Her Story: o protagonismo transexual que convence

junho 04, 2018
Eu conheci Her Story por indicação da Marcia Dantas, porque eu estava procurando narrativas especificamente sobre a comunidade T para a pesquisa de um conto que quero escrever. E não me decepcionei, pelo contrário, me apaixonei demais por tudo. 


Título: Her Story
Direção: Sydney Freeland
Ano: 2016
★★★★★ +

Her Story é uma websérie disponível no YouTube que conta, em apenas seis episódios, um recorte da vida de Violet. Ela é transsexual e, por isso, Allie acaba convidando-a para uma entrevista, pois quer ouvir cases dessa comunidade para escrever um novo livro (vida que copia a arte ou arte que copia a vida? Haha). 

Os episódios sem bem curtinhos, de oito minutos, então você termina um e já quer logo assistir o próximo. E, apesar dessa história bem compactada, existe um desenvolvimento bonito e real das personagens. Eu já achei o título sensacional, porque deixa explícito que está falando diretamente sobre a Violet, ainda que outras personagens estejam presentes o tempo todo. Achei simbólico também, já que narrativas sobre pessoas transsexuais muitas vezes não são sobre outros pontos que não a transsexualidade em si - apesar de isso, claro, permear conflitos e ser o condutor das narrativas. 

A gente pode pensar que não dá para "inovar" sobre o assunto, porque, afinal, ele tem estado muito em pauta e o lugar-comum é muito visível. Mas Her Story conseguiu com muita naturalidade e profundidade falar sobre questões bem além do usual, como por exemplo abuso de autoridade, abuso masculino, direitos humanos, amor romântico e feminismo. 

Allie é lésbica assumida e, dentro do seu grupo de amigas, que também são lésbicas, ela tenta entender o que sente por Violet. Só que isso se revela muito negativo, uma vez que existe muita transfobia ali dentro. É nesse espaço, também, que se é discutido, na ótica feminista, se mulheres trans "podem ou não" estar junto de mulheres cis. 

Pra mim, que acredito na inclusão, essas cenas me deixaram muito inconformada e triste. Eu sei que existe uma vertente do feminismo que exclui, sem culpa nenhuma, as mulheres trans, mas não é a minha vertente. Eu acredito num feminismo que entende que não existe uma única forma de ser mulher. Mas existe a ex da Allie, que acha que mulheres trans "não são mulheres de verdade" e eu a odiei com muita força, especialmente porque acaba afetando outra personagem com esse discurso.

Ficamos sabendo que Violet é "bancada" por Mark, que é um homem abusivo. Na primeira cena, ele parece alguém cativante, mas se mostra controlador depois que Allie entra em cena. Além do abuso masculino, ele também protagoniza transfobia. É uma personagem que, obviamente, foi colocada lá para contrapôr ao sentimento libertador que Violet e Allie sentem uma pela outra. É por causa de Mark que elas, inclusive, se tornam cada vez mais próximas. É muito bonito ver como Allie quer ajudar Violet. Apesar de isso ser um dos efeitos do interesse romântico que Allie nutre, não achei forçado ou desnecessário, porque serviu para colocar em evidência o machismo. Infelizmente, é difícil não falar de transfobia sem falar de machismo, então a reflexão é muito pertinente. 

As personagens são incríveis. O espectador acompanha duas mulheres diferentes, mas que são resolvidas em relação à vida, o que significa que o drama que carregam não é sobre o lugar-comum (gênero e/ou sexualidade). Por não serem adolescentes, ou jovens adultas, Violet e Allie se tornam uma realidade que dificilmente enxergamos no protagonismo midiático. A violência que Violet sofre existe, porque faz parte de sua vida, mas a websérie mostra muito mais do que isso. 

Para finalizar, preciso dizer que amei demais o gancho romântico. Sim, é previsível, mas não é aquele tipo de clichê ao qual estamos acostumados em relação à comunidade LGBT+. Elas não têm medo de assumir quem são, pelo contrário, estão muito confortáveis nessa história. Então, o espectador acompanha não a dúvida ou o medo de ambas em serem aceitas uma pela outra, mas o que o entorno de suas vidas provocam. 

