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#AmeVocêPrimeiro: chega de relacionamento abusivo

by - junho 10, 2016


Então, é a primeira vez que o Nina se envolve com postagens sobre o mês dos namorados. Nunca tive vontade, porque 1) acho clichê e 2) esse dia nunca fez diferença na minha vida. Mas esse ano estou muito a fim de trazer o tema para cá não para ficar indicando livros fofinhos ou filmes água com açúcar, mas para debater assuntos interligados ao "amor".

Entre aspas. Sim. Exatamente. Porque o amor nem sempre é o que a gente acha que é. E isso entra totalmente no tema da primeira postagem desse combo especial: relações abusivas

O termo abuso em inglês (abuse), na verdade, não corresponde completamente à ideia que temos da tradução em português. Abuse não é, exatamente, abusar de alguém, mas maltratar este alguém. 

De acordo com o Dicionário Priberam: 



O abuso, portanto, é algo muito mais danoso do que um mau-trato. E é bom lembrar que o ato não é praticado somente de forma física (violência corporal ou sexual), mas psicológica, patrimonial e moral. 

Sabendo que, especialmente, mulheres encontram dificuldades de identificar ou de romper um relacionamento abusivo, o Lado M propôs a campanha #AmeVocêPrimeiro



Trechos retirados da postagem sobre a campanha

Resolvi trazer o debate para o meio literário, expondo livros que tragam explicita ou sutilmente esses tipos de relações (não somente "românticas").

1. A Saga Harry Potter, da autora J. K. Rowling: Lily Potter + Severo Snape
A palavra Always nunca mais foi a mesma após os livros de Harry Potter. Muitos a entendem como algo singelo, bonito e romântico. Acontece que a palavra proferida pelo ambíguo Professor Snape traz uma simbologia muito sutil sobre o breve relacionamento (não amoroso) que teve com Lily Potter, mãe de Harry. Snape, claramente, era o garoto renegado pela sociedade, tido como estranho ainda no mundo dos trouxas. Quando Lily entra em sua vida, as coisas mudam e ele enxerga nela uma espécie de "saída" para a sua solidão. Mesmo que Lily seja uma nascida-trouxa, ele abre uma "exceção" para ela (é explícito o preconceito dele em relação a isso). De forma geral, Snape é aquele garoto que se apaixona pela garota e acha que ela tem obrigação de retribuir o sentimento. A grande questão dele é que, por achar que o amor precisa ser retribuído, constrói um ideal de Lily que não bate com a garota pela qual é apaixonado. O platonismo que ele nutriu, inclusive após a morte dela, é a representação da possessividade que havia naquele "amor". Snape nunca a tratou como igual, acima de tudo. O "amor" de Snape se transformou, ao fim, em arrependimento, culpa e ressentimento. O grande plot do personagem não está ligado ao amor de Lily, mas à inveja que sentia de James. Todos os abusos e maus-tratos se tornaram o âmago de Snape, por isso, talvez, este seja o personagem mais bem construído, real e incompreendido da série. 

Um artigo maravilhoso (em inglês) sobre a relação deles é Society's Mores and Harry Potter: Lily, Snape and Sexism (As morais da sociedade e Harry Potter: Lily, Snape e o sexismo).  

2. E Se For Você? (What If), da autora Rebecca Donovan: pai + Nicole | pai + mãe + Nicole
Nicole, desde criança, foi criada como a "bela, recatada e do lar". O pai é tido como o provedor da família e a quem ela e a mãe devem respeito, carinho e dedicação. Essa relação deles já é muito evidente nas primeiras cenas de flashbacks do romance, retratadas na insistência da mãe de prezar pelas roupas limpas e pela obediência da filha (tudo isso para não desapontar o marido). Um ponto repetitivo na trama e muito válido é o controle que este pai promove na vida da filha. Nicole repete muitas vezes que as coisas em sua vida foram projetadas a partir dele; a faculdade, em especial. Desde a aparição de sua personagem ainda criança é muito rápido perceber que ela é tímida, não tende a entrar em conflitos, mas que, na medida do possível, se vê livre desses limites ao lado dos amigos. O romance traz, justamente, essa dualidade entre confiança e segurança. A família dela parece dentro dos padrões, mas não existe confiança nem segurança nela. É fácil entender, também, que a mãe, tão mergulhada na rotina de agradar ao marido, é envolvida nessa teia de abusos cometidos - muitos vezes reproduzindo-os com a filha. A naturalização dos comportamentos do patriarca é um ponto central para entender o desenrolar dos fatos sobre a personagem e as relações de todos que a cercam.

