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#Resenha de livro: Juntando os pedaços

by - dezembro 16, 2016

Não é nenhum exagero escrever que sou eternamente fã da Jennifer Niven, depois que li Por lugares incríveis. Tenho uma relação muito pessoal com essa história, não somente por me identificar com o Theodore, mas também porque esse livro foi o principal motivo por me dar consciência de que precisava ficar no mundo, numa época em que eu queria muito ir embora. 

Então, eu estava com uma enorme expectativa perante Juntando os pedaços. Acompanho a autora em todas as redes sociais e, uns três meses antes do lançamento, eu já estava d o i d a para tê-lo na estante. Comprei-o na pré-venda, de tanta ansiedade por lê-lo. 

Título original: Holding up the universe
Autora: Jennifer Niven
Editora: Seguinte
Páginas: 391
Ano: 2016

Antes de lê-lo, eu já sabia algumas coisas sobre o livro: os protagonistas não são nada comuns. E isso, imagino, é a marca da autora. Assim como Por lugares incríveis, as personagens são únicas. Aqui, temos Libby, que já foi a Adolescente Mais Gorda dos Estados Unidos. Ela perdeu a mãe e, após isso, lidou com a tristeza comendo até ver a vida acontecer deitada em duas camas. Foi tirada de casa pelos bombeiros. Todo mundo acha que a conhece e que sabe o que é melhor para ela. Temos, também, Jack, o garoto popular e carismático. Se as pessoas acreditam que o Theodore é um badboy, Jack não se encaixa no perfil nem por um único minuto. Apesar de ir-e-voltar num relacionamento conturbado, não dá para dizer que ele é um completo babaca. E temos aqui um plus sensacional: Jack é negro. E não é descrito apenas uma vez, sua etnia está na narrativa de várias formas, porque ela está ali, ela existe. Se, por um lado, seus colegas acham que o conhecem pelo garoto popular que é, Jack é o único que sabe quão "anormal" é, pois acredita que tem prosopagnosia, doença que o impossibilita de reconhecer rostos, mesmo os que ama (como seus familiares). 

Juntando os pedaços me conquistou antes mesmo do primeiro capítulo, com a uma dedicatória incrível e sincera aos leitores. É impossível não ter empatia pela autora, pois sua história de vida se mescla bastante com suas narrativas. O que mais amo na Jennifer é que ela não esconde sua vida de ninguém, ela quer muito que os leitores entendam que não estão sozinhos e que são importantes, independentemente de como são ou se sentem. Com este novo romance, percebi que o objetivo continua sendo este, mas com uma modificação: que todos nós somos únicos de nossos próprios jeitos. Talvez andemos de um jeito esquisito, ou tenhamos vergonha de alguma coisa sobre nós, que insistimos em esconder, mas o que Juntando os pedaços tenta nos ensinar é que está tudo bem, porque todos nós temos medo de não sermos aceitos, importantes e amados do modo que somos. 
As pessoas fazem merda por vários motivos. Às vezes, são simplesmente pessoas escrotas. Às vezes, outras pessoas fizeram merda com elas e, apesar de não perceberem, tratam os outros como foram tratadas. Às vezes fazem merda porque estão com medo. Às vezes escolhem fazer merda com os outros antes que façam merda com elas. É uma autodefesa de merda.
p. 74
As vidas de Libby e Jack se unem de uma forma esquisita e vergonhosa. Por causa de uma "brincadeira" chamada Rodeio das Gordas, Libby dá um soco em Jack e a diretora está irredutível: precisam fazer serviço comunitário depois das horas escolares. Com isso, eles acertam algumas coisas, mesmo à contragosto. Libby não sabe se pode confiar em Jack, e Jack começa se sentir confuso com o que sente pelas pessoas, devido à prosopagnosia. Não sabe se reconhece as pessoas pelos seus pedaços, ou pelo que elas o faz sentir. A amizade que brota é bonita, meio que um equilíbrio. Ele tenta fazer com que Libby não se sinta inferior por seu tamanho e ela tenta fazer com que Jack entenda que sua doença não é a única coisa que o define. 

