Tash e Tolstói: amizade, identidade e sonhos

Faz pouquíssimo tempo que tenho ciência da publicação de Tash e Tolstói, da Kathryn Ormsbee. O lançamento dele tem dois meses e, basicamente, não pensei pra comprar o meu exemplar.

Descobri ontem que estamos na #AsexualAwarenessWeek (uma comemoração de 22 a 28 de outubro que visibiliza pessoas dentro do espectro ace) e, para não ficar fora dessa, burlei meu cronograma do mês para postar essa resenha hoje


Título original: Tash hearts Tolstói
Autora: Kathryn Ormsbee
Editora: Seguinte
Páginas: 375
Ano: 2017
★★★★ +

Não posso dizer que esse é o primeiro livro que li e que trata da assexualidade, pois, basicamente ao mesmo tempo, estava lendo Ninguém é herói, do Eric Novello, que traz a demissexualidade, mas de forma bem menos central e intrínseca na narrativa. 

A verdade é que o "mote" de Tash e Tolstói é, realmente, a assexualidade - e isso já fica bastante óbvio na paleta de cores escolhida para compor a capa: cinza, preto, branco e roxo, cores da bandeira assexual. Mas, ainda assim, por meio dessa identidade acontece muitas outras situações. 

A protagonista é Natasha (Tash), uma garota de dezessete anos que quer seguir carreira de diretora de cinema. Se aqui no Brasil os youtubers são famosos e têm seus minutos de glória, lá nos Estados Unidos a lógica é a mesma. Tash é meio youtuber e meio produtora na internet. Tem um canal no YouTube, onde fala sobre várias coisas enquanto toma chá, mas seu maior "orgulho" online é a websérie Famílias Infelizes (que é uma adaptação de Anna Kariênina, obra do autor Liev Tolstói), da qual é roteirista e diretora. A websérie é mais uma na vasta imensidão que é a internet, até que outra produtora indica Famílias Infelizes para seus seguidores e as coisas acontecem de um modo muito fora do controle. Quando Tash percebe, Famílias Infelizes já é um grande fenômeno digital e foi indicada ao Tuba Dourada, uma espécie de Oscar das webséries de baixo orçamento.

São muitas coisas, na verdade, acontecendo ao mesmo tempo: o amor platônico que Tash sente por um youtuber com quem tem conversado virtualmente, a separação da irmã mais velha com a família por causa da faculdade, o dilema de Tash sobre a futura faculdade (e também o custo que isso será) e os atritos com o grupo de amigos. A assexualidade vai e vem no meio de todas essas cenas - Tash sabe muito bem o que sente, mas tem medo de como as pessoas ao seu redor lidarão com essa informação (ainda mais se pretende se relacionar romanticamente com elas). 

"Não importa o que aconteça no futuro, temos isto: contamos uma história que não poderíamos ter contado sem a ajuda um do outro. Ninguém mais compartilha essa parte de nossas vidas", p. 276.

São muitos os pontos positivos, como o fato de ser um YA na medida certa. Há risadas, juventude, sentimentos em excesso e uma cadência muito gostosa de ler. Eu basicamente não consegui largar o livro até terminá-lo (assim como a maioria dos YA's, consegui lê-lo em dois dias). A protagonista é uma adolescente real - não há quase infantilidade nela. Todos os personagens são bem escritos e desenvolvidos, assim como seus plots. O único ponto negativo sobre eles é que são muitos e alguns eu confundia bastante. 

Não espere personagens previsíveis: os bad-boys, as manic pixed dream girls, os alívios cômicos ou mesmo as princesinhas mimadas. Há, claro, alguns clichês, mas nada com o qual não possamos lidar. Diante de tantas novas surpresas e interações, sobrou muito pouco tempo para ficar irritada. Tash e Tolstói é, exatamente, o tipo de YA bonitinho, pra cima e reflexivo do qual gosto. 

