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Fera: você não precisa pedir permissão para existir e ser feliz

by - julho 17, 2017

Eu apoio e adoro a literatura que traz assuntos e temáticas relacionadas à comunidade LGBTQ, mas ainda não tinha lido nem um livro que trouxesse a questão da transgeneralidade. Mês passado foi o mês do #OrgulhoLGBT e, como Fera (Brie Spangler) foi lançado recentemente, decidi que iria comprá-lo. Eu tive momentos de dualidade durante a leitura: amor e ódio, mas que tornaram essa história algo bastante real. 


Título original: Beast
Autora: Brie Spangler
Editora: Seguinte
Ano: 2016 (EUA) | 2017 (BR)
Páginas: 383
★★★★ + 

O fato de Fera ser YA (young adult) já me convenceu de cara a lê-lo, além do fato de trazer personagens da comunidade T. Na verdade, apenas uma das personagens é, realmente, transgênera - e isso não fica óbvio na sinopse. O assunto é falado com naturalidade e aqui acontece algo que não vejo com facilidade nas outras literaturas (relacionadas à bissexualidade e lesbianidade): os termos aparecem com frequência, nunca são escondidos e nada fica nas entrelinhas. A transgeneridade não é acobertada por eufemismos, metáforas ou indiretas. A personagem está ali, existe na história e quem ela é nunca deixa de ser importante. 

A história é narrada por Dylan, um garoto de quinze anos, que odeia a aparência e é tipicamente o nerd da escola. A narrativa dele é permeada muito mais por abusos do que por aceitação. A mãe dele aparece como sendo a imagem da super-protetora, então, exerce um controle absurdo sobre Dylan - o que se resume, muitas vezes, na ausência de espaço e de privacidade. Ela reforça o quanto Dylan é bonito e que é ótimo que seja parecido com seu pai (que morreu de câncer). A personagem cai do telhado e o médico acredita que ele estava tentando se suicidar, então, sugere que faça terapia em grupo. É nesse grupo que Dylan conhece Jamie. 

A relação de Dylan e Jamie é, a princípio, conturbada. Isso me incomodou um pouco, porque fiquei relembrando das muitas histórias nas quais o relacionamento dos protagonistas se iniciam de modo negativo e me perguntei por que precisa ser assim. Passado isso, acontece certa amizade. É muito rápido que Dylan se vê apaixonado por ela e, novamente, isso me incomodou. 

"— Então você não está saindo com um traveco?
— Nunca mais chame a Jamie assim. Tô falando sério: essa palavra não é legal.
— Mas é isso que ela é, não? Quero dizer, ela não é uma garota de verdade — ela diz.
— Jamie se preocupa com a escola, os amigos e coisas desse tipo. Ela é tão garota quanto você.
— Sem querer ofender, mas não é, não. Porque ela tem uma parte que é de menino ainda, certo? Não cortou nada fora, cortou?
— Você fica pensando no que as pessoas têm no meio das pernas quando conhece alguém?"
p. 218
Apesar da previsibilidade da maioria dos acontecimentos e do modo como são conduzidos, a narrativa é bonita e desfaz o discurso da normalidade. Jamie não esconde que é transgênera, o que decorre muitas ações de Dylan - todas de proteção. Essas ânsias de cuidado dele, muitas vezes, são combatidas e rebatidas pela própria Jamie, o que me fez ficar bastante aliviada. Fera não pretende dizer que precisamos proteger pessoas fora do padrão cisnormativo, mas que, se haver respeito, essa proteção não é necessária. Jamie tem ciência de que, sim, o mundo é muito mais difícil para ela (especialmente em relação à violência), mas também tem ciência de que não pode parar de viver por causa disso. 

Fera é bastante americanizado, mas os diálogos se afastam da tipificação. Eles acontecem de forma bastante natural e é muito real a forma como a transgeneridade é tratada neles. Poderia dizer, inclusive, que esses diálogos têm função educativa. Tanto é que, ao final, existe um glossário - o que foi algo bem legal de terem inserido. Como tenho bagagem de conhecimento acerca do assunto, foi muito bom ver todas as palavras à vista e de maneira precisa. A narrativa não idealiza, ou romantiza o que é ser transgênero. A história de Jamie é colocada de modo muito real, o que contribui para o convencimento. 

