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Tartarugas até lá embaixo: quando o medo se torna um intruso constante

by - novembro 30, 2017

Eu comprei Tartarugas até lá embaixo, do John Green, na pré-venda não porque é o novo livro do autor, ou porque amei a sinopse. Eu não li a sinopse até cinco minutos antes de começar a lê-lo, na verdade. Comprei Tartarugas porque a obra aborda a saúde mental (e um transtorno muito pouco trabalhado em narrativas). Sei muito pouco sobre TOC, mas sei muito sobre ansiedade, que existe bastante também no livro. 


Título original: Turtles all the way down
Autor: John Green
Editora: Intrínseca
Páginas: 266
Ano: 2017
★★★★★


Acho que o John Green dispensa quaisquer apresentações sobre sua literatura, que se tornou um fenômeno. A verdade é que os livros dele, ainda que sobre a adolescência, não chegam perto de clichês abomináveis. É claro que as narrativas têm estereótipos, alguns plots óbvios e personagens que tendem à extraordinariedade, mas, ainda assim, é fácil acreditar nas histórias. É fácil perceber, também, que é com muito pouco esforço que essas histórias se relacionam com o leitor. 

Eu não sabia muito bem o que ia encontrar em Tartarugas, o que sabia era que eu queria muito conhecer a Aza e seu transtorno. Fica óbvio constatar que o livro é como uma catarse para o autor, algo que ele criou para não somente se colocar como uma pessoa real para mundo, mas para oferecer um apoio àqueles que convivem com transtornos psicológicos. 

Aza Holmes convive com o TOC desde criança e é algo que, mesmo com acompanhamento psiquiátrico, não sabe controlar. A personagem, desde o início, se mostra muito para dentro, vivendo em sua própria cabeça e analisando perigos em padrões. O padrão de TOC é extenso, apesar de muita gente acreditar que ele se revela de um único modo. Aza é obcecada por germes, mas não somente os que estão no mundo; ela pensa incansavelmente nos germes, nas bactérias e nas doenças que seu corpo pode estar abrigando. 

"Você não quer fazer aquilo, é só um intruso. Todo mundo tem pensamentos assim, mas você não consegue fazê-los parar. Tendo já passado por uma boa dose de terapia cognitivo-comportamental, você diz a si mesma: Eu não sou meus pensamentos, embora no fundo não saiba exatamente o que é", p. 50

Os pensamentos intrusivos de Aza são constantes, repetitivos e, para quem não entende a mente de um ansioso, podem parecem muito exagerados. São justamente nas cenas em que a garota descreve suas crises, seus pensamentos e suas reações perante a coisas banais (como um beijo) que Aza deixa de ser uma personagem fictícia e se torna uma personagem do mundo real, alguém que poderia ser, facilmente, eu. 

Como alguém que convive com a ansiedade, eu me vi muito na Aza: me vi aflita, triste e sem saída. Na época em que eu não sabia o que estava acontecendo com a minha mente e na qual tinha ataques de pânico repetidos ao sair de casa, eu fui a Aza de inúmeras maneiras, desde o modo de estar rodeada de pessoas e não saber o que elas falavam, até o medo desenfreado de deixar alguém legal entrar na minha vida (e acabar destruindo a vida dessa pessoa também, por causa da minha ansiedade). 

"E se a gente não pode escolher o que faz nem o que pensa, então talvez a gente não seja real, entende? Talvez eu seja uma mentira que estou sussurrando para mim mesma e nada mais", p. 102

