reli diversas partes de Harry Potter e a Ordem da Fênix (que foi o primeiro livro da saga no qual apareceu) e garimpei cenas marcantes do filme para compor as fotografias abaixo:


“Minha mãe dizia que as coisas que perdemos sempre acabam voltando para nós, mas nem sempre da forma que esperamos.”
I. Em uma das cenas mais bonitas e emblemáticas da personagem, ela e Harry conversam sobre seus pertences terem sumido. O item mencionado é um par de tênis. O quote acima é proferido somente no filme desta maneira (o que me deixou decepcionada quando reli a cena no livro, pois é uma das minhas preferidas haha). Gosto muito da simbologia do quote, pois dialoga com a situação de perda de Harry e com nós, fãs. A sensibilidade da personagem é um dos pontos mais cativantes, para mim.

II. O conceito de normalidade, até então, não é muito debatido na saga, mas quando Luna entra em cena fica evidente o propósito da personagem para a história. A frase é uma das primeiras que Luna diz, no livro. Na ocasião, Harry está espantado com os testrálios, enquanto ela simplesmente age com uma naturalidade bem típica. Gosto desse frase, pois representa comicidade e empatia ao mesmo tempo.

III. Outra cena bastante emblemática da personagem: quando ela confecciona um chapéu do tamanho real de um leão (símbolo da Gryffindor) para apoiar a casa no primeiro jogo de quadribol do ano. Uma característica muito clara de Luna é que ela preza muito pela fidelidade e lealdade nas amizades.
(Sim, eu desenhei esse leão haha. Queria que fosse algo mais aquarela, 
mas a pessoa aqui não usou lápis aquarela, OU SEJA).

IV. Nas aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas proporcionadas pelo Harry na Armada de Dumbledore, ficamos sabendo que o patrono de Luna é uma lebre. Ocasionalmente, a maioria dos testes que faço a lebre, a águia e o cachorro são sortidos haha.
(Desenhei esse coelhinho também, inspirado numa tatuagem que uma amiga fez haha).

V. Eu amo, amo, a m o essa ilustração da Mary Cagnin Art, porque ela me lembra m u i t o a Luna (apesar de parecer algo triste). Não sei bem se a frase é do livro ou do filme (acredito que seja do filme, pois a achei no google com uma arte da Evanna), mas gosto muito dela, porque expressa bastante a natureza dela e como essa natureza é encarada por seus colegas. Basicamente, ela é a garota excluída, que todo mundo caçoa, porque é esquisita.

Minha relação com a Luna é muito, muito próxima, porque, apesar de eu não ter a alegria dela, me sinto bastante excluída dos círculos sociais comuns. Por eu não gostar de sair à noite, ir a festas, beber e "me divertir", muita gente me olha torto e ri abertamente das minhas escolhas. Muitas vezes, eu não me explico, só digo que não gosto e pronto. Imagino que muitos artistas se encontram nesse tipo de situação, pois pessoas criativas preferem se isolar, especialmente à noite, para criar. E é justamente por isso que não sinto vontade de estar fora de casa neste período. A pessoa tem que ser muito importante, ou eu tenho que estar muito precisada de socialização para me ver longe de casa numa sexta-feira à noite, por exemplo hahaha. 

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I. O tema do mês passado foi sobre a essência do título preferido 
e você pode conferir as fotografias AQUI.

II. Não deixe de conferir as fotografias das outras blogueiras do projeto :)

12 de junho de 2016

#Mês dos namorados: Personagens masculinos que [não] são tão legais

Estava sem ideias para continuar o combo do mês dos namorados (o primeiro post foi esse aqui, sobre relacionamentos abusivos), então, percebi que, ao invés de a maioria dos personagens masculinos que todo mundo ama me cativar, somente me faz rolar os olhos e me irritar. Por isso, achei que pudesse ser um tema muito importante e que se encaixasse na proposta das postagens do combo. 


O "cool guy"
Aquele personagem que as garotas acham bonitinho, educado e bastante bonzinho. É, geralmente, o tipo de personagem plano, porque começa e termina a narrativa numa constante personalidade padrão que não oferece surpresas. 
O que me irrita nesse tipo de personagem é justamente a falta de reviravoltas em suas características essenciais. Ou seja, ele mais parece uma idealização do que, de fato, uma construção literária. Em geral, cativa as garotas, porque é românticos, mesmo que implicitamente, e s e m p r e tem interesses em comum com a personagem feminina. 

