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#SetembroAmarelo: escritores e a morte

by - setembro 26, 2016


Vejo que, cada vez mais, a saúde mental tem estado em pauta e aberto caminhos para que o tabu seja entendido de outra maneira. O "precisar falar", hoje, é um dever. Não se fala tanto como em outras gerações. Estamos sempre conectados em alguma rede social, mesmo que a conversa não esteja sendo feita olho no olho. Isso ainda é comunicação e, para os que não gostam se de expôr, é um facilitador. 

A comunicação é feita de outras maneiras também, como a partir de palavras escritas e deixadas no tempo. É o caso de autores que, em suas épocas, quando o "precisar falar" de saúde mental poderia mandá-los para senatórios desumanos (eletrochoque, lobotomia e encarceramento eram comuns), deixaram vestígios de seus pedidos de socorro naquilo que escreviam. O suicídio, dentre os romancistas e poetas, é um fato curioso sobre como viveram. 

Muito se diz que quem dá fim à própria vida é covarde, escolheu morrer para fazer sofrer aos outros, mas, se a depressão e transtornos psicológicos alteram nossa mente, será que o suicídio é uma escolha? Será que não é um sintoma? 

Na lista abaixo, estão Florbela Espanca, Ana Cristina César, Anne Sexton, Cesare Pavese, Ernest Hemingway e Jack London

Nascida em 1894. Ainda que seja mais conhecida por seus poemas, Florbela também escreveu contos, diários e epístolas. Seus versos eram compostos sempre em sonetos e temas como solidão, tristeza, saudade, sedução, desejo e morte eram recorrentes. Tida como egocêntrica, exprimia muitas angústias de si mesma, pouco interessada no outro. Contribuiu para a emancipação literária da mulher, uma vez que seu enfoque era em si mesma e no universo feminino. Viveu conflituosa consigo mesma, inquieta e sôfrega. Depois de duas tentativas de suicídio em 1930, não resistiu à terceira: faleceu no dia de seu aniversário de 36 anos no mesmo ano.
Algumas obras: Livro das mágoas (1919), Livro de sóror saudade (1923), Charneca em Flor (1931), As máscaras do destino (1931), Cartas de Florbela Espanca (1931)
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!

Ninguém as vê cair dentro de mim!

Nascida em 1952. Poetisa e tradutora brasileira, Ana Cristina é considerada um dos grandes nomes da geração mimeógrafo dos anos 70 e, por vezes, é vinculada à Poesia Marginal. Aos seis anos, já ditava poemas para a mãe. Começou a publicar poemas e textos de prosa poética na década de 1970 em coletâneas, revistas e jornais alternativos. Em suas obras, o ficcional e a autobiografia compunham uma linha muito tênue. Aos 31 anos, em 1983, se jogou da janela do apartamento dos pais.
Algumas obras: Cenas de abril (1979), Correspondência completa (1979), Luvas de pelica (1980), A teus pés (1982) e Inéditos e dispersos (1985).
Angústia é fala entupida.

Nascida em 1928. Escritora estadunidense, Anne Sexton utilizou a poesia para fins confessionais. Escreveu sobre sua depressão, suas tentativas de suicídio e relações com familiares. Sua saúde mental entrou em xeque em 1954, com o primeiro episódio neuroatípico. No ano seguinte, teve outro e começou sessões de terapia. Foi, inclusive, seu terapeuta que a encorajou a escrever poemas. Depois do primeiro workshop de poesia que assistiu, seu trabalho ganhou destaque em revistas literárias. Além de questões puramente pessoais (depressão, isolamento, desespero, morte), seus poemas contemplavam o universo feminino com temas sobre aborto, menstruação, masturbação e adultério. Em 1974, se suicidou ao se trancar na garagem com o carro ligado (sofreu intoxicação por monóxido de carbono).
Algumas obras: The bedlam and the part way back (1960), All my pretty ones (1962), Live or die (1966), Love poems (1969), The death notebooks (1974), The awfull rowing toward God (1975).
Todo o dia eu construí
uma vida inteira e agora
o sol afunda-se
desfazer.