O livro é, inteiro, exatamente isso. Diz para o leitor que um único pedaço de nós não nos define. Que somos muito mais do que um cabelo marcante, um nariz torto, uma voz estridente. Nós somos todos os pedaços juntos. Ironicamente, o cérebro de Jack não consegue fazer isso. Ele reconhece partes, nunca o todo. 
Por causa do meu problema, vivo perdendo as pessoas que eu gosto.
p. 153
Os arcos das personagens, ao menos as principais, são muito bem construídos. Jack e Libby têm passado, sentimentos aos montes e passam ao leitor muita realidade. Ambos têm erros a consertar, não são perfeitos e sabem disso. Algo incrível sobre as narrativas da Jennifer é justamente isso: as personagens são reais porque, apesar de se esforçarem em ser perfeitas, não o são. Quanto mais imperfeições concretas, mais reais elas se tornam e mais nos faz sentir que temos um lugar no mundo. 

Somente duas coisas me incomodaram na história. O livro é sobre gordofobia, sim. E achei triste que, em algumas cenas, existe gordofobia em palavras. Aquela coisa de: "Apesar do seu tamanho grande, ela era graciosa". Libby é gorda e ponto. Mas isso não exclui o fato de que é graciosa, que sabe dançar e que sabe o que quer. A outra coisa é que o final (sem spoilers, juro!) me decepcionou um pouco, pois achei-o comum demais, esperado demais, clichê demais (muito!). 
Não é seguir em frente, Libbs. É continuar de um jeito diferente. É só isso. Levar uma vida diferente. Em um mundo diferente. Com regras diferentes. Nunca vamos deixar aquele mundo para trás. Só vamos criar um novo.
p. 370
Algo que preciso pontuar, algo bem pessoal, é que me senti triste várias vezes por perceber que, embora Jack seja descrito toda hora como alguém negro, às vezes, eu esquecia deste fato e o visualizava na minha mente como um garoto branco. A complexidade disso é enorme. Me fez pensar na pouca representatividade negra em livros, especialmente em livros YA. Como não exerço a imaginação para este tipo de representatividade, foi difícil e vergonhoso lembrar que Jack era um garoto negro. Um garoto negro que não era rebaixado por sua cor, nem estigmatizado por ela. Se vocês souberem de outros livros YA's que tenham um/a protagonista negro/a, POR FAVOR, me indique nos comentários!

De forma geral, superou minhas expectativas, porque a narrativa é igualmente inspiradora, tal qual Por lugares incríveis. Existem pequenos trechos simplesmente sensacionais, com os quais gostaria de casar e que me deixaram repleta de amor. Temos aqui uma protagonista forte e visível e um protagonista cativante. Todos os conflitos se entrelaçam de forma única e verossímil. Apesar de deixar uma ponta solta, que não foi bem desenvolvida (ligada à família de Jack), tudo se encaixa perfeitamente. Tudo é muito bem amarrado, sensível e, por vezes, poético. É, basicamente, outra lição de vida - diferente, incomum, mas universal. É justamente isso que me fez adorar Juntando os pedaços, o fato de as histórias das personagens serem bastante particulares, mas que, ainda assim, falam da universalidade de sentimentos como medo, rejeição, coragem e esperança. 

p. 317
Tem como ler isso e não sentir um quentinho de amor no coração?

Love, Nina :)

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13 comentários

  1. Eu sabia que precisava ler esse livro antes de ler qualquer resenha, mas agora, lendo a sua, eu tenho certeza de que preciso comprá-lo urgentemente. Adorei a temática e adorei o fato do protagonista ser negro. eu não consigo lembrar de nenhum outro livro que eu tenha lido que algum personagem (além das empregadas ou escravos) sejam negros, e isso é tão triste! É até difícil de construir na nossa imaginação enquanto vamos lendo, como você bem falou. Precisamos mudar isso, e pra já!

    Muito obrigada por essa resenha <3
    Beijo

    www.blogrefugio.com

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  2. Tô doida para ler esse livro, acho que autora sabe escrever muito bem belas histórias usando problemas reais, como ser obeso que é o caso de Libby.