Vemos, facilmente, a dualidade frágil & forte, mas não de um modo heteronormativo. Nem Allie nem Violet tentam performatizar a masculinidade. Eu adorei isso, porque é muito comum que histórias sobre pessoas LGBT+ se influenciem por essa performance (por exemplo, mulheres lésbicas não serem mostradas como femininas ou simplesmente como mulheres; mesmo quando elas rejeitam a heteronormatividade, elas ainda são "o outro"). 

O romance entre elas, aliás, suscita uma questão que aparece bem rápida na trama, mas que mostra o quanto gênero e sexualidade ainda são pouco entendidos. Numa fala, Violet pergunta a uma amiga se, por estar apaixonada por Allie, isso a faz menos trans, já que o senso-comum imagina que pessoas trans são sempre heteronormativas. Isso aparece também no grupo de amigas lésbicas de Allie, mas em forma de transfobia. 

Violet é muitíssimo carismática, uma personagem que conquista a gente já na primeira cena. Ela tem o lado mais cauteloso e frágil, devido ao contexto de sua vida, sempre jogada à margem ou rejeitada. Por causa disso, prefere se isolar nessa relação abusiva, talvez acreditando que não há um espaço real na vida de outra pessoa. Mas, ao mesmo tempo que existe essa fragilidade, ela não se envergonha do que já passou e de quem é. Já Allie é mais aberta e a sua lesbianidade não é caricata, de forma que existe uma essencialidade crua e viva nela. O fato de ela ser includente também mostra muito de sua personalidade; isso revela que ela não é alguém que desiste fácil de fazer e defender o que acha que é certo, em termos de direitos humanos. 

Falando da produção em si: ela tem muito técnica, ou seja, você não percebe um amadorismo (mesmo estético e proposital). Os quadros não são mesmo fechados, o que é ótimo, porque contextualiza mais as cenas. A sensação que dá é que você está acompanhando uma série no formato típico, porque não existe qualquer limitação além do tempo de cada episódio. A trilha sonora é boa, mas eu não senti que incrementou muito; ela foi usada de forma muito mais circunstancial do que como mais um elemento na narrativa. 

Her Story suscita o diálogo, a sensibilidade e a realidade. Essa tríade mostra como é desconhecida a vida de pessoas que pouco podem contar suas histórias como são. Não apenas coloca em evidência mulheres transsexuais, mas tenta nos fazer entender que o que conhecemos sobre elas não é tão simples e raso quanto lemos por aí, especialmente porque não são elas que estão contando suas histórias. Com muito pouco, Her Story oferece uma história que existe além do óbvio.

Eu sempre pensei que estava firmemente do lado progressivo de cada questão, mas, como muitos em nossa comunidade, pensei que minha aceitação tácita da realidade das pessoas trans era suficiente. Eu nunca questionei sua total ausência no meu mundo, agora vejo que o grande desserviço não é apenas para aqueles que excluímos, mas para nós mesmos, pois nosso mundo é menos rico sem suas histórias, seus risos, suas vozes. Não é que o mundo tenha mudado para pessoas trans, mas simplesmente que as estamos vendo, como pessoas, como nossos irmãos e irmãs, nossos pais e filhos, nossos colegas e até nossos amigos.
~

Links legais:
> Her Story Show (site oficial)
> Figurações do outro (Revista Cult)
> Transfobia é um vício branco (Blogueiras negras)

14 comentários:

  1. Oi Nina
    Já gostei da trama da série. Vou anotar pra assistir assim que possível. Eu vejo que ainda é muito confundido identidade de gênero com sexualidade e isso é triste. São discussões que precisam existir pra desmistificar tudo isso.

    Vidas em Preto e Branco

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  2. Não sou de acompanhar webséries, na verdade nunca acompanhei, tenho nem tempo para isso. Mas gostei de conferir a história dessa, achei interessante, e com tema bastante atual, espero que seja um sucesso absoluto.