Tash é identificada como alguém assexual heterorromântica - ou seja, ela se apaixona somente por garotos, mas não sente vontade de ir além de abraços com eles. Ainda que o assunto seja tratado de forma bastante natural - até mesmo de forma informativa -, eu identifiquei alguns problemas, como a Tash carregar isso como se fosse uma coisa tipo "sair do armário", como se precisasse contar isso pra todo mundo. Ela é extremamente preocupada em afirmar para si mesma que o que sente é natural, mas também reflete se, de algum modo, não é uma decepção, como se precisasse ser consertada. Além do mais, ela não parte do princípio de que as pessoas foram ensinadas a ser sexuais (com todo aquele papo que "sexo é vida" e sei lá mais o quê) (assim como heteronormativas), mas que elas são assim e que ela é a pessoa "anormal" dentro da sociedade. Em alguns casos, a autora dá a entender que simplesmente joga na narrativa generalizações sem maiores explicações para que a assexualidade seja mais "crível" (o que me fez ficar bem decepciona, pois eu leio bastante sobre o assunto e, bem, as coisas não são assim). 

Como eu me identifico dentro do guarda-chuva da assexualidade como alguém demissexual, eu consegui entender de forma plena muitas questões e inseguranças de Tash, mas ainda acredito que muita coisa tenha sido escrita de forma inverossímil, especialmente se analisarmos as generalizações, o que achei bem perigoso (como, por exemplo, homens serem estritamente sexuais e, por isso, se relacionar com eles sempre será um problema). O que Tash passa é que ela precisa se defender o tempo inteiro, ora reafirmando a existência de sua identidade (o que é algo bem triste), ora sendo generalista (o que não é algo justo). 

"Não entendo. Como a atração sexual pode ser julgada com tanta facilidade? (...) A maioria das pessoas é assim: avalia o potencial de procriação à primeira vista. Parece tão animalesco, tão superficial. Mas também parece... essencial. Uma parte básica do ser humano. O que leva a uma questão inevitável: uma parte essencial de mim está faltando?", p. 210.

Apesar de existir um glossário explicativo (com palavras como queer, alossexual ou sexual, área cinza, demissexual e interesse romântico), o livro trata da assexualidade como algo inflexível. Ele não aborda, nem mesmo menciona, que a assexualidade é um guarda-chuva que abriga outras identidades (assim como a panssexualidade abriga a bissexualidade). Fiquei bastante surpresa com essa abordagem, pois a autora é, também, demissexual. É claro que não dá pra falar de todas as identidades, mas, mais uma vez, eu vi generalização sem esclarecimentos. 

Apesar de o modo como a assexualidade foi abordada, fica o saldo positivo de ela ser a protagonista de uma narrativa para jovens - pessoas que ainda estão entendendo o que sentem, quem são e que precisam entender se há um lugar para elas no mundo. Então, Tash e Tolstói traz informações e uma representatividade que poucos têm conhecimento. É comum terceiros acreditarem que a assexualidade não existe, e vê-la existindo de forma natural em um livro é simplesmente incrível. A obra pode não fazer um ótimo trabalho cem por cento do tempo, mas tornar acessível algo que ainda é tido como invenção internética (às vezes, encarado como doença) me dá uma alegria e uma gratidão sem tamanho.


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Links legais:

> Melhor que sexo (Uol Tab)
> [Série Visibilizar] Demissexualidade (Revista Capitolina)
> Oi, tudo bem? Sou demissexual (Medium, por Lidia Mendola)
> Kathryn Ormsbee fala sobre assexualidade, internet e Anna Karienina (Valkirias)
Sobre ser diferente (#AsexualAwarenessWeek) (newsletter de Bárbara Reis)

Love, Nina :)

16 comentários:

  1. Oi tudo bem?
    Achei a premissa do livro bem real afinal trata de uma youtuber sem muito mimimi mas que também tem seus medos o que realmente é bem provável de muita gente se identificar assim como eu já me identifiquei apenas lendo a sua resenha, anotei a dica!

    Beijos

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  2. O livro parece ser bom, uma vez que é YA e se tem uma caracterísca de todos os que leio é muito fluído, leve e divertido.
    Este em particular achei meio confuso por conta das manic pixed e afins. Sou meio por fora deste mundo moderno da literatura, mas é uma boa dica para eu
    deixar a minha zona de conforto e evoluír na literátura e o glossário para mim seria indispensavél.

