Editado por Alice Gonçalves . Tecnologia do Blogger.

#LeiaMulheres: A redoma de vidro

by - julho 27, 2016

Este ano eu me desafiei a ler mais livros escritos por mulheres. Quem olha pra(s) minha(s) estante(s) vê claramente que 85% de tudo aquilo foi produzido por mulheres, então, não é como se eu estivesse me desafiado porque estão faltando textos femininos. O que me motivou a ter entrado para o Clube de leitores do #LeiaMulheres (Brasil) foi o meu desconhecimento literário das autoras que compõem a minha lista e a vontade de terminar ou reler obras de duas delas (Lygia Fagundes Telles e Marion Zimmer Bradley). 

A obra da Sylvia Plath, embora não tenha sido a primeira que comprei e tentei ler do desafio, é a primeira que venho resenhar. 


Título original: The bell jar
Autora: Sylvia Plath
Editora: Editora Globo
Páginas: 274
Ano: 1963 (original) | 2014 (tradução para o português)

Existem muitos artigos que falam sobre os problemas psicológicos de Sylvia Plath, muitos deles a apontando como alguém frágil. Na orelha dessa edição, está escrito que a obra "é mais do que um relato sobre o desequilíbrio emocional de uma grande personagem (...)" e, desde a primeira vez em que li isso, só consegui rolar os olhos e sentir desprezo pela pessoa que escreveu esse trecho. Não acho que palavras estereotipadas sejam saudáveis para descreverem doenças mentais, em especial porque muitas delas propagam a ideia errada da realidade psicológica da qual a pessoa vive/convive/está. 

A redoma de vidro faz muito mais do que falar sobre a depressão: desnuda diversas ideias pré-concebidas erroneamente sobre a doença. Esther é uma garota de sorte para alguém da classe social dela, pois recebeu uma grande chance de trabalhar durante o verão em uma prestigiada revista de moda e deveria estar cheia de energia e alegria. O início da narrativa mostra liberdade, indiferença à alegria das suas companheiras de estágio e ansiedade. Existe muito desejo por parte de Esther de conquistar a tudo e a todos. A única pessoa em que a personagem não pensa é nela mesma, porque coloca os outros em primeiro plano. Esther esconde a inquietação trabalhando, indo a festas, desfiles e rememorando pessoas de seu passado, à exemplo de Buddy, um garoto que conhece há muito tempo e por quem achou que era apaixonada. 

O estágio termina e Esther volta para casa, onde a onda de êxtase diminuiu e ela se envolve em períodos de grande melancolia e incapacidade. O sonho da personagem é escrever um livro, mas nem isso consegue, porque não consegue mais encontrar motivação naquilo que gostava. Reconheci diversos momentos desses períodos de Esther imersa em si mesma e, por mais que a personagem seja muito diferente de mim, senti muita empatia por ela. 
"Para uma pessoa dentro da redoma de vidro, vazia e imóvel como um bebê morto, o mundo inteiro é um sonho ruim. 
Um sonho ruim. 
Eu lembrava de tudo. 
(...)
Talvez o esquecimento, como uma nevasca suave, pudesse entorpecer e esconder aquilo tudo. 
Mas aquilo tudo era uma parte de mim. Era a minha paisagem".
p. 266
Foi impressionante constatar que a linguagem e a personagem são muito atuais, apesar de mais de 60 anos da publicação. A liberdade sexual está muito presente em diversos trechos e grande parte das convicções de Esther posso dizer que compartilho, o que somente me fez entender a personagem cada vez mais. Não espere ler sobre a depressão a partir de um olhar imediatista, porque a intenção do livro não é amenizar ou colocar um ponto final na doença, pelo contrário: tenta, a cada capítulo, fazer com que o leitor entenda que a depressão não existe a partir de um único sintoma e de um único tratamento (embora, na época em que o livro tenha sido escrito, os métodos fossem precários e praticamente medievais - à exemplo da eletroterapia). 

