23 de abril de 2017

Essential book: abril

O ESSENTIAL BOOK VOLTOU. CAPSLOCK, PORQUE EU TÔ MUITO FELIZ!!! 

Fizemos uma pausa de fim de ano, mas 2017 já chegou com um super tema: a essência da esperança. Pra mim foi muito fácil pensar num livro que me trouxesse a lembrança de um recomeço, porque ano passado existiu esse livro na minha vida e tenho certeza de que daqui 50 anos talvez esse posto tenha mudado, mas sempre me recordarei dele. 

Escolhi Por lugares incríveis (All the bright places, Jennifer Niven). SOU UM DISCO QUEBRADO, SIM. Sinto muito se você já enjoou de ver esse livro por aqui, eu nunca vou enjoar. Ele foi, basicamente, a minha salvação, pois foi o responsável por me fazer repensar minha vida e meus sentimentos negativos. Apesar de Por lugares incríveis tratar de coisas bem pesadas, como a bipolaridade, depressão e suicídio, foi justamente por causa disso tudo que me fez entender que eu precisava fazer o caminho oposto à narrativa. A esperança que carrego por causa do livro não é a de que tudo vai ficar bem eventualmente, mas de que existe alternativa. 

Então, a depressão não é a mesma coisa que tristeza. A tristeza, normalmente, é algo passageiro - e com o qual conseguimos lidar. Na depressão, não existe tristeza, porque é um vazio - ou seja, a gente não consegue sentir nada. Mas a minha Tristeza tá aí, porque, assim como a depressão, ela nos faz sentir mal, insuficientes e desmotivados. 
Era assim que eu me sentia 
tempo
todo. 

 where you are
is not who you are
nayyirah waheed


Recentemente, comecei a ler poesia em inglês de mulheres fora do eixo Brasil-EUA-Europa. Acabei fazendo uma seleção de muitos poemas que têm relação comigo e, dentre todos, escolhi esse para esta foto, porque simbolicamente se relaciona com o estado da depressão, porque ela não é quem eu sou - eu só estava num lugar muito ruim, do qual, por algum tempo, não consegui sair. 

Meu barquinho oscila inseguro sobre as ondas encapeladas e agitadas. 
Não há remédio contra o choque do encontro.

Não consigo, também, pensar em esperança sem lembrar de As Ondas, da Virginia Woolf - que foi outra leitura muito marcante para mim em 2016. Desde que esse trecho se tornou um dos meus preferidos da vida, percebi que ele faz sentido para mim, pois sempre pareço estar num barco cujo único destino é se afundar. E isso também se relaciona muito com a depressão: existiam dias insuportáveis, nos quais eu estava muito preparada para me jogar do barco.

Não dá pra ler, porque a imagem é do meu celular e a dimensão da fotografia é gigante (e não cabe nesse espaço). Mas são, novamente, poemas. Não somente da Nayyirah Waheed, mas de outras poetisas sensacionais: Rupi Kaur, Yrsa Daley-Ward e K. Y. Robinson. Todos eles são, de alguma forma, parte de mim e fizeram parte do meu processo de cura. 

Esse trecho é um dos meus preferidos, simplesmente porque é real e vai direto ao ponto. Fico feliz por ver que a sociedade debater mais a saúde mental, mas óbvio que ainda existem os estereótipos. Aquelas pessoas que acreditam que uma perna quebrada é mais importante do que as consequências de um ataque de pânico, por exemplo. Isso só contribui para que quem está em situações psicológicas extremas pense que a sua dor é exagero ou insignificante aos outros. 

Trecho do livro Mosquitolândia, David Arnold

Ler o livro foi apenas o início do processo, óbvio. Não foi de uma semana para outra que comecei a me sentir melhor. Na verdade, demorou três meses para que a minha bagagem emocional encontrasse felicidade e paz. Mas, num dado momento, a sensação de estar viva voltou a ser boa.

Um dos meus poemas preferidos, porque reflete muito esse período da minha vida. Sempre que as coisas voltam a se tornar ruins, lembro dele, porque me dá esperança para ter paciência e lidar com meus momentos negativos.

Uma das minhas frases preferidas de Por lugares incríveis, porque ela me lembra que não importa o que estou sentindo, existe um lugar (físico ou não) que é só pra mim - e que, lá, vou me sentir feliz de novo.

Ainda amo esse livro, porque ele me lembra, também, que está tudo bem não estar bem o tempo todo. A gente se esforça tanto pra fingir que é feliz, sem se dar conta que os momentos negativos também precisam existir, porque eles também nos faz mudar - para muito melhor.

Ler Por lugares incríveis é perceber que ninguém está sozinho e que todos somos importantes. É difícil lembrar disso na depressão, mas ainda bem que existem pessoas incríveis por aí que nos lembram de que a vida e a gratidão são sensacionais. 

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I. O tema de novembro foi 
a essência da criança preferida
e você pode conferi-lo AQUI.

II. Não deixe de conferir os fotografias das outras participantes: 

7 de abril de 2017

Roverandom: a magia da infância nos corações de todos

Eu a-m-o fantasia. Me tornei leitora por causa de Harry Potter, aos 11 anos. Na mesma época, os filmes baseados em O senhor dos anéis, de J. R. R. Tolkien, ganhavam o amor do público nas telas de cinema. A trilogia voltou a ser bastante lida e adorada. 

Mas a fantasia de Rowling e de Tolkien são completamente diferentes. Embora ambas as histórias sejam classificadas como alta fantasia (e tendo o Tolkien como "pai" do subgênero), foi a história do bruxo órfão que dialogou com quem eu era aos 11 anos - e que dialoga comigo até hoje, 14 anos depois. 

Em Roverandom, entretanto, há algo de peculiar: não existe uma elaboração complicada de enredo, personagens heroicos e subtramas. Neste livro, o que existe é um resgate do sonho de criança, de uma magia que, enquanto envelhecemos, deixamos de lado. Vamos esquecendo que sonhar é incrível, porque o mundo real assoma e delimita quem quisemos um dia ser. Mas, em Roverandom, tudo de que lembramos é que a magia do sonho é inerente aos humanos. 