Ao longo da leitura, tive diversos momentos de amor e ódio com as personagens. Isso porque, cada uma delas, do seu jeito, fez e disse coisas ótimas e horríveis. A atitude da mãe de Dylan, depois que descobriu que Jamie é transgênera, por exemplo, é cansativa e certeira. Provavelmente, muitos adultos acreditam que, se seu filho heterossexual se apaixonou por uma garota trans, significa que ele é gay. A mãe de Dylan vai além, porque fica obcecada em descobrir em qual espectro sexual o filho se encaixa - o que, a meu ver, é algo completamente estúpido. Muitas e muitas vezes fiquei orgulhosa por Dylan dizer que Jamie é uma garota e ponto final. O fato de não ter "partes de garota" não desvalida quem ela é.

"— Se Jamie fosse uma garota de acordo com a definição tradicional, você ainda diria que ela é confusa? Continuaria dizendo que ela é complicada? Não consigo entender. Não somos diferentes de outros adolescentes de quinze anos",  p. 297
A história pessoal de Dylan, no entanto, decepciona um pouco. Isso porque, a princípio, o leitor acredita que, por ele ser o narrador-protagonista, a temática é por causa dele. Acontece que, apesar de ele odiar o próprio físico - por ser grande demais e ter mais pelos que o comum -, sua história não passa perto de questões de gênero. Ainda assim, casa com a proposta da mensagem de aceitação. Ambas as personagens estão na história para que a autoaceitação seja exposta. Apesar de isso convergir para o óbvio, naturalizando o discurso de que a autoaceitação é facilmente sentida a partir do amor romântico, não deixa de contribuir para que várias reflexões sejam feitas. No entanto, por Jamie não ser a narradora, o livro peca em dar voz a alguém que realmente precisa dessa voz. 

As personagens - Dylan e Jamie - são previsíveis, mas acabam conquistando, porque estão dentro das "normas" do gênero YA. Para mim, foi muito mais gratificante e importante me ater à temática de gênero e de sexualidade do que às personagens. A perpetuação dos papéis de gênero também são previsíveis, uma vez que Dylan e Jamie têm características e desejos "naturais"* de seus gêneros. Jamie, na verdade, é o estereótipo absoluto do que seria uma mulher: alguém extremamente feminina, sensível e doce. Só fui perceber isso, na verdade, quando terminei o livro. 

Acredito que falar de gênero é ótimo, especialmente no Brasil, que é o pais que mais mata pessoas da comunidade T, mas a padronização ainda é muito grande. E foi isso que também notei em Fera. Ainda assim, não desvalida a importância de uma história assim, num mundo literário em que a cisnomatividade ainda é a regra. A literatura existe, também, para dizer que não estamos sozinhos. E Fera cumpre isso com sabedoria e humanidade. 

-

*naturais = pode não parecer, mas absolutamente nada do que gostamos/apreciamos é natural, porque é construído socialmente e reforçado por essa mesma sociedade. Na verdade, não existe um padrão para os espectros da sexualidade, da atração e de gênero, embora a sociedade nos faça acreditar que exista. E os papéis de gênero nada mais são do que a perpetuação dessa "naturalização" reforçada pela sociedade, que dita que o é ser mulher/feminilidade e o que é ser homem/masculinidade. Ou seja, se a naturalidade não existe, papéis de gênero igualmente não existem ;)

Love, Nina :)

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16 comentários

  1. Oi tudo bem?
    Por ser apaixonada por a bela e a fera estou com vontade de ler esse livro desde o lançamento mas nunca havia de fato parado para ler sobre, sua resenha me deixou ainda mais com vontade de fazer essa leitura.