3. Por Lugares Incríveis, da autora Jennifer Niven: pai + Theodore
Além de tratar sobre o suicídio, transtornos psicológicos e libertação, o romance enfatiza bastante o abuso cometido pelo pai do personagem masculino principal, o Theodore (ou Finch). A mente do personagem oscila entre o passado e o presente e são essenciais para entendermos a sua construção e evolução. Tudo indica que os transtornos desencadeados em Theodore (depressão, tendência ao suicídio, ansiedade e, posteriormente, bipolaridade) vêm de gatilhos acionados pelas memórias que tem da relação com o pai. Separado da mãe de Theodore, ele constituiu uma nova família e age como se a primeira fosse, basicamente, um apêndice em sua vida, algo com que é obrigado a conviver de vez em quando. A violência física bastante brutal relatada por Theodore é angustiante e revoltante. O romance é uma história tão dolorida, sufocante e, por vezes, desesperadora, que se torna impossível não lidar com ela como se fosse algo real. 

Trecho retirado da Nota da Autora, no final do livro

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Espero que eu tenha ajudado alguém a se informar e a procurar ajuda. Lembre-se que, se você está sofrendo abuso, a culpa nunca será sua. Você apenas confiou na pessoa errada (e não tinha como saber disso de antemão!). 
Nunca esqueça que a sua saúde mental é mais importante do que qualquer relacionamento que você insista em ter, mas que não te faça feliz. 
Não tenha medo ou sinta-se culpada(o) por amar a si mesma(o) primeiro!

Love, Nina :)

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9 comentários

  1. Nina, quanto tempo! Acho bem pertinente tu abordar o abuso nessa época do ano em que a maioria só vê flores no amor, nos relacionamentos. Inclusive, ontem à tarde uma colega minha comentou que estava conversando com uma amiga envolvida com um cara que não queria assumi-la. As pessoas se sujeitam a esses amores como se não fossem dignas de algo melhor. Isso me lembra muito aquela frase do professor de As Vantagens, "Nós aceitamos o amor que achamos que merecemos". Ah, mas nós merecemos tão mais!

    Quanto a HP, o único desses livros que li, te digo que sempre gostei muito do Snape, provavelmente porque não li os livros na ordem cronológica - comecei por HP7. Assim, eu tendia a ver o Snape com bons olhos desde sempre. Mas, realmente, o tipo de expectativas que ele depositava na Lily estão longe de serem saudáveis.
    E sobre os nossos amores, que tanto nos uniram, queria te dizer que estou bem. Feliz. Ocupada, mas contente. Espero - e acredito - que tu também esteja bem, moça.
    Ah, pretendo tornar O apanhador uma das minhas próximas leituras, então salve um tempinho pra conversar comigo.

    Um abraço enorme xD

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  2. Muito bom mesmo é um assunto que esta muito no nosso dia a dia. O amar a si antes de amar o seu namorado é muito importante,,parabéns pela escrita..Os livros não conhecia vou dar uma olhada...gostaria de deixar aqui um convite para você participar de uma plataforma para bloggers, muito interessante ademas ajuda muito na divulgação dos nossos blogs, é totalmente gratuita..Dá uma olhada si gostar cadastra seu blog, será muito bom ter seus post la na plataforma. Bjuss
    www.feedhi.com

