Atypical: a diferença te incomoda?

Atypical estreou na Netflix em agosto do ano passado. Apesar de eu não ter trazido a resenha da primeira temporada em 2017, aproveitei que acabei de assistir a segunda para falar dos avanços dos personagens centrais, assim como da trama. 


Título: Atypical
Roteiro: Robia Rashid
Direção: Seth Gordon
Ano: 2017 - presente
Temporadas: 2 (até o presente)
★★★★★ +

Se você não conhece o seriado, Atypical fala sobre um adolescente autista e como seu diagnóstico dá forma à dinâmica inter-relacional de sua família. Na primeira temporada, acompanhamos Sam tentando entender uma série de questões adolescentes, como o primeiro amor, relacionamentos e vida cotidiana. Desde o início, existem padrões que vêm com o personagem e que influenciam no rumo das circunstâncias, inclusive. 

O mais maravilhoso do seriado e do protagonista é que, a cada episódio, o espectador não tem como saber o que esperar muito bem, justamente por causa dos comportamentos atípicos que se manifestam. Algo que veio com mais força nessa segunda temporada foi o reforço de mostrar que, apesar de o autismo ter muitas características que ocorrem de forma homogênea nas pessoas do espectro, os comportamentos variam muito de autista para autista. 

É comum, por exemplo, que o autismo seja associado a pessoas com um QI elevado para contas matemáticas e outras áreas da exatas, mas com Sam é totalmente diferente. Ele é alguém completamente imerso no mundo das biológicas. Os pinguins e a Antártida são o mote para muitas explicações em off do personagem nos episódios e é incrível como essas informações casam perfeitamente com as questões abordadas durante a história. 

Nessa segunda temporada, esse senso-comum (de que autistas apenas são ótimos em áreas exatas) é desfeito mais ainda, pois Sam está terminando o colégio e precisa escolher uma faculdade, mas não sabe que curso fazer. A resposta é tão oposta ao clichê, mas tão óbvia (aquela obviedade que o espectador se pergunta como não pensou nisso antes hehe) que acaba surpreendendo pela simplicidade. 

Nesses novos episódios temos, também, atores autistas reais que contracenam em situações específicas, o que confere ao seriado um pouco mais de verdade, naturalidade e representatividade. É muito legal perceber como cada ator/atriz manifesta seu autismo, porque fica evidente que nenhum autista é igual a outro. Dá para conferir isso nesse vídeo, que fala sobre o grupo de apoio do qual Sam começa a fazer parte. 

A dinâmica familiar continua a ser trabalhada, agora com mais independência. Como Sam está se preparando, por decisão própria, para enfrentar a faculdade longe do apoio familiar, vemos o personagem se encorajar a fazer coisas que tem medo, ou que pode surtir crises, como dormir fora de casa. Em contraponto, temos mais cuidado enquanto mágoas são reveladas. O senso de proteção que a irmã mais nova dele, a Casey, tem é algo que traz certa paz. O espectador entende que são irmãos e que têm suas desavenças e suas implicâncias, mas que existe uma cumplicidade empática entre eles (apesar de Sam não demonstrar tanta sensibilidade devido ao autismo). 

Sam Gardner

O desenvolvimento que deram ao Sam só fica cada vez mais lindo. A "imprudência" dele continua, mas de forma mais moderada. Ao longo dos episódios, ele se vê mais independente, apto a fazer suas próprias escolhas, como fazer faculdade em outra cidade. Existe uma linha adolescente em comum na história do Sam que passa pela pergunta mais importante dessa fase: o que quero fazer depois do ensino médio? Ele tem que aprender a passar por certas situações sozinho e a sair de suas crises também sozinho, ou com o apoio de outras pessoas que não seus pais. 

Os pensamentos obsessivos que o acompanharam na primeira temporada, como a descoberta do amor, diminuem nesta. A relação dele com Paige (a ex-namorada) é mais afetiva, mas também distante, dependendo do momento. Nesse quesito, Sam se deixa envolver por outra garota, mas sem expressar emoções (que é algo que os autistas têm dificuldade). 

A história de Sam se afasta das relações inter-relacionais e se foca na relação introspectiva. Isso é um ponto positivo enorme, pois o espectador tem a oportunidade de entender melhor o personagem para muito além de seu autismo. Eu diria que o "humanizaram" de uma forma leve, sem que sua condição desaparecesse. Se, antes, ela servia de baliza para explicar muitas de suas manias e percepções diferentes do mundo, agora, se torna apenas um de seus muitos aspectos que o torna alguém único. 


Casey Gardney

Agora, Casey se prepara para mudar de escola, porque ganhou uma bolsa em uma escola privada, devido à corrida. Ela inicia essa jornada com muita raiva da mudança e da mãe. O plot dela se decorre, em maior parte, de forma óbvia. Aquele típico clichê adolescente americano: garota nova que é odiada pelas colegas, mas que chama a atenção do namorado de uma delas. 

Confesso que no meio disso, eu me senti bem decepcionada, porque realmente acreditei que a roteirista ia ferrar o plot da personagem, mas aí começaram uns indícios bem diferentes que me deixaram feliz, mas também receosa. 

Isso porque a namorada desse garoto que é conquistado por Casey é sua colega no time de esportes e, de início, existe um atrito entre elas - aquela coisa idiota de rivalidade adolescente feminina. Felizmente, isso começa a ser resolvido num dado momento, aí veio o meu pé atrás, porque a relação delas se estreitou muito depois disso, num nível que me fez pensar que estava acontecendo queerbaiting entre elas. 

