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#Resenha: O último adeus

by - setembro 29, 2016

Comprei O último adeus, da Cynthia Hand, expressamente para o #SetembroAmarelo. Apesar de nunca ter lido nada da DarkSide Books, era um livro que eu já estava de olho desde a pré-venda. Com certeza, uma história que fica com a gente depois da leitura.

Título original: The last time we say goodbye
Autora: Cynthia Hand
Editora: DarkSide Books
Ano: 2015 (EUA) | 2016 (BRA)
Páginas: 344
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Falar do vazio é para poucos, eu acho. Ninguém que esteja triste por um curto período de tempo pode saber como é estar vazio. Quem o carrega sabe como é intraduzível, porque é algo que apaga quem somos. Estar vazio é uma dor (quase) insuportável e só cada um pode dizer até onde vai aguentar. Digo isso, porque esse é o âmago de O último adeus. Ty, o irmão mais novo de Alexis, nossa protagonista, deixa um post-it para a mãe antes de se suicidar: desculpa, mãe, mas eu estava muito vazio. 

Semanas após o ocorrido, Alexis ainda não sabe conviver com a perda, com a culpa e com a pena dos colegas, amigos e ex-namorado. Quer muito estar distante de tudo e de todos, porque isso a permite estar triste em paz. Como forma de "aliviar" o que sente, seu terapeuta lhe recomenda que escreva uma espécie de diário, sobre as primeiras e últimas vezes que se recorda do irmão. Algo que me chamou atenção é a resistência da personagem em ceder aos medicamentos. O caderninho, então, seria a medida "paliativa" em detrimento aos antidepressivos e ansiolíticos. Claro que, de início, ela acha a tarefa ridícula e incapaz de surtir algum efeito positivo.
"Não existem borrachas na vida.
Eu riscaria tudo e começaria de novo".
p. 16
A partir de palavras escritas, Alexis começa a reviver muitas memórias: como era seu relacionamento com o irmão, como era a família antes da separação dos pais, como as atitudes dele se transformaram através dos anos. Apesar de essas memórias soarem como uma narrativa dentro da trama, são muito mais do que isso, são reflexões. Não que a trama presente não proporcione isso, mas os relatos da personagem - de fato como uma personagem de uma história desconhecida, já que o suicídio é aquela palavra e aquela ação que as pessoas temem pronunciar/trazer à tona - faz com que o leitor mergulhe muito mais profundamente na situação em que o irmão e que todos que o cercavam se encontravam. Acompanhamos pessoas em suas bolhas, tentando se proteger de sentimentos e tentando descobrir sentimentos. 

Cada personagem é único e se aproxima muito do real. Não lembro de ficar irritada devido a algum estereótipo, pelo contrário: li muito a quebra deles. Isso está evidente quando a turminha nerd, da qual seu ex-namorado faz parte, por exemplo, é da exatas. O nerd, nesta narrativa, não é o leitor compulsivo isolado num canto da sala (embora exista, sim, um único personagem assim). 
“Eu contei a ele sobre o buraco em meu peito. Sobre como tenho a impressão de que vou morrer nas vezes em que o buraco aparece. Que estou morrendo de medo que esses momentos aconteçam cada vez mais, até que eu só sinta o buraco e, então, talvez ele me engula para sempre”.
p. 43
A verossimilhança está muito presente, porque pude me enxergar nas entrelinhas. Você sabe quando existe representatividade numa história quando ela, apesar de tratar da singularidade de algo, traduz emoções universais. A morte é uma delas, evidentemente. Não simplesmente o peso de carregá-la (por causa da culpa), mas o de desconstruí-la. Há diversas passagens marcantes, mas a que mais me baqueou foi a que Alexis diz sobre o tratamento da escola com os pertences do irmão. Simplesmente entregaram a ela e a mãe o mais rápido possível, quase que numa tentativa de removê-lo para sempre dali, porque ele tinha cometido suicídio e a escola não queria dar a entender que aceitava "esse tipo de coisa". O último adeus me fez refletir como tratamos a morte e como tratamos cada pessoa que já se foi (e que procurou pela morte, ou não). 

Alexis é uma personagem coerente, embora eu não a entendesse em algumas situações (como as com o ex-namorado). Fiquei esperando que ela revelasse algum segredo em relação à morte do irmão e que a ligasse com o ex, pelo menos para justificar a indiferença que, agora, sente por ele. Esse plot, para mim, soou fraco e inconsistente, mas não foi algo que me incomodou, até porque a protagonista é muito cativante e intensa. Ela condiz muito com a realidade que está enfrentando. Personagens secundários como uma antiga amiga de infância, e a mãe se tornaram meus contrapontos preferidos. Sadie, a garota drogada e maluca do bairro, mas que, de alguma forma, segura as pontas pela perda do pai. A progenitora de Alexis está evidentemente em depressão, sempre misturando vinho com medicamentos pesados e dizendo que não tem mais vida depois da morte do caçula. A força, a beleza e a conturbação dessas duas personagens é como se fossem uma balança e Alexis se encontra no meio delas. Essa tríplice entre as três - no sentido muito mais emocional do que relacional - é encantador e triste ao mesmo tempo. 

