20 de setembro de 2016

#SetembroAmarelo: representatividade

Dei um recorte da minha história sobre depressão AQUI e, justamente por causa dela, o post de hoje é sobre como a literatura pode nos auxiliar sobre o assunto, seja conscientizando, seja devolvendo parte de nossa esperança. 


A conscientização vem de muitos jeitos nos livros. Os dois mais comuns é a) uma personagem estar muito triste por um longo período (Cartas de amor aos mortos) e b) a apresentação sutil ou massiva de dados reais sobre depressão e suicídio (Por lugares incríveis e O último adeus). Vou embasar o post nesses três livros mencionados, pois são os que mais me tocaram e mais me fizeram aprender sobre o que eu sentia e a ajudar os outros na mesma situação. 

Sei que já falei de esperança algumas vezes e acho que isso acontece, porque é mesmo muito (muito) fácil deixar que o vazio tome conta da gente. Esse vazio dá pra controlar com muitos métodos (eu tenho tentado a meditação e, apesar dos dias não tão bons, está funcionando), mas não podemos prever se a tristeza vai ficar por alguns dias ou se tornar parte da gente. Algo que, com frequência preciso me lembrar, é que essa tristeza me acompanha, mas não é quem eu sou - muito menos é quem quero ser o tempo inteiro. Por isso, reforço: não podemos prever. A depressão não é algo que a gente pode ligar e desligar quando deseja. O que podemos fazer é pedir ajuda, ainda que somente a nós mesmos (àquela partezinha feliz que restou de quem a gente era). Eu busquei a terapia por um tempo, com uma profissional. Acabou que não deu muito certo, então, tive que recorrer a mim mesma, depois de vários conselhos de amigas. O que acabou me ajudando, além da meditação, foi também a ressignificação (que é, basicamente, aprender a atribuir um novo significado a acontecimentos/pessoas/lugares a partir da mudança da nossa visão de mundo). No começo, isso dói muito, porque significa que temos que abandonar sentimentos e crenças. Mas, com o tempo, trocar as coisas de lugares se torna algo que podemos construir todos os dias: por exemplo, substituir a raiva por perdão, o desespero por tranquilidade, ansiedade por alegria. 

A ressignificação demanda controle da nossa própria mente - para quem sofre de ansiedade e ataques de pânico é algo que simplesmente muda a nossa vida. Além disso, promove muito foco - sabemos exatamente em que(m) dirigir a nossa atenção e amor. Depois da esperança, começa a ficar muito fácil que o dia a dia não seja uma constante tristeza. Isso porque a tristeza toma outras formas; somos capazes de reconstruí-la para que se torne novas lembranças, lembranças boas. É claro que não significa que estamos curados e que não temos medo de que o vazio intenso volte, mas é mais fácil conviver com ele. 

Ao aprendermos a cultivar esperança aprendemos também a aceitar o perdão. Perdoar os outros é algo que dói, mas acho que o mais terrível, o que mais relutamos, é perdoar a nós mesmos. Se não há perdão, significa que ainda existe culpa (significa que estamos nos culpando, ou culpando outras pessoas). Livrar-se da culpa é um processo de cura e, portanto, leva tempo. 

Existe muita culpa na depressão. A gente se sente culpado o tempo inteiro: por não conseguir sorrir aos outros, por não saber controlar a ansiedade, por deixar que os outros nos afetem mais do que podemos suportar, por não ser capaz de continuar com a rotina. A culpa existe, porque nos sentimos fracassados, inúteis, insignificantes, insuficientes.

. 3 lições sobre representatividade .

