23 de abril de 2017

Essential book: abril

O ESSENTIAL BOOK VOLTOU. CAPSLOCK, PORQUE EU TÔ MUITO FELIZ!!! 

Fizemos uma pausa de fim de ano, mas 2017 já chegou com um super tema: a essência da esperança. Pra mim foi muito fácil pensar num livro que me trouxesse a lembrança de um recomeço, porque ano passado existiu esse livro na minha vida e tenho certeza de que daqui 50 anos talvez esse posto tenha mudado, mas sempre me recordarei dele. 

Escolhi Por lugares incríveis (All the bright places, Jennifer Niven). SOU UM DISCO QUEBRADO, SIM. Sinto muito se você já enjoou de ver esse livro por aqui, eu nunca vou enjoar. Ele foi, basicamente, a minha salvação, pois foi o responsável por me fazer repensar minha vida e meus sentimentos negativos. Apesar de Por lugares incríveis tratar de coisas bem pesadas, como a bipolaridade, depressão e suicídio, foi justamente por causa disso tudo que me fez entender que eu precisava fazer o caminho oposto à narrativa. A esperança que carrego por causa do livro não é a de que tudo vai ficar bem eventualmente, mas de que existe alternativa. 

Então, a depressão não é a mesma coisa que tristeza. A tristeza, normalmente, é algo passageiro - e com o qual conseguimos lidar. Na depressão, não existe tristeza, porque é um vazio - ou seja, a gente não consegue sentir nada. Mas a minha Tristeza tá aí, porque, assim como a depressão, ela nos faz sentir mal, insuficientes e desmotivados. 
Era assim que eu me sentia 
tempo
todo. 

 where you are
is not who you are
nayyirah waheed


Recentemente, comecei a ler poesia em inglês de mulheres fora do eixo Brasil-EUA-Europa. Acabei fazendo uma seleção de muitos poemas que têm relação comigo e, dentre todos, escolhi esse para esta foto, porque simbolicamente se relaciona com o estado da depressão, porque ela não é quem eu sou - eu só estava num lugar muito ruim, do qual, por algum tempo, não consegui sair. 

Meu barquinho oscila inseguro sobre as ondas encapeladas e agitadas. 
Não há remédio contra o choque do encontro.

Não consigo, também, pensar em esperança sem lembrar de As Ondas, da Virginia Woolf - que foi outra leitura muito marcante para mim em 2016. Desde que esse trecho se tornou um dos meus preferidos da vida, percebi que ele faz sentido para mim, pois sempre pareço estar num barco cujo único destino é se afundar. E isso também se relaciona muito com a depressão: existiam dias insuportáveis, nos quais eu estava muito preparada para me jogar do barco.

Não dá pra ler, porque a imagem é do meu celular e a dimensão da fotografia é gigante (e não cabe nesse espaço). Mas são, novamente, poemas. Não somente da Nayyirah Waheed, mas de outras poetisas sensacionais: Rupi Kaur, Yrsa Daley-Ward e K. Y. Robinson. Todos eles são, de alguma forma, parte de mim e fizeram parte do meu processo de cura. 

Esse trecho é um dos meus preferidos, simplesmente porque é real e vai direto ao ponto. Fico feliz por ver que a sociedade debater mais a saúde mental, mas óbvio que ainda existem os estereótipos. Aquelas pessoas que acreditam que uma perna quebrada é mais importante do que as consequências de um ataque de pânico, por exemplo. Isso só contribui para que quem está em situações psicológicas extremas pense que a sua dor é exagero ou insignificante aos outros. 

Trecho do livro Mosquitolândia, David Arnold

Ler o livro foi apenas o início do processo, óbvio. Não foi de uma semana para outra que comecei a me sentir melhor. Na verdade, demorou três meses para que a minha bagagem emocional encontrasse felicidade e paz. Mas, num dado momento, a sensação de estar viva voltou a ser boa.

Um dos meus poemas preferidos, porque reflete muito esse período da minha vida. Sempre que as coisas voltam a se tornar ruins, lembro dele, porque me dá esperança para ter paciência e lidar com meus momentos negativos.

Uma das minhas frases preferidas de Por lugares incríveis, porque ela me lembra que não importa o que estou sentindo, existe um lugar (físico ou não) que é só pra mim - e que, lá, vou me sentir feliz de novo.

Ainda amo esse livro, porque ele me lembra, também, que está tudo bem não estar bem o tempo todo. A gente se esforça tanto pra fingir que é feliz, sem se dar conta que os momentos negativos também precisam existir, porque eles também nos faz mudar - para muito melhor.

Ler Por lugares incríveis é perceber que ninguém está sozinho e que todos somos importantes. É difícil lembrar disso na depressão, mas ainda bem que existem pessoas incríveis por aí que nos lembram de que a vida e a gratidão são sensacionais. 

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I. O tema de novembro foi 
a essência da criança preferida
e você pode conferi-lo AQUI.

II. Não deixe de conferir os fotografias das outras participantes: 

7 de abril de 2017

Roverandom: a magia da infância nos corações de todos

Eu a-m-o fantasia. Me tornei leitora por causa de Harry Potter, aos 11 anos. Na mesma época, os filmes baseados em O senhor dos anéis, de J. R. R. Tolkien, ganhavam o amor do público nas telas de cinema. A trilogia voltou a ser bastante lida e adorada. 

Mas a fantasia de Rowling e de Tolkien são completamente diferentes. Embora ambas as histórias sejam classificadas como alta fantasia (e tendo o Tolkien como "pai" do subgênero), foi a história do bruxo órfão que dialogou com quem eu era aos 11 anos - e que dialoga comigo até hoje, 14 anos depois. 