Tolkien resgatou essa magia a partir de um cãozinho, mas poderia ter sido a partir de uma fada, ou uma pétala de flor. Não importa muito sobre o protagonismo dado, porque, na verdade, ele pertence ao leitor.

Título original: Roverandom
Autor: J. R. R. Tolkien
Editora: Martins Fontes
Ano: 2002
Páginas: 127
★★★★★ +


Roverandom é parte baseado na vida real do autor J. R. R. Tolkien. O filho do meio de Tolkien, Michael, era "apaixonado por cãezinhos" (p.7) e foi um episódio, numa casa de praia, que a ideia para o livro nasceu. Quando criança, Michael tinha um cãozinho de brinquedo, branco e preto, exatamente como o da história, e o acabou perdendo em um dos passeios pela praia da encosta. 

Na primeira parte, chamada de "Apresentação", há toda essa contextualização - são estudos a partir dos rascunhos e versões do autor, que deixaram vários indícios sobre o caráter autobiográfico do livro. A segunda é a narrativa em terceira pessoa de Rover. E a última parte é um completamento da primeira, pois é um glossário de trechos da história que os explica, ora fazendo menção a outras obras do autor (e outros autores), ora à sua vida e ora a radicais de outras idiomas.

A história é bastante curta, quase como um conto dividido em cinco partes. Há vantagens nisso: a leitura é rápida e sem truncamentos temporais ou de enredo. Entretanto, quando terminamos, dá uma enorme saudade - ficamos com aquela sensação de que poderia ter tido muito mais páginas, pois queremos continuar acompanhando as aventuras do cãozinho. Não que a história termine sem um fechamento digno: ela é muito bem amarrada e o leitor sabe que a jornada do personagem acabou na última página. 

A história é tão encantadora, por reavivar sentimentos adormecidos em nós, que dialoga com todos os públicos. Diversas vezes, eu me imaginei lendo-a a alguma criança, mas sabendo que o efeito dela já estava em mim. Não é somente o fato de Rover ser um cãozinho que conquista o leitor, mas o conjunto de personagens ser tão pitoresco - mas ainda sutil e convincente - e os cenários tão fantásticos. A imaginação, enquanto a leitura avança, é a chave para que entremos nesse universo completamente alheio ao mundo real. 

(Roverandom eu o chamo, e Roverandom você terá de ser. Não posso ter dois Rovers aqui.)
p. 31

Rover é esperto e curioso, tem aquele típico espírito de filhote animado, ainda que suas situações iniciais sejam o oposto de alegria. Quando é transformado em brinquedo por um mago mal-humorado, sua vida vira de cabeça para baixo. Sua liberdade some e seus dias ensolarados se tornam tristes. Sua jornada de volta para casa começa quando é deixado para ser vendido em uma loja. Aqui, fantasia e realidade se misturam de forma acalentadora: o cãozinho é comprado e dado ao "menino Dois", mas a história da vida real se repete quando Rover cai do bolso da calça do menino e é deixado para trás. 

A partir daí, ele precisa pedir ajuda a outros seres para que volte a ser um cachorro real. Para ajudá-lo, entra em cena o feiticeiro-da-areia e o Homem-da-Lua. Destaco os dois, pois são os personagens de maior personalidade bondosa dentro da trama - eles acolhem Rover e dão a ele um destino, embora que bastante aos tropeços. E é por causa disso que a narrativa funciona tão bem. Ao invés de o leitor se ver entediado e irritado pela jornada do cãozinho se estender de formas pitorescas, apenas há uma ansiedade boa aguardando o próximo reino ou personagem encantador aparecer. 

Rover não fazia a menor ideia de para onde conduzia o caminho da lua; e naquele momento estava assustado demais e empolgado demais para perguntar. E, de qualquer maneira, estava começando a se acostumar a que lhe acontecessem coisas extraordinárias.
p. 21

Como dito, a trama é muito bem amarrada e, com isso, me refiro também ao final. A "saída" que Tolkien criou para o fechamento é sutil e nos deixa com a sensação gostosa de surpresa. É difícil não fechar o livro e não sorrir, por conta da leveza e da harmonia encontradas nas páginas. A linguagem do autor também é algo sensível, nem infantil, nem adulta. Existe um meio-tom, que funciona bem para qualquer idade. É compreensível, mas não limita a imaginação e a aventura. 

Roverandom poderia ser somente um conto para crianças, mas vai muito além disso: ele faz um resgate primoroso e aconchegante do que é a magia dos bons momentos e das boas histórias, independentemente de quem são aqueles que as estão sentindo.  

O livro dialoga com qualquer momento real de nossas vidas e dá a entender que nossas jornadas para casa existem - mas que nunca estamos sozinhos e que momentos ruins não são para sempre. Roverandom é, com certeza, uma lição sutil para que paremos alguns minutos e façamos a reflexão de onde o nosso poder de sonhar está. 


Love, Nina :)

25 de março de 2017

Look: bright & lovely

Ano passado foi essencial para que eu falasse sobre a minha vida pessoal aqui no blog. Foi a partir do Twelve Letters Project e do Essential Book que percebi que eu sou bem mais do que os livros que leio - eu sou alguém além de tudo e todos que amo. Sou alguém além dos meus transtornos. Sou alguém que, apesar de parecer muito quieta, abriga um oceano sem fim. E lidar com ele é sempre uma batalha diária. Às vezes é nadar e se afogar no meio do caminho. Às vezes é avistar uma ilha e se sentir agradecida por algo familiar. 

Lidar com o meu mar é cansativo e eu não sou uma pessoa que ama tirar fotografias, mas tentei mostrar nesse ensaio que, às vezes, a gente consegue encontrar paz e vontade de viver. Esse começo de ano, especialmente com o novo semestre letivo, não está cem por cento. Meus dias estão oscilando bastante - às vezes, fica difícil sair da cama ou entrar em alguma aula. Mas fico agradecida pelos ataques de pânico não terem voltado, apesar de a ansiedade ainda me limitar. 