1. Não é sua culpa 
Isso vale para quem está na depressão e para quem precisa lidar com um suicídio. No caso da depressão, há variantes inconstáveis que podem ser as respostas para o porquê você se sente como se sente. Como eu disse antes, não é algo que podemos ligar e desligar quando desejamos. Você pode respirar e tentar subverter seus sentimentos, por enquanto. Além de, claro, pedir ajuda, embora nem todas as pessoas que têm depressão são suicidas em potenciais. E, claro, isso não significa que você precise de medicamentos (eu não quis esse tipo de ajuda, mas depende do seu profissional e do que você quer aceitar). É importante dizer que você tem o livre-arbítrio, mas você precisa entender que, às vezes, o que você quer não é o que você precisa. No caso de quem ficou e precisa aprender a lidar com a falta de alguém, a culpa não é sua, por mais que acredite nisso. Se você ofereceu ajuda e a pessoa negou isso, você fez o que pôde. Há certas coisas que, infelizmente, fogem completamente de nosso controle. E controlar as outras pessoas é uma dessas coisas. Nós somos responsáveis por nós mesmos, pelo que fazemos com o que sentimos - mas não somos responsáveis pelo que o que outro faz com o que sente, porque esses sentimentos são dessa outra pessoa, não são seus. 

2. Aceite a ajuda
Não é o que quer ouvir? Ouça mesmo assim. Não queria que os outros descobrissem, mas eles descobriram? Alguns podem te ajudar. A gente tem que aprender a falar mais. E, se não quiser falar verbalmente, existem muitas outras formas de comunicação (eu mesma quase nunca uso a comunicação verbal). Escreva uma carta, mande um e-mail, mande uma mensagem, escreva um texto e compartilhe para que os outros tenham ciência do que você está enfrentando ou do que pode vir a acontecer. As pessoas pedem ajuda de várias formas e prestar atenção nelas é fundamental. 

3. Confie na esperança 
Ser otimista quando se está em depressão é uma tarefa muito difícil, às vezes, impossível. A tristeza contínua faz com que nossos pensamentos se modifiquem completamente, mas os exercícios que você pode fazer não se restringem a pensar coisas boas, mas a dedicar alguns minutos apenas para si, por exemplo. Não quer sair com seus amigos? Tudo bem, fique em casa e veja um filme que tenha uma trilha sonora que te anime. A aula está insuportável? Vá para outra parte da escola/faculdade, uma parte que você se sinta menos ameaçada. A gente só consegue recuperar o controle depois que a segurança retorna. Então, a esperança precisa de pelo menos um pouco de segurança (que tal meditar e aprender a controlar mais a mente, para que ela não ache que você está toda hora em perigo e/ou triste?).

. . . 

Os três livros mencionados no começo do post conseguiram fazer com que a sociedade prestasse atenção na depressão e no suicídio (mas não são os únicos!) e me ensinaram essas três lições, que pude aplicar na minha vida. Eles conseguiram fazer com que não tratassem os assuntos como tabu, porque entendem a importância de se falar sobre. E como dialogar com as pessoas que estão em situações iguais ou parecidas se não prestando apoio sem julgamentos? Porque é isso que as três autoras fazem: entendem que você está aqui, que existe e que não está sozinho. Elas falam por você até que você tenha coragem de falar também. 

A autora Jennifer Niven, de Por Lugares Incríveis, é, atualmente, a pessoa que mais me faz acreditar na vida. Depois que conheci o Theodore Finch, tanto ele quanto ela conseguiram me ensinar lições muito difíceis e que vou carregar para sempre. A Jennifer é uma das poucas autoras que realmente está ali por causa e para o leitor (sugiro esse texto maravilhoso que ela escreveu no ano passado). Ela quer que você se sinta amado e importante. 

Conheça mais das autoras



A depressão não é drama, frescura ou falta de vontade.
O suicídio não é covardia, egoísmo ou desejo de atenção. 

Não deixe de expressar o que sente.
Converse.
Peça socorro.
Mas não desista.

///


Precisa de ajuda?
Centro de Valorização da Vida: www.cvv.org.br | Telefone: 141
O CVV - Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, e-mail, chat e Skype 24 horas todos os dias.

Não deixe de ler a primeira postagem do combo #SetembroAmarelo

Love, Nina :)

18 comentários:

  1. Sempre é bom voltar ao seu blog, Nina. É um dos que têm melhor conteúdo entre os blogs que conheço! Achei ótimas as indicações de livros. Aliás, em um outro post que li sobre #SetembroAmarelo, eu já tinha visto o livro "Por lugares incríveis" sendo mencionado, e fiquei com muita vontade de ler. Agora, a vontade só cresceu!

