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A cor púrpura: opressões e violências nem tão invisíveis

by - fevereiro 13, 2018

Faz muito tempo que estava protelando a leitura de A cor púrpura, da Alice Walker, mas aproveitei que a escolha do Leia Mulheres de janeiro da minha cidade foi justamente esse livro para conhecer essa obra. Posso adiantar que foi uma leitura bem difícil, mas sensacional e muito reflexiva.


Título original: The color purple
Autora: Alice Walker
Editora: José Olympio
Páginas:
Ano: 1982 (original) | 2009 (BR)
★★★★★ +

O livro é todo narrado em cartas, primeiro para Deus e, depois, para uma das irmãs da protagonista. Celie é a remetente dessas cartas, uma mulher quase analfabeta, bastante pobre e muito sofrida. Acompanhamos sua trajetória de vida durante uns quarenta anos, se iniciando quando ela entra na adolescência e explica as muitas vezes em que já foi estuprada pelo pai/padrasto. Sendo apenas mais uma dentro da família, Celie é separada de tudo que conhece quando é forçada a se casar com um viúvo violento e a criar os filhos dele. 

Os relatos pulam alguns anos, mas nada se perde em termos de conteúdo. Apesar de a história começar meio que do nada e ir se deslanchando de forma meio rápida, é perceptível o quanto muita coisa se repete na vida da narradora, especialmente a violência e a diminuição de si mesma. Como ela não conhece outra vida que não essa, na qual é quase uma escrava do lar e basicamente um objeto, de início, Celie não é capaz de questionar o que lhe fazem, inclusive chega a reproduzir discursos violentos e incentivadores à violência. A situação começa a mudar assim que Shug, a amante de Sinhô (marido de Celie) e cantora renomada, entra em sua rotina.

"Num deixa eles dominarem você, a Nettie fala. Você tem que de mostrar pra eles quem é que manda. Eles é que mandam, eu digo. Mas ela cuntinua. Você tem de brigar. Mas eu num sei como brigar. Tudo queu sei fazer é cuntinuar viva".

Shung é uma mulher experiente, muito à frente de seu tempo, por não se limitar à vida que tentam lhe impôr (especialmente por ser mulher, é claro). De início, não gosta de Celie, embora esta a admire ser sua beleza e liberdade, mas a relação delas é inevitável, uma vez que Celie está incumbida de cuidar de Shung. Essa aproximação constrói, felizmente, um enlace feminino muito importante para a história e para o destino da protagonista. É justamente na amizade entre Celie e Shung que nasce algo definitivamente bonito no enredo. Aos poucos, essa amizade acaba sendo importante para que Celie descubra sua sexualidade - se bem que, na minha visão, ela já sabia que era lésbica e não precisou de Shung para ter certeza, no entanto, é com Shung que de fato inicia um relacionamento lésbico-bissexual, ainda que secreto. Apesar de elas começarem a morar juntas, num dado momento, a circunstância não é, realmente, sobre esse desejo não-heteronormativo. Essa relação entre elas, inclusive, é essencial para entender o título da obra. 

A cor púrpura aborda não somente violência à mulher, como também o racismo e as relações de poder em diferentes comunidades. Algo interessante de notar é o plano de fundo da história, uma vez que ela se passa na primeira metade do século XX, no sul dos Estados Unidos. Então, temos menções implícitas de situações específicas da época, como atuações da Ku Klux Klan.

"Uma criança mulher nunca tá sigura numa família de homem".

A leitura desse livro é transformadora, especialmente porque não tenta encontrar um culpado para os diversos tipos de violências e opressões que acontecem. A autora não se coloca como justiceira, mas como um meio da mensagem. Por isso, é perceptível que as circunstâncias existentes são muito mais reproduções do que as personagens conhecem do que, de fato, ações propositais. 

A escrita das cartas é algo sensacional, porque os erros de gramática e de concordância verbal conseguem, com muita simplicidade e maestria, captar quem Celie é - sua posição social e sua escolaridade. É muito fácil ter compaixão por ela, mesmo que sua realidade não esteja nem próxima da minha. É uma realidade que, apesar de sabermos da existência, pouco damos visibilidade e importância. Dessa forma, A cor púrpura faz um belo trabalho em representar identidades - sociais, raciais, sexuais e de gênero - que ficam à margem da sociedade. O livro é um exercício de empatia, assim como é um aprendizado muito doloroso sobre realidades sem privilégios.

"Deus pode escutar você. Deixa ele escutar, eu falei. Se ele alguma vez escutasse uma pobre mulher negra o mundo seria um lugar bem diferente, eu posso garantir". 

Em relação à capa, preciso dizer que a achei muito mal elaborada, especialmente por não remeter ao título. Rosa pink não é púrpura, né? 

///

O livro de fevereiro para o Leia Mulheres de Porto Alegre é Fome, da Roxane Gay.
Vem ler com a gente! :) 

Love, Nina :) 

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16 comentários

  1. Oi Nina! Eu assisti ao filme faz muito tempo, quando era adolescente ainda, e lembro como a história toda me marcou. O livro está na minha lista para futuras leituras mas a sua resenha me despertou a vontade de lê-lo assim que possível :)
    Realmente a leitura deve ser um exercício de empatia, consigo imaginar as situações terríveis que ela sofreu, acho essenciais livros que nos fazem pensar uma realidade totalmente diferente da nossa.