Acredito que as mudanças acontecem para nós bem aos pedaços e depende muito da nossa aceitação. 2016 foi o ano da minha aceitação, mas não de uma forma negativa, daquela que nos faz acomodar. Porque a gente sabe que haverá situações que não, independentemente do nosso esforço, não mudarão. E, então, por que não aceitá-las e seguir daqui pra frente? Faz oito meses que estou nessa caminhada. A meditação tem me ajudado a ignorar partes imutáveis da minha vida e fazer algo a partir daqui. Eu sei que esse "fazer algo a partir daqui" assusta, porque às vezes não sabemos para onde ir. Mas, mesmo assim, eu fui - e continuo indo. Não sei onde vou chegar e, na verdade, não acho que isso seja o mais importante. O importante mesmo é o que eu estou fazendo enquanto continuo. 

Com essas fotos, eu estou continuando. Eu continuo tentando. 




Já fazia muito tempo que eu queria fazer mechas azuis no meu cabelo, então, ano passado realizei esse sonho. Como cores fantasia saem muito rápidas, ficaram as mechas descoloridas e aproveitei para re-pintar, agora mesclando com o rosa. Ficou discreto, e eu gostei bastante. 

Até ano passado, eu não tinha percebido o quanto a gente se renuncia por causa do mundo. E as novas experiências, totalmente alheias às opiniões dos outros, me têm feito muito feliz e mais verdadeira. Sinto que, mesmo aos pedaços, eu construo a minha identidade para que ela, enfim, seja quem eu quero que os outros vejam. 

Não é fácil ou "bonitinho" ser quieta quando se tem um mar revolto por dentro que quer combater tudo o que me dizem e as formas como me tratam. O meu silêncio, na verdade, é muito mais parte do que me fizeram do que algo intrínseco meu. 



Aqui a câmera da minha amiga trollou a gente, então algumas fotografias saíram desfocadas, mas escolhi esta, porque foi a minha preferida. 

Eu tive certa dificuldade em "agir normalmente" nesse ensaio, porque fotografamos no campus da minha faculdade, num horário em que já tinha bastante gente. Mas acho que mesmo assim muitas saíram naturais, porque eu não queria algo tão posado também. Basicamente, disse pra minha amiga ir fotografando sem pensar se eu estava "bonita".

Aliás, dificilmente eu me acho "bonita" por mais de cinco minutos. Tem que ser algo muito especial pra eu aceitar, aliás, ser fotografada. Mas, a partir do ano passado, eu tenho aprendido a lidar melhor com isso. Eu sei que aceitar quem a gente é por fora é difícil pra todo mundo. Vai ter sempre algo que desgostamos. 

O amor-próprio é, também, aceitar a nossa imagem - mas, acima de tudo, aprender que pensar no nosso bem-estar não é egoísmo ou desamor aos outros. Amar a nós mesmos mais que aos outros é aprender sobre cultivar paciência e sobre lembrar que nosso tempo de cura - e de aceitação - é apenas nosso. 

Cada vez que chego mais perto de quem sou por dentro a partir de quem sou por fora sei que estou oferecendo amor-próprio a mim. E, assim, ofereço também aos outros - porque o amor é sempre algo transformador para melhor. 

O amor segue em frente a partir daqui. O amor continua sendo amor mesmo depois de muito tempo. A gente só tem que lembrar que ele está em todos os lugares. Especialmente dentro de nós.



Eu sei que, até hoje, nunca fiz uma resenha de All the bright places (Por lugares incríveis), da Jennifer Niven. E, provavelmente, nunca farei. Porque ele tem muito a ver com o amor. É uma daquelas situações em que dizem que a gente sente tanto amor que mal sabe colocar em palavras. E, na verdade, as palavras são insignificantes perto do quanto esse livro foi o responsável pela minha mudança de vida. 

Foi por causa dele que busquei ajuda no meio de uma depressão. Foi ele que me ofereceu esperança e me fez sentir acolhida quando não via propósito em ser amada. 

Hoje, eu me sinto cada vez mais incrível e amada. Posso não estar perto de estar chegando a algum lugar, mas o importante é que eu me mantenho tentando e continuando, com uma enorme paz e gratidão no coração. 

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Fotografia: Aline Possaura

Você pode saber mais sobre 
All the bright places (Por lugares incríveis, Jennifer Niven) AQUI e AQUI 


Love, Nina :)

20 de março de 2017

Desconstruindo Una: silêncios femininos marcados pela violência

Mais um título que está na minha meta para o Leia Mulheres 2017. Já fazia algum tempo que queria ter tido a oportunidade de lê-lo e, leitura agora feita, só posso dizer o que está escrito na quarta-capa: esta é uma das graphic novels mais importantes do (seu) ano.


Título original: Becoming unbecoming
Autora: Una
Editora: Nemo
Páginas: 207
Ano: 2015
★★★★★

Estou cada vez mais feliz por estar encontrando ótimos materiais em HQ's e grapfic novels. O tema de Desconstruindo Una não tange apenas uma parcela da população. A violência contra mulheres, hoje se sabe, não é apenas a física. Aliás, as violências não são testemunhadas dessa forma simplesmente porque deixam marcas visíveis. Muitas vezes, as marcas invisíveis são as que mais doem e que mais traumatizam os violentados. 

Nesta graphic novel há duas narrativas entrelaçadas: a) a da comunidade e b) a da protagonista Una. As ilustrações mostram não somente o objetivo da história, mas oferecem subsídios que nos permitem "construir" Una. Então, há memórias de infância: o casamento de seus pais, seus gostos musicais, suas preferências artísticas. Enquanto a personagem está crescendo tem de lidar com notícias e noticiários da comunidade: relatam assassinatos a diferentes mulheres. Aos poucos, isso muda a rotina do local e o medo é a atmosfera constante. 

É na puberdade que a realidade de Una muda completamente. Ela não tem o total entendimento do que lhe fizeram, mas suas habilidades sociais decaem, ataques de pânico começam a surgir e ela é levada à terapia. A baixa comunicação com todos à sua volta é algo que sua família não entende, e Una prefere que isso se mantenha assim. 