    Feliz Halloween
    https://cabinedeleitura0.blogspot.com.br/

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  3. Olá!
    Gostei bastante de conhecer essa história. Traz uma gama de elementos e certamente envolve o leitor na narrativa. Só o fato de ser YA me anima pra leitura. Gosto muito de ver como o autor mescla tudo dessa idade ja que ps sentimentos são bem aflorados.
    Vou anotar essa dica e espero ler em breve.
    Beijos!

    Camila de Moraes

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  4. Oi,
    Então posso estar dando balão,mas nem sabia que existia esse esquema de assexualidade em humanos lembro disso somente da aula de biologia ao se tratar de plantas,mas enfim. Então por isso mesmo sobre todos os pontos que você ressaltou acho que para mim não ia fazer diferença pois estou realmente por fora desse mundo. Não sei se leria mas com certeza é algo bem diferente do que estou acostumada.
    Beijos
    Raquel Machado
    Leitura Kriativa
    https://leiturakriativa.blogspot.com.br

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    1. Oi, Raquel. Então, você está confundindo. Ser assexuado (não possuir órgãos sexuais) é totalmente diferente da reprodução assexuada (que é o exemplo que você citou, que consiste em se reproduzir sem a troca de material genético), que é totalmente diferente de ser assexual (pessoa que não sente ou sente pouca atração sexual e/ou vontade de fazer sexo).
      :)

      Beijos.

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  5. oii tudo bem ?
    ainda não conhecia o livro achei a premissa bem interessante , irei anotar a dica e quem sabe o livro entra pra minha próxima leitura fiquei bem curiosa ;)

    bjss

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  6. Olá, tudo bem? Tinha visto este livro já, mas não sabia muito sobre ele. Adorei tua resenha, a premissa me chamou bastante a atenção, com certeza irei ler.

    Beijos,
    https://duaslivreiras.blogspot.com.br/

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  7. Eu ainda não li nada do gênero, até por isso este livro me chamou atenção quando foi lançado. Pouco ouço falar sobre assexualidade, e a leitura deste livro será uma boa para mim.
    Bjs, Rose

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  8. Oi, Nina. Eu tinha visto esse livro nos lançamentos da editora e fiquei curiosa na mesma hora. Eu adorei conhecer um pouco mais sobre ele aqui na tua resenha e a sua opinião contou muito para eu me interessar ainda mais pela leitura. Amei a sua dica.

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  9. Quero muito ler esse livro, mesmo com as ressalvas que você fez, pois acredito que é muito raro um livro tratar a assexualidade de forma direta. Fiquei interessada em ver como isso acontece nessa leitura.
    Beijos
    Mari
    Pequenos Retalhos

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  10. Oi Nina, não conhecia o livro e achei bem interessante o tema central do mesmo, ainda não li nenhuma obra sobre assexualidade, a sua resenha dá uma noção bem ampla do trata a obra e as ressalvas feitas tb são importantes.

    Bjo
    Tânia Bueno

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  11. Oi Nina,
    Ainda não li esse livro, mas estou com ele em casa para ler, pois acho a capa maravilhosa e a premissa também. Fiquei muito contente por ser um livro tão repleto de coisas maravilhosas como você disse, mas, o que mais chamou minha atenção foi que os personagens não são previsíveis. Como amei saber isso!
    Beijos,
    http://www.umoceanodehistorias.com/

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  12. Olá,

    Conheço muito pouco sobre o assunto, e confesso que o que me atraiu a esse livro foi a capa, eu nem mesmo sabia que as cores tinha alguma relação com a história. Enfim, fiquei ainda mais curiosa para ler esse livro e saber o que acharei dessa história. A premissa do livro é muito bacana e sua opinião me deixou super animada, já quero ler esse livro para ontem.

    Beijos,
    oculoselivrosblog.blogspot.com.br/

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  13. Olá!
    Não conhecia ainda o livro, mas fiquei bem curiosa porque acredito que nunca li nada que trata de assexualidade. Eu amei a sua resenha e todas as suas considerações e a parte das cores realmente me chamou muito a atenção. Vou deixar essa dica anotada!
    Beijos.

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  14. Ola esse tipo de livro não chama a minha atenção eu passo essa dica

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Olá, obrigada pelo comentário, mas, para evitar passar vergonha na internet, por favor, não seja machista, LGBTQAfóbico(a), ou racista. O mundo agradece :)

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Editado por Alice Gonçalves . Tecnologia do Blogger.