    Beijos

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  2. Oiii Nina tudo bem?
    Menina encantada pela sua resenha, quando li outros comentários, sempre imaginei que fosse a história escancara de Dylan na obra, mas percebe-se que não é bem assim, creio que deve ser uma leitura m tanto forte e realista que muitos meninos vivem, com toda certeza adoraria ler, essa capa está um luxo.
    Beijinhos

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  3. Olá Nina, nunca li nada deste tema LGBT, e menos ainda transgênero, pois é um assunto relativamente novo, mas tua resenha me deixou bem interessada, vou anotar a dica e colocar na minha lista de leituras futuras.
    Bjos
    Vivi
    http://duaslivreiras.blogspot.com.br/

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  4. OIiii!

    Eu conhecia o livro pela capa mas nunca li nada sobre ele, fiquei feliz ao ler sua resenha! Não imaginaria esse enredo! Fiquei bem animada para ler e já deixei anotado!
    Sua resenha está ótima! Muito bem escrita e trabalhada.

    Beijinhos,

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  5. bom dia,
    Amo livros que talam sobre temas Tabus, me senti tentada a ler esse livro e ja anotei na minha lista de indicações infinitas, obrigada por me mostrar essa leitura que assim como você eu vou amar.

    Bjos
    Ps: amei sua resenha

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  6. Olá Nina!
    Estou bem curiosa pra ler essa obra. To com ele no meu Kindle e espero me apaixonar pela trama e favoritá-lo assim como você!
    Adoro os elementos que estão sendo abordados na trama, sem dúvidas me levará a altas reflexões.
    Beijos!

    Camila de Moraes

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  7. deve ser interessante a abordagem do tema nesse livro, gosto da temática LGBT e fiquei curiosa pra fazer a leitura, apesar dos momentos amor-ódio que vc falou a respeito...
    ainda há muito a ser conhecido sobre o tema, e uma leitura assim pode abrir para mais perspectivas...
    bjs...

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  8. Eu não conhecia o livro e achei a capa muito bonita. Tenho visto muitos livros sobre LGBT e acho muito bom ter essa representatividade na literatura. Gostei da premissa e da sua resenha.

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  9. Oie amore,

    Adoro essa temática, gostei de conhecer essa belezura e já anotei a dica por aqui!
    Adorei sua resenha, bem completinha!


    Beijokas!

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  10. Olá! Que interessante, ainda é tão difícil encontrar um livro que aborde questões de gênero e sexualidade, né? Infelizmente, como você destacou, ainda temos alguns personagens bem caricatos, tanto nos livros quanto em novelas, filmes, séries etc. Mas mesmo assim é importante tê-los! Achei uma dica interessante especialmente por esse motivo!
    Beijos.

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  11. Olá!

    Mesmo eu não curtindo a A Bela e a Fera, estou apaixonada por esta obra, por se tratar de um tema tão real e necessário. Livros com essa premissa estão se tornando cada vez mais comuns, ainda é pouco, é verdade, mas em comparação a outros tempos, está ficando cada vez mais comum, o que é ótimo! Adorei sua resenha!

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  12. Olá, o livro me pareceu bem interessante, nunca tinha ouvido falar sobre o livro, me deixou curiosa. A capa me chamou muita atenção.

    Beijos

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  13. Eu não vejo a hora de ler este livro. Ouvi tantos comentários positivos da obra, que já amo mesmo sem ter lido. Ainda não consegui comprá-lo, mas estou perto.

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  14. Olá!!
    Ainda não conhecia esse livro.
    E acho muito importante livros como esses que abordam assuntos que precisam ser falados.
    Sua resenha está perfeita.

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  15. Mesmo o livro tratando de um tema que merece espaço, não fiquei com vontade de ler. A previsibilidade dos acontecimentos me incomodaria muito, e o fato de algumas coisas acontecerem rápido demais também. Mas é muito bom que um livro assim exista e seja lido por bastante gente. Quem sabe assim não diminui o preconceito que é algo tão presente por aqui.

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  16. Olá!
    Eu ainda não conhecia esse livro, e adoro YA, mas confesso que esse não me deu aquela vontade de ir correndo ler. Mas achei bem interessante a obra tratar desse tema tão essencial no momento. Com certeza deve valer a pena a leitura.
    Beijos.

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