A narrativa cresce e se desenvolve de muitas formas, abordando os diversos vieses da violência contra a mulher e, também, do machismo. Há partes inteiras que relatam construções sociais (à exemplo de como garotas/mulheres deveriam se comportar) e que se utilizam de elementos presentes para falar sobre saúde mental, pós-traumas, silenciamento de vítimas e feminismo. A personagem é imensamente mais profunda do que, simplesmente, a garota que foi estuprada e não consegue dizer a ninguém. A todo momento, o leitor se depara com as várias essências dela, com as várias consequências sobre seu futuro e com as suas várias técnicas para sobreviver com um segredo tão cruel e pesado. 


Desconstruindo Una é um relato tanto adorável quanto angustiante. É adorável conhecer a personagem, mas sua essência violentada causa muita angústia. Achei, entretanto, que o ponto do silêncio é muito realista e condizente, uma vez que a maioria das vítimas prefere (ou não pode) denunciar seus agressores. Ao utilizar o fechamento de mundo e a fobia para com os outros, a autora conseguiu trabalhar, também, a comunidade. Apavorada com a série de mortes, o local também vai cada vez mais se silenciando e demonstrando a ansiedade de alguém que lida com traumas invisíveis.

A leitura da grapfic novel se faz importante não somente por abordar um assunto tão em pauta hoje em dia, mas também por oferecer informações e dados sobre este assunto. Não se limita a contar uma história "fechada", pelo contrário: tenta, em muitas vertentes, trazer aspectos além da visibilidade da violência contra as mulheres. E, para isso, fomenta debates, questionamentos e reflexões sobre uma sociedade que faz o movimento oposto ao de educar e punir os agressores (ou seja, culpa e, ao mesmo tempo, silencia as vítimas). 

A história dos assassinatos não é ficção, aliás. A autora faz referências a livros, jornais, artigos e estatísticas. No final do livro, é possível consultar a todas essas referências e links dos mais variados para e de mulheres em situações de violência.


Apesar de há pouco iniciada nesse gênero narrativo e de já ter lido ótimas HQ's e grafic novels, com certeza Desconstruindo Una é a minha preferida por ser atual, oferecer uma temática tão delicada e ser potente. 

Eu sempre acreditei que a arte e a cultura - sejam elas das naturezas que forem - têm a capacidade de nos dizer as verdades mais cruéis, românticas ou esperançosas com o intuito de tentar mudar nossas realidades. E Desconstruindo Una consegue nos emocionar com a frieza dos acontecimentos ali ilustrados e, também, de nos engajar a assuntos que precisam ser vistos, ouvidos e debatidos. 

A questão da história não é se você é feminista ou feminista o suficiente para concordar que violências de gênero devem acabar - é a de dizer que a situação existem independentemente de você ser contra ou a favor do feminismo. A narrativa não é, de forma alguma, voltada apenas para feministas. O objetivo dela é alcançar a todos, é ir para além da comunidade local e de realidades individuais.

Você nunca foi estuprada. Você nunca foi assediada. Você nunca foi ameaçada. Você nunca foi rebaixada. Você nunca. E nunca será. Mas, ainda assim, essa história é para você. É para todas as mulheres que precisam lembrar que poderiam ser estupradas, assediadas, ameaçadas, rebaixadas (etc) por terem nascido mulheres. 

. . .

No Brasil (informações também encontradas ao final do livro):

1. Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres: Central de atendimento à mulher
2. Secretaria de Direitos Humanos: Disque 100
3. Childhood (sobre violência sexual contra crianças e adolescentes)









Una é artista, acadêmica e quadrinista. Suas narrativas gráficas, feitas de forma independente, já exploraram a deficiência, a psicose, o ativismo político e a violência contra mulheres e meninas.




Love, Nina :)

13 de março de 2017

Quando te conheci: não é permitido sentir

Li poucas resenhas desse filme antes de ele estar disponível na Netflix. Todas muito positivas. Foi muito por acaso que descobri que já está no catálogo da plataforma e fiquei bastante feliz. A história é essencial por muitos motivos e seu enfoque se assemelha ao filme O doador de memórias - que é tocante e lindíssimo, então, também o recomendo.


Título original: Equals
Diretor: Drake Doremus
Duração: 1h e 41 minutos
Ano: 2016
Gênero: sci-fi / drama
★★★★ 

Apesar de o título em português ser bastante poético (e triste, apesar de assertivo), prefiro o original, que é Equals. É mais objetivo e cru. Tanto é que mal reparei que era o mesmo filme no catálogo por causa disso - só tive a confirmação porque sabia que os protagonistas eram a Kristen Stuart e o Nicholas Holt. Além disso, a palavra resume a atmosfera do filme. 

Quando te conheci não fala apenas de amor romântico, mas de todo e qualquer sentimento. A essência do filme é justamente a do não-sentir. As pessoas dessa sociedade em questão não transparecem sentir emoções - dor, compaixão, medo. Elas nem mesmo reconhecem os sentidos humanos, como a sensação da água do chuveiro na pele. É chocante, inclusive, lembrar que, se nenhuma emoção pode ser sentida, então, a maternidade é algo solitário - não existe sexo entre duas pessoas e qualquer atividade sexual é, também, combatida. Algo notável é que homens e mulheres têm cabelos curtos, talvez justamente para inibir o desejo sexual (?). Tudo é automático - as relações, em especial, pois a sociedade preza o profissionalismo. E é muito fácil entender isso ao analisar as inúmeras cenas em que os protagonistas exibem suas habilidades na empresa em que trabalham. 

Se o "natural" é o não-sentir, quem é classificado o oposto precisa passar por uma consulta e, dependendo do nível de SOS (switched-on-syndrome), o tratamento é diferenciado. O mais impressionante da narrativa é o quanto ela se aproxima de temáticas que debatem a saúde mental, já que o sentir em excesso ou atipicamente - como ansiedade, depressão, bipolaridade e outros transtornos - seguem o mesmo caminho oferecido (e não oferecido) do filme. 

Silas é ilustrador e está encaixado naquele local, a princípio. Nia é roteirista e imita seus colegas. A storyline, aqui, não é muito surpreendente - as consequências, o conflito central e o entrelace das vidas de Silas e Nia podem ser inferidos a certa altura do filme. No entanto, foi impossível não me tensionar e me apegar. Ainda que exista muita inexpressividade e frieza, a narrativa oferece o oposto disso tudo na medida certa. O romance é gradual e muito condizente com a sociedade - existe medo e recusa, mas também existe sutileza e encanto. 