Em Roverandom, entretanto, há algo de peculiar: não existe uma elaboração complicada de enredo, personagens heroicos e subtramas. Neste livro, o que existe é um resgate do sonho de criança, de uma magia que, enquanto envelhecemos, deixamos de lado. Vamos esquecendo que sonhar é incrível, porque o mundo real assoma e delimita quem quisemos um dia ser. Mas, em Roverandom, tudo de que lembramos é que a magia do sonho é inerente aos humanos. 

Tolkien resgatou essa magia a partir de um cãozinho, mas poderia ter sido a partir de uma fada, ou uma pétala de flor. Não importa muito sobre o protagonismo dado, porque, na verdade, ele pertence ao leitor.

Título original: Roverandom
Autor: J. R. R. Tolkien
Editora: Martins Fontes
Ano: 2002
Páginas: 127
★★★★★ +


Roverandom é parte baseado na vida real do autor J. R. R. Tolkien. O filho do meio de Tolkien, Michael, era "apaixonado por cãezinhos" (p.7) e foi um episódio, numa casa de praia, que a ideia para o livro nasceu. Quando criança, Michael tinha um cãozinho de brinquedo, branco e preto, exatamente como o da história, e o acabou perdendo em um dos passeios pela praia da encosta. 

Na primeira parte, chamada de "Apresentação", há toda essa contextualização - são estudos a partir dos rascunhos e versões do autor, que deixaram vários indícios sobre o caráter autobiográfico do livro. A segunda é a narrativa em terceira pessoa de Rover. E a última parte é um completamento da primeira, pois é um glossário de trechos da história que os explica, ora fazendo menção a outras obras do autor (e outros autores), ora à sua vida e ora a radicais de outras idiomas.

A história é bastante curta, quase como um conto dividido em cinco partes. Há vantagens nisso: a leitura é rápida e sem truncamentos temporais ou de enredo. Entretanto, quando terminamos, dá uma enorme saudade - ficamos com aquela sensação de que poderia ter tido muito mais páginas, pois queremos continuar acompanhando as aventuras do cãozinho. Não que a história termine sem um fechamento digno: ela é muito bem amarrada e o leitor sabe que a jornada do personagem acabou na última página. 

A história é tão encantadora, por reavivar sentimentos adormecidos em nós, que dialoga com todos os públicos. Diversas vezes, eu me imaginei lendo-a a alguma criança, mas sabendo que o efeito dela já estava em mim. Não é somente o fato de Rover ser um cãozinho que conquista o leitor, mas o conjunto de personagens ser tão pitoresco - mas ainda sutil e convincente - e os cenários tão fantásticos. A imaginação, enquanto a leitura avança, é a chave para que entremos nesse universo completamente alheio ao mundo real. 

(Roverandom eu o chamo, e Roverandom você terá de ser. Não posso ter dois Rovers aqui.)
p. 31

Rover é esperto e curioso, tem aquele típico espírito de filhote animado, ainda que suas situações iniciais sejam o oposto de alegria. Quando é transformado em brinquedo por um mago mal-humorado, sua vida vira de cabeça para baixo. Sua liberdade some e seus dias ensolarados se tornam tristes. Sua jornada de volta para casa começa quando é deixado para ser vendido em uma loja. Aqui, fantasia e realidade se misturam de forma acalentadora: o cãozinho é comprado e dado ao "menino Dois", mas a história da vida real se repete quando Rover cai do bolso da calça do menino e é deixado para trás. 

A partir daí, ele precisa pedir ajuda a outros seres para que volte a ser um cachorro real. Para ajudá-lo, entra em cena o feiticeiro-da-areia e o Homem-da-Lua. Destaco os dois, pois são os personagens de maior personalidade bondosa dentro da trama - eles acolhem Rover e dão a ele um destino, embora que bastante aos tropeços. E é por causa disso que a narrativa funciona tão bem. Ao invés de o leitor se ver entediado e irritado pela jornada do cãozinho se estender de formas pitorescas, apenas há uma ansiedade boa aguardando o próximo reino ou personagem encantador aparecer. 

Rover não fazia a menor ideia de para onde conduzia o caminho da lua; e naquele momento estava assustado demais e empolgado demais para perguntar. E, de qualquer maneira, estava começando a se acostumar a que lhe acontecessem coisas extraordinárias.
p. 21

Como dito, a trama é muito bem amarrada e, com isso, me refiro também ao final. A "saída" que Tolkien criou para o fechamento é sutil e nos deixa com a sensação gostosa de surpresa. É difícil não fechar o livro e não sorrir, por conta da leveza e da harmonia encontradas nas páginas. A linguagem do autor também é algo sensível, nem infantil, nem adulta. Existe um meio-tom, que funciona bem para qualquer idade. É compreensível, mas não limita a imaginação e a aventura. 

Roverandom poderia ser somente um conto para crianças, mas vai muito além disso: ele faz um resgate primoroso e aconchegante do que é a magia dos bons momentos e das boas histórias, independentemente de quem são aqueles que as estão sentindo.  

O livro dialoga com qualquer momento real de nossas vidas e dá a entender que nossas jornadas para casa existem - mas que nunca estamos sozinhos e que momentos ruins não são para sempre. Roverandom é, com certeza, uma lição sutil para que paremos alguns minutos e façamos a reflexão de onde o nosso poder de sonhar está. 


Love, Nina :)