Os relatos da doença são muito reais, uma vez que a autora conviveu com a depressão e fez tentativas de suicídio muitas vezes ao longo da vida, antes da definitiva, aos 30 anos. Houve uma mudança drástica na minha percepção em relação à personagem depois que ela tenta seu primeiro suicídio, pois a partir daí, não consegui mais visualizar a Esther - quem eu via era a própria Sylvia Plath. O desfecho aconteceu de forma inesperada para mim e, por isso, acredito que tenha ficado em aberto (e quem o continua é o próprio leitor). Isso me cativou ainda mais na narrativa, porque me fez aproximar mais ainda de toda a situação-chave do livro. 
“Aproximei minha imagem da foto da garota morta. Eram idênticas: mesma boca, mesmo nariz. A única diferença estava nos olhos. Na foto instantânea eles estavam abertos, no jornal estavam fechados. Mas eu sabia que, se os olhos da garota morta estivessem abertos, eles me encarariam com a mesma expressão vazia, morta e soturna da foto instantânea”.
p. 164
A proposta do livro permanece dentro da gente mesmo após a leitura e nos faz repensar não somente na depressão, mas em nossos ambientes de socialização, em nossas obrigações sociais e naquilo tudo que achamos que precisamos fazer, mas que acaba nos fazendo muito mal. Repensar sobre nossa saúde mental e nossos limites psicológicos deveria ser uma ação diária, mas acabamos nos sufocando com tantos compromissos (escola/faculdade/estágio/academia/festas/cotidiano) e A redoma de vidro nos proporciona esse período de reflexão. 
“Quanto pior você ficava, mais longe eles te escondiam” - p. 179
///

I. Confira a minha lista de autoras para o desafio #LeiaMulheres de 2016 AQUI.

Love, Nina :)

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10 comentários

  1. AI MEU CORAÇÃO.
    Você anda numa inspiração para escrever resenhas que nossa senhora, ninguém te supera, garota!
    Também senti isso que você mencionou, que depois da tentativa de suicídio a Esther não era mais a Esther, e sim, a Sylvia, e gostei também de como você levou a resenha para os temas de pressão da sociedade. Parabéns, flor, não é à toa que és minha blogueira preferida.

    Um beijo do tamanho do mundo,
    Ruh Dias
    perplexidadesilencio.blogspot.com

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  2. Olá, o nome da autora e do livro já forma vistos por mim inúmeras vezes, mas não sabia exatamente do que a obra se tratava, e após ver sua ótima resenha, fiquei ainda mais interessada em ler o livro, não só por ter personagens interessantes como por falar sobre depressão, uma temática que me interessa muito. Certamente lerei quando puder.

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  3. Olá,

    Não conhecia a obra, mas parece ser incrivelmente bem construída e ambientada. Gostei tanto da sua resenha que já estou procurando o livro para comprar. Os temas abordados na história, sem dúvidas são fortes e isso só me motiva mais a conhecer melhor o enredo.

    Abraços
    Cá Entre Nós

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  4. Oiii Nina, como vai?
    Realmente não conhecia a autora e nem o livro e creio que seja um leitura até um tanto quanto forte, gostei que tu trouxestes resenhas assim, não gosto de livros comuns e este está indo diretamente para minha lista de desejados.
    Beijinhos

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  5. Eu queria participar deste clube, mas acaba nunca batendo uma data boa para mim :( Este livro eu não conhecia, e me pareceu uma leitura sofrida por conta dos problemas da personagem. Um drama que eu vou querer conhecer.
    Bjs!

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  6. Oi, eu estou louca para ler esse livro depois que vi um video da Tatiana Feltrin elogiando a obra dessa autora, e eu também me propus a ler mais livros escritos por mulheres, só não faço parte desse grupo, mas me desafiei, pois percebi que lia mais livros escritos por homens do que por mulheres e esse parece ser o tipo de livro que mexe com a gente e nos dá uma sacudida, nos tirando da nossa zona de conforto, o que pode incomodar, mas ao mesmo tempo, nos fazer refletir.
    bjus

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  7. OOI!Confesso que quando vi o título achei que fosse sobre Under The Dome kkkkkk
    Não conhecia o livro e nem a autora, mas a dica já está mais que anotada, principalmente pelos temas tratados e sua ótima avaliação.

    Beijoos
    http://estantemineira.blogspot.com.br/

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  8. Ja vi esse livro, mas sua resenha me atraiu muito para a leitura desse livro, já tinha visto mesmo esse livro, mas nunca tinha parado pra prestar atenção em sua sinopse ou visto alguma resenha.
    Parabéns!

    Beijos
    Viviana

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  9. Nina, acho a sua ideia de ler mais mulheres ótima.
    Não conhecia o livro, mas o achei muito interessante, principalmente pela maneira como a autora trata a depressão e isso de você começar a enxergar a autora também é bem interessante.
    Fiquei com vontade de ler.

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  10. Oi, tudo bem? Eu ainda não conhecia o livro e achei o enredo dele pesado e forte como tudo que aborda a depressão. Me dá uma raiva dajada quando vejo pessoas que rotulam essa doença ou mesmo a consideram frescura. Só eu sei os estragos que ela pode causar não só para quem tem depressão mas para aqueles ao redor.
    Dica mais que anotada! Pretendo ler em breve.
    Bj

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