– Mas há valor em viver. Ser um “esconderijo” te lembra disso (...) É difícil ver coisas e não se comover. Então você faz pequenas coisas para ajudar. Apenas olhar alguém nos olhos pode fazê-los sentir que não estão sozinhos. Dá esperança a eles. (...) Prefiro ficar com pessoas que sentem. Que sentem intensamente. Me lembra quem eu sou e por que escolhi continuar a viver. Todos dizem que não é contagioso. Todos os anos, por pior que seja, todo dia sinto uma forte afinidade com outras pessoas. 

Silas e Nia precisam não somente se unir, mas se proteger mutuamente para que o Coletivo não os descubra e as consequências sejam desastrosas. No casal, vemos mais uma vez a narrativa se aproximar da questão da saúde mental. Por causa do desvio emocional de ambos, não existe apenas amor, mas dificuldades e barreiras. A associação à transtornos mentais é incrivelmente fácil. Ali, as pessoas fora do padrão são estigmatizadas, excluídas e forçadas a se readequarem. Alguns, como Silas, podem apenas tomar pílulas que vão equilibrar seu emocional - mas outros podem sofrer tratamentos desumanos, como eletrochoques (Esther e sua depressão em A redoma de vidro). É dito, aliás, que muitos acabam se suicidando e que o suicídio é algo incentivado dentro das equipes de saúde. 

A beleza de Quanto te conheci é amena, subjetiva e contida - mas que, no momento certo, se alastra e se torna tudo aquilo que a sociedade fictícia combate. A fotografia é quase monocromática, apagada e triste. São raras as cenas em que a cor explode na tela. É interessante perceber como isso muda de acordo com os sentimentos das personagens, inclusive. E há muitos closes, que podem incomodar alguns - eu, particularmente, gostei muito, pois oferece o caráter intimista. Ah, muito se fala que a Kristen é apática como atriz e, sim, você verá exatamente isso - e, honestamente, ela é incrível nisso. Tanto ela como o Nicholas exercem os papéis de seus personagens de forma adorável e convincente - interpretando cenas solos ou em conjunto, ambos estão perfeitos. Não poderia amar menos a história e seus desdobramentos - alguns, inclusive, me deixaram muito angustiada. O desfecho, quando acontece, pode te deixar frustrada e inconformada. Assim que a narrativa terminou, tive vontade de rever tudo, porque a atmosfera e a mensagem do filme casaram bastante com a minha essência subjetiva e neuro-atípica. Impossível recomendar menos

– Sentimentos produzem sentimentos. SOS nem é uma doença. É o que eles dizem, mas eles nos adormecem entre a concepção e o nascimento. SOS é quem realmente somos e os inibidores são mais uma tentativa de esmagar isso.
– Eu não sei. Pelo menos com os inibidores eu consigo relevar. Mas agora, eu preferiria não sentir nada. (Sentir) nada é melhor do que isso. 






Love, Nina :)

3 de março de 2017

Milk and Honey: as quatro etapas para o amor-próprio

Escolhi este livro propositalmente para o Leia Mulheres (2017), porque já o queria na minha estante há meses.


Título: Milk and honey
Autora: Rupi Kaur
Editora: Andrews McMeel Publishing
Páginas: 204
Ano: 2015
★★★★★

Os poemas da Rupi Kaur são viscerais. Embora a massiva maioria deles seja curtíssima, a intensidade é sublime - quase como uma desconstrução da alma: de dentro para fora. É impossível acabar de ler alguns versos e não parar por um instante um instante e perceber que está acontecendo uma implosão na gente. 

A leitura é facílima, em um pouco mais de uma hora eu concluí a minha. Apesar de eu ter escolhido comprar a versão original (em inglês) (e, apesar de eu não ser fluente no idioma), o entendimento dos versos é muito natural e direto. Raramente encontrei palavras cujos significados não sabia e, mesmo assim, o entendimento aconteceu. Isso porque todos os poemas de Milk and Honey têm sentidos muito óbvios e são muito simplistas - mas sem deixar de causa no leitor uma catástrofe sentimental, ora de angústia, ora de orgulho, ora de devastação, ora de fascínio.

O livro é dividido em quatro partes: (1) a dor, (2) o amor, (3) a quebra e (4) a cura. Em cada um dos capítulos, a autora nos apresenta momentos que se interliguem com o tema. Em (1) a dor, existe muitas memórias de infância, abuso (relacionados ao estupro) e relações tóxicas. É muito bonita a forma como os poemas, nesta primeira parte, trazem a maternidade; Rupi traz, em todas essas vezes, sua mãe como a figura materna - a partir dela, continua falando de abuso (atrelado ao pai). 

Em (2) o amor, o enfoque é nos relacionamentos que a autora teve. Além do erotismo, há elementos muito simples, como a sinestesia, a prosopopeia e o eufemismo. (3) a quebra é meio que uma continuação de (2) o amor, pois o que lemos é a consequência do que existiu anteriormente, mas trazendo tristeza, angústia e frustração. Nesta terceira parte, somos encaminhados para a ruptura dos amores construídos a partir de momentos muito únicos e, ao mesmo tempo, muito universais. Fala-se muito de abandono, de se estar perdida, de melancolia e de desamar a si mesma. 

(4) a cura é a minha parte preferida, há muito mais marcações minhas de poemas neste do que nos outros capítulos. Se até (3), os sentimentos eram de construção (primeiramente de algo bom e, depois, de muitas toxidades), em (4), os sentimentos são de coragem, de gratitude, de amor-próprio e de retomada de si mesma. Em (4) temos, realmente, a cura - conseguimos sentir toda a energia voltando a habitar as palavras e os sentidos. A reconstrução é palpável, de dentro para fora. É quase uma evolução que desemboca em sentimentos incríveis e brilhantes.