Quem? Augustus Walters, de A culpa é das estrelas (John Green)
Não, o Gus não é o meu personagem preferido do John Green. Gosto muito da trajetória dele, mas, como elemento narrativo, Gus me parece um espelho da Hazel. Basicamente, o tipo de garoto criado perfeitamente para a personagem. E, se tem algo que não gosto muito, nem na vida real, é esse conceito de perfeição, ainda mais no âmbito romântico. Ele seria a parte masculina de uma Manic Pixie Dream Girl, o que é, de forma geral, bastante ruim, porque significa que esse tipo de personagem tem um único propósito: entrar na vida de outro para ser a mudança necessária, que este não conseguiu fazer sozinho. 


O "bad boy"
Esse é o que eu mais desgosto. O personagem maravilhoso, tanto fisicamente quanto financeiramente, que as garotas se debatem para namorar. Mas a verdade é que esse tipo não quer namorar, gosta de festas, de atividades perigosas/ilegais (e, talvez, por isso o conceito de "bad boy" se confirme) e "usa" as garotas para depois descartá-las. É muito fácil detectar, inclusive, ações e falas machistas vindas deles.
O desgosto acontece por muitos motivos, dentre os quais 1) o fato de as leitoras tenderem a romantizar esses tipos de atitudes masculinas, 2) o personagem convencer as leitoras de que tudo o que precisava era da "garota certa" (geralmente, uma personagem feminina de baixa auto-estima, comum e ingênua  3) o personagem convencer as leitoras de que está tudo bem viver em um relacionamento abusivo (isso porque, esses personagens, quase sempre, abusam psicologicamente da sua "cara-metade") e 4) o personagem é sempre muito "protetor" e quase sempre acha que a personagem principal é frágil e precisa ser salva. 

Quem? Miguel, de Escrevendo a nossa história (Cybelle Santos)
O personagem é, exatamente, tudo o que eu mencionei acima. Não sei dizer o que mais me irritou nele, mas o fato de sempre colocar a personagem feminina como "a donzela indefesa" me fez perceber o quanto a narrativa pode ser muito destrutiva para as leitoras que acreditam que o amor é parecido com este tipo de relação. O personagem é apenas aquele elemento que tem a função de fazer a mocinha acreditar que precisa dele para sentir-se bonita e segura. Ou seja: horrível, muito horrível.



O "engraçadão"
O tipo de personagem que, talvez, não seja o protagonista, mas que é adorado pela maioria. O dito bobão da turma, que às vezes não tem uma real função na narrativa no começo, mas que ganha destaque em cenas específicas. Pode, ou não, ter um interesse amoroso. Tem amigos e é leal a eles. 
Com o tempo, esse tipo de personagem vai me desagradando, porque, às vezes, pode ser uma incógnita não muito boa. A fase engraçada começa a me irritar, porque gosto de ver a profundidade das criações e isso pouco acontece com esses personagens. O ponto central são as tiradas e as trapalhadas, o que se torna um pouco forçado depois de um tempo. 

Quem? Ron Weasley, de Harry Potter (J. K. Rowling)
Sim, eu gosto bastante do Ron. Mas acontece que essa característica dele o acaba apagando diversas vezes, pelo menos até o quarto livro. A posição de "melhor amigo do Harry Potter", muitas vezes, é a única capacitação dele dentro da narrativa, o que acho bastante desmerecedora. 






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Em breve, trarei a versão oposta: personagens femininas que [não] são tão legais, porque acho importante falar sobre representatividade feminina e como ela não acontece só porque existem garotas nas tramas. É bom lembrar que representatividade feminina não é somente sobre a quantidade de personagens femininas, mas, especialmente, sobre quais são as suas funções dentro das narrativas. 

Love, Nina :)

10 de junho de 2016

#AmeVocêPrimeiro: chega de relacionamento abusivo


Então, é a primeira vez que o Nina se envolve com postagens sobre o mês dos namorados. Nunca tive vontade, porque 1) acho clichê e 2) esse dia nunca fez diferença na minha vida. Mas esse ano estou muito a fim de trazer o tema para cá não para ficar indicando livros fofinhos ou filmes água com açúcar, mas para debater assuntos interligados ao "amor".

Entre aspas. Sim. Exatamente. Porque o amor nem sempre é o que a gente acha que é. E isso entra totalmente no tema da primeira postagem desse combo especial: relações abusivas

O termo abuso em inglês (abuse), na verdade, não corresponde completamente à ideia que temos da tradução em português. Abuse não é, exatamente, abusar de alguém, mas maltratar este alguém. 

De acordo com o Dicionário Priberam: 



O abuso, portanto, é algo muito mais danoso do que um mau-trato. E é bom lembrar que o ato não é praticado somente de forma física (violência corporal ou sexual), mas psicológica, patrimonial e moral. 

Sabendo que, especialmente, mulheres encontram dificuldades de identificar ou de romper um relacionamento abusivo, o Lado M propôs a campanha #AmeVocêPrimeiro



Trechos retirados da postagem sobre a campanha

Resolvi trazer o debate para o meio literário, expondo livros que tragam explicita ou sutilmente esses tipos de relações (não somente "românticas").