Existem partes muito doídas no livro, de verdades gritadas, de desespero aterrorizante, de pânico da incerteza. E, como um quebra-cabeça, todas elas conseguem compôr algo belo e resistente. O efeito de lê-las é forte e pesado. Acho que nunca havia feito uma leitura tão intensa focada no suicídio e coisas assim são necessárias. Acredito que algumas coisas têm de doer na gente para que entendamos o sentido delas. E essa história é uma delas. Ela dá valor àquilo que temos mais medo: o depois. Não simplesmente o adeus. Porque falar de adeus, para alguns, pode ser libertação. Mas o depois é sempre um vazio. A gente nunca sabe o que esperar. Pior: a gente nunca sabe quando ele vai acontecer. 
“Não estou mais acostumada com a esperança”.
p. 167
O projeto gráfico e editorial desse livro é completamente sensacional. Capa dura, uma fitinha para marcar as páginas, tipografias certas, design perfeito de capa (cheio de post-its amarelos), páginas amareladas e ótima diagramação. Uma sacada inteligente, que fui notando mais para o final, foi o fato de que, sempre antes dos relatos documentais de Alexis, há um rabisco mimetizando caneta e, conforme a trama vai chegando ao fim e as coisas vão se amenizando, os rabiscos diminuem. 

Não poderia recomendar menos. Até porque a dor e o vazio narrados a autora conhece bem. Segundo uma nota da própria, depois da história se encerrar, o leitor fica sabendo que seu irmão se suicidou quando tinha 17 anos. Apesar disso, é claro, a obra não deixa de ser ficcional. Os fatos do livro não são os fatos da vida pessoal da autora, mas os sentimentos de lidar com o suicídio e o luto, com certeza, sim. 
“Existe morte ao nosso redor. Em todos os lugares para onde olharmos.
1,8 pessoa se mata a cada segundo. 
Só não prestamos atenção. Até começarmos a notar”.
p. 251

///

Essa é a última postagem do combo #SetembroAmarelo. Espero que tenham gostado, porque para mim serviu para dividir com vocês uma parte de quem fui (e que luto muito para estar controlada) e tentar ajudar de algum modo. Eu sei que, de longe, a ajuda pode ser pouca, mas acredito que só o fato de sabermos que não estamos sozinhos já deixa as coisas menos pesadas. 

A cada um de vocês que me acompanhou este mês, ou que está apenas lendo esse post, espero que não desista. A vida é muito mais do que alguns (muitos) dias horríveis. Vai melhorar. Peça socorro da forma que puder e quiser, mas não desista. 

Precisa de ajuda?
Centro de Valorização da Vida: www.cvv.org.br | Telefone: 141
O CVV - Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, e-mail, chat e Skype 24 horas todos os dias.

Não deixe de ler as postagens anteriores do combo do #SetembroAmarelo

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9 comentários

  1. Olá também acho o projeto gráfico e editorial desse livro fantástico, aliás todos da dark são assim. Achei fantástica sua acao com o setembro amarelo é uma forma de falar de coisa séria atráves de uma diversão. Beijos

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  2. OI Nina, muito interessante seu post sobre setembro amarelo. Nunca tinha parado para relacionar esses temas importantes com as leituras que faço. Amei a sua ideia e ja vou copiar tá? Estou pensando para o meu blog uma postagem para o outubro rosa. Parabéns pelo post e pela dica.
    http://www.facesemlivros.com/

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  3. Olá Nina! Achei muito legal você postar coisas relacionadas ao setembro amarelo e adequar sua leitura ao mês. É um tema pesado, que vem sido mais explorado pelos autores. Acredito que apenas quem passa por uma situação semelhante consegue descrever tão bem os sentimentos como essa autora parece ter feito. Sua resenha ficou incrível, parabéns! Apesar de não ser meu tema favorito de leitura, daria uma chance depois dos seus elogios.
    Beijos!

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  4. olá, Nina... esse é um dos títulos da DarkSide que estão em minha wishlist desde que vi o lançamento, e espero gostar da trama e da forma como a temática de suicídio foi abordada...
    quanto a diagramação, em se tratando de DS nunca tenho do que reclamar, eles arrasam *-*
    bjs...

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  5. Nina, esse tipo de história me atrai muito e preciso dizer que sua resenha ficou incrível. Cheia de detalhes e quotes convincentes. Quero ler esse livro!

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  6. Oi Nina, mais uma vez quero te parabenizar pelo #Setembroamarelo, uma ótima maneira de expor assuntos sérios, e tudo isso através do meio literário. Não conhecia o livro, mas gostei bastante da tua resenha. Esse assunto mexe comigo, com certeza, dica anotada, e espero ler em breve. bjss

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  7. Esse é um dos livros da DS que não tinha chamada minha atenção. O tema do suicido é sempre muito complicado para mim, por ser perturbador. Mas você pontou aspectos interessantes que me fizeram ficar com muita vontade de ler o livro. É sempre bom quando os escritores conseguem falar de uma tema de forma que ele pode ser lido/entendo em qualquer lugar do mundo. Mais leitores se sentem representados.

    Beijos!

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  8. Finalmente tive coragem de vir ler esse post. Já tinha visto uma resenha do livro, mas foi negativa, a pessoa disse estar "cansada desse tema de suicídio", o que obviamente é coisa de quem não é afetado pela problemática do assunto. Mas quem já passou por isso (de já ter tentado, ou ter perdido alguém assim) nunca vai ver o "assunto" se esgotar, porque a dor (ou a lembrança dela) sempre vai estar ali.
    Enfim, agora que sei um pouco mais sobre o livro (até porque, a outra resenha que vi foi bem superficial), sei que estou morrendo de vontade de ler, porque a situação da Alexis é muito parecida com a minha. Adorei a sua resenha, e o livro já está na minha lista de desejados! <3

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  9. Chorei muito com este livro. Eram 3 da manhã e eu não podia largá-lo, chorando copiosamente. Me identifiquei muito com a personagem em vários momentos; eu também não entendo porque uma grande amiga minha se matou. É aquela marca que a gente carrega, porque não há como soltá-la por aí.

    O selo DarkLove da DarSide tem livros sensacionais. Este é um deles. Fico muito feliz de ver uma editora nacional apostando em obras tão boas.

    Ótima resenha!

    Momentum Saga

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