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  2. Eu estou com Cartas de Amor aos Mortos parado na minha estante faz tempo, cheguei a começar a ler mas não fluiu, o que é bem triste, porque todo mundo só fala maravilhas desse livro. Acho que eu não estava no momento pra ele e por isso ainda está aqui me esperando. Por Lugares Incríveis realmente é incrível e eu nem consigo explicar o quanto esse livro mexeu comigo e me emocionou, e eu já senti um pouquinho da dimensão e da importância que ele tem pra você.

    Tô amando esses seus posts sobre o Setembro Amarelo. Como estudante de Psicologia é muito gratificante ver que você está ajudando a levar informação para outras pessoas.

    Beijo

    www.blogrefugio.com

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  3. Infelizmente a depressão ainda causa muitas mortes na nossa sociedade, eu tenho uma depressão controlada e felizmente não tive recaídas de um ano pra cá, mas é difícil e sinceramente a leitura ajuda bastante. ♥
    Que bom que você abre um espaço para esse assunto no seu blog.♥
    Art of life and books.

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  4. Olha, tenho uma tia que deitou e morreu, isso, devido a depressão, tão severa. Ela foi definhando aos poucos, mas um dia, não acordou mais. Além dela, existem muitos outros casos em minha família, e, sou sincera, a forma como alguns livros abordam a temática, me incomoda.

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    1. Então, é uma ótima oportunidade para dar chance a esses três livros que citei, Lilian. Eles trazem bastante realidade e não há nada de romantização :)

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  5. Oiii Nina, como vai menina?
    Tive momentos de depressão na infância, foram uns 3 anos direto, bem difícil mesmo, o mais difícil creio que seja aceitar a tal ajuda, pois muita gente leva na brincadeira e isso acaba nos piorando, o que realmente me ajudou sair foi a leitura, comecei a ler naquela época e desde então nunca consegui parar, foi um escape para outro mundo vamos se dizer.
    Beijinhos

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  6. Seu post foi maravilhoso! Já vi alguns posts do Setembro Amarelo e o seu de longe foi um dos que mais gostei. Ótimas palavras. Servem não só para quem sofre com depressão e pensamentos suicidas, mas também crises de ansiedade que podem evoluir para tal coisa. Continuemos na luta pelos nossos migos e migas!

    www.cantaremverso.blogspot.com.br

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  7. não li nenhuma das obras que você citou na postagem, apesar de ser curiosa com O último adeus, só me incomodo um pouco em como várias obras andam tratando o tema com certa leviandade, espero não ser o caso dessas obras citadas, caso eu venha a ler...
    fico feliz que vc tenha tirado alguma lição das leituras a fim de se ajudar...
    interessante também esse lance da ressignificação... nunca tinha pensado por esse ângulo...
    bjs...

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    1. Bem, provavelmente, você não anda lendo as obras certas :)
      Essas três que citei não estariam no post se tratassem os temas com leviandade, né? Sugiro, com muito amor, a leitura delas <3

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  8. Imagino como é difícil se sentir assim, tive um amigo que tentou o suicídio uma vez e aí começamos a tentar compreender tudo o que se passou com ele para chegar nesse ponto. Essa questão da culpa e do perdão é realmente difícil em situações normais, imagino em alguém já carrega um peso tão grande. Ótimas dicas de livros e excelente post. Devemos estar atentos e ajudar as pessoas quando sentirmos qualquer sinal de depressão. Ás vezes uma palavra pode ajudar muito.