Eu sou suspeita para falar sobre o que mais amei neste livro. O que mais me marcou, com certeza, foi o aprendizado a se re-construir depois de muita dor e muito desamor. Como eu mesma passei por isso em 2016, parecia que eu estava me sentindo através das páginas - toda a cura que li, todos os poemas que grifei, todos os baques que senti eram eu. Ter conseguido me identificar em cada palavra foi uma das coisas mais especiais. 

Além disso, apesar de muita coisa ser sobre o amor romântico, você não precisa lê-lo com o propósito de encontrar alento para isso - há muitos outros tipos de amor nas entrelinhas. O amor-próprio é o mais evidente no final, depois do romântico. E o sentido de cura não precisa ser, necessariamente, de cunho inter-relacional, já que a cura pode servir apenas para nós mesmos, como uma espécie de "fazer as pazes" com nossa própria alma. 

Milk and Honey é de uma literatura intrinsecamente simplista, incrível e emocional. As ilustrações que acompanham muitos dos poemas casam perfeitamente com os sentidos e os elementos poéticos. Elas não têm a intenção de serem realistas, são semelhantes a rabiscos/rascunhos e, ainda assim, são lindíssimas. A simplicidade também está nelas, o que faz da obra um casamento entre palavras, sentidos e imagens. 

O miolo, assim como a grafia do título, é em caixa baixa. Eu sou uma leitora e escritora que sempre preza pela grafia e pela gramática, porque acho isso importante na literatura. Mas, neste livro, eu esqueci isso. Não que eu ache que, por ser poesia, precisa quebrar completamente com o padrão usual, mas acredito que a falta de pontuação e os versos corridos (sem o aparecimento de maiúsculas) deram outro tom ao livro. Fez dele algo bastante próximo, mais intimista e marcante. 

Por ser uma edição americana, há a ausência de orelhas, mas não me incomodou. Assim como a capa negra, a dedicatória e os anunciamentos dos capítulos também têm fundo negro. Parece algo monocromático e "chato", mas, na verdade, ao olhar é muito impactante, pois o contraste das páginas amareladas dos poemas são quase que o oposto das "marcações" em páginas negras. 

E o que falar da capa? Uma das minhas preferidas. Aliás, eu decidi não comprar a versão nacional (já lançada pela Planeta de Livros), porque achei o design completamente sem correlação com a original (apesar de se correlacionar com as ilustrações internas). Ah, acabei não gostando do título brasileiro, também. 

Não poderia amar mais Milk and Honey. Foi interessante, aliás, notar que toda a expectativa que estava nutrindo ao longo de todos esses meses de espera foi atingida e mais: superada de forma graciosa. Gratidão é a palavra que uso por ter tido a sorte de ler este livro e por tê-lo na estante. Não pense que vou conseguir me desgarrar dele tão cedo (haha).










Rupi Kaur nasceu na Índia, mas aos quatro anos se mudou para o Canadá. Ela se iniciou na poesia a partir do Instagram e do Tumblr. Sua visibilidade cresceu quando, em 2015,  fez um ensaio chamado "Period" no Instagram e teve as fotos apagadas. É adepta do feminismo (sua literatura já deixa isso bastante óbvio). 


Love, Nina :)

25 de fevereiro de 2017

Luz de inverno: a magia desapareceu

Recebi Luz de Inverno, da Keila Gon, a partir de mais um book tour promovido pela autora. Este é o último volume da trilogia, e os outros já foram resenhados AQUI (Cores de Outono #1) e AQUI (Sombras da Primavera #2).


Título: Luz de Inverno - Linhagem mágica
Autora: Keila Gon
Editora: Mundo Uno
Páginas: 477
Ano: 2016
★★★

Se vocês forem conferir a resenha do segundo livro, verão que ela foi publicada em novembro de 2015. Começo a resenha pontuando isso, pois esse gap entre a leitura do segundo e do terceiro livros influenciou bastante a minha opinião de Luz de Inverno. Tive que reler a resenha anterior para entender o que tinha me chamado atenção antes e o que, agora, eu não conseguia encontrar neste último volume. 

Em Luz de Inverno, a protagonista Melissa regressou à primeira etapa. Sua liberdade, força e independência conquistadas basicamente sumiram. Como é Melissa, em primeira pessoa, que narra majoritariamente a história, isso me desanimou e irritou. A dependência emocional em relação ao seu par, Vincent, refloresceu, também. Há uma atmosfera quase que opressora de Vincent para com Melissa: ele não confia nos poderes recém-adquiridos de sua noiva e a subestima incontáveis vezes, com a desculpa de que é preocupado com sua segurança. O discurso "protetor", que esconde toneladas de machismo, é gradativamente irritante e revoltante. Esse aspecto disseminado nas entrelinhas em vários momentos me distraiu e me desmotivou. Fiquei imensamente triste por não encontrar mais a personagem forte que tinha aprendido a admirar no segundo livro. Ver seu regresso, além de me irritar, me preocupou.
– Você fala em controle, mas não entendeu que não estamos controlando nada... há muito tempo.
p. 302 
É comum, na literatura atual, ainda encontrar premissas de protagonistas femininas falsamente independentes - e Melissa, infelizmente, tem essa premissa. Ainda que seu desenvolvimento tenha culminado incríveis transformações, acredito que elas se perderam ou foram deixadas de lado em prol de uma storyline enjoativamente romântica e opressora. Não foi raro encontrar passagens literalmente machistas e com um toque de abuso emocional (e, às vezes, físico - como nos casos em que Vincent a segurava quando ela claramente estava dizendo não de forma não-verbal). 

Nessa última parte da trilogia, Melissa está com o casamento marcado com Vincent (no mundo mágico também chamado de Pacto de Futuro). A princípio, é difícil convencer seu avô sobre o assunto, pois ele ainda não quer aceitar a magia familiar. É claro que há segredos a serem ditos, aceitos e desenvolvidos. Melissa, agora, tem consciência de sua linhagem mágica e isso lhe trará problemas, tanto em sua relação com Vincent quanto no mundo mágico. 