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  3. É por isso que eu amo a blogsfera e não desisto dela :) <3
    Nina, ótima a sua postagem.
    Realmente, esse é um assunto muito delicado e até complicado.
    Quem está na relação, raramente percebe o que está acontecendo. E isso vem desde a família, é verdade.
    Tipo, na casa dos meus sogros, eles são super regrados ao meu sogro sabe?
    Tipo, ele é O HOMEM da casa. Sabia que antes de eu entrar para a família, eles sentavam a mesa, mas só começavam a se servir, depois que ele já estava se servindo? Ele era o primeiro.
    Daí chegou eu, esfomeada, que tô com fome, vou me servindo e comendo hahhaha.
    Ok, há quem diga que isso é uma tradição, um respeito, sei lá.
    Mas o que eu respeito mesmo é a minha fome hahahahha.
    E acho que antes de mim, ninguém ali percebia como aquele hábito na verdade era ruim.
    Mas o negócio é ainda mais longe. As vezes, o próprio abusador não percebe. Não, de maneira alguma estou defendendo. Mas é aquilo, as coisas estão tão enraizadas, que as pessoas não percebem que está errado.
    Não acredito que esses caras "super românticos e mega'protetores' " queiram de fato abusar da pessoa. Acredito que muitos pensem que aquilo é normal. Que é prova de amor. Afinal, muitas vezes eles cresceram com aquilo.
    Mas claro, não é papel da vítima informar o rapazinho.
    E sobre o dia dos namorados...
    fiquei feliz que neste ano teve umas ações bem legais aqui na cidade.
    Durante a semana teve um programa de rádio sobre a violência contra a mulher e ontem, teve uma roda de bate papo para falar de relacionamento abusivo.
    Acho que o caminho é esse mesmo.
    Informar, conscientizar, dar espaço. A gente ainda mudará o mundo <3
    Beijoooos Nina
    http://profissao-escritor.blogspot.com.br/

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  4. Eu tenho E Se For Você?, mas ainda não o li, assim como os outros livros citados.
    Concordo que a pessoa deve se amar primeiro antes de amar ao próximo. Aliás, na minha opiniao, um relacionamento fica mais saudável quando cada um se ama.
    Bjs, Rose.

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  5. Oiii Nina, tudo bem?
    Eu amei a sua postagem, a única coisa que posso dizer é qe nós precisamos nos amar primeiro para amar o próximo, e o dia de receber amor não é apenas no dia dos namorados, mas sim todos os dias.
    Beijinhos

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  6. Olá!
    Parabéns pela postagem. Achei muito válida sua iniciativa de abordar um assunto tão importante, e que para muitas mulheres acaba sendo uma ferida. Felizmente nunca passei por um relacionamento assim, mas imagino o quanto é difícil para quem vive isso.
    É preciso tomar cuidado, afinal, um relacionamento abusivo nem sempre já começa sendo abusivo. É preciso atentar também para os ''ciúmes'' excessivos, que talvez sejam o principal fator que levam um relacionamento a se tornar abusivo. O que as pessoas precisam entender é que ninguém é dono de ninguém. Um namorado não é o dono de sua parceira, e vice-versa. Se afastar de relacionamentos assim é a solução, por mais que a pessoa goste dx parceirx e seja difícil.
    Beijos.

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  7. Olá Nina...que post incrível. Adorei os trechos que você citou. Devemos nos amar para amar o próximo e demonstrar esse amor todos os dias. <3

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  8. Ooi Nina!

    Ameei o post!
    Nunca tinha pensado assim em relação ao Snape e a Lily. Não que eu goste menos dele agora, mas, parece mesmo que a inveja que sentia pelo James era maior que o amor que sentia por ela, e nem ele mesmo percebia isso.

    Amei a campanha, antes de amar qualquer pessoa temos que nos amar.
    Parabéns ao Lado M e aos participantes da campanha.

    Beijoos
    http://estantemineira.blogspot.com.br/

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  9. Ninaaaa!

    Que proposta incrível de abordagem ao mês dos namorados. Vou ler todas as postagens agora.

    Amei vc falar primeiramente de relacionamento abusivo. É um assunto que tem que ser abordado sempre.

    Parabéns <3

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Olá, obrigada pelo comentário, mas, para evitar passar vergonha na internet, por favor, não seja machista, LGBTQAfóbico(a), ou racista. O mundo agradece :)

Qualquer preconceito exposto está sujeito à remoção.



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