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#Resenha de livro: Mrs. Dalloway

by - dezembro 29, 2016

A minha última leitura foi pra lá de sensacional, como tudo o que já li da Virginia Woolf (tá falando a resenha de Um teto todo seu, pois é; vai ficar para 2017). 

Como disse aqui, Mrs. Dalloway faz parte do projeto #LeiaMulheres. Não consegui concluir a meta, mas me desafiei a terminar este livro, que havia iniciado em abril. E que surpresa! Se, em abril, a leitura estava desconexa - pois não havia lido nada da Virginia, até então -, agora, fluiu com muito amor e muita angústia. A literatura de Woolf provou mais uma vez que pode me conquistar cada vez mais ❤ 



Título original: Mrs. Dalloway
Autora: Virginia Woolf
Editora: L&PM
Páginas: 221
Ano: 1925 (original) | 2012 (BR)
★★★★★ +

De narrativa muito mais linear que As Ondas, Mrs. Dalloway é envolvente, primeiro devido ao ambiente de classe média londrina; segundo, devido aos fluxos de consciência. Para alguns, esses fluxos podem incomodar, mas, para mim, que gosto muito, apenas serviu para que eu me adentrasse cada vez mais na história. A leitura é rápida, profunda, e narra um dia na vida de Clarissa Dalloway. Um dia importante, além de tudo. É de manhã quando ela sai para comprar flores para sua festa e, a partir daí, conhecemos não apenas ela, mas seus antigos amigos e boa parte da sociedade da época. Uma época em que casamento não era sinônimo de amor, que roupas extravagantes eram importantes e que transtornos mentais eram tabus e tratados quase que com escárnio. 

Mesmo escrito em terceira pessoa, a dimensão de cada personagem é muito bem apresentada e desenvolvida ao leitor. Dificilmente eu "entro" em histórias escritas em terceira pessoa, mas não tive em momento algum problemas com isso em Mrs. Dalloway. Virginia consegue, com cada palavra, cada sentimento, nos convencer a sentir cada frase. A capacidade da autora de nos tocar, mesmo escrevendo sobre coisas banais, é sensacional. Eu, que amo a literatura introspectiva, agradeço mais uma vez o mergulho em mais uma obra dela. O saldo é sempre positivo. E, por incrível que pareça, não me sinto triste durante a leitura, de modo algum.
"Morte era desafio. A morte era uma tentativa de comunicar, a pessoa sentindo a impossibilidade de alcançar o centro que, misticamente, lhe escapava; a proximidade se desfazia; o arrebatamento se desvanecia; estava-se só. Havia um aconchego na morte", p. 209
Alguns temas são pesados, como o alarde de Septimus em se suicidar, mas a banalidade está em todas as partes. Virginia descreve arrogância, soberba e esnobismo através de Clarissa, que está numa posição social privilegiada. Todas as personagens, mesmo as mais arrogantes ou frias, nos motivam a descobrir mais e mais coisas sobre elas. Além de Septimus, há Peter Walsh, alguém que compete bastante em termos de cenas com Clarissa. Só posso descrever Peter como um obcecado por Clarissa, pois, mesmo que esteja de volta à cidade para tocar a vida, não consegue se desvincilhar de seu passado com ela. Esses arroubos de paixões por parte dele tinham tudo para serem irritantes, mas, na verdade, é algo fascinante - mostra muito de sua alma vazia, incapaz de se ater ao presente. Uma antiga amiga da protagonista também é bastante citada: Sally Saton. 

Sally, apesar de não ganhar tanto destaque, é muito importante para que o leitor descubra quem Clarissa é. Apesar de estar casada e ter uma filha, Clarissa, em momento algum, revela sentimentos românticos a seu marido, Richard. Ao invés de falar de amor sobre ele, fala sobre Sally. A homossexualidade, aqui, é bastante presente. Ela diz que sente por Sally "um sentimento do tipo dos homens". Isso me incomodou, porque eu ficava esperando que também dissesse sobre amor com o marido. No fim, comecei a me sentir mal por ela, por ter se casado com alguém que não amava quando, muito claramente, poderia ter sido feliz com outra pessoa, com alguém por quem era apaixonada. Um sentimento equivalente, o amor por alguém de mesmo sexo, é pincelado em Septimus em relação ao seu amigo falecido Evans. É instintivo, aliás, dizer que os pensamentos suicidas de Septimus afloraram devido à morte do amigo. Foi inevitável, em muitos momentos - em especial sobre a homossexualidade e o suicídio -, pensar que a narrativa é uma auto-biografia permeada de ficção.

Não tenho gratidão e amor suficientes para estimar esta leitura. Fico, na verdade, brava comigo mesma por ter adiado a finalização deste livro. Ele abraça você de um modo leve e angustiado ao mesmo tempo. A sociedade e boa parte das personagens são frias e distantes, mas foi inevitável sentir amor, compaixão e expectativa por eles. Mrs. Dalloway refletiu muito de mim mesma, dos meus pensamentos e dos meus anseios. O final tem de tudo para deixar o leitor irritado, mas o que senti, na verdade, foi um enorme amor. Foi impossível não sorrir com aquele final, sinceramente. Um dos finais que vão ficar para sempre no coração ❤  



Love, Nina :)

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5 comentários

  1. Esse será o ano de Virginia Woolf para mim!!
    Adorei sua resenha, me deixou ainda mais entusiasmada para realizar essa leitura!
    Você já leu ou assistiu a "As Horas"? Tem relação com esse romance e o filme pelo menos é maravilhoso, recomendo bastante!
    Bjss e Feliz Ano Novo!!

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  2. Eu li esse. Você bebe de boas fontes. Acho isso importante. E se incline mais ao amor, apesar de ser apenas uma reação química, a forma que a natureza encontrou pra nos forçar a perpetuar a especie, tudo que inventamos sobre o amor tem lá certa graça. Saia dessa realidade e ame mais Nina, ame mais...

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  3. Oi Nina! Tudo bem?
    Amei sua resenha, ficou muito bem escrita! Não conhecia esse livro, e confesso que fiquei curiosa, sua resenha me deixou curiosa para saber o desfecho desse livro! Vou adicionar a minha lista! Parabéns pela leitura e valeu pela dica! Bjoo

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  4. Li muitas resenhas e postagens sobre Virgínia Woolf, mas eu mesma não li nada dela ou sobre ela. O projeto Leia Mulheres é ótimo, e proporciona vermos livros bons como este. São poucas autoras que conseguem nos fazer sentir sem nos deixar tristes de fato.
    Bjs

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  5. Oi, Nina. Tudo bem? Primeiramente, Feliz Ano Novooo. haha

    Olha, quero ler tudo de Virginia Woolf, aqui em casa tenho apenas 3 livros, infelizmente, mas tenho todos os publicados no Brasil na minha lista de desejados e fiquei muito feliz em ler sua resenha, só aumentou meu desejo por ler esta obra. Acredito que você irá amar a biografia dela. <3

    Beijos

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