A narrativa quase que inteira é morna e arrastada, o que me desanimou conforme a leitura avançava. Sabe um livro que você torce para acabar logo, porque está entediada? Infelizmente, aconteceu com Luz de Inverno. Não que não haja alguns (raros) momentos de conflito bombástico, mas a maioria deles é muito relacional, que não vem de fora, dos perigos do mundo mágico. Aliás, há grande agonia em esperar os conflitos grandes apareçam - me senti no meio de uma Guerra Fria, à espera de algo que não acontecia nunca. O que poderia ter sido uma ótima tensão, me fez sentir apenas irritação e tédio. Mesmo os segredos e as traições são reveladas se forma minguada e com pouca emoção.

Os pontos positivos estão na forma como a autora conduziu de forma lenta (mas muito humana e certeira) a transformação da família de Melissa. É bem aos poucos que vô George aceita as mudanças, mas que produzem efeitos incríveis. É muito sutil e lindo perceber a união das famílias Wels e Von Berg. Da mesma forma, eu adorei o caminho que a autora ofereceu para Alice, irmã de Melissa. Achei adorável que tenha havido o distanciamento entre ela e Heros (Armand, que estava amaldiçoado em forma de cachorro) e, depois, as redescobertas da amizade de ambos. 

O livro traz o fechamento de uma história que tinha muita força, mas que, agora, está focada em aspectos muito mais afetivos do que mágicos. Como último livro de uma trilogia de fantasia me decepcionou bastante, pois não tem o mesmo fôlego dos volumes precedentes. Em compensação, há muita humanidade nas interações das personagens - o que as leva construir ótimos plots, assim como péssimas consequências e percepções.
– Algumas coisas precisam acontecer na hora em que têm que acontecer. É como o amor... que pode ser uma prisão, mas também tem o poder para libertar.
p. 472 
Em relação à escrita, a Keila ainda consegue ser sensacional. Seu português impecável e sua linguagem madura continuam encantadoras. Com tantos novos autores que não prezam pela revisão, a autora consegue se destacar primorosamente nisso - o que faz de sua literatura ser muito profissional.

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Juntamente com o volume #3, veio o breve conto spin-off Noite de Verão. Nele, a história é narrada por Alice, que não é mais criança. Agora, ela já está no final da adolescência e, a partir de sua visão, a retomada de sua relação com Heros/Armnand é desenvolvida. Eu fiquei bastante feliz por esse plot à parte, porque conferiu outro dinamismo à trama. Confesso que, em certo ponto, eu já estava saturada de Melissa e, diversas vezes, cheguei a pensar que, se Alice fosse a protagonista, a trilogia teria outro fôlego, muito mais próximo da magia, da coragem e da independência.



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*Bônus: entrevista com a autora

1) Você teve alguma dificuldade ao criar o mundo fantástico da trilogia, ou acha que a criação aconteceu de forma muito mais livre? conte-nos como foi esse processo de criação das personagens, lugares e poderes mágicos!                                            
Dificuldades, não... de certa forma, foi natural unir pesquisa e experiências, lembranças de lugares, viagens e pessoas, reais e fictícias, adicionando a tudo muita imaginação. Parece que esse “outro Mundo” sempre existiu, por assim dizer. Usei muitos lugares reais, como nas passagens fora do Brasil (e procurei ser a mais real possível, cada caminho e cada lugar, realmente existe!), mas acrescentei uma pitada inventiva, como a cidade onde se passa a história, “Campo Alto”. Ela é fictícia, mas foi inspirada totalmente nas cidades da Mantiqueira (a principal, Campos de Jordão, que eu amo de paixão... lugar realmente mágico!!). Talvez por isso, e pela pesquisa, mítica e mágica, o assunto se tornou mais que comum para mim. E olha que gosto de ler sobre o magia desde criança... e não estou falando apenas de causos do meu avô, contos de fadas e jornadas pelo mundo mítico, mas também, da história mágica que encontramos na literatura convencional. Os magos de verdade. Bom, de toda forma, foi muita pesquisa... muita mesmo. Meses, para ser sincera. Até formar um esboço do que eu queria nessa história, onde seria o limite de realidade e fantasia, e quanto das duas partes o leitor poderia aceitar. Minha ideia foi criar um lugar fantástico, mas crível... sei, louco isso. Mas fazer o leitor acreditar que é possível é muito importante. Tanto os poderes mágicos, daqueles que desejamos ter (e que a pesquisa ajudou a explicar), como os seres mágicos, que tem várias denominações pelo mundo e estão presentes em todas as culturas. Minha missão era fazer o leitor duvidar que o que vemos é o fim, imaginar essa Dimensão Mágica logo ali, ao seu lado, em qualquer lugar. Porque ela está, a um passo... na sua imaginação :)

2) Você tem algum momento ou cena que ainda te emociona? aliás, você se emocionou algumas vezes durante a escrita ou quando colocou o último ponto final definitivo?
Acho que dois pontos da Trilogia me marcaram muito... [SPOILERS!] Um deles foi em Sombras da Primavera, quando Vincent é terrivelmente ferido... Descrever a dor deles foi exaustivo emocionalmente e me fez mal fisicamente. O segundo ponto que me emocionou foi a perda de George. Mexeu com as referências emocionais que levei do meu pai para o personagem. Eu sabia que aquilo tinha que acontecer na história, mas adiei o máximo possível. Quando aconteceu, precisei de um tempinho pra me recuperar... tanto que a editora queria me matar, porque eu alterava o texto final o tempo todo. Agora, falando em ponto final.... bem, o livro mais comemorado foi Cores de Outono. Talvez por não ter prazos. Quando acabei a última cena, fechando a história, saí dançando pela casa, literalmente!

3) Ao escrever a trilogia, você aprendeu o que com seus personagens? O que vai levar para sempre em sua vida a partir da criação deles?
Esperança, perseverança, coragem... Com certeza, sou muito diferente depois de ter vivido por quatro anos com eles. Aprendi muitas coisas, MESMO, mas a principal é a compreensão. Nada, nem ninguém, é perfeito. Não como queremos que seja. Acredito que a imperfeição é divina e, quando compreendida, se torna a mais maravilhosa das descobertas humanas.