    Beijos

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  3. Olá, tudo bem? Eu não conhecia essa websérie, mas achei o seu texto muito interessante e empolgante, estou tão curiosa que vou procurá-la para assistir hoje mesmo. O tema dela é muito atual e necessário principalmente, porque ainda existem pessoas homofóbicas no mundo e aos montes, espero ler o seu conto também.

    Beijos e Abraços Vivi
    Resenhas da Viviane

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  4. Olá,
    Não é um tema que eu veja muito, ainda mais em série, mas achei interessante a história. No momento estou vendo muitas séries, mas quem sabe mais pra frente.

    Debyh
    Eu Insisto

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  5. Oi.
    Tudo bom?
    Não conhecia essa web série e achei bem interessante por ser lgbt, o que quase não se vê.
    Vou procurar por ela.
    Beijos

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  6. Olá! Que interessante, eu estava falando há pouco, ainda hoje, com uma amiga que quer escrever uma história e a personagem é trans... Falei para ela procurar alguns documentários que falassem sobre. Acho que já tenho um para indicar. Adorei a forma como viu a história e como ela é tratada. Acredito que deve ser emocionante.
    Abraços

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  7. Olá!
    Apesar de não acompanhar webseries, achei bem interessante sobre a abordagem do tema e ver que vai ser de ótimas referências para sua criação. Não entendo muito sobre esse universo dos Trans, além do pouco que já li, mas independentemente disso, acho de extrema importância ter disponíveis cada vez mais canais que possam servir de apoio para que as pessoas compreendam e aceitem as pessoas de acordo com suas condições, sem taxá-las de forma tão preconceituosa como vemos por aí.
    Beijos!

    Camila de Moraes

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  8. Que bacana Nina, eu não conhecia a série mas já vou dar uma pesquisada, a sigla T de certa maneira vem conquistando espaço aos poucos mas a transfobia segue gritando de maneira tremendamente assustadora. Espero poder conferir seu conto por aqui também!

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  9. Nina que publicação maravilhosa <3
    Não conhecia a websérie, mas já estou aqui procurando na outra aba. Sem dúvidas merece o view *_*

    Sai da Minha Lente

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  10. Oi Nina, sua linda, tudo bem?
    Seu texto está muito bem escrito. Não conheço muito sobre o tema, por isso gostei das discussões que a série levanta e a realidade que ela mostra. Com certeza está contribuindo para pessoas como eu que são leigas no assunto obter informações.
    beijinhos.
    cila.
    http://cantinhoparaleitura.blogspot.com/

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  11. naoo sabia que tiinha isso no youtube
    assuntos assim sao de estrema importancia, sem duuvia vou ver quando tiver um tempinho

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  12. Oi Nina, gostei de saber que tem mais um conto vindo por aí. Não conhecia esta minissérie, mas como é curtinha e nos passa tanta informação válida, vou olhar. Transexualidade é um tema muito atual e que ainda sofre muito preconceito, acho que toda forma de informação é válida. Parabéns pela iniciativa, espero poder ler o conto.
    Bjos
    Vivi
    http://duaslivreiras.blogspot.com/

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  13. Oi Nina!
    Nunca vi webséries, mas achei bem interessante a proposta, principalmente por ser episódios curtos, o que facilita bastante, já que não vejo séries por causa da falta de tempo.
    Sou contra qualquer tipo de preconceitos, porém sou meio leiga no assunto, então com certeza vou tentar assistir em breve, gostei bastante do teu ponto de vista sobre.
    Beijos

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  14. Olá, tudo bem? Não conhecia a websérie, mas gosto de ter mais informações sobre o assunto, e por isso com certeza dica mais que anotada. Que bom que você está fazendo uma pesquisa para um novo conto! Sucesso!
    Beijos,
    http://diariasleituras.blogspot.com.br

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Olá, obrigada pelo comentário, mas, para evitar passar vergonha na internet, por favor, não seja machista, LGBTQAfóbico(a), ou racista. O mundo agradece :)

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Editado por Alice Gonçalves . Tecnologia do Blogger.