Pessoalmente, eu acredito que a Casey está ganhando o plot que sempre imaginei para ela. Por um lado, eu estou muito feliz por causa da representatividade bissexual, mas por outro estou triste por causa do Evan, o namorado dela. Eu realmente aprendi a gostar dele e a perceber que ele é um cara bem legal. Só espero que a terceira temporada continue não decepcionando. 


Elza Gardner 

Elza está tentando ganhar a confiança de Doug novamente. Ela tenta várias táticas, pois fica óbvio que quer voltar à casa e esquecer seu erro mais pelo marido do que pelos filhos. É claro que ela usa Sam e Casey como seu maior motivo. Elza precisa lidar com a falta que sente da família e também com a culpa.

Durante a temporada, tenta reparar a relação com Casey. Ainda que, a princípio, Casey não aceite reaprender a conviver com a mãe, Elza se esforça para fazer com que a filha veja que ela ainda se importa. Os episódios mostram não somente uma mãe ou uma esposa, mas uma mulher que tenta reatar várias relações ao mesmo tempo, inclusive a de amor-próprio. E isso, apesar de tudo, é muito bonito e bem reconfortante, pois mostra um trabalho delicado de ressignificação do amor, da confiança e do afeto.


Doug Gardner

Doug precisa também lidar com o que restou de seu casamento. Na temporada, podemos ver um pai mais presente, mais autossuficiente e menos relapso com o autismo de Sam. Se, antes, quem tomava as decisões era Elza, agora, Doug precisa aprender a se posicionar.

Não vemos um homem machista aqui (amém!), mas ferido num sentido mais humano, por isso, sua saúde começa a se deteriorar. Apesar de isso servir de pretexto para que Elza volte para casa, é bonito ver a fragilidade dele, mesmo que se recuse a expressá-la de forma plena. Acredito que a força emocional foi bastante trabalhada de forma, também, a auxiliar num tom mais introspectivo da narrativa familiar.

~

Na segunda temporada de Atypical, vê-se uma interdependência menos necessária, pois cada personagem precisa lidar com as próprias questões. Acredito que isso tornou a história muito mais humanizada e essencial. A dinâmica familiar é reaprendida e realinhada várias vezes, trazendo temas oportunos.

Os episódios são bem rápidos, cerca de 30 minutos, e é fácil terminá-los num piscar de olhos. Não existe como se entediar, porque cada detalhe favorece. Ainda que certos clichês aconteçam, a trama sempre acaba por nos surpreender. A sensibilidade é um dos pontos altos de Atypical, demonstrando as emoções envolvidas e desenvolvidas nas personalidades dos personagens.

Recomendo esse seriado para todos, seja você alguém que conhece o autismo, seja você alguém que não se interessa pelo tema central.


Talvez, se seus filhos tivessem brincado com crianças diferentes, Arlo não teria se tornado um babaca insensível. 


Links legais
★ Associação Brasileira de Autismo (ABRA)
★ Autismo: veja como identificar seus primeiros sinais (Abril Saúde)

Love, Nina :)

6 comentários:

  1. Oi, Nina. Tudo bem?
    Eu já conhecia a série, mas até hoje eu ainda não havia me interessado nela, mas confesso que lendo o seu post eu fiquei aqui me perguntando por qual motivo eu já não tinha adicionado à minha lista! Claro que acabei de abrir a Netflix e fazer isso. Gostei muito de ver que a série aborda com profundidade temas tão complexos e (ao que me parece) faz isso de uma maneira muito boa e sem esteriotipar os personagens.

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  2. Tudo bem?! Já conheço a série e gostei bastante. Desde que estreou ela ficou na minha lista e quando assisti não me arrependi. Indiquei para meu filho assiste também. Os temas explorados são de suma importância e como sou da área da saúde, me interesso muito por temas ai é Trazem essas discussões, reflexões, vivências.
    Beijos.

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  3. Comecei a assistir a primeira temporada assim que houve o lançamento na netflix, pois sou estudante de graduação em Psicologia e me interesso bastante pelo tema, porém os pensamentos obsessivos que o personagem principal tinha em relação ao amor me incomodou um pouco. O que me fez da uma pausa e não continuei assistindo, mas pretendo dar continuidade, principalmente por saber que há outras temáticas abordadas nesta segunda temporada, a trama deu uma amadurecida demonstrando uma certa realidade em relação as pessoas que possui autismo, e mais ainda quebra com alguns estigmas e pre conceitos senso comum que as pessoas possuem.

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  4. Olá,
    Eu vi a primeira temporada inteira, mas não sei achei satisfatório o final e não fiquei tão curiosa pela continuação. Gosto de como o tema abordado, e já vi outras séries e filmes do mesmo tema, não foi uma novidade tão grande assim pra mim. Quem sabe mais pra frente não me dê vontade de ver esta segunda temporada.

    Debyh
    Eu Insisto

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  5. Eu adoro essa série. Ainda não consegui finalizar a segunda temporada. Mas só sei que fiz minha mãe embarcar no mundo da netflix através dela.
    Acho o personagem maravilhoso e a família dela bem real rs

    Sai da Minha Lente

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  6. Oi, Nina! Eu coloquei essa série na minha lista da netflix, mas ainda não assisti a primeira temporada inteira. Eu gostei bastante, mas ainda não me cativou a ponto de maratonar. Adorei a sua análise da série, vou recomeçar a assistir com outros olhos.
    bjs
    Lucy - Por essas páginas

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