1. A Saga Harry Potter, da autora J. K. Rowling: Lily Potter + Severo Snape
A palavra Always nunca mais foi a mesma após os livros de Harry Potter. Muitos a entendem como algo singelo, bonito e romântico. Acontece que a palavra proferida pelo ambíguo Professor Snape traz uma simbologia muito sutil sobre o breve relacionamento (não amoroso) que teve com Lily Potter, mãe de Harry. Snape, claramente, era o garoto renegado pela sociedade, tido como estranho ainda no mundo dos trouxas. Quando Lily entra em sua vida, as coisas mudam e ele enxerga nela uma espécie de "saída" para a sua solidão. Mesmo que Lily seja uma nascida-trouxa, ele abre uma "exceção" para ela (é explícito o preconceito dele em relação a isso). De forma geral, Snape é aquele garoto que se apaixona pela garota e acha que ela tem obrigação de retribuir o sentimento. A grande questão dele é que, por achar que o amor precisa ser retribuído, constrói um ideal de Lily que não bate com a garota pela qual é apaixonado. O platonismo que ele nutriu, inclusive após a morte dela, é a representação da possessividade que havia naquele "amor". Snape nunca a tratou como igual, acima de tudo. O "amor" de Snape se transformou, ao fim, em arrependimento, culpa e ressentimento. O grande plot do personagem não está ligado ao amor de Lily, mas à inveja que sentia de James. Todos os abusos e maus-tratos se tornaram o âmago de Snape, por isso, talvez, este seja o personagem mais bem construído, real e incompreendido da série. 

Um artigo maravilhoso (em inglês) sobre a relação deles é Society's Mores and Harry Potter: Lily, Snape and Sexism (As morais da sociedade e Harry Potter: Lily, Snape e o sexismo).  

2. E Se For Você? (What If), da autora Rebecca Donovan: pai + Nicole | pai + mãe + Nicole
Nicole, desde criança, foi criada como a "bela, recatada e do lar". O pai é tido como o provedor da família e a quem ela e a mãe devem respeito, carinho e dedicação. Essa relação deles já é muito evidente nas primeiras cenas de flashbacks do romance, retratadas na insistência da mãe de prezar pelas roupas limpas e pela obediência da filha (tudo isso para não desapontar o marido). Um ponto repetitivo na trama e muito válido é o controle que este pai promove na vida da filha. Nicole repete muitas vezes que as coisas em sua vida foram projetadas a partir dele; a faculdade, em especial. Desde a aparição de sua personagem ainda criança é muito rápido perceber que ela é tímida, não tende a entrar em conflitos, mas que, na medida do possível, se vê livre desses limites ao lado dos amigos. O romance traz, justamente, essa dualidade entre confiança e segurança. A família dela parece dentro dos padrões, mas não existe confiança nem segurança nela. É fácil entender, também, que a mãe, tão mergulhada na rotina de agradar ao marido, é envolvida nessa teia de abusos cometidos - muitos vezes reproduzindo-os com a filha. A naturalização dos comportamentos do patriarca é um ponto central para entender o desenrolar dos fatos sobre a personagem e as relações de todos que a cercam.

3. Por Lugares Incríveis, da autora Jennifer Niven: pai + Theodore
Além de tratar sobre o suicídio, transtornos psicológicos e libertação, o romance enfatiza bastante o abuso cometido pelo pai do personagem masculino principal, o Theodore (ou Finch). A mente do personagem oscila entre o passado e o presente e são essenciais para entendermos a sua construção e evolução. Tudo indica que os transtornos desencadeados em Theodore (depressão, tendência ao suicídio, ansiedade e, posteriormente, bipolaridade) vêm de gatilhos acionados pelas memórias que tem da relação com o pai. Separado da mãe de Theodore, ele constituiu uma nova família e age como se a primeira fosse, basicamente, um apêndice em sua vida, algo com que é obrigado a conviver de vez em quando. A violência física bastante brutal relatada por Theodore é angustiante e revoltante. O romance é uma história tão dolorida, sufocante e, por vezes, desesperadora, que se torna impossível não lidar com ela como se fosse algo real. 

Trecho retirado da Nota da Autora, no final do livro

Links recomendados

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Espero que eu tenha ajudado alguém a se informar e a procurar ajuda. Lembre-se que, se você está sofrendo abuso, a culpa nunca será sua. Você apenas confiou na pessoa errada (e não tinha como saber disso de antemão!). 
Nunca esqueça que a sua saúde mental é mais importante do que qualquer relacionamento que você insista em ter, mas que não te faça feliz. 
Não tenha medo ou sinta-se culpada(o) por amar a si mesma(o) primeiro!