Nasceu em 1908. Combatente antifascista, Pavese era italiano e ficou três anos preso, que lhe renderam o início do primeiro diário. Foi escritor, poeta e ensaísta, com publicações de estudos sobre literatura norte-americana clássica e contemporânea. Traduziu romances de escritores renomados como Daniel Defoe, Charles Dickens, James Joyce e William Faulkner. Em 1950, se suicidou por overdose medicamentosa. 
Algumas obras: A lua e a fogueira (1958), Antes que o galo cante (1959), Ofício de viver (1968 - diário), A guitarra quebrada (1960), Terras do meu país (1969), O camarada (1974).
Nós não nos lembramos de dias, nos lembramos de momentos.

Nasceu em 1899. Apesar de ser mais conhecido como escritor, também foi correspondente de guerra em Madrid durante a Guerra Civil Espanhola. Fez parte da "geração perdida" e seus escritos denunciavam com frequência o tema do suicídio. Mesmo suas personagens expõem problemas relacionados ao fim trágico de vida. Portador da doença hemocromatose (em que os órgãos se tornam depósitos do ferro excessivo no corpo), em seus últimos anos lidava com a depressão, diabetes e hipertensão. Aos sessenta e um anos, em 1961, disparou contra si mesmo com um fuzil de caça. 
Algumas obras: O sol também se levanta (1926), Adeus às armas (1929), Por quem os sinos dobram (1940), O velho e o mar (1952).
Gosto de ouvir.
Aprendi muita coisa por ouvir cuidadosamente. 
A maioria das pessoas jamais ouve.

Nasceu em 1876. Escritor, jornalista e ativista social norte-americano, foi um dos primeiros romancistas a obter celebridade mundial somente com as suas histórias e fazer, a partir delas, grande fortuna. Fez "carreira" como andarilho e sabia bastante de clandestinidade em viagens de trens de ferro. Sua ficção carregava muitas situações de suicídio. Ainda que seu suicídio real seja confirmado por muitas fontes antigas, sua certidão de óbito declara sua morte como uremia, em 1916. A maioria dos biógrafos concorda que a uremia foi agravada por uma dose acidental de morfina.
Algumas obras:
A verdadeira função do ser humano é viver, não existir. Por isso, não vou desperdiçar os meus dias tentando prolongá-los. Quero aproveitar o meu tempo.
. . . 

. 6 livros sobre o suicídio .




Links recomendados
> Cinco tratamentos psiquiátricos bizarros que caíram em desuso (Super Interessante)
> O museu da loucura (Obvious)
> A era da auto destruição (Revista Galileu)
> Suicídio: o mal invisível que mata mais de mil gaúchos por ano (Zero Hora)
> Florbela Espanca (Jornal de poesia)
> A intensa poesia de Ana Cristina César em destaque na Flip (El País Brasil)
> Anne Sexton: a poetisa favorita de quem não gosta de poesia (The Wandrin Star)
> 9 fatos inacreditáveis sobre a vida de Ernest Hemingway (Revista Galileu)
> 11 coisas (muito malucas) que você não sabia sobre Ernest Hemingway (Huffpost Brasil)
> Jack London Museum (Dawnson City)
> Sugestão de leitura: As Horas (Perplexidade e Silêncio)
> A redoma de vidro: quando a literatura é um modo de renascer (Revista Capitolina)

///

Precisa de ajuda?
Centro de Valorização da Vida: www.cvv.org.br | Telefone: 141
O CVV - Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, e-mail, chat e Skype 24 horas todos os dias.

Não deixe de ler as postagens anteriores do combo #SetembroAmarelo
O esconderijo amarelo
Representatividade

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14 comentários

  1. Você me surpreendeu ao não colocar nossas musas Woolf e Plath, mas de um jeito positivo. Tinha me esquecido do quanto gosto de Florbela Espanca e seu post retomou isso em mim. Também gostei de conhecer escritores novos.

    Um beijo,
    Ruh Dias
    perplexidadesilencio.blogspot.com

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    Respostas
    1. Não coloquei a Woolf e a Plath porque são as mais comuns quando se fala de escritores suicidas. Quis trazer algo diferente. Mas A redoma de vidro tá li nas recomendações literárias hehe. Preciso ler uma obra completa da Florbela, porque tudo o que leio são uns pingadinhos da internet </3

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  2. PS.: Depois fiquei pensando sobre como pessoas como nós, com almas sensíveis e muitos pensamentos, nem sempre conseguem lidar com tanta intensidade através da arte. Funciona para alguns, vira uma catarse, mas não para todos. Você sente que precisa tomar cuidado para não se deixar engolir? Porque eu sinto. Mal de escritores, talvez.
    PS2: Obrigada por colocar meu link na lista de sites relacionados.