É muito triste, ao longo da narrativa, perceber como o TOC de Aza acaba afetando tudo ao seu redor: a relação com a mãe, o envolvimento com um antigo amigo de infância e a amizade com a melhor amiga. Mas, ao mesmo tempo, o livro oferece muita informação, tanto para pessoas leigas quanto para pessoas que também sentem o aprisionamento da personagem. O fato de haver uma terapeuta, uma personagem que é constante - não somente aquele fantasma que aparece quando convém -, é muito bom. É a partir da relação médica-paciente que, aos poucos, a esperança vem. Mas também são nessas cenas que a realidade vem: apesar de Aza tomar medicamentos, ela é resistente à ideia e, muitas vezes, acaba não cumprindo com o tratamento. Outro ponto positivo em Aza é que ela não esconde pensamentos pesados, ela se acha louca e acredita que não é uma boa pessoa às outras, devido ao transtorno. Ainda assim, Aza não se vitimiza. Apesar de querer compreensão, ela entende que é difícil para os outros (sendo que é muito difícil para si também). 

Como eu disse no começo, o livro não foge de alguns clichês. A melhor amiga de Aza, Daisy, é um pouco estereotipada (ao estilo garota-americana), mas a vantagem é que ela tem um papel importante na história. Apesar de o tempo todo soar desinteressada ao TOC de Aza, Daisy também protagoniza cenas essenciais para entender o lado quem vive com pessoas que têm transtornos psicológicos. Para Daisy, é difícil ser melhor amiga de alguém que não presta atenção total à sua vida, que não se interessa por coisas ditas "normais" e que tem muitos limites que não podem ser totalmente controlados [bom lembrar que transtornos psicológicos não são algo que você pode ligar e desligar, eles nunca somem completamente]. 

"Sempre me senti incapaz de pensar direito, de concluir os pensamentos, porque eles me vinham à cabeça não em linhas retas, mas num emaranhado de nós enroscados uns nos outros, em areia movediça, sendo engolidos por buracos negros", p. 109

Além de Daisy, existe o plot dromântico, que é bastante óbvio - mas o desfecho dele me deixou bem satisfeita. A relação de Aza com Davis, alguém que ela conhece desde criança, é bonita, mas não sugere muita coisa além de questões filosóficas. Davis está passando por um momento difícil e, por algum tempo, Aza é um pilar importante para o garoto - até ela se dar conta que, infelizmente, o TOC é um inimigo que nem ela nem Davis vão conseguir conciliar. 

Se você leu a sinopse e ficou interessado(a) no plot policial, ele se faz bem menor durante a leitura. Apesar de ser o fio que liga a protagonista a muitas outras questões, o desdobramento dele em si vai desaparecendo lenta e gradualmente na narrativa. Ainda assim, fiquei pensando que isso pode ser um reflexo da própria mente de Aza: por ter que lidar com os pensamentos intrusivos e os padrões de TOC, ela pouco consegue focar no presente. 

Tartarugas até lá embaixo fala sobre uma realidade ainda pouco entendida, mas muito dolorosa. A maestria de John Green vai além do fato de dialogar com os jovens: o autor tenta encontrar e oferecer esperança a partir de uma personagem que é tão real quanto os sentimentos negativos com os quais lidamos todos os dias. A obra, felizmente, não estigmatiza, não tenta dar lição de moral e não pretende ser um apanhado de dicas para ser alguém emocionalmente estável. Tartarugas entende sobre o que está falando e com quem está falando. Trabalhar a saúde mental, muitas vezes, acontece de forma irresponsável, desinformada e despreparada, mas o John Green soube equilibrar os dois lados: aqueles que têm a mente incompreendida e aqueles que não sabem ou não entendem pessoas neuroatípicas. Senti imensa gratidão por ter a oportunidade de ler esta obra, com certeza. 

"Eu não conseguia me fazer feliz, mas conseguia fazer as pessoas ao meu redor infelizes", p. 150

///

Links legais:

> O que é TOC, o transtorno obsessivo compulsivo? (Revista Galileu)
> Animação: TOC - Transtorno Obsessivo Compulsivo (YouTube)
> What OCD Is Like (for Me) (YouTube - vídeo pessoal do John Green falando sobre seu TOC)


Love, Nina :)

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10 comentários

  1. Nossa! Eu não sei nem o que dizer depois de ler essa resenha!
    Como a maioria das pessoas, eu conheci John Green com A Culpa é das Estrelas, e me apaixonei por esse livro. Em seguida, li vários outros, mas não gostei tanto (confesso que detestei Cidades de Papel, mas curti Quem é Você, Alasca?). De qualquer forma, após ler alguns livros, acabei me afastando dos livros dele e não procurei saber muito desse. Até agora. Ainda bem que li essa resenha, pois tenho esperança de gostar de um livro dele novamente.
    Esse é um assunto que é muito pouco bem tratado em livros e saber que tem um e com uma linguagem que costuma ser tão jovem, me alegra demais, ainda mais por ser real como diz.
    A dica está mais do que anotada! <3

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  2. Nina, como sempre você trazendo mais uma ótima dica de leitura. Eu ainda não sabia praticamente nada sobre o livro, mas adorei conhecer a obra de verdade através da tua resenha. Eu não estava interessada na leitura, mas agora fiquei curiosa, parece ser um livro muito bom.

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  3. Oii! Eu amo a escrita do John Green e a genialidade que ele tem de pegar temas bem interessantes e criar uma história envolvente, emocionante e ao mesmo tempo reflexiva. E com certeza essa história não parece ser diferente. A sua resenha está incrível e muito completa, espero conferir essa obra um dia. Bjss!

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  4. Oiee
    Uau, que resenha maravilhosa! Só de saber que o livro possui temas como TOC e ansiedade, já fico com vontade de ler. Amo a escrita do John, realmente os livros dele se tornaram um fenômeno e acredito que isso se deu a imensa dedicação que ele tem com as obras dele. Esse livro já tá na minha lista e preciso ler ugenteeeeeemente. Adorei o post, arrasou!
    Bjos, Bia! 💋

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  5. Olaaaaaaaa
    Não sou fã do John Green, pra falar a verdade não gosto dos livros dele, mas me indicaram esse livro pois tenho uma filha de 12 anos, autista e com toque de repetição, mas não sabia direito do que o livro abordava, apos ler sua resenha, vou sim dar uma chance ao livro e o autor, Bjus

    Jis rocha
    Blog Cá Entre Nós

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  6. Oiii!

    Eu não li essa obra ainda, mas a divulgação para obra está bem pesada! Eu acho muito legal que o autor trate de algo tão pessoal e tão sério, esses livros são motivadores.

    Beijinhos,

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  7. O green, sempre procura trazer livros com alguma doença ou algo pesado para nós leitores e isso o admiro, gostei muito de saber a sua opinião Nina e definitivamente eu preciso ler esse livro.
    Beijinhos

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  8. "Aza é obcecada por germes, mas não somente os que estão no mundo; ela pensa incansavelmente nos germes, nas bactérias e nas doenças que seu corpo pode estar abrigando." OMG! Há alguns anos eu era exatamente assim!!! E deixei de viver tanta coisa por causa disso :( .
    Muito boa sua análise do livro e da personagem, o John Green trouxe uma temática muito bacana em Tartarugas até lá embaixo.

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  9. Olá,

    Eu sou muito fã do John, estou doida para ler esse livro, ainda mais que tenho acompanhando alguns comentários sobre e até agora não li nenhum negativo. Assim como você, também sei muito pouco sobre TOC e adoro livros que trabalham doenças mentais. Estou bem animada para fazer essa leitura, espero que ainda esse ano.

    Beijos,
    oculoselivrosblog.blogspot.com.br/

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  10. Oi Nina,
    esse autor dividi opiniões, já li muitos comentários sobre a sua escrita, nem todos gostam de seus livros, por isso até hoje nunca li nada dele. Apesar disso, o tema realmente é pouco explorado e confesso que não entendo muito sobre o assunto que deve ser muito doloroso e frustante para a pessoa que tem TOC. Parabéns pela resenha.
    bjs.
    Pri.
    http://nastuaspaginas.blogspot.com.br/

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