Love, Nina :)

4 de junho de 2016

#Playlist: Vanguart e The Oh Hellos

A última Playlist foi sobre, exclusivamente, música britânica. Mas, na de hoje, vou misturar indie rock nacional e folk rock/indierock norte-americano. De forma geral, eu sempre fui muito "alternativa" e os gêneros que mais escuto são, realmente, indie e folk, sempre híbridos ao rock. 


Talvez alguns já conheçam o Vanguart, pois a partir de 2007, eles começaram a ganhar destaque nas emissoras televisivas e em festivais musicais, como a Virada Cultural. Foi o Hélio Flanders (vocalista e violonista), em 2002, que fundou a banda, em Cuiabá. Nascido como um projeto solo de Hélio, a banda gravou discos e EP's (o EP Before Vallegrand foi o primeiro registro como banda. Mas foi apenas em 2007 que o primeiro álbum nasceu, de nome homônimo (Vanguart). Não sei ao certo quando os conheci, mas foi somente no comecinho do ano passado que, enfim, escutei as canções deles. Até então apenas tinha ouvido falar deles. Os dois álbuns mais recentes (Boa parte de mim vai embora e Muito mais que o amor) são os meus preferidos. As letras significam muito para mim, por diversos motivos, e encantam pela poética e delicadeza. A sonoridade é bastante harmônica - dá para ouvi-los em qualquer hora do dia, independentemente do que você está sentido. Há músicas mais animadas, como Desmentindo a despedidaSe tiver que ser na bala vaiSemáforoO que a gente podia ser e Mi vida eres tu, assim como lentas, à exemplo de A escalada das montanhas de mim mesmo, Antes que eu me esqueçaNessa cidade e Olha pra mim. As minhas queridinhas são Demorou pra serEstiveEu Sei Onde Você EstáMeu SolPra Onde Eu Devo Ir e Pelo amor do amor por motivos de: são bem mais melancólicas do que as lentas e têm mais significado para mim. O que mais gosto no Vanguart é que sempre existe um verso de alguma canção que sei que vai me fazer ganhar o meu dia, ou então me ajudar a seguir em frente. Basicamente, eles me fazem sorrir bastante, às vezes, chorar - porque sempre faz parte :) 

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Tyler e Maggie são irmãos que, em 2011, no Texas, fundaram a The Oh Hellos. O Tyler, desde 2007, já escrevia músicas e lançou 3 álbuns. Só que, depois de ambos escreverem uma música para a mãe, perceberam que davam certo musicalmente e a banda aconteceu. O primeiro EP foi lançado no primeiro ano; hoje, somam 4. O estilo deles é o folk rock e indie rock, de ritmos diversos dependendo dos instrumentos utilizados - mas, quase sempre, é algo animado. Eles se alternam nos vocais em algumas canções, outras são solos de um deles, mas como a maioria tem momentos pra cima, com refrões em entoação, é comum que cantem juntos. Ambas as vozes são viciantes e deliciosas, graves, mas que combinam perfeitamente com o gênero musical.

Eu não consigo fazer uma seleção reduzida das músicas que mais gosto deles, sinceramente. As que raramente ouço - as que pulo mesmo - são muito poucas. Então, vou separá-las em alguns grupos:

#Animadas: Eat You AliveI Was Wrong (a letra, entretanto, me faz querer chorar), In Memoriam (apesar do começo e a melodia enganarem um pouco, a música levanta bastante o astral depois de um tempo), Lay Me Down e Like The Dawn são duas super queridinhas em termos de melodia e ritmo, MVMT (II e IV), Second Child, Restless ChildSoldier, Poet, KingThe Truth Is a Cave (lembra muito Hey Ho, The Lumineers), Where Is You Rider? (lembra bastante Top To The World, Imagine Dragons), The Valley (que tem tom de hino) e Bitter Water.
#Lentas: I Have My MistakesMVMT IPale White Horse (é bastante sombria e sempre que a ouço lembro do filme O Labirinto do Fauno).
#Instrumentais: Danse Macabre é animada e lembra muito um tango e In the Blue Hours of Morning tem um tom meio celestial e non-sense, mas que é viciante.

Minhas duas eternas preferidas são Dear Warmwood, porque foi a primeira canção que escutei da banda e que levo como um segundo hino pra minha vida e Hello My Old Heart, pois a letra significa muito para mim e o ritmo, apesar de mais lento, me conquistou bastante.

O que mais amo neles é que é impossível não ficar feliz ao escutá-los. É sempre uma ótima opção ao acordar o/

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Espero que tenham gostado dessas dicas musicais  e espero que vão atrás das bandas :)

Love, Nina :)