    Adoro-te
    Ruh Dias
    perplexidadesilencio.blogspot.com

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  3. Sempre se falou de 'saúde mental', o problema é a forma como se falava. "Muito se diz que quem dá fim à própria vida é covarde, escolheu morrer para fazer sofrer aos outros, mas, se a depressão e transtornos psicológicos alteram nossa mente, será que o suicídio é uma escolha? Será que não é um sintoma? " Essa tua afirmativa, se você pegar um contexto histórico sobre a temática, é justamente o que se falava, acresceria o discurso religioso, Falta de Deus. Logo, o que se diz hoje, ainda é um retrato histórico do que era dito socialmente. Além dos problemas que você levantou como os Sanatórios. 'deixaram vestígios de seus pedidos de socorro naquilo que escreviam.' é uma afirmativa forte.

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  4. Oiii Nina, tudo bem?
    Eu nunca parei para ler nenhum livro sobre suicídio mesmo, e fiquei chocada diante dessas autores e até triste, mas por um lado vários momentos foram impedidos, mas queriam por que queriam, normalmente sempre deixam algum vestigio, ou falam algo antes de sua morte que poderia ser considerado, parabéns pela postagem.
    Beijinhos

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  5. Olá Nina!

    Não conhecia seu blog... gostei muito desse conteúdo.

    Muitas pessoas julgam o suicídio, mas não vejo como uma escolha que a pessoa faz. Acho que ninguém pode afirmar o que faria ou não estando em sã consciência, sem estar passando por uma situação ruim sabe?

    Que bom você abordar esse tema! É muito importante.

    Beijos,

    Kátia

    https://poesiasdakah.wordpress.com/



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  6. Olá!
    Gostei bastante do post e da maneira como você abordou o tema.
    Suicídio é um assunto um tanto delicado e muito julgado. É tão fácil julgar, mas ninguém sabe de fato o que o outro está passando. Acho que suicídio pode sim ser um sintoma.
    Muito bom poder conhecer um pouco os autores suicidas.
    Parabéns pelo post.
    Beijos.

    Li
    Literalizando Sonhos

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  7. Hoje em dia fala-se mais em saúde mental pois muito do preconceito que havia antes com depressões, por exemplo, já caíram um pouco. Não totalmente, mas pelo menos já é entendido que não é apenas frescura. Outro tema polêmico é o suicídio, visto que ainda geram muita controvérsia, pois não é de hoje que vejo falarem que isso é um ato de covarde. atitudes assim só afastam mais quem está sofrendo e precisando de ajuda.
    Bjs!

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  8. Que postagem mais completa, menina! Parabéns!!
    O suicídio é algo tão complexo e me faz ficar muito triste porque imagino o tamanho desespero que uma pessoa precisa ter para chegar a um extremo como esse! =/
    Já conhecia quase todos os autores que você citou e dos livros, só li As virgens suicidas que é bem chocante de uma maneira delicada até.
    Bjss

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  9. Parabéns pelo post Nina!
    Suicídio é um tema muito sensível, a qual, confesso, nem consigo/sei falar sobre. Dói só de pensar como se sente uma pessoa a ponto de acabar com a própria vida.
    Já li O Velho e o Mar do Ernest, não fazia ideia de que ela havia se suicidado.

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  10. Olá!
    Parabéns pelo post, tem dicas muito valiosas!
    Gostei muito de você contar um pouco mais sobre esses autores que infelizmente tiraram suas vidas e dar dicas de livros que falem sobre o assunto. Estou morrendo de vontade de ler Os 13 Porquês.
    Beijos.
    https://arsenaldeideiasblog.wordpress.com/

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  11. Olá, parabéns pelo post e pela iniciativa do #SetembroAmarelo.
    Esse tema é um tema que me machuca muito, por ter perdido um tio que amava muito, através do suicídio.

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  12. Olá, sei que já vou sentir saudades do #SetembroAmerelo...ótimas postagens, textos incríveis.

    A morte é um tema muito abordado na literatura, gosto de livros que retratam o tema e adorei o post.

    Abraços

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  13. Nina, eu só conhecia a história da Florbela, que por sinal amo as poesias, mas adorei saber sobre os outros autores.
    Adorei o post.

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