As boas mulheres da China: a violência que destruiu gerações

novembro 06, 2018

Contextualizar a mulher é difícil. Por mais que falemos em “mulher moderna” ou “mulher contemporânea”, essa mulher ainda não nos diz tudo. Quando li O segundo sexo, entendi melhor o porquê a Simone Beauvoir diz que não existe “mulher”, mas “mulheres”. Não existe uma fórmula para ser fêmea, e isso inclui não somente conceitos físicos e emocionais, mas também a historicidade: onde essa mulher está inserida? 

Qual seu passado? Quando assisti Nanette, também aprendi mais sobre o que é mulher. A Hannah diz que o passado importa. Destruindo a mulher, destrói-se o passado que ela representa. A Marcia Tiburi, inclusive, me apresentou um viés de mulheridade que eu nunca tinha pensado antes. Muito mais do que se tornar mulher, todas nós somos marcadas como mulheres. O rosa, os brincos nas orelhas, os estupros. Tudo isso nos marca. Ainda assim, não consegue definir quem somos e por que somos mulheres. Mulher foi algo que nos disseram que éramos.

Escrevo essa intro, porque ela define bem a leitura de As boas mulheres da China. Não são apenas mulheres da China, são mulheres na China. Mulheres que não tiveram outra chance de ser outra coisa que não isso.

É a jornalista Xinram que conta as histórias de vida de mulheres que conheceu. Ela é apresentadora de uma rádio, na qual tem a oportunidade de falar de mulher para mulher. Pela situação da narradora ser boa, melhor do que a maioria, ela percebe que pode ser uma porta-voz das desumanidades, humilhações e violações que ocorrem com outras iguais. O “mote” do livro é justamente compreender o gênero feminino além daquilo que lhe chega por meio do estúdio. 

As boas mulheres da China não consegue compreender ou resumir o objeto de estudo do livro, porque as mulheres escritas ali são recortes. Como o livro se passa entre as décadas de 80 e 90, o leitor pode acompanhar, inclusive, como as transformações sociais, políticas e econômicas do país construíram e destruíram as mulheres relatadas. 

Para muitos chineses, quando um homens espanca a esposa ou os filhos, está "pondo ordem na casa". As camponesas mais velhas, em particular, aceitam a prática. Como viveram de acordo com o ditado de que "uma esposa ressentida tem que suportar até virar sogra", acreditam que todas as mulheres devem sofrer o mesmo destino. p. 220-221

Elas não são o estereótipo do que conhecemos das chinesas hoje em dia. Elas são as chinesas reais, que sofreram e ainda sofrem abusos de diferentes pessoas, por diferentes motivos - especialmente por motivos políticos e militares. É muito triste perceber como a Revolução Cultural quebrou essas mulheres que, mesmo décadas depois, ainda têm medo dos homens, acreditam que o amor agride (por isso sentem medo ou vergonha) e que não conseguem sair do papel social da mulher que lhes foi imposto. 

De início, eu não achei a leitura triste, mas depois começou a se tornar pesada e sufocante, porque é muito ruim imaginar as cenas de violência, estupro e humilhações que são descritas. E essas cenas acontecem não somente com mulheres de trinta anos, mas com meninas de oito, onze, quatorze anos.

Na colina dos Gritos, "usar" é o termo empregado pelos homens quando querem dormir com uma mulher. Quando voltam, ao pôr do sol, e querem  "usar" as esposas, costumam gritar impacientes: "Por que é que você está molengando aí? Vem para o kang ou não?". Depois de serem "usadas", elas vão cuidas das crianças, enquanto os homens roncam. Só quando anoitece é que podem descansar, pois não há luz para trabalharem. p. 242

É muito doloroso entender que gerações inteiras de mulheres nunca aprenderem a exprimir quem são ou a se amar, simplesmente porque os homens estavam acima delas, antes de tudo, como maridos, especialmente. A hierarquia engessada do casamento parece uma cova funda para essas mulheres, e é muito triste e revoltante perceber que, apesar de muitas não aceitarem as situações, não tinham poder de bater de frente. Enquanto os homens traíam, violentavam, puniam, as mulheres dormiam em camas imundas, comiam as sobras dos maridos, eram amarradas em correntes de ferro. 

Ler As boas mulheres da China foi uma surpresa muito boa, assim como necessária. Foi incrível ler outras realidades, mas que, mesmo muito longe, dialogam com o conceito de ser mulher. Infelizmente, a gente sabe que nascer, ou se tornar, ou ser marcada como mulher ainda não significa liberdade plena e autonomia. Mas significa coragem e resistência. As boas mulheres da China, com certeza, foram e são corajosas e resistentes. Apesar de terem sido “reeducadas” pela reforma comunista, de quase terem se esquecido de quem eram por traumas e de terem passado por uma série de tratamentos machistas inescrupulosos, estão vivas e têm uma história. 

O estupro lhe deixara claríssimo que ela era mulher. p. 116

Lembro de pensar que, se houvesse outra vida, eu não queria nascer mulher. p. 210 

Love, Nina :)

2 comentários:

  1. Antes de mais nada, preciso elogiar essa resenha.
    AMO o seu jeito de analisar e criticar alguma obra. Pois desperta o interesse pela leitura e saio daqui com várias dicas anotadas.
    Eu já tinha lido uma resenha sobre esse livro, mas apesar de ter me interessado pela premissa, não tinha despertado o meu interesse.
    É uma daquelas leituras que nos faz sofrer, né? Faz com a gente se coloque no lugar das vitimas e se questionar do pq as coisas ser como são.. Um soco na cara, no estomago.
    Sem dúvidas, quero ler

    Sai da Minha Lente

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  2. Ola!!!
    Antes de falar qualquer coisa a respeito deste livro, eu quero lhe desejar os meus mais sinceros parabens por causa dessa sua resenha! Está linda, completa, realista e explicativa! Perfeita!
    Bom, não conhecia esse livro em questão e conforme seguia lendo a sua resenha fui me deparando com uma historia que eu acredito que me deixaria marcas se eu lesse e por conta disso prefiro evitar. É muito sofrimento... fiquei impressionada com as idades que disse... ceus!
    Mas, novamente, parabens pelo seu texto... vc arasou!

    beijos

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Editado por Alice Gonçalves . Tecnologia do Blogger.