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  3. Nossa, pelo jeito a Jennifer é uma escritora incrível mesmo. Já estava louco para ler Por Lugares Incríveis, e agora esse livro também.
    Assisti, recentemente, uma entrevista dela na Bienal do Livro de São Paulo, desse ano. Ela é uma fofa, um amor de pessoa!

    www.estupefaca.com

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  4. Olá Nina.
    Sua resenha a respeito deste livro ficou incrível. Sinceramente eu tenho grande curiosidade em conhecer a escrita da Jennifer, mas preciso fazê-lo no momento certo, pois, se não o fizer, creio que não irei gostar tanto da leitura quanto deveria.
    A história é bem intrigante e me tem um cheiro de que terá um final feliz. Só lendo para saber! rs
    Ótima dica!

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  5. Olá, com sua resenha entendi um pouco melhor o título do livor. Eu ainda não li nada da autora, mas quero ler o primeiro livro dela e esse. Achei interessante a temática do livro, a capa não tinha me chamado tanto a tenção quanto a de Por lugares incríveis, mas depois da sua resenha eu estou bem mais animada pra ler ele.

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  6. Olá, tudo bem?
    Eu confesso que não conhecia essa obra, mas já tinha ouvido falar de Por lugares incríveis, e ouvi muitos comentários positivos sobre a escrita da autora e a historia. Sua resenha me deixou bem curiosa, vou tentar ler sim os dois alias. Dica anotada, Beijos

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  7. Oi, Nina!
    Não conhecia essa autora, mas já me apaixonei por causa do seu relato sobre a dedicatória especial para os fãs. Fiquei muito interessada nessa história e, infelizmente, não conheço nenhum livro YA com protagonistas negros, o que é uma vergonha. =(
    Bjss

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  8. Oi Nina!
    Você acredita que tenho Por lugares incríveis aqui na minha estante há mais de um ano e ainda não o li? Pois é! O ganhei em um sorteio de um blog e acabei não lendo ainda. Não que nunca tenha surgido o interesse, mas acabei dando prioridades a outras leituras.
    Mas, depois dessa sua resenha e de tanto elogiar a forma como a escrita da autora, prometo que não vou mais demorar pra ler. Vou encaixar ele aqui nas minhas leituras de janeiro, no máximo fevereiro. Disso não passa. Estranho pensar que isso não é uma rotina nas leituras que a gente encontra por ai...
    Enfim, adorei a resenha. Dica anotada
    Parabéns
    bjo
    Vou aproveitar e colocar Juntando os pedaços na minha lista de desejados. Ainda não tinha ouvido falar dele e pelo que descreveu, acredito que vou gostar muito. Fiquei bem curiosa pra saber um pouco mais sobre o que acontece com a Libby.
    O fato sobre Jack ser negro e a gente não se ligar a esse fato realmente é muito triste...

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  9. Oi Nina, é difícil mesmo vermos protagonista negros. Não faz muito tempo eu li Paixão Libertadora, onde a protagonista era nega. Adorei este fsto, mas acho que você não gostaria do livro, pois ele faz o gênero hot.
    Bjs, Rose

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  10. Nina, nunca li nada da autora e tenho curiosidade, pois só escuto elogios sobre a escrita dela.
    Não li o livro, mas já me senti incomodada por causa da gordofobia que você mostrou nele em forma de palavras.
    Não sei se leria, mas é uma boa premissa.

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  11. Olá!
    Ainda não li nada da autora, mas sempre me falaram tão bem sobre Por Lugares Incríveis que morro de vontade. Esse livro também me chamou muito a atenção, ainda mais por falar sobre esse tema de gordofobia, que é uma coisa que não falamos muito ultimamente. Adorei a sua resenha.
    Beijos.

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  12. Eu estou muito ansiosa para leitura desse livro, ele parece ser extremamente delicado e encantador e que vai me fazer me emocionar muito, não me interessei muito pelo primeiro livro da autora mesmo ele tendo ótimas criticas, mas esse realmente m deixou muito curiosa

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  13. Olá, tudo bem? Sempre ouço falar bem da Jennifer e seus personagens complexos porém por incrível que pareça ainda não bateu aquele tcham para ler. Acho que me interessaria muito mais Por Lugares Incríveis , apesar de gostar de vários pontos levantados em sua resenha. Acho que é questão de gosto. Espero um dia conhecer a escrita dela. Beijos!
    diariasleituras.blogspot.com.br

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