    *☆* Atraentemente *☆*

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  9. Oi Nina, tudo bem?
    Adorei o post. Ainda não li nenhum dos 3 livros citados, mas tenho vontade.
    Existem livros e contos que tratam o assunto de forma muito rasa e isso é muito complicado. Acho que é pior do que não abordar o assunto. Porque muitas vezes, levam pessoas a achar que tudo é frescura. Fico feliz em saber que esse não é o caso com essas obras.
    No momento, eu estou bastante bem. Acho que há meses não tenho uma crise séria, mas ainda assim, parece que sempre tem algo me rondando. Já fiz tratamentos com remédios, mas acabei abandonando. Não sei se me ajudaram muito. Devem ter ajudado quando tomei, mas sei lá.
    E outra coisa que é complicada, é que cada pessoa reage de uma forma diferente. Não é como se tivesse uma coisa certa que toda pessoa vai querer fazer. Eu já tentei me matar e fiz isso quando aparentemente estava bem (para os outros) e já lutei para viver, quando aparentemente estava pior.
    E essa coisa de família... é meio complicada. Acho que às vezes, as pessoas sabem, mas fica mais fácil fingir que não vê. E pedir ajuda, às vezes é muito, muito difícil.
    Mas vamos lá, que já escrevi demais hahah.
    Beijooooos
    http://profissao-escritor.blogspot.com.br

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  10. Oi Nina!
    Adorei a maneira como você tratou do assunto, você foi super didática e soube se expressar muito bem. Gostei também das dicas de leituras, quero muito ler esses livros, parecem ser ótimos :)
    Abraços

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  11. Oi linda,

    Me sinto conversando com uma amiga quando venho aqui, porque também passei e ainda passo pela Depressão e muitas vezes tenho que me lembrar de não me culpar por tudo e muito menos me jogar numa tristeza sem fundamento e agradeço muito ao meu psicólogo e meus amigos da área que me ajudaram a ver que eu sabia me desfazer sem problemas de crenças e sentimentos quando esses me fazem mal. Nisso que apoie todo meu tratamento e hoje sou bem alegre e voltei a minha rotina sem tristeza ou recaídas e gosto muito de Por Lugares Incríveis porque a autora soube falar profundamente o que é Depressão e como podemos ajudar quem apresenta o quadro e Cartas aos Mortos é fantástico.

    Beijocas!

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  12. Oi Nina, que dureza e que luta diária! Depressão é um mal real que vem atingindo muitas pessoas e sem ligar para sexo, idade ou classe social. Muito importante a pessoa procurar ajuda e principalmente não se envergonhar de pedir ajuda. Que bom que voce encontrou uma forma de vencer a depressão. Dos livros que você citou só li o da Ava, e gostei muito
    Bjs!

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  13. Oi, menina, que texto tocante é esse?!?!
    Me tocou e me sensibilizou, já que já passei por isso, já tive depressão e sei o quão dificil é isso, e o quão importante é perceber que não é nossa culpa e que precisamos de ajuda e precisamos ter fé e esperança em nós mesmos, temos que acreditar que somos bons e merecemos uma segunda chance, merecemos ser salvos. Amei sua postagem.
    bjus

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  14. Olá! Tudo bem?
    Adorei seu post e sim, depressão é uma doença e é séria. Pena que muitas vezes é confundida com "frescura", apesar de ter algumas pessoas que fazem da depressão uma tábua de salvação para suas vidas. É complexo falar de temas como suicídio e depressão quando o sujeito é tão complexo na sua subjetividade. Existem vários tipos de terapia, da mesmo forma que existe varias formas medicamentosas para "tratar" a depressão. Porém o essencial de tudo, é descobrir a origem, a sementinha que começou a causar os primeiros sintomas da depressão e isso, somente um terapeuta consegue fazer, junto com o paciente. É preciso buscar a melhor forma de combater a depressão, seja por medicamento ou terapia, eu particularmente acredito que a terapia aliada à medicação, ainda é a melhor indicação. Parabéns pelo post e pela iniciativa!
    Bj

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  15. Mas você não cansa de fazer posts lindos não é, Nina?! <3 Tema maravilhoso, boas indicações, dicas como lições e ainda um pouquinho dessas autoras que ousaram tocar os leitores, pra gente conhecer e espalhar por aí! Parabéns, parabéns!

    Bjs,
    Yohana Sanfer
    http://www.papelpalavracoracao.com.br/

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  16. Olá Nina, seu blog é incrível...não só lindo, mas o conteúdo que você abrange e seus textos são ótimos. Adorei essa postagem! As indicações de leitura são fantásticas, recebi 'Por Lugares Incríveis' de cortesia do Skoob esse mês e já estou louca pra ler <3

    Super beijo
    Literaleitura

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