*Lembrando que o bônus acontece em resenhas de autores parceiros

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Tenho muito o que agradecer à autora e à sua administradora Ana Paula por me proporcionarem a leitura dessa trilogia a partir do book tour durante esses anos. Que haja muitos outros livros pela frente, Keila! É muito bom ver autoras nacionais na fantasia e sendo recebidas pelo público com amor e respeito ❤

Love, Nina :)

9 de fevereiro de 2017

La La Land: aos tolos que sonham

Apesar de basicamente todo mundo estar falando em La La Land: Cantando estações há algum tempo, fui me interessar por ele tardiamente. Somente depois que comecei a ouvir a trilha sonora é que comecei a criar alguma expectativa. Até então li e vi muitas críticas (99% delas positivas e super animadas). Então, no fim de semana abdiquei de continuar a minha maratona de Supergirl para ir ao cinema. 


Título original: La La Land
Diretor: Damien Chazelle
Duração: 2 horas e 8 minutos
Gênero: drama / romance / musical
Ano: 2016
★★★★ +

Não são poucas narrativas que acreditam no sonho. E, talvez, por ser fã do seriado Glee - que também aposta no sonho -, a temática não é nova ou mesmo genial para mim. Por eu ser uma criatura naturalmente sonhadora, não encontro dificuldades em ver sonhos em todos os lugares e acreditar neles. 

Já tive vários sonhos durante a vida e, até hoje, sustento um: o de ser escritora-publicada-de-verdade. O que escrevo, por enquanto, ainda não tem muita visibilidade (apesar de meu conto Sutilmente estar num patamar bem-quisto na Amazon) e quero muito - trabalho muito - para que eu não seja somente "a menina dos contos da Amazon ou das antologias". Mesmo depois de seis anos nessa jornada, eu quero que as pessoas acreditem no que eu acredito. Eu quero que elas também sonhem. 

Essa é a maior premissa de La La Land. Bastou isso, só isso mesmo, para que eu percebesse que o filme poderia dialogar comigo. Eu sei que pode parecer que está sendo vendido como um romance - e, sim, existe esse plot, mas o filme não é sobre o amor romântico. E isso me deixou muito, muito feliz. Apesar de carregar um toque de contos de fada (às vezes meio Disney) e fazer com que os espectadores torçam para os protagonistas ficarem juntos, é o sonho que tem o argumento de Destino. 

Os protagonistas são Mia e Sebastian. Ela, uma aspirante a atriz; ele, um defensor ferrenho do jazz e um pianista meio sem rumo. As vidas deles se cruzam (e se trombam) algumas vezes até que o romance se inicia. É previsível como as duas narrativas (a da busca dos sonhos e a do romance) se entrelaçam, mas conquistam por soarem quase naturais. É também quase natural a forma como o que eles construíram juntos em apoio mútuo (algo muito bonito na trama - e meio idealizado) começa a desmoronar lentamente. 

É engraçado pensar que, depois de recapitular a trama romântica, ela pareça tremendamente óbvia e fácil se ter sido melhor construída. Eu entendo que nós, que criamos narrativas (seja na literatura, na tela, ou em qualquer outra plataforma), optamos pelos caminhos que melhor se adequem ao nosso objetivo - mas, às vezes, percebo que algumas storylines poderiam ter se atentado em fazer perguntas a si mesmas, de modo a provocar outros caminhos. 

O conflito do filme, por exemplo, é algo muito óbvio e previsível, que poderia ter sido evitado com um único diálogo dos protagonistas. Ainda assim não desmerece a mensagem geral, pelo contrário, enaltece a trama sonhadora. Por eu ser a pessoa que sempre priorizou o trabalho e pouco incluiu o amor romântico como meta (sonho, desejo, o que quer que queira chamar), La La Land me fez identificar com Mia e com sua decisão após o conflito. Ela não estava priorizando o sucesso absoluto ou o dinheiro, apenas o sonho. Mia é uma personagem que, apesar de ter a alma romântica e divertida, se assemelha muito comigo: ela precisa de liberdade. E Sebastian, apesar de um protagonista masculino agradável e cativante, infelizmente, tomou decisões que não condiziam com o que acreditava (não dá pra dizer que ele é contraditório, pois tinha um objetivo real e compreensível - mas o fato de ter agido sozinho, sem ao menos ter tido uma conversa com a Mia, fez dele alguém precipitado). 

O final não foge da previsibilidade, uma vez que o conflito já oferece uma (grande) pista sobre como a história se encerrar. Mas você vai torcer para Mia e Sebastian. E vai chorar (se você não chorou naquele final, sinto muito, mas acho que você não tem um troço essencial chamado coração). E vai querer rever, porque o sentimento quentinho fica na gente depois de irmos embora do cinema. 

A questão do roteiro não é, de forma alguma, o forte do filme, mas cinematograficamente oferece o que muitos já sabem: cenas sem cortes. Desde a primeira cena, já fica notório que La La Land não preza por cenas apressadas, em que o diretor escolhe o foco do espectador. As cenas estão ali na tela, inteiras. O que é algo muito rico, porque oferece a nós imperfeições visíveis, que dão um charme à trama. 

O lado musical convence desde o princípio, porque a música permeia de forma bastante natural as cenas (que, às vezes, são performadas, porque faz parte de um musical, né). A trilha sonora é uma gracinha, prezando por ritmos sonhadores e animados e não se dedicando em letras românticas. Emma Stone tá uma graça cantando (porque atuando tá incrível). E o Ryan Goslingsensacional no piano (a verdade é que eu tenho um sonho de aprender piano um dia) . A atuação de ambos é ímpar e muito conectada. O romance das personagens é leve e fofo - mas é muito mais um recorte do que uma real história. As cenas de dança são bonitinhas e bobas ao mesmo tempo, mas faz parte dentro desse mundo encantado sonhador.

La La Land renova bastante o nosso coração, por oferecer clichês que são trabalhados de forma coerente dentro do esperado. Tem aquele brilho que, pelos tempos de rotina e de "fazer algo que seja rentável", esteja meio esquecido no nosso cotidiano. Então, sair de casa para assistir algo que resgata aquilo que, um dia, quisemos ser - ou ainda queremos ser em segredo -, é cativante e inspirador. 





Love, Nina :)