A árvore enfim florescendo

agosto 11, 2018
Existe um papel no meu quarto, marcado a lápis, que diz: It takes an ocean not to break. 

O mar sempre foi parte de mim, para tudo. Para as coisas incríveis e para as não tão incríveis assim. Mas, ultimamente, eu tenho boiado e deixado que as ondas me levem. Eu entendo que nem sempre vou conseguir chegar a um lugar bonito. E, às vezes, começa uma tempestade tão terrível que eu penso em me afogar. Só que eu sei que boiar é tudo o que consigo fazer agora. E o oceano entende isso também e sabe que precisa ser mais gentil, da mesma forma que estou tentando ser comigo mesma. 

Eu estou boiando a um tempo já e me acostumando com a água que sobe, às vezes, nas minhas bochechas de uma forma tão afável. Às vezes, essa água leva embora as minhas lágrimas depois de um dia ruim. 

A gente fala muito sobre cura sem entender que ninguém vai se curar. Não é agora, num segundo. Não é depois, por causa de alguém que tem a paciência e o amor de descobrir o que podemos ou não oferecer.

A cura é como um caminho no meio da floresta. E a floresta, você sabe, guarda um mundo inteiro. Às vezes, mais de um mundo: aqueles que sequer podemos imaginar, ou enxergar. Não importa o quanto você limpe a floresta, vão continuar existindo partes invisíveis que provocam mudanças invisíveis. Você pode pisar nas folhas e na terra molhada, mas não vai conseguir chegar à raiz da árvore mais antiga. 

Eu nunca estive na copa de uma árvore antes, você já? Não posso imaginar como deve ser, assim como não imagino como é me afastar das mãozinhas da tristeza. Eu moro com a tristeza há muito tempo, mais tempo do que posso recapitular em sessões de terapia. Às vezes, não sei bem quem sou e quem ela é. Eu imagino que somos a mesma respiração que anda, cautelosa, por entre a floresta. Imagino que somos o cervo de olho no caçador, esperando o momento certo para ter a nossa chance de escape ao abate. Acontece que nem sempre a gente vence.

Nem sempre estamos no topo da árvore mais bonita. 

Mas, às vezes, estamos pisoteando o que quer nascer lá no chão. Isso significa que estamos matando coisas que nem sabemos que existem. Coisas que sequer tiveram a chance de olhar o céu azul. 

A cura mata algumas coisas, também. Às vezes, é de propósito. Mas, quase sempre, é porque a floresta precisa se preservar. Ela sempre sabe o que pode oferecer e, assim, sabe também o que vai aguentar. Ela entende que existe um tempo para que as coisas acabem e possam recomeçar. A raiz da árvore mais antiga sabe que leva certo tempo para a água chegar à folha mais alta. Mas, por mais demorado que seja, ela não desiste. Ela sabe que precisa aguardar. A água vai chegar. 

Algumas árvores têm o tempo certo para existirem e oferecerem o que têm. E tudo o que eram se torna parte das outras, o que quer dizer que, pra falar a verdade, elas nunca morrem. Essas árvores apenas continuam. 

Eu sei que renascer de quem você era é difícil. 

É toda uma nova vida para assimilar outros processos, outras necessidades e outros cuidados. Nem sempre a gente vai saber onde quer chegar. Nem sempre vai saber o que precisa manter e o que precisa abrir mão, por mais que ainda seja um lugar bonito. Por mais que ainda queira acreditar que é um lugar bonito. Algumas copas precisam ser desocupadas. 

Perto da minha casa, em um muro, escreveram esse titulo: A árvore enfim florescendo. Eu diria que árvores não florescem, mas reflorescem. Elas já foram gigantes e incríveis e invencíveis um dia, mas faz parte da cura também lembrar a elas que nada é para sempre. 

Muitas florestas estão morrendo, apesar de reflorescerem constantemente. Renascer nem sempre é o suficiente. Mas não significa que você deva parar. 

Eu ainda acredito que, um dia, estaremos no topo da árvore mais bonita. Só que essa árvore ainda está crescendo. Ela estará gigante e incrível e invencível quando chegar a hora. 

Você ainda não está onde pode chegar. Mas a raiz da árvore mais antiga vai te ajudar a chegar lá. 

Imagem: Brooke Shaden.

Love, Nina :)

10 comentários:

  1. Oi Nina,
    Que texto mais forte. Eu penso muito em cura e felicidade, mas cheguei à conclusão que não há nada a ser curado e que a felicidade nada mais é do que momentos bons que guardamos em nosso coração e memória. O importante, a meu ver, não é chegar no topo da árvore é enfrentar todos os desafios e jamais desistir de subir.
    Amei seu texto, sua forma poética de escrever e sinceridade.
    Beijos ♥

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  2. Olá, tudo bem? Uau, que texto mais impactante e inspirador. Adorei tudo o que tu escreveu e me senti até melhor depois de ler. Que todos nós possamos chegar, um dia, ao topo da árvore mais bonita!

    Beijos,
    Duas Livreiras

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  3. Oi Nina
    Como sempre seus textos nos fazem repensar em muitas coisas, sempre uso a natureza para me inspirar e me recuperar, sim, vou a um lugar aqui perto, onde é quieto , um lugar inspirador, com muitas arvores e vejo sempre que, até aquela que caiu, que morreu, deixou algo de bom: deu chance de vida a outras, e amo esse ciclo.
    Espero que todos possamos subir ao topo mais lindo da nossa arvore, no momento certo, e apreciar a vista que ela nos oferecer.
    Bjus

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  4. Nossa, fiquei um tempo refletindo sobre o que eu li antes de, finalmente, vir comentar! Você sempre escreve com muita intensidade e seus textos vão de encontro aos nossos corações. Cada vez que visito o seu blog eu encontro uma mensagem forte como essa. O texto está sensacional.

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  5. Que lindo e marcante esse texto. Somos seres em constante transformação, a vida é um eterno recomeço. Precisamos de muita paciência, fé e determinação para alcançar todo o nosso potencial.

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  6. Que textão!
    Forte, bonito, reflexivo e tocante.
    Que possamos alcançar o topo da arvore mais bonita, a da felicidade.

    Beijos

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  7. Olá!
    Que bela reflexão! Você escreve e desenvolve suas ideias muito bem. Parabéns
    Abraços

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  8. Oi Nina, como vai? Gosto de visitar o seu blog porque constantemente você traz algumas reflexões interessante e bem desenvolvidas, fico hora e horas pensando nos seus textos após a leitura dele..rs! Parabéns pelo talento, amei conhecer a sua opinião.

    Beijos e Abraços Vivi
    Resenhas da Viviane

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  9. O trecho que mais me tocou foi "Mas, às vezes, estamos pisoteando o que quer nascer lá no chão. Isso significa que estamos matando coisas que nem sabemos que existem. Coisas que sequer tiveram a chance de olhar o céu azul.". Me fez pensar como as vezes matamos sonhos e esperanças dentro de nós, ao invés de deixar que floresçam.

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  10. Ola Nina

    Acredito que eu acompanho o seu blog desde o inicio e sempre fui muito apaixonada e admiradora dos seus textos. Ler esse texto hoje só me fez lembrar o quanto admiro o seu trabalho.

    Lindo! Inspirador e completamente reflexivo.

    Beijos

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