    Obrigada pela resenha linda!
    Beijos!

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  2. Oi, Nina. Eu estou com esse livro no Kindle há alguns meses, eu comecei a leitura e precisei parar, não tive coragem para dar continuidade, mas pretendo fazer isso em algum momento. Eu gostei muito de ver a sua opinião sobre a leitura.

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  3. Oii Nina tudo bem?
    Que dica maravilhosa amada, não conhecia esse projeto de poa e para quem mora aí deve ser uma ótima pedida, quero muito ler diante dos assuntos abordados, com opressões expostas e faladas.
    Bjs

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  4. Me senti chocada só com a resenha, imagina com essa leitura. Bem dramática. Não conhecia o livro, mas mediante a estes temas abordados que você mencionou, sem dúvida é uma leitura muito válida. Dica anotada.

    Beijos.
    https://cabinedeleitura0.blogspot.com.br/

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  5. Eu não sei se conseguiria ler essa história por conta do enredo. O livro está na minha lista e acho a leitura importante. Mas sei que me sentirei mais nas cenas de abuso, sabe? =/

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  6. Oi, Nina! Já tinha ouvido falar sobre o filme, mas não do livro. Como não assisti, não fazia ideia que se tratava da descoberta da sexualidade de uma mulher, sabia apenas que se tratava de violência contra a mulher. Adorei a sua resenha, fiquei muito curiosa para ler e espero ler em breve.
    Bjos
    Lucy - Por essas páginas

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  7. Oi
    Excelente resenha. Eu já ouvi falar e sei que tem até um filme também certo? Só não tenho certeza se é adaptação dessa obra. Realmente parece ser um livro bem impactante que faz o leitor refletir sobre questões bem importantes para a sociedade.ótima dica.
    Beijos
    Raquel Machado
    Leitura Kriativa
    https://leiturakriativa.blogspot.com.br

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  8. Oi, tudo bem?
    Eu ainda não li esse livro, mas tenho muita curiosidade. Sempre que vejo alguma resenha sobre ele minha vontade de ler aumenta, pois, além de um clássico, parece ser uma leitura forte e que faz o leitor refletir. Só não li ainda porque acredito que seja muito doloroso acompanhar o sofrimento retratado. Porém, ele está na minha meta de leitura e quero criar coragem para ler.
    Adorei sua resenha e espero gostar tanto do livro quanto você. Ah e concordo plenamente com o que disse sobre a capa, que acho horrorosa.
    Beijos!

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  9. Oi Nina tudo bem?
    Já rinha ouvido falar tanto do livro como do filme, mas não me chamou a atenção por causa dessa violencia e humilhação conta a mulher, sua resenha está de parabéns, gostei muito, vou passar a dica adiante, OK! Bjs!

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  10. Oi! Já faz tempo que esse livro está na minha lista de futuras leituras e fiquei muito empolgada em ver uma resenha dele por aqui, pois não conhecia nenhuma opinião a respeito dele. Já sabia sobre o teor de violência e da mensagem que ele passa, mas saber que ele vai muito além disso, busca relatar sobre as minorias desde aquela época me deixou com mais vontade ainda de ler o quanto antes.
    Beijos!

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  11. Olá Nina!
    Achei bem interessante você ter comentado sobre a capa, porque assim que abri a postagem reparei nela. Olhando atentamente jamais imaginaria que pudesse retratar esse tipo de temas, que por sinal me agrada nas leituras. Gosto de ver o desenvolvimento desses assuntos complexos e bem dentro do cotidiano e me parece ser uma leitura de reflexão e que me agradaria conhecer mais a fundo.
    Beijos!

    Camila de Moraes

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  12. Já conhecia o livro, por capa, acho que até cheguei a ler uma ou duas resenhas, mas já não me recordava da premissa. Estou simplesmente encantada com uma resenha tão bem escrita e que me cativou a ler sem desgrudar os olhos do texto.
    Adoro quando autores usam esses erros gramaticais para descrever um personagem com essa simplicidade. Adorei a resenha e quero ler o livro, tenho certeza que vou me emocionar muito.

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  13. Boa tarde, não li o livro ainda, mas, a forma como você apresente é bem interessante, a violência não só fisica mas também mental é bem aparente, dica anotada.

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  14. Oie!
    Que resenha mais linda!! Achei interessante o fato do livro ter alguns erros de concordancia. Parece ser uma leitura incrível e necessaria ❤

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  15. Olá, tudo bem? Pensei que era a única me incomodar com a capa, mesmo ainda não tendo lido o livro hahah é um que também está tem um tempinho para ser lido, e sempre arranjo desculpas que acaba me fazendo não lê-lo. Sua resenha me deixou bem animada com o que esperar. Adorei!
    Beijos,
    diariasleituras.blogspot.com.br

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  16. Olá Nina,
    Sempre leio elogios para essa obra e tenho muita curiosidade em fazer essa leitura, mas ainda não tive oportunidade de ler ele. Gostei muito de conhecer suas impressões e constatar que a autora trabalha temas tão importantes assim. Os erros que transmitem a sinceridade e personalidade de Celie confesso que me preocuparam um pouco, entretanto, é uma série que vou arriscar sem dúvidas.
    Beijos,
    http://www.